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Title: Historias Sem Data

Author: Machado de Assis

Release date: July 3, 2010 [eBook #33056]
Most recently updated: January 6, 2021

Language: Portuguese

Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/33056

Credits: Produced by Pedro Saborano

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS
SEM DATA ***

Page 4

HISTORIAS SEM DATA

OBRAS DO AUTOR

MEMORIAS POSTHUMAS DE BRAZ CUBAS 1 vol.
HISTORIAS SEM DATA 1 vol.
PAPEIS AVULSOS 1 vol.
HELENA 1 vol.
YAYÁ GARCIA 1 vol.
A MÃO E A LUVA 1 vol.
RESURREIÇÃO 1 vol.
PHALENAS, poesias 1 vol.
AMERICANAS, poesias 1 vol.
CHRYSALIDAS, poesias 1 vol.
CONTOS FLUMINENSES 1 vol.
HISTORIAS DA MEIA NOITE 1 vol.
TU SÓ, TU, PURO AMOR 1 vol.
OS DEUSES DE CASACA, comedia 1 vol.
DESENCANTOS 1 vol.
THEATRO 1 vol.

Page 5

MACHADO DE ASSIS

HISTORIAS SEM DATA
A EGREJA DO DIABO—O LAPSO—ULTIMO CAPITULO
CANTIGA DE ESPONSAES—UMA SENHORA
SINGULAR OCCURRENCIA—FULANO—CAPITULO DOS CHAPÉOS
GALERIA POSTHUMA
CONTO ALEXANDRINO—PRIMAS DE SAPUCAIA
ANECDOTA PECUNIARIA—A SEGUNDA VIDA—EX-CATHEDRA
MANUSCRIPTO DE UM SACRISTÃO
AS ACADEMIAS DE SIÃO
NOITE DE ALMIRANTE—A SENHORA DO GALVÃO

RIO DE JANEIRO
B. L. GARNIER.—LIVREIRO-EDITOR
71—Rua do Ouvidor—77

1884.

Page 6

Typ. lith. a vapor, encadernação e livraria LOMBAERTS & C.

INDICE

PAGS.
ADVERTENCIA vij
A EGREJA DO DIABO 1
O LAPSO 17
ULTIMO CAPITULO 33
CANTIGA DE ESPONSAES 49
SINGULAR OCCURRENCIA 57
GALERIA POSTHUMA 71
CAPITULO DOS CHAPÉOS 87
CONTO ALEXANDRINO 113
PRIMAS DE SAPUCAIA! 131
UMA SENHORA 147
ANECDOTA PECUNIARIA 161
FULANO 181
A SEGUNDA VIDA 191
NOITE DE ALMIRANTE 205

Page 7

MANUSCRIPTO DE UM SACRISTÃO 219
EX CATHEDRA 235
A SENHORA DO GALVÃO 251
AS ACADEMIAS DE SIÃO 263

Page 8

ERRATA

Escaparam alguns erros typographicos faceis de emendar; entre outros,
estes: coser-lhe por coser (pag. 43); estar-lhe a contar por estar a contar-
lhe (pag. 182); deram a força por lhe deram a força (pag. 211); evidente
mais por evidentemente mais (pag. 272), etc.

Page 9

ADVERTENCIA

De todos os contos que aqui se acham ha dous que effectivamente não
levam data expressa; os outros a tem, de maneira que este titulo Historias
sem data parecerá a alguns inintelligivel, ou vago. Suppondo, porém, que o
meu fim é definir estas paginas como tratando, em substancia, de cousas
que não são especialmente do dia, ou de um certo dia, penso que o titulo
está explicado. E é o peor que lhe póde acontecer, pois o melhor dos titulos
é ainda aquelle que não precisa de explicação.

M. de A.

{1}

A EGREJA DO DIABO

Page 10

CAPITULO I

DE UMA IDÉA MIRIFICA

Conta um velho manuscripto benedictino que o Diabo, em certo dia, teve
a idéa de fundar uma egreja. Embora os seus lucros fossem continuos e
grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde seculos,
sem organisação, sem regras, sem canones, sem ritual, sem nada. Vivia, por
assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obsequios
humanos. Nada fixo, nada regular. Porque não teria elle a sua egreja? Uma
egreja do Diabo era o meio efficaz de combater as outras religiões, e
destruil-as de uma vez.

—Vá, pois, uma egreja, concluiu elle. Escriptura contra Escriptura,
breviario contra breviario. Terei{2} a minha missa, com vinho e pão á farta,
as minhas predicas, bullas, novenas e todo o demais apparelho ecclesiastico.
O meu credo será o nucleo universal dos espiritos, a minha egreja uma
tenda de Abrahão. E depois, emquanto as outras religiões se combatem e se
dividem, a minha egreja será unica; não acharei diante de mim, nem
Mahomet, nem Luthero. Ha muitos modos de affirmar; ha só um de negar
tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um
gesto magnifico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para
communicar-lhe a idéa, e desafial-o; levantou os olhos, accesos de odio,
asperos de vingança, e disse comsigo:—Vamos, é tempo. E rapido, batendo
as azas, com tal estrondo que abalou todas as provincias do abysmo,
arrancou da sombra para o infinito azul.

Page 11

CAPITULO II

ENTRE DEUS E DIABO

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os seraphins
que engrinaldavam o recem{3} chegado, detiveram-se logo, e o Diabo
deixou-se estar á entrada com os olhos no Senhor.

—Que me queres tu? perguntou este.

—Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por
todos os Faustos do seculo e dos seculos.

—Explica-te.

—Senhor, a explicação é facil; mas permitti que vos diga: recolhei
primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor logar, mandai que as mais
afinadas citharas e alaúdes o recebam com os mais divinos córos...

—Sabes o que elle fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de
doçura.

—Não, mas provavelmente é dos ultimos que virão ter comvosco. Não
tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vasia, por causa do
preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras,
vou fundar uma egreja. Estou cançado da minha desorganisação, do meu
reinado casual e adventicio. É tempo de obter a victoria final e completa. E
então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não accuseis de
dissimulação... Boa idéa, não vos parece?

Page 12

—Vieste dizel-a, não legitimal-a, advertiu o Senhor.{4}

—Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor proprio gosta de ouvir o
applauso dos mestres. Verdade é que n'este caso seria o applauso de um
mestre vencido, e uma tal exigencia... Senhor, desço a terra; vou largar a
minha pedra fundamental.

—Vai.

—Quereis que venha annunciar-vos o remate da obra?

—Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cançado ha
tanto da tua desorganisação, só agora pensaste em fundar uma egreja?

Diabo sorriu com certo ar de escarneo e triumpho. Tinha alguma idéa
cruel no espirito, algum reparo picante no alforge da memoria, qualquer
cousa que, n'esse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao
proprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

—Só agora conclui uma observação, começada desde alguns seculos, e é
que as virtudes, filhas do céu, são em grande numero comparaveis a
rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu
proponho-me a puxal-as por essa franja, e trazel-as todas para minha egreja;
atraz d'ellas virão as de seda pura...

—Velho rhetorico! murmurou o Senhor.{5}

—Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos
do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do
mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupillas centelham de
curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do peccado. Vêde o
ardor,—a indifferença, ao menos,—com que esse cavalheiro põe em lettras
publicas os beneficios que liberalmente espalha,—ou sejam roupas ou
botas, ou moedas, ou quaesquer d'essas materias necessarias á vida... Mas
não quero parecer que me detenho em cousas miudas; não fallo, por
exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões,
carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma commenda... Vou a
negocios mais altos...

Page 13

N'isto os seraphins agitaram as azas pesadas de fastio e somno. Miguel e
Gabriel fitaram no Senhor um olhar de supplica. Deus interrompeu o Diabo.

—Tu és vulgar, que é o peior que póde acontecer a um espirito da tua
especie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito
pelos moralistas do mundo. É assumpto gasto; e se não tens força, nem
originalidade para renovar um assumpto gasto, melhor é que te cales e te
retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os{6} signaes vivos
do tedio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que
elle fez?

—Já vos disse que não.

—Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um
naufragio, ia salvar-se n'uma taboa; mas viu um casal de noivos, na flor da
vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a taboa de salvação e
mergulhou na eternidade. Nenhum publico: a agua e o céu por cima. Onde
achas ahi a franja de algodão?

—Senhor, eu sou, como sabeis, o espirito que nega.

—Negas esta morte?

—Nego tudo. A misanthropia póde tomar aspecto de caridade; deixar a
vida aos outros, para um misanthropo, é realmente aborrecel-os...

—Rhetorico e subtil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua egreja;
chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os
homens... Mas, vai! vai!

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impuzera-lhe
silencio; os seraphins, a um signal divino, encheram o céu com as
harmonias de seus canticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no
ar; dobrou as azas, e, como um raio, caiu na terra.{7}

Page 14

CAPITULO III

A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em
enfiar a cogula benedictina, como habito de boa fama, e entrou a espalhar
uma doutrina nova e extraordinaria, com uma voz que reboava nas
entranhas do seculo. Elle promettia aos seus discipulos e fieis as delicias da
terra, todas as glorias, os deleites mais intimos. Confessava que era o
Diabo; mas confessava-o para rectificar a noção que os homens tinham
d'elle e desmentir as historias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

—Sim, sou o Diabo, repetia elle; não o Diabo das noites sulphureas, dos
contos somniferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e unico, o
proprio genio da natureza, a que se deu aquelle nome para arredal-o do
coração dos homens. Vêde-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai.
Vamos lá: tomai d'aquelle nome, inventado para meu desdouro, fazei d'elle
um trophéu e um labaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
{8}

Era assim que fallava, a principio, para excitar o enthusiasmo, espertar os
indifferentes, congregar, em summa, as multidões ao pé de si. E ellas
vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina
era a que podia ser na bocca de um espirito de negação. Isso quanto á
substancia, porque, ácerca da fórma, era umas vezes subtil, outras cynica e
deslavada.

Clamava elle que as virtudes aceitas deviam ser substituidas por outras,
que eram as naturaes e legitimas. A soberba, a luxuria, a preguiça foram

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rehabilitadas, e assim tambem a avareza, que declarou não ser mais do que
a mãi da economia, com a differença que a mãi era robusta, e a filha uma
esgalgada. A ira tinha a melhor defeza na existencia de Homero; sem o
furor de Achilles, não haveria a Illiada: «Musa, canta a colera de Achilles,
filho de Peleu...» O mesmo disse da gula, que produziu as melhores paginas
de Rabelais, e muitos bons versos de Hyssope; virtude tão superior, que
ninguem se lembra das batalhas de Lucullo, mas das suas ceias; foi a gula
que realmente o fez immortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de
ordem litteraria ou historica, para só mostrar o valor intrinseco d'aquella
virtude, quem negaria que era muito{9} melhor sentir na bocca e no ventre
os bons manjares, em grande cópia, do que os máus boccados, ou a saliva
do jejum? Pela sua parte o Diabo promettia substituir a vinha do Senhor,
expressão metaphorica, pela vinha do Diabo, locução directa e verdadeira,
pois não faltaria nunca aos seus com o fructo das mais bellas cepas do
mundo. Quanto á inveja, prégou friamente que era a virtude principal,
origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a supprir
todas as outras, e ao proprio talento.

As turbas corriam atraz d'elle enthusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a
grandes golpes de eloquencia, toda a nova ordem de cousas, trocando a
noção d'ellas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que elle dava da
fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a
força; e concluia: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, elle não
exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem
canhotos, outros dextros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada.
A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um
casuista do tempo chegou a confessar que era um monumento de logica. A
venalidade, disse o Diabo, era o exercicio de um direito{10} superior a todos
os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu
chapéo, cousas que são tuas por uma razão juridica e legal, mas que, em
todo caso, estão fóra de ti, como é que não pódes vender a tua opinião, o teu
voto, a tua palavra, a tua fé, cousas que são mais do que tuas, porque são a
tua propria consciencia, isto é, tu mesmo? Negal-o é cair no absurdo e no
contraditorio. Pois não ha mulheres que vendem os cabellos? não póde um
homem vender uma parte do seu sangue para transfundil-o a outro homem

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anemico? e o sangue e os cabellos, partes physicas, terão um privilegio que
se nega ao caracter, á porção moral do homem? Demonstrando assim o
principio, o Diabo não se demorou em expôr as vantagens de ordem
temporal ou pecuniaria; depois, mostrou ainda que, á vista do preconceito
social, conviria dissimular o exercicio de um direito tão legitimo, o que era
exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hypocrisia, isto é, merecer
duplicadamente.

E descia, e subia, examinava tudo, rectificava tudo. Está claro que
combateu o perdão das injurias e outras maximas de brandura e
cordialidade. Não prohibiu formalmente a calumnia gratuita, mas induziu a
exercel-a mediante retribuição, ou pecuniaria,{11} ou de outra especie; nos
casos, porém, em que ella fosse uma expansão imperiosa da força
imaginativa, e nada mais, prohibia receber nenhum salario, pois equivalia a
fazer pagar a transpiração. Todas as fórmas de respeito foram condemnadas
por elle, como elementos possiveis de um certo decoro social e pessoal;
salva, todavia, a unica excepção do interesse. Mas essa mesma excepção foi
logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o
respeito em simples adulação, era este o sentimento applicado e não
aquelle.

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a
solidariedade humana. Com effeito, o amor do proximo era um obstaculo
grave á nova instituição. Elle mostrou que essa regra era uma simples
invenção de parasitas e negociantes insolvaveis; não se devia dar ao
proximo se não indifferença; em alguns casos, odio ou despreso. Chegou
mesmo á demonstração de que a noção de proximo era errada, e citava esta
phrase de um padre de Napoles, aquelle fino e lettrado Galliani, que
escrevia a uma das marquezas de antigo regimen: «Leve a breca o proximo!
Não ha proximo!» A unica hypothese em que elle permittia amar ao
proximo era quando se tratasse de amar as damas{12} alheias, porque essa
especie de amor tinha a particularidade de não ser outra cousa mais do que
o amor do individuo a si mesmo. E como alguns discipulos achassem que
uma tal explicação, por metaphysica, escapava á comprehensão das turbas,
o Diabo recorreu a um apologo:—Cem pessoas tomam acções de um banco,
para as operações communs; mas cada accionista não cuida realmente se

Page 17

não nos seus dividendos: é o que acontece aos adulteros. Este apologo foi
incluido no livro da sabedoria.

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CAPITULO IV

FRANJAS E FRANJAS

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de velludo
acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a
capa ás ortigas e vinham alistar-se na egreja nova. Atraz foram chegando as
outras, e o tempo abençoou a instituição. A egreja fundára-se; a doutrina
propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma
lingua que não a traduzisse, uma{13} que não a amasse. Diabo alçou brados
de triumpho.

Um dia, porém, longos annos depois notou o Diabo que muitos dos seus
fieis, ás escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam
todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, ás
occultas. Certos glotões recolhiam-se a comer frugalmente tres ou quatro
vezes por anno, justamente em dias de preceito catholico; muitos avaros
davam esmolas, á noite, ou nas ruas mal povoadas; varios dilapidadores do
erario restituam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos fallavam, uma ou
outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado,
para fazer crer que estavam embaçando os outros.

A descoberta assombrou o Diabo. Metteu-se a conhecer mais
directamente e mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até
incomprehensiveis, como o de um droguista do Levante, que envenenára
longamente uma geração inteira, e, com o producto das drogas soccorria os
filhos das victimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camellos, que
tapava a cara para ir ás mesquitas. O Diabo deu com elle á entrada de uma,
lançou-lhe em rosto o procedimento; elle negou, dizendo que ia alli roubar

Page 19

o camello de{14} um drogman; roubou-o, com effeito, a vista do Diabo e foi
dal-o de presente a um muezzin, que rezou por elle a Allah. O manuscripto
benedictino cita muitas outras descobertas extraordinarias, entre ellas esta,
que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apostolos
era um calabrez, varão de cincoenta annos, insigne falsificador de
documentos, que possuia uma bella casa na campanha romana, telus,
estatuas, bibliotheca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a metter-se na
cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não
furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo
angariado a amizade de um conego, ia todas as semanas confessar-se com
elle, n'uma capella solitaria; e, comquanto não lhe desvendasse nenhuma
das suas acções secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-
se. Diabo mal póde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso
era verdadeiro.

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de reflectir,
comparar e concluir do expectaculo presente alguma cousa analoga ao
passado. Voou de novo ao céu, tremulo de raiva, ancioso de conhecer a
causa secreta de tão singular phenomeno. Deus ouviu-o com infinita
complacencia; não o{15} interrompeu, não o reprehendeu, não triumphou,
sequer, d'aquella agonia satanica. Poz os olhos n'elle, e disse-lhe:

Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas
de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? é a
eterna contradicção humana.

FIM DA EGREJA DO DIABO.

{16}
{17}

Page 20

O LAPSO

E vieram todos os officiaes... e o resto do povo, desde o pequeno
até ao grande.

E disseram ao propheta Jeremias: Seja aceita a nossa supplica na
tua presença.

JEREM. XLII, 1, 2.

Não me perguntem pela familia do Dr. Jeremias Halma, nem o que e que
elle veiu fazer ao Rio de Janeiro, n'aquelle anno de 1768, governando o
Conde de Azambuja, que a principio se disse o mandára buscar; esta versão
durou pouco. Veiu, ficou e morreu com o seculo. Posso affirmar que era
medico e hollandez. Viajára muito, sabia toda a chimica do tempo, e mais
alguma; fallava correntemente cinco ou seis linguas vivas e duas mortas.
Era tão universal e inventivo, que dotou a poesia malaia com um novo
metro, e engendrou uma theoria da formação dos diamantes. Não conto os
melhoramentos{18} therapeuticos, e outras muitas cousas, que o
recommendam á nossa admiração. Tudo isso, sem ser casmurro, nem
orgulhoso. Ao contrario, a vida e a pessoa d'elle eram como a casa que um
patricio lhe arranjou na rua do Piolho, casa singelissima, onde elle morreu
pelo natal de 1799. Sim, o Dr. Jeremias era simples, lhano, modesto, tão
modesto que... Mas isto seria transtornar a ordem do conto. Vamos ao
principio.

No fim da rua do Ouvidor, que ainda não era a via dolorosa dos maridos
pobres, perto da antiga rua dos Latoeiros, morava por esse tempo um tal
Thomé Gonçalves, homem abastado, e, segundo algumas inducções,
vereador da camara. Vereador ou não, este Thomé Gonçalves não tinha só
dinheiro, tinha tambem dividas, não poucas, nem todas recentes. O
descuido podia explicar os seus atrazos, a velhacaria tambem; mas quem
opinasse por uma ou outra dessas interpretações, mostraria que não sabe ler
uma narração grave. Realmente, não valia a pena dar-se ninguem a tarefa de

Page 21

escrever algumas laudas de papel para dizer que houve, nos fins do seculo
passado, um homem que, por velhacaria ou deleixo, deixava de pagar aos
credores. A tradição affirma que este nosso concidadão era exacto em todas
as{19} cousas, pontual nas obrigações mais vulgares, severo e até
meticuloso. A verdade é que as ordens terceiras e irmandades que tinham a
fortuna de o possuir (era irmão-remido de muitas, desde o tempo em que
usava pagar), não lhe regateavam provas de affeição e apreço: e, se é certo
que foi vereador, como tudo faz crer, póde-se jurar que o foi a contento da
cidade.

Mas então...? La vou; nem é outra a materia do escripto, senão esse
curioso phenomeno, cuja causa, se a conhecemos, foi porque a descobriu o
Dr. Jeremias. Em uma tarde de procissão, Thomé Gonçalves, trajado com o
habito de uma ordem terceira, ia segurando uma das varas do pallio, e
caminhando com a placidez de um homem que não faz mal a ninguem. Nas
janellas e ruas estavam muitos dos seus credores; dois, entretanto, na
esquina do becco das Cancellas (a procissão descia a rua do Hospicio),
depois de ajoelhados, resados, persignados e levantados, perguntaram um
ao outro, se não era tempo de recorrer á justiça.

—Que é que me póde acontecer? dizia um d'elles. Se brigar commigo,
melhor; não me levará mais nada de graça. Não brigando, não lhe posso
negar o que me pedir, e na esperança de receber os atrasados,{20} vou
fiando... Não, senhor; não póde continuar assim.

—Pela minha parte, acudiu o outro, se ainda não fiz nada, é por causa da
minha dona, que é medrosa, e entende que não devo brigar com pessoa tão
importante... Mas eu como ou bebo da importancia dos outros? E as minhas
cabelleiras?

Este era um cabelleireiro da rua da Valla defronte da Sé, que vendera ao
Thomé Gonçalves dez cabelleiras, em cinco annos, sem lhe haver nunca um
real. O outro era alfaiate, e ainda maior credor que o primeiro. A procissão
passára inteiramente; elles ficaram na esquina, ajustando o plano de mandar
os meirinhos ao Thomé Gonçalves. O cabelleireiro advertiu que outros
muitos credores só esperavam um signal para cahir em cima do devedor
remisso; e o alfaiate lembrou a conveniencia de metter na conjuração o
Matta-sapateiro, que vivia desesperado. Só a elle devia o Thomé Gonçalves

Page 22

mais de oitenta mil reis. N'isso estavam, quando por traz d'elles ouviram
uma voz, com sotaque estrangeiro, perguntando porque motivo
conspiravam contra um homem doente. Voltaram-se, e, dando com o Dr.
Jeremias, desbarretaram-se os dois credores, tornados de profunda
veneração; em seguida disseram que tanto{21} não era doente o devedor, que
lá ia andando na procissão, muito teso, pegando uma das varas do pallio.

—Que tem isso? interrompeu o medico; ninguem lhes diz que está doente
dos braços, nem das pernas...

—Do coração? do estomago?

—Nem coração, nem estomago, respondeu o Dr. Jeremias. E continuou,
com muita doçura, que se tratava de negocios altamente especulativos, que
não podia dizer alli, na rua, nem sabia mesmo se elles chegariam a
entendel-o. Se eu tiver de pentear uma cabelleira ou talhar um calção—
accrescentou para os não affligir,—é provavel que não alcance as regras dos
seus officios tão uteis, tão necessarios ao Estado... Eh! eh! eh!

Rindo assim, amigavelmente cortejou-os e foi andando. Os dois credores
ficaram embascados. O cabelleireiro foi o primeiro que fallou, dizendo que
a noticia do Dr. Jeremias não era tal que os devesse afrouxar no proposito
de cobrar as dividas. Se até os mortos pagam, ou alguem por elles,
reflexionou o cabelleireiro, não é muito exigir aos doentes igual obrigação.
O alfaiate, invejoso da pilheria, fel-a sua cosendo-lhe este babado:—Pague
e cure-se.

Não foi dessa opinião o Matta-sapateiro, que entendeu haver alguma
razão secreta nas palavras{22} do doutor Jeremias, e propoz que primeiro se
examinasse bem o que era, e depois se resolvesse o mais idoneo.
Convidaram então outros credores a um conciliabulo, no domingo proximo,
em casa de uma D. Anninha, para as bandas do Rocio, a pretexto de um
baptizado. A precaução era discreta, para não fazer suppor ao intendente da
policia que se tratava de alguma tenebrosa machinação contra o Estado.
Mal anoiteceu, começaram a entrar os credores, embuçados em capotes, e,
como a illuminação publica só veiu a principiar com o vice-reinado do
conde de Rezende, levava cada qual uma lanterna na mão, ao uso do tempo,

Page 23

dando assim ao conciliabulo um rasgo pintoresco e theatral. Eram trinta e
tantos, perto de quarenta—e não eram todos.

A theoria de Ch. Lamb ácerca da divisão do genero humano em duas
grandes raças, é posterior ao conciliabulo do Rocio; mas nenhum outro
exemplo a demonstraria melhor. Com effeito, o ar abatido ou afflicto
d'aquelles homens, o desespero de alguns, a preoccupação de todos,
estavam de antemão provando que a theoria do fino ensaista é verdadeira, e
que das duas grandes raças humanas,—a dos homens que emprestam, e a
dos que pedem emprestado,—a primeira contrasta pela tristeza do gesto
com as{23} maneiras rasgadas e francas da segunda, the open, trusting,
generous manners of the other. Assim que, n'aquella mesma hora, o Thomé
Gonçalves, tendo voltado da procissão, regalava alguns amigos com os
vinhos e gallinhas que comprára fiado; ao passo que os credores estudavam
ás escondidas, com um ar desenganado e amarello, algum meio de rehaver
o dinheiro perdido.

Logo foi o debate; nenhuma opinião chegava a concertar os espiritos.
Uns inclinavam-se á demanda, outros á espera, não poucos aceitavam o
alvitre de consultar o Dr. Jeremias. Cinco ou seis partidarios d'este parecer
não o defendiam senão com a intenção secreta e disfarçada de não fazer
cousa nenhuma; eram os servos do medo e da esperanca. O cabelleireiro
oppunha-se-lhe, e perguntava que molestia haveria que impedisse um
homem de pagar o que deve. Mas o Matta-sapateiro:—«Sr. compadre, nos
não entendemos d'esses negocios; lembre-se que o doutor é estrangeiro, e
que nas terras estrangeiras sabem cousas que nunca lembraram ao diabo.
Em todo caso, só perdemos algum tempo e nada mais.» Venceu este
parecer; deputaram o sapateiro, o alfaiate e o cabelleireiro para entenderem-
se com o Dr. Jeremias, em nome de todos, e o conciliabulo{24} dissolveu-se
na patuscada. Terpsychore bracejou e perneou diante d'elles as suas graças
jocundas, e tanto bastou para que alguns esquecessem a ulcera secreta que
os roia. Eheu! fugaces... Nem mesmo a dor é constante.

No dia seguinte o Dr. Jeremias recebeu os tres credores, entre sete e oito
horas da manha. «Entrem, entrem...» E com o seu largo carão hollandez, e o
riso derramado pela bocca fóra, como um vinho generoso de pipa que se
rompeu, o grande medico veiu em pessoa abrir-lhes a porta. Estudava n'esse

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momento uma cobra, morta de vespera, no morro de Santo Antonio; mas a
humanidade, costumava elle dizer, é anterior á sciencia. Convidou os tres a
sentarem-se nas tres unicas cadeiras devolutas; a quarta era a d'elle; as
outras, umas cinco ou seis, estavam atulhadas de objectos de toda a casta.

Foi o Matta-sapateiro quem expoz a questão; era dos tres o que reunia
maior cópia de talentos diplomaticos. Começou dizendo que o engenho do
Sr. doutor ia salvar da miseria uma porção de familias, e não seria a
primeira nem a ultima grande obra de um medico que, não desfazendo nos
da terra, era o mais sabio de quantos cá havia desde o governo de Gomes
Freire. Os credores de Thomé{25} Gonçalves não tinham outra esperança.
Sabendo que o Sr. doutor attribuia os atrazos d'aquelle cidadão a uma
doença, tinham assentado que primeiro se tentasse a cura, antes de qualquer
recurso á justiça. A justiça ficaria para o caso de desespero. Era isto o que
vinham dizer-lhe, em nome de dezenas de credores; desejavam saber se era
verdade que, além de outros achaques humanos, havia o de não pagar as
dividas, se era mal incuravel, e, não o sendo, se as lagrimas de tantas
familias...

—Ha uma doença especial, interrompeu o Dr. Jeremias, visivelmente
commovido, um lapso da memoria; o Thomé Gonçalves perdeu
inteiramente a noção de pagar. Não é por descuido, nem de proposito que
elle deixa de saldar as contas; é porque esta idéa de pagar, de entregar o
preço de uma cousa, varreu-se-lhe da cabeça. Conheci isto ha dois mezes,
estando em casa d'elle, quando alli foi o prior do Carmo, dizendo que ia
«pagar-lhe a fineza de uma visita». Thomé Gonçalves, apenas o prior se
despediu, perguntou-me o que era pagar; accrescentou que, alguns dias
antes, um boticario lhe dissera a mesma palavra, sem nenhum outro
esclarecimento, parecendo-lhe até que já a ouvira a outras pessoas; por
ouvil-a da bocca do prior, suppunha ser latim.{26} Comprehendi tudo; tinha
estudado a molestia em varias partes do mundo, e comprehendi que elle
estava atacado do lapso. Foi por isso que disse outro dia a estes dois
senhores que não demandassem um homem doente.

—Mas então, aventurou o Matta, pallido, o nosso dinheiro está
completamente perdido...

—A molestia não é incuravel, disse o medico

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—Ah!

—Não é; conheço e possuo a droga curativa, e já a empreguei em dous
grandes casos: um barbeiro, que perdera a noção do espaço, e, á noite
estendia a mão para arrancar as estrellas do céu, e uma senhora da
Catalunha, que perdera a noção do marido. O barbeiro arriscou muitas
vezes a vida, querendo sahir pelas janellas mais altas das casas, como se
estivesse ao rez do chão...

—Santo Deus! exclamaram os tres credores.

—É o que lhes digo, continuou placidamente o medico. Quanto á dama
catalã, a principio confundia o marido com um licenciado Mathias, alto e
fino, quando o marido era grosso e baixo; depois com um capitão, D.
Hermogenes, e, no tempo em que comecei a tratal-a com um clerigo. Em
tres mezes ficou boa. Chamava-se D. Agostinha.{27}

Realmente, era uma droga miraculosa. Os tres credores estavam radiantes
de esperança; tudo fazia crer que o Thomé Gonçalves padecia do lapso, e,
uma vez que a droga existia, e o medico a tinha em casa... Ah! mas aqui
pegou o carro. O Dr. Jeremias não era familiar da casa do enfermo, embora
entretivesse relações com elle; não podia ir offerecer-lhe os seus prestimos.
Thomé Gonçalves não tinha parentes que tomassem a responsabilidade de
convidar o medico, nem os credores podiam tomal-a a si. Mudos, perplexos,
consultaram-se com os olhos. Os do alfaiate, como os do cabelleiro,
exprimiram este alvitre desesperado; cotisarem-se os credores, e, mediante
uma quantia grossa e appetitosa, convidarem o Dr. Jeremias á cura; talvez o
interesse... Mas o illustre Matta via o perigo de um tal proposito, porque o
doente podia não ficar bom, e a perda seria dobrada. Grande era a angustia;
tudo parecia perdido. O medico rolava entre os dedos a boceta de rapé,
esperando que elles se fossem embora, não impaciente, mas risonho. Foi
então que o Matta, como um capitão dos grandes dias, viu o ponto fraco do
inimigo; advertiu que as suas primeiras palavras tinham commovido o
medico, e tornou ás lagrimas das familias, aos filhos sem pão, porque elles
não{28} eram senão uns tristes officiaes de officio ou mercadores de pouca
fazenda, ao passo que o Thomé Gonçalves era rico. Sapatos, calções,
capotes, xaropes, cabelleiras, tudo o que lhes custava dinheiro, tempo e
saude... Saude, sim, senhor; os callos de suas mãos mostravam bem que o

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officio era duro; e o alfaiate, seu amigo, que alli estava presente, e que
entisicava, ás noites, á luz de uma candeia, zas-que-darás, puchando a
agulha...

Magnanimo Jeremias! Não o deixou acabar; tinha os olhos humidos de
lagrimas. O acanho de suas maneiras era compensado pelas expansões de
um coração pio e humano. Pois, sim; ia tentar o curativo, ia pôr a sciencia
ao serviço de uma causa justa. Demais, a vantagem era tambem e
principalmente do proprio Thomé Gonçalves, cuja fama andava
abocanhada, por um motivo em que elle tinha tanta culpa como o doudo
que pratica uma iniquidade. Naturalmente, a alegria dos deputados traduziu-
se em rapa-pés infindos e grandes louvores aos insignes merecimentos do
medico. Este cortou-lhes modestamente o discurso, convidando-os a
almoçar, obsequio que elles não aceitaram, mas agradeceram com palavras
cordialissimas. E, na rua quando elle já os não podia ouvir, não se fartavam
de elogiar-lhe a{29} sciencia, a bondade, a generosidade, a delicadeza, os
modos tão simples! tão naturaes!

Desde esse dia começou Thomé Gonçalves a notar a assiduidade do
medico, e, não desejando outra cousa, porque lhe queria muito, fez tudo o
que lhe lembrou por atal-o de vez aos seus penates. O lapso do infeliz era
completo; tanto a ideia de pagar, como as ideias co-relatas de credor,
divida, saldo, e outras tinham-se-lhe apagado da memoria, constituindo-lhe
assim um largo furo no espirito. Temo que se me argua de comparações
extraordinarias, mas o abysmo de Pascal é o que mais promptamente veiu
ao bico da penna. Thomé Gonçalves tinha o abysmo de Pascal, não ao lado,
mas dentro de si mesmo, e tão profundo que cabiam n'elle mais de sessenta
credores que se debatiam lá embaixo com o ranger de dentes da Escriptura.
Urgia extrahir todos esses infelizes e entulhar o buraco.

Jeremias fez crer ao doente que andava abatido, e, para retemperal-o,
começou a applicar-lhe a droga. Não bastava a droga; era mister um
tratamento subsidiario, porque a cura operava-se de dous modos:—o modo
geral e abstracto, restauração da ideia de pagar, com todas as noções co-
relatas—era a parte confiada á droga; e o modo particular e concreto,{30}
insinuação ou designação de uma certa divida e de um certo credor—era a
parte do medico. Supponhamos que o credor escolhido era o sapateiro. O

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medico levava o doente ás lojas de sapatos, para assistir á compra e venda
da mercadoria, e ver uma e muitas vezes a acção de pagar; fallava da
fabricação e venda dos sapatos no resto do mundo, cotejava os preços do
calçado n'aquelle anno de 1768 com o que tinha trinta ou quarenta annos
antes; fazia com que o sapateiro fosse dez, vinte vezes a casa de Thomé
Gonçalves levar a conta e pedir o dinheiro, e cem outros estratagemas.
Assim com o alfaiate, o cabelleireiro, o segeiro, o boticario, um a um,
levando mais tempo os primeiros, pela razão natural de estar a doença mais
arraigada, e lucrando os ultimos com o trabalho anterior, d'onde lhes vinha a
compensação da demora.

Tudo foi pago. Não se descreve a alegria dos credores, não se
transcrevem as bençãos com que elles encheram o nome do Dr. Jeremias.
Sim, senhor, é um grande homem, bradavam em toda a parte. Parece cousa
de feitiçaria, aventuravam as mulheres. Quanto ao Thomé Gronçalves,
pasmado de tantas dividas velhas, não se fartava de elogiar a longanimidade
dos credores, censurando-os ao mesmo tempo pela accumulação.{31}

—Agora, dizia-lhes, não quero contas de mais de oito dias.

—Nós é que lhe marcaremos o tempo, respondiam generosamente os
credores.

Restava entretanto, um credor. Esse era o mais recente, o proprio Dr.
Jeremias, pelos honorarios d'aquelle serviço relevantes. Mas, ai delle! a
modestia atou-lhe a lingua. Tão expansivo era de coração, como acanhado
de maneiras; e planeou tres, cinco investidas, sem chegar a executar nada. E
aliás era facil; bastava insinuar-lhe a divida pelo methodo usado em relação
á dos outros; mas seria bonito? perguntava a si mesmo; seria decente? etc.,
etc. E esperava, ia esperando. Para não parecer que se lhe mettia á cara,
entrou a rarear as visitas; mas o Thomé Gonçalves ia ao casebre da rua do
Piolho, e trazia-o a jantar, a ceiar, a fallar de cousas estrangeiras, em que era
muito curioso. Nada de pagar. Jeremias chegou a imaginar que os
credores... Mas os credores, ainda quando pudesse passar-lhes pela cabeça a
ideia de ir lembrar a divida, não chegariam a fazel-o, porque a suppunham
paga antes de todas. Era o que diziam uns aos outros, entre muitas formulas
da sabedoria popular:—Matheus, primeiro os teus—A boa justiça começa
por casa—Quem{32} é tolo pede a Deus que o mate, etc. Tudo falso; a

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verdade é que o Thomé Gonçalves, no dia em que fallecera, tinha um só
credor no mundo:—o Dr. Jeremias.

Este, nos fins do seculo, chegára á canonisação.

—«Adeus, grande homem!» dizia-lhe o Matta, ex-sapateiro, em 1798, de
dentro da sege, que o levava á missa dos carmelitas. E o outro, curvo de
velhice, melancolicamente, olhando para os bicos dos pés:

—Grande homem, mas pobre diabo.

FIM DO LAPSO.

{33}

ULTIMO CAPITULO

Ha entre os suicidas um excellente costume, que é não deixar a vida sem
dizer o motivo e as circumstancias que os armam contra ella. Os que se vão
calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm
tempo, ou não sabem escrever. Costume excellente: em primeiro logar, é
um acto de cortezia, não sendo este mundo um baile, de onde um homem
possa esgueirar-se antes do cotilhão; em segundo logar, a imprensa recolhe
e divulga os bilhetes posthumos, e o morto vive ainda um dia ou dois, ás
vezes uma semana mais.

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Pois apezar da excellencia do costume, era meu proposito sahir calado. A
razão é que, tendo sido caipora em minha vida toda, temia que qualquer
palavra ultima pudesse levar-me alguma complicação á eternidade. Mas um
incidente de ha pouco trocou-me o plano, e retiro-me deixando, não só
um{34} escripto, mas dous. O primeiro é o meu testamento, que acabo de
compor e fechar, e está aqui em cima da mesa, ao pé da pistola carregada. O
segundo é este resumo de autobiographia. E note-se que não dou o segundo
escripto senão porque é preciso esclarecer o primeiro, que pareceria absurdo
ou inintelligivel, sem algum commentario. Disponho alli que, vendidos os
meus poucos livros, roupa de uso e um casebre que possuo em Catumby,
alugado a um carpinteiro, seja o producto empregado em sapatos e botas
novas, que se distribuirão por um modo indicado, e confesso que
extraordinario. Não explicada a razão de um tal legado, arrisco a validade
do testamento. Ora, a razão do legado brotou do incidente de ha pouco, e o
incidente liga-se á minha vida inteira.

Chamo-me Mathias Deodato de Castro e Mello, filho do sargento-mór
Salvador Deodato de Castro e Mello e de D. Maria da Soledade Pereira,
ambos fallecidos. Sou natural de Corumbá, Matto Grosso; nasci em 3 de
março de 1820; tenho portanto, cincoenta e um annos, hoje, 3 de março de
1871.

Repito, sou um grande caipora, o mais caipora de todos os homens. Ha
uma locução proverbial, que{35} eu litteralmente realisei. Era em Corumbá;
tinha sete para oito annos, embalava-me na rede, á hora da sesta, em um
quartinho de telha vã; a rede, ou por estar frouxa a argola, ou por impulso
demasiado violento da minha parte, desprendeu-se de uma das paredes, e
deu commigo no chão. Cahi de costas; mas, assim mesmo de costas,
quebrei o nariz, porque um pedaço de telha, mal seguro, que só esperava
occasião de vir abaixo, aproveitou a commoção e cahiu tambem. O
ferimento não foi grave nem longo; tanto que meu pai caçoou muito
commigo. O conego Brito, de tarde, ao ir tomar guaraná comnosco, soube
do episodio e citou o rifão, dizendo que era eu o primeiro que cumpria
exactamente este absurdo de cahir de costas e quebrar o nariz. Nem um nem
outro imaginava que o caso era um simples inicio de cousas futuras.

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Não me demoro em outros revezes da infancia e da juventude. Quero
morrer ao meio-dia, e passa de onze horas. Além d'isso, mandei fóra o rapaz
que me serve, e elle póde vir mais cedo, e interromper-me a execução do
projecto mortal. Tivesse eu tempo, e contaria pelo miudo alguns episodios
doloridos, entre elles, o de umas cacetadas que apanhei por engano.{36}
Tratava-se do rival de um amigo meu, rival de amores e naturalmente rival
derrubado. O meu amigo e a dama indignaram-se com as pancadas quando
souberam da aleivosia do outro; mas applaudiram secretamente a illusão.
Tambem não fallo de alguns achaques que padeci. Corro ao ponto em que
meu pai, tendo sido pobre toda a vida, morreu pobrissimo, e minha mãi não
lhe sobreviveu dois mezes. O conego Brito, que acabava de ser eleito
deputado, propoz então trazer-me ao Rio de Janeiro, e veiu commigo, com a
idéa de fazer-me padre; mas cinco dias depois de chegar morreu. Vão vendo
a acção constante do caiporismo.

Fiquei só, sem amigos, nem recursos, com dezeseis annos de idade. Um
conego da Capella Imperial lembrou-se de fazer-me entrar alli de
sachristão; mas, posto que tivesse ajudado muita missa em Matto Grosso, e
possuisse algumas lettras latinas, não fui admittido, por falta de vaga.
Outras pessoas induziram-me então a estudar direito, e confesso que aceitei
com resolução. Tive até alguns auxilios, a principio; faltando-me elles
depois, lutei por mim mesmo; emfim alcancei a carta de bacharel. Não me
digam que isto foi uma excepção na minha vida caipora, porque{37} o
diploma academico levou-me justamente a cousas mui graves; mas, como o
destino tinha de flagellar-me, qualquer que fosse a minha profissão, não
attribuo nenhum influxo especial ao grau juridico. Obtive-o com muito
prazer, isso é verdade; a idade moça, e uma certa superstição de melhora,
faziam-me do pergaminho uma chave de diamante que iria abrir todas as
portas da fortuna.

E, para principiar, a carta de bacharel não me encheu sósinha as
algibeiras. Não, senhor, tinha ao lado d'ella umas outras, dez ou quinze,
fructo de um namoro travado no Rio de Janeiro, pela semana santa de 1842,
com uma viuva mais velha do que eu sete ou oito annos, mas ardente,
lepida e abastada. Morava com um irmão cégo, na rua do Conde; não posso
dar outras indicações. Nenhum dos meus amigos ignorava este namoro;
dous d'elles até liam as cartas, que eu lhes mostrava, com o pretexto de

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admirar o estylo elegante da viuva, mas realmente para que vissem as finas
cousas que ella me dizia. Na opinião de todos, o nosso casamento era certo,
mais que certo; a viuva não esperava senão que eu concluisse os estudos.
Um d'esses amigos, quando eu voltei graduado, deu-me os parabens,{38}
accentuando a sua convicção com esta phrase definitiva:

—O teu casamento é um dogma.

E, rindo, perguntou-me se por conta do dogma, poderia arranjar-lhe
cincoenta mil réis; era para uma urgente precisão. Não tinha commigo os
cincoenta mil réis; mas o dogma repercutia ainda tão docemente no meu
coração, que não descancei em todo esse dia, até arranjar-lh'os; fui leval-os
eu mesmo, enthusiasmado; elle recebeu-os cheio de gratidão. Seis mezes
depois foi elle quem casou com a viuva.

Não digo tudo o que então padeci; digo só que o meu primeiro impulso
foi dar um tiro em ambos; e, mentalmente, cheguei a fazel-o; cheguei a vel-
os, moribundos, arquejantes, pedirem-me perdão. Vingança hypothetica; na
realidade, não fiz nada. Elles casaram-se, e foram ver do alto da Tijuca a
ascenção da lua de mel. Eu fiquei relendo as cartas da viuva. «Deus, que me
ouve (dizia uma d'ellas), sabe que o meu amor é eterno, e que eu sou tua,
eternamente tua...» E, no meu atordoamento, blasphemava commigo:—
Deus é um grande invejoso; não quer outra eternidade ao pé d'elle, e por
isso desmentiu a viuva:—nem outro dogma além do catholico, e por
isso{39} desmentiu o meu amigo. Era assim que eu explicava a perda da
namorada e dos cincoenta mil réis.

Deixei a capital, e fui advogar na roça, mas por pouco tempo. O
caiporismo foi commigo, na garupa do burro, e onde eu me apeei, apeou-se
elle tambem. Vi-lhe o dedo em tudo, nas demandas que não vinham, nas
que vinham e valiam pouco ou nada, e nas que, valendo alguma cousa,
eram invariavelmente perdidas. Além de que os constituintes vencedores
são em geral mais gratos que os outros, a successão de derrotas foi
arredando de mim os demandistas. No fim de algum tempo, anno e meio,
voltei á côrte, e estabeleci-me com um antigo companheiro de anno: o
Gonçalves.

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Este Gonçalves era o espirito menos juridico, menos apto para entestar
com as questões de direito. Verdadeiramente era um pulha. Comparemos a
vida mental a uma casa elegante; o Gonçalves não aturava dez minutos a
conversa do salão, esgueirava-se, descia á copa e ia palestrar com os
creados. Mas compensava essa qualidade inferior com certa lucidez, com a
presteza de comprehensão, nos assumptos menos arduos ou menos
complexos, com a facilidade de expôr, e, o que não era pouco para um
pobre diabo{40} batido da fortuna, com uma alegria quasi sem
intermittencias. Nos primeiros tempos, como as demandas não vinham,
matavamos as horas com excellente palestra, animada e viva, em que a
melhor parte era d'elle, ou fallassemos de politica, ou de mulheres,
assumpto que lhe era muito particular.

Mas as demandas vieram vindo; entre ellas uma questão de hypotheca.
Tratava-se da casa de um empregado da alfandega, Themistocles de Sá
Botelho, que não tinha outros bens, e queria salvar a propriedade. Tomei
conta do negocio. O Themistocles ficou encantado commigo: e, duas
semanas depois, como eu lhe dissesse que não era casado, declarou-me
rindo que não queria nada com solteirões. Disse-me outras cousas e
convidou-me a jantar no domingo proximo. Fui; namorei-me da filha d'elle,
D. Rufina, moça de dezenove annos, bem bonita, embora um pouco
acanhada e meia morta. Talvez seja a educação, pensei eu. Casámo-nos
poucos mezes depois. Não convidei o caiporismo, é claro; mas na egreja,
entre as barbas rapadas e as suiças lustrosas, pareceu-me ver o carão
sardonico e o olhar obliquo do meu cruel adversario. Foi por isso que, no
acto mesmo de proferir a formula sagrada e definitiva do casamento,{41}
estremeci, hesitei, e, emfim, balbuciei a medo o que o padre me dictava...

Estava casado. Rufina não dispunha, é verdade, de certas qualidades
brilhantes e elegantes; não seria, por exemplo, e desde logo, uma dona de
salão. Tinha, porém, as qualidades caseiras, e eu não queria outras. A vida
obscura bastava-me; e, com tanto que ella m'a enchesse, tudo iria bem. Mas
esse era justamente o agro da empreza. Rufina (permittam-me esta
figuração chromatica) não tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a
vermelha de Cleopatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz, mas
cinzenta e apagada como a multidão dos seres humanos. Era boa por
apathia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem eleição. Um anjo a levaria

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ao céu, um diabo ao inferno, sem esforço em ambos os casos, e sem que, no
primeiro lhe coubesse a ella nenhuma gloria, nem o menor desdouro no
segundo. Era a passividade do somnambulo. Não tinha vaidades. O pai
armou-me o casamento para ter um genro doutor; ella, não; aceitou-me
como aceitaria um sachristão, um magistrado, um general, um empregado
publico, um alferes e não por impaciencia de casar, mas por obediencia á
familia, e, até certo ponto, para fazer como as outras.{42} Usavam-se
maridos; ella queria usar tambem o seu. Nada mais antipathico á minha
propria natureza; mas estava casado.

Felizmente—ah! um felizmente n'este ultimo capitulo de um caipora, é,
na verdade, uma anomalia; mas vão lendo, e verão que o adverbio pertence
ao estylo, não á vida; é um modo de transição e nada mais. O que vou dizer
não altera o que está dito. Vou dizer que as qualidades domesticas de Rufina
davam-lhe muito merito. Era modesta; não amava bailes, nem passeios,
nem janellas. Vivia comsigo. Não mourejava em casa, nem era preciso; para
dar-lhe tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chapéus, tudo vinha «das
francezas», como então se dizia, em vez de modistas. Rufina, no intervallo
das ordens que dava, sentava-se horas e horas, bocejando o espirito,
matando o tempo, uma hydra de cem cabeças, que não morria nunca; mas,
repito, com todas essas lacunas, era boa dona de casa. Pela minha parte,
estava no papel das rãs que queriam um rei; a differença é que, mandando-
me Jupiter um cepo, não lhe pedi outro, por que viria a cobra e engolia-me.
Viva o cepo! disse commigo. Nem conto estas cousas, senão para mostrar a
logica e a constancia do meu destino.{43}

Outro felizmente; e este não é só uma transição de phrase. No fim de
anno e meio, abotoou no horisonte uma esperança, e, a calcular pela
commoção que me deu a noticia, uma esperança suprema e unica. Era o
desejado que chegava. Que desejado? um filho. A minha vida mudou logo.
Tudo me sorria como um dia de noivado. Preparei-lhe um recebimento
regio; comprei-lhe um rico berço, que me custou bastante; era de ebano e
marfim, obra acabada; depois, pouco a pouco, fui comprando o enxoval;
mandei-lhe coser as mais finas cambraias, as mais quentes flanellas, uma
linda touca de renda, comprei-lhe um carrinho, e esperei, esperei, prompto a
bailar diante d'elle, como David diante da arca... Ai, caipora! a arca entrou
vasia em Jerusalem; o pequeno nasceu morto.

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Quem me consolou no mallogro foi o Gonçalves, que devia ser padrinho
do pequeno, e era amigo, comensal e confidente nosso. Tem paciencia,
disse-me, serei padrinho do que vier. E confortava-me, fallava-me de outras
cousas, com ternura de amigo. O tempo fez o resto. O proprio Gonçalves
advertiu-me depois que, se o pequeno tinha de ser caipora, como eu dizia
que era, melhor foi que nascesse morto.{44}

—E pensas que não? redargui.

Gonçalves sorriu; elle não acreditava no meu caiporismo. Verdade é que
não tinha tempo de acreditar em nada; todo era pouco para ser alegre.
Afinal, começára a converter-se á advocacia, já arrasoava autos, já
minutava petições, já ia ás audiencias, tudo porque era preciso viver, dizia
elle. E alegre sempre. Minha mulher achava-lhe muita graça, ria
longamente dos ditos d'elle, e das anecdotas, que ás vezes eram picantes
demais. Eu, a principio, reprehendia-o em particular, mas acostumei-me a
ellas. E depois, quem é que não perdoa as facilidades de um amigo, e de um
amigo jovial? Devo dizer que elle mesmo se foi refreando, e d'alli a algum
tempo, comecei a achar-lhe muita seriedade. Estás namorado, disse-lhe um
dia; e elle, empallidecendo, respondeu que sim, e accrescentou sorrindo,
embora frouxamente, que era indispensavel casar tambem. Eu, á mesa,
fallei do assumpto.

—Rufina, você sabe que o Gonçalves vai casar?

—É caçoada d'elle, interrompeu vivamente o Gonçalves.

Dei ao diabo a minha indiscrição, e não fallei mais n'isso; nem elle.
Cinco mezes depois... A transição{45} é rapida; mas não ha meio de a fazer
longa. Cinco mezes depois, adoeceu Rufina, gravemente, e não resistiu oito
dias; morreu de uma febre perniciosa.

Cousa singular:—em vida, a nossa divergencia moral trazia a frouxidão
dos vinculos, que se sustinham principalmente da necessidade e do
costume. A morte, com o seu grande poder espiritual, mudou tudo; Rufina
appareceu-me como a esposa que desce do Libano, e a divergencia foi
substituida pela total fusão dos seres. Peguei da imagem, que enchia a
minha alma, e enchi com ella a vida, onde outr'ora occupára tão pouco

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espaço e por tão pouco tempo. Era um desafio á má estrella; era levantar o
edificio da fortuna em pura rocha indestructivel. Comprehendam-me bem;
tudo o que até então dependia do mundo exterior, era naturalmente precario:
as telhas cahiam com o abalo das redes, as sobrepellizes recusavam-se aos
sachristães, os juramentos das viuvas fugiam com os dogmas dos amigos, as
demandas vinham tropegas ou iam-se de mergulho; emfim, as crianças
nasciam mortas. Mas a imagem de uma defunta era immortal. Com ella
podia desafiar o olhar obliquo do mau destino. A felicidade estava nas
minhas mãos, presa, vibrando no ar as grandes azas de{46} condor, ao passo
que o caiporismo, semelhante a uma coruja, batia as suas na direcção da
noite e do silencio...

Um dia, porém, convalescendo de uma febre, deu-me na cabeça
inventariar uns objectos da finada e comecei por uma caixinha, que não fora
aberta, desde que ella morreu, cinco mezes antes. Achei uma multidão de
cousas minusculas, agulhas, linhas, entremeios, um dedal, uma tesoura, uma
oração de S. Cypriano, um rol de roupa, outras quinquilharias, e um maço
de cartas, atado por uma fita azul. Deslacei a fita e abri as cartas: eram do
Gonçalves... Meio dia! Urge acabar; o moleque póde vir, e adeus. Ninguem
imagina como o tempo corre nas circumstancias em que estou; os minutos
voam como se fossem imperios, e, o que é importante n'esta occasião, as
folhas de papel vão com elles.

Não conto os bilhetes brancos, os negocios abortados, as relações
interrompidas; menos ainda outros acintes infimos da fortuna. Cansado e
aborrecido, entendi que não podia achar a felicidade em parte nenhuma; fui
além: acreditei que ella não existia na terra, e preparei-me desde hontem
para o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um{47}
charuto, e debrucei-me á janella. No fim de dez minutos, vi passar um
homem bem trajado, fitando a miudo os pés. Conhecia-o de vista; era uma
victima de grandes revezes, mas ia risonho, e contemplava os pés, digo mal,
os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e
provavelmente cosidos a primor. Elle levantava os olhos para as janellas,
para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei de attracção,
anterior e superior á vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a expressão da
bemaventurança. Evidentemente era feliz; e, talvez, não tivesse almoçado;

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talvez mesmo não levasse um vintém no bolso. Mas ia feliz, e contemplava
as botas.

A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão esbofeteado pela
vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma
preoccupação d'este seculo, nenhum problema social ou moral, nem as
alegrias da geração que começa, nem as tristezas da que termina, miseria ou
guerra de classes, crises da arte e da politica, nada vale, para elle, um par de
botas. Elle fita-as, elle respira-as, elle reluz com ellas, elle calca com ellas o
chão de um globo que lhe pertence. D'ahi o orgulho das attitudes, a{48}
rigidez dos passos, e um certo ar de tranquillidade olympica... Sim, a
felicidade é um par de botas.

Não é outra a explicação do meu testamento. Os superficiaes dirão que
estou doudo, que o delirio do suicida define a clausula do testador; mas eu
fallo para os sapientes e para os malfadados. Nem colhe a objecção de que
era melhor gastar commigo as botas, que lego aos outros; não, porque seria
unico. Distribuindo-as, faço um certo numero de venturosos. Eia, caiporas!
que a minha ultima vontade seja cumprida. Boa noite, e calçai-vos!

FIM DO ULTIMO CAPITULO.

{49}

CANTIGA DE ESPONSAES

Page 37

Imagine a leitora que está em 1813, na egreja do Carmo, ouvindo uma
daquellas boas festas antigas, que eram todo o recreio publico e toda a arte
musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria
uma missa cantada daquelles annos remotos. Não lhe chamo a attenção para
os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem para os olhos das moças
cariocas, que já eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das
senhoras graves, os calções, as cabelleiras, as sanefas, as luzes, os incensos,
nada. Não fallo sequer da orchestra, que é excellente; limito-me a mostrar-
lhes uma cabeça branca, a cabeça desse velho que rege a orchestra, com
alma e devoção.

Chama-se Romão Pires; terá sessenta annos, não menos, nasceu no
Vallongo, ou por esses lados. É bom musico e bom homem; todos os
musicos gostam delle. Mestre Romão é o nome familiar; e dizer{50} familiar
e publico era a mesma cousa em tal materia e naquelle tempo. «Quem rege
a missa é mestre Romão,»—equivalia a esta outra forma de annuncio, annos
depois: «Entra em scena o actor João Caetano»;—ou então: «O actor
Martinho cantará uma de suas melhores arias». Era o tempero certo, o
chamariz delicado e popular. Mestre Romão rege a festa! Quem não
conhecia mestre Romão, com o seu ar circumspecto, olhos no chão, riso
triste, e passo demorado? Tudo isso desapparecia á frente da orchestra;
então a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o
olhar accendia-se, o riso illuminava-se: era outro. Não que a missa fosse
delle; esta, por exemplo, que elle rege agora no Carmo é de José Mauricio;
mas elle rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa fosse sua.

Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso, e deixasse o rosto
apenas allumiado da luz ordinaria. Eil-o que desce do côro, apoiado na
bengala; vae á sacristia beijar a mão aos padres e aceita um logar á mesa do
jantar. Tudo isso indifferente e calado. Jantou, saiu, caminhou para a rua da
Mãi dos Homens, onde reside, com um preto velho, pae José, que é a sua
verdadeira mãe, e que neste momento conversa com uma visinha.{51}

—Mestre Romão lá vem, pae José, disse a visinha.

—Eh! eh! adeus, sinhá, até logo.

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Pae José deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que d'ahi a
pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa não era rica
naturalmente; nem alegre. Não tinha o menor vestigio de mulher, velha ou
moça, nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou
jocundas. Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre
Romão tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao pé, alguns
papeis de musica; nenhuma d'elle...

Ah! se mestre Romão podesse seria um grande compositor. Parece que ha
duas sortes de vocação, as que tem lingua e as que a não tem. As primeiras
realisam-se; as ultimas representam uma luta constante e esteril entre o
impulso interior e a ausencia de um modo de communicação com os
homens. Romão era d'estas. Tinha a vocação intima da musica; trazia dentro
de si muitas operas e missas, um mundo de harmonias novas e originaes,
que não alcançava exprimir e pôr no papel. Esta era a causa unica da
tristeza de mestre Romão. Naturalmente o vulgo não atinava com ella; uns
diziam isto, outros{52} aquillo: doença, falta de dinheiro, algum desgosto
antigo; mas a verdade é esta:—a causa da melancholia de mestre Romão era
não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia. Não é que
não rabiscasse muito papel e não interrogasse o cravo, durante horas; mas
tudo lhe sahia informe, sem idéa nem harmonia. Nos ultimos tempos tinha
até vergonha da visinhança, e não tentava mais nada.

E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa peça, um canto
esponsalicio, começado tres dias depois de casado, em 1779. A mulher, que
tinha então vinte e um annos, e morreu com vinte e tres, não era muito
bonita, nem pouco, mas extremamente sympathica, e amava-o tanto como
elle a ella. Tres dias depois de casado, mestre Romão sentiu em si alguma
cousa parecida com inspiração. Ideou então o canto esponsalicio, e quiz
compol-o; mas a inspiração não pode sahir. Como um passaro que acaba de
ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima,
impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso musico, encerrada
n'elle sem poder sair, sem achar uma porta, nada. Algumas notas chegaram
a ligar-se; elle escreveu-as; obra de uma folha de papel, não mais. Teimou
no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes durante o{53} tempo de casado.
Quando a mulher morreu, elle releu essas primeiras notas conjugaes, e ficou

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ainda mais triste, por não ter podido fixar no papel a sensação da felicidade
extincta.

—Pae José, disse elle ao entrar, sinto-me hoje adoentado.

—Sinhô comeu alguma cousa que fez mal...

—Não; já de manhã não estava bom. Vae á botica...

O boticario mandou alguma cousa, que elle tomou á noite; no dia
seguinte mestre Romão não se sentia melhor. É preciso dizer que elle
padecia do coração:—molestia grave e chronica. Pae José ficou atterrado,
quando viu que o incommodo não cedera ao remedio, nem ao repouso, e
quiz chamar o medico.

—Para que? disse o mestre. Isto passa.

O dia não acabou peor; e a noite supportou-a elle bem, não assim o preto,
que mal pôde dormir duas horas. A visinhança, apenas soube do
incommodo, não quiz outro motivo de palestra; os que entretinham relações
com o mestre foram visital-o. E diziam-lhe que não era nada, que eram
macacoas do tempo; um accrescentava graciosamente que era manha, para
fugir aos capotes que o boticario lhe dava no gamão,—outro que eram
amores. Mestre{54} Romão sorria, mas comsigo mesmo dizia que era o
final.

—Está acabado, pensava elle.

Um dia de manhã, cinco depois da festa, o medico achou-o realmente
mal; e foi isso o que elle lhe viu na physionomia por traz das palavras
enganadoras:—Isto não é nada; é preciso não pensar em musicas...

Em musicas! justamente esta palavra do medico deu ao mestre um
pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde
guardava desde 1779 o canto esponsalicio começado. Releu essas notas
arrancadas a custo, e não concluidas. E então teve uma idéa singular:—
rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que
deixasse um pouco de alma na terra.

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—Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que um mestre
Romão...

O principio do canto rematava em um certo lá; este lá, que lhe cahia bem
no logar, era a nota derradeiramente escripta. Mestre Romão ordenou que
lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal: era-lhe
preciso ar. Pela janella viu na janella dos fundos de outra casa dous
casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos{55}
hombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza.

—Aquelles chegam, disse elle, eu saio. Comporei ao menos este canto
que elles poderão tocar...

Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao la...

—Lá, lá, lá...

Nada, não passava adeante. E comtudo, elle sabia musica como gente.

—Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó, ré... ré... ré...

Impossivel! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente
original, mas emfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao
pensamento começado. Voltava ao principio, repetia as notas, buscava
rehaver um retalho da sensação estincta, lembrava-se da mulher, dos
primeiros tempos. Para completar a illusão, deitava os olhos pela janella
para o lado dos casadinhos. Estes continuavam alli, com as mãos presas e os
braços passados nos hombros um do outro; a differença é que se miravam
agora, em vez de olhar para baixo. Mestre Romão, offegante da molestia e
de impaciencia, tornava ao cravo; mas a vista do casal não lhe supprira a
inspiração, e as notas seguintes não soavam.

—Lá... lá... lá...{56}

Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escripto e rasgou-o. Nesse
momento, a moça embebida no olhar do marido, começou a cantarolar á
toa, inconscientemente, uma cousa nunca antes cantada nem sabida, na qual
cousa um certo lá trazia apoz si uma linda phrase musical, justamente a que

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mestre Romão procurára durante annos sem achar nunca. O mestre ouviu-a
com tristeza, abanou a cabeça, e á noite expirou.

FIM DA CANTIGA DOS ESPONSAES.

{57}

SINGULAR OCCURRENCIA

—Ha occurencias bem singulares. Está vendo aquella dama que vai
entrando na egreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.

—De preto?

—Justamente; lá vai entrando; entrou.

—Não ponha mais na carta. Esse olhar está dizendo que a dama é uma
sua recordação de outro tempo, e não ha de ser de muito tempo, a julgar
pelo corpo: é moça de truz.

—Deve ter quarenta e seis annos.

—Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão, e conte-me
tudo. Está viuva, naturalmente?

—Não.

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—Bem; o marido ainda vive. É velho?

—Não é casada.

—Solteira?

—Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria{58} de tal. Em 1860
florescia com o nome familiar de Marocas. Não era costureira, nem
proprietaria, nem mestra de meninas; vá excluindo as profissões e lá
chegará. Morava na rua do Sacramento. Já então era esbelta, e,
seguramente, mais linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa. Na
rua, com o vestido afogado, escorrido, sem espavento, arrastava a muitos,
ainda assim.

—Por exemplo, ao senhor.

—Não, mas ao Andrade, um amigo meu, de vinte e seis annos, meio
advogado, meio politico, nascido nas Alagoas, e casado na Bahia, d'onde
viera em 1859. Era bonita a mulher d'elle, affectuosa, meiga e resignada;
quando os conheci, tinham uma filhinha de dois annos.

—Apezar d'isso, a Marocas...?

—É verdade, dominou-o. Olhe, se não tem pressa conto-lhe uma cousa
interessante.

—Diga.

—A primeira vez que elle a encontrou, foi á porta da loja Paula Brito, no
Rocio. Estava alli viu a distancia uma mulher bonita, e esperou, já
alvoraçado, porque elle tinha em alto grau a paixão das mulheres. Marocas
vinha andando, parando e olhando como quem procura alguma casa.
Defronte da loja{59} deteve-se um instante; depois, envergonhada e a medo,
estendeu um pedacinho de papel ao Andrade, e perguntou-lhe onde ficava o
numero alli escripto, Andrade disse-lhe que do outro lado do Rocio, e
ensinou-lhe a altura provavel da casa. Ella cortejou com muita graça; elle
ficou sem saber o que pensasse da pergunta.

Page 43

—Como eu estou.

—Nada mais simples: Marocas não sabia ler. Elle não chegou a suspeital-
o. Viu-a atravessar o Rocio, que ainda não tinha estatua nem jardim, e ir á
casa que buscava, ainda assim perguntando em outras. De noite foi ao
Gymnasio, dava-se a Dama das Camelias; Marocas estava lá, e, no ultimo
acto, chorou como uma criança. Não lhe digo nada; no fim de quinze dias
amavam-se loucamente. Marocas despediu todos os seus namorados, e creio
que não perdeu pouco; tinha alguns capitalistas bem bons. Ficou só,
sosinha, vivendo para o Andrade, não querendo outra affeição, não
cogitando de nenhum outro interesse.

—Como a dama das Camelias.

—Justo. Andrade ensinou-lhe a ler. Estou mestre-escola, disse-me elle
um dia; e foi então que me contou a anecdota do Rocio. Marocas aprendeu
depressa.{60} Comprehende-se; o vexame de não saber, o desejo de
conhecer os romances em que elle lhe fallava, e finalmente o gosto de
obedecer a um desejo d'elle, de lhe ser agradavel... Não me encobriu nada;
contou-me tudo com um riso de gratidão nos olhos, que o senhor não
imagina. Eu tinha a confiança de ambos. Jantavamos ás vezes os tres juntos;
e... não sei por que negal-o,—algumas vezes os quatro. Não cuide que eram
jantares de gente pandega; alegres, mas honestos. Marocas gostava da
linguagem afogada, como os vestidos. Pouco a pouco estabeleceu-se
intimidade entre nós; ella interrogava-me ácerca da vida do Andrade, da
mulher, da filha, dos habitos d'elle, se gostava devéras d'ella, ou se era um
capricho, se tivera outros, se era capaz de a esquecer, uma chuva de
perguntas, e um receio de o perder, que mostravam a força e a sinceridade
da affeição... Um dia, uma festa de S. João, o Andrade acompanhou a
familia á Gavea, onde ia assistir a um jantar e um baile; dous dias de
ausencia. Eu fui com elles. Marocas, ao despedir-se, recordou a comedia
que ouvira algumas semanas antes no Gymnasio—Janto com minha mãi—e
disse-me que, não tendo familia para passar a festa de S. João, ia fazer
como a Sophia Arnoult da comedia, ia jantar com um retrato;{61} mas não
seria o da mãi, porque não tinha, e sim do Andrade. Este dito ia-lhe
rendendo um beijo; o Andrade chegou a inclinar-se; ella, porém, vendo que
eu estava alli, afastou-o delicadamente com a mão.

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—Gosto d'esse gesto.

—Elle não gostou menos. Pegou-lhe na cabeça com ambos as mãos, e,
paternalmente, pingou-lhe o beijo na testa. Seguimos para a Gavea. De
caminho disse-me a respeito da Marocas as maiores finezas, contou-me as
ultimas Moleiras de ambos, fallou-me do projecto que tinha de comprar-lhe
uma casa em algum arrabalde, logo que pudesse dispôr de dinheiro; e, de
passagem, elogiou a modestia da moça, que não queria receber d'elle mais
do que o estrictamente necessario. Ha mais do que isso, disse-lhe eu; e
contei-lhe uma cousa que sabia, isto é, que cerca de tres semanas antes, a
Marocas empenhára algumas joias para pagar uma conta da costureira. Esta
noticia abalou-o muito; não juro, mas creio que ficou com os olhos
molhados. Em todo caso, depois de cogitar algum tempo, disse-me que
definitivamente ia arranjar-lhe uma casa e pôl-a ao abrigo da miseria. Na
Gavea ainda fallámos da Marocas, até que as festas acabaram, e nós
voltámos. O Andrade deixou a familia{62} em casa, na Lapa, e foi ao
escriptorio aviar alguns papeis urgentes. Pouco depois do meio-dia
appareceu-lhe um tal Leandro ex-agente de certo advogado a pedir-lhe,
como de costume, dois ou tres mil réis. Era um sugeito réles e vadio. Vivia
a explorar os amigos do antigo patrão. Andrade deu-lhe tres mil réis, e,
como o visse excepcionalmente risonho, perguntou-lhe se tinha visto
passarinho verde. O Leandro piscou os olhos e lambeu os beiços: o
Andrade, que dava o cavaco por anedoctas eroticas, perguntou-lhe se eram
amores. Elle mastigou um pouco, e confessou que sim.

—Olhe; lá vem ella sahindo: não é ella?

—Ella mesma; afastemo-nos da esquina.

—Realmente, deve ter sido muito bonita. Tem um ar de duqueza.

—Não olhou para cá; não olha nunca para os lados. Vai subir pela rua do
Ouvidor...

—Sim, senhor. Comprehendo o Andrade.

—Vamos ao caso. O Leandro confessou que tivera na vespera uma
fortuna rara, ou antes unica, uma cousa que elle nunca esperara achar, nem

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merecia mesmo, porque se conhecia e não passava de um pobre diabo. Mas,
emfim, os pobres tambem são filhos de Deus. Foi o caso que, na vespera,
perto das{63} dez horas da noite, encontrara no Rocio uma dama vestida
com simplicidade, vistosa de corpo, e muito embrulhada n'um chale grande.
A dama vinha atraz d'elle, e mais depressa; ao passar rentesinha com elle,
fitou-lhe muito os olhos, e foi andando de vagar, como quem espera. O
pobre diabo imaginou que era engano de pessoa; confessou ao Andrade que,
apezar da roupa simples, viu logo que não era cousa para os seus beiços.
Foi andando; a mulher, parada, fitou-o outra vez, mas com tal instancia, que
elle chegou a atrever-se um pouco; ella atreveu-se o resto... Ah! um anjo! E
que casa, que sala rica! Cousa papafina. E depois o desinteresse... «Olhe,
accrescentou elle, para V. S. é que era um bom arranjo.» Andrade abanou a
cabeça; não lhe cheirava o comborço. Mas o Leandro teimou; era na rua do
Sacramento, numero tantos...

—Não me diga isso!

—Imagine como não ficou o Andrade. Elle mesmo não soube o que fez
nem o que disse durante os primeiros minutos, nem o que pensou nem o que
sentiu. Afinal teve força para perguntar se era verdade o que estava
contando; mas o outro advertiu que não tinha nenhuma necessidade de
inventar semelhante cousa; vendo, porém, o alvoroço do Andrade, pediu-
lhe{64} segredo, dizendo que elle, pela sua parte, era discreto. Parece que ia
sahir; Andrade deteve-o, e propôz-lhe um negocio; propôz-lhe ganhar vinte
mil réis.—«Prompto!»—«Dou-lhe vinte mil réis, se você for commigo á
casa d'essa moça e disser em presença d'ella que é ella mesma.»

—Oh!

—Não defendo o Andrade; a cousa não era bonita; mas a paixão, n'esse
caso, céga os melhores homens. Andrade era digno, generoso, sincero; mas
o golpe fora tão profundo, e elle amava-a tanto, que não recuou diante de
uma tal vingança.

—O outro aceitou?

—Hesitou um pouco, estou que por medo, não por dignidade; mas vinte
mil réis... Poz uma condição: não mettel-o em barulhos... Marocas estava na

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sala, quando o Andrade entrou. Caminhou para a porta, na intenção de o
abraçar; mas o Andrade advertiu-a, com o gesto, que trazia alguem. Depois,
fitando-a muito, fez entrar o Leandro; Marocas empallideceu.—«É esta
senhora?» perguntou elle.—«Sim, senhor», murmurou o Leandro com voz
sumida, porque ha acções ainda mais ignobeis do que o proprio homem que
as commette. Andrade abriu a carteira com grande afectação, tirou uma{65}
nota de vinte mil réis e deu-lh'a; e, com a mesma affectação, ordenou-lhe
que se retirasse. O Leandro sahiu. A scena que se seguiu, foi breve, mas
dramatica. Não a soube inteiramente, porque o proprio Andrade é que me
contou tudo, e, naturalmente, estava tão atordoado, que muita cousa lhe
escapou. Ella não confessou nada; mas estava fóra de si, e, quando elle,
depois de lhe dizer as cousas mais duras do mundo, atirou-se para a porta,
ella rojou-se-lhe aos pés, agarrou-lhe as mãos, lacrimosa, desesperada,
ameaçando matar-se; e ficou atirada ao chão, no patamar da escada; elle
desceu vertiginosamente e sahiu.

—Na verdade, um sugeito réles, apanhado na rua; provavelmente eram
habitos d'ella?

—Não.

—Não?

—Ouça o resto. De noite seriam oito horas, o Andrade veiu á minha casa,
e esperou por mim. Já me tinha procurado tres vezes. Fiquei estupefacto;
mas como duvidar, se elle tivera a precaução de levar a prova até á
evidencia? Não lhe conto o que ouvi, os planos de vingança, as
exclamações, os nomes que lhe chamou, todo o estylo e todo o repertorio
d'essas crises. Meu conselho foi que a deixasse; que, afinal,{66} vivesse para
a mulher e a filha, a mulher tão boa, tão meiga... Elle concordava, mas
tornava ao furor. Do furor passou á duvida; chegou a imaginar que a
Marocas, com o fim de o experimentar, inventára o artificio e pagára ao
Leandro para vir dizer-lhe aquillo; e a prova é que o Leandro, não querendo
elle saber quem era, teimou e lhe disse a casa e o numero. E agarrado a esta
inverosimelhança, tentava fugir á realidade; mas a realidade vinha—a
pallidez de Marocas, a alegria sincera do Leandro, tudo o que lhe dizia que
a aventura era certa. Creio até que elle arrependia-se de ter ido tão longe.

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Quanto a mim, cogitava na aventura, sem atinar com a explicação. Tão
modesta! maneiras tão acanhadas!

—Ha uma phrase de theatro que pode explicar a aventura, uma phrase de
Augier, creio eu: «a nostalgia da lama.»

—Acho que não; mas vá ouvindo. Ás dez horas appareceu-nos em casa
uma criada de Marocas, uma preta forra, muito amiga da ama. Andava
afflicta em procura do Andrade, porque a Marocas, depois de chorar muito,
trancada no quarto, sahiu de casa sem jantar, e não voltára mais. Contive o
Andrade, cujo primeiro gesto foi para sahir logo. A preta pedia-nos por
tudo, que fossemos descobrir a ama.{67} «Não é costume d'ella sahir?»
perguntou o Andrade com sarcasmo. Mas a preta disse que não era costume.
«Está ouvindo?» bradou elle para mim. Era a esperança que de novo
empolgára o coração do pobre diabo. «E hontem?...» disse eu. A preta
respondeu que na vespera sim; mas não lhe perguntei mais nada, tive
compaixão do Andrade, cuja afflicção crescia, e cujo pundonor ia cedendo
diante do perigo. Sahimos em busca da Marocas; fomos a todas as casas em
que era possivel encontral-a; fomos á policia; mas a noite passou-se sem
outro resultado. De manhã voltámos á policia. O chefe ou um dos
delegados, não me lembra, era amigo do Andrade, que lhe contou da
aventura a parte conveniente; aliás a ligação do Andrade e da Marocas era
conhecida de todos os seus amigos. Pesquizou-se tudo; nenhum desastre se
déra durante a noite; as barcas da Praia Grande não viram cahir ao mar
nenhum passageiro; as casas de armas não venderam nenhuma; as boticas
nenhum veneno. A policia poz em campo todos os seus recursos, e nada.
Não lhe digo o estado de afflicção em que o pobre Andrade viveu durante
essas longas horas, porque todo o dia se passou em pesquizas inuteis. Não
era só a dor de a perder; era tambem o remorso, a duvida, ao menos, da
consciencia,{68} em presença de um possivel desastre, que parecia justificar
a moça. Elle perguntava-me, a cada passo se não era natural fazer o que fez,
no delirio da indignação, se eu não faria a mesma cousa. Mas depois
tornava a affirmar a aventura, e provava-me que era verdadeira, com o
mesmo ardor com que na vespera tentara provar que era falsa; o que elle
queria era acommodar a realidade ao sentimento da occasião.

—Mas, emfim, descobriram a Marocas?

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—Estavamos comendo alguma cousa, em um hotel, eram perto de oito
horas, quando recebemos noticia de um vestigio:—um cocheiro que levára
na vespera uma senhora para o Jardim Botanico, onde ella entrou em uma
hospedaria, e ficou. Nem acabámos o jantar; fomos no mesmo carro ao
Jardim Botanico. O dono da hospedaria confirmou a versão; accrescentando
que a pessoa se recolhera a um quarto, não comera nada desde que chegou
na vespera; apenas pediu uma chicara de café; parecia profundamente
abatida. Encaminhámo-nos para o quarto; o dono da hospedaria bateu á
porta; ella respondeu com voz fraca, e abriu. O Andrade nem me deu tempo
de preparar nada; empurrou-me, e cahiram nos braços um do outro.
Marocas chorou muito e perdeu os sentidos.{69}

—Tudo se explicou?

—Cousa nenhuma. Nenhum d'elles tornou ao assumpto; livres de um
naufragio, não quizeram saber nada da tempestade que os metteu a pique. A
reconciliação fez-se depressa. O Andrade comprou-lhe, mezes depois, uma
casinha em Catumby; a Marocas deu-lhe um filho, que morreu de dois
annos. Quando elle seguia para o norte, em commissão do governo, a
affeição era ainda a mesma, posto que os primeiros ardores não tivessem já
a mesma intensidade. Não obstante, ella quiz ir tambem; fui eu que a
obriguei a ficar. O Andrade contava tornar ao fim de pouco tempo, mas,
como lhe disse, morreu na provincia. A Marocas sentiu profundamente a
morte, poz luto, e considerou-se viuva; sei que nos tres primeiros annos,
ouvia sempre uma missa no dia anniversario. Ha dez annos perdi-a de vista.
Que lhe parece tudo isto?

—Realmente, ha occurrencias bem singulares, se o senhor não abusou da
minha ingenuidade de rapaz para imaginar um romance...

—Não inventei nada; é a realidade pura.

—Pois, senhor, é curioso. No meio de uma paixão tão ardente, tão
sincera... Eu ainda estou na minha; acho que foi a nostalgia da lama.{70}

—Não: nunca a Marocas desceu até os Leandros.

—Então por que desceria n'aquella noite?

Page 49

—Era um homem que ella suppunha separado, por um abysmo, de todas
as suas relações pessoaes; d'ahi a confiança. Mas o acaso, que é um deus e
um diabo ao mesmo tempo... Emfim, cousas!

FIM DA SINGULAR OCCURRENCIA.

{71}

GALERIA POSTHUMA

Page 50

I

Não, não se descreve a consternação que produziu em todo o Engenho
Velho, e particularmente no coração dos amigos, a morte de Joaquim
Fidelis. Nada mais inesperado. Era robusto, tinha saude de ferro, e ainda na
vespera fôra a um baile, onde todos o viram conversado e alegre. Chegou a
dansar, a pedido de uma senhora sexagenaria, viuva de um amigo d'elle, que
lhe tomou do braço, e lhe disse:

—Venha cá, venha cá, vamos mostrar a estes criançolas como é que os
velhos são capazes de desbancar tudo.

Joaquim Fidelis protestou sorrindo; mas obedeceu e dansou. Eram duas
horas quando sahiu, embrulhando os seus sessenta annos n'uma capa grossa,
—estavamos em junho de 1879—mettendo a calva na{72} carapuça,
accendendo um charuto, e entrando lepidamente no carro.

No carro é possivel que conchilasse; mas, em casa, máu grado a hora e o
grande peso das palpebras, ainda foi a secretária, abriu uma gaveta, tirou
um de muitos folhetos manuscriptos,—e escreveu durante tres ou quatro
minutos umas dez ou onze linhas. As ultimas palavras eram estas: «Em
summa, baile chinfrim; uma velha gaiteira obrigou-me a dansar uma
quadrilha; á porta um crioulo pediu-me as festas. Chinfrim!» Guardou o
folheto, despiu-se, metteu-se na cama, dormiu e morreu.

Sim, a noticia consternou a todo o bairro. Tão amado que elle era, com os
modos bonitos que tinha, sabendo conversar com toda a gente, instruido
com os instruidos, ignorante com os ignorantes, rapaz com os rapazes, e até
moça com as moças. E depois, muito serviçal, prompto a escrever cartas, a
fallar a amigos, a concertar brigas, a emprestar dinheiro. Em casa d'elle
reuniam-se á noite alguns intimos da visinhança, e ás vezes de outros

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bairros; jogavam o voltarete ou o whist, fallavam de politica. Joaquim
Fidelis tinha sido deputado até á dissolução da camara pelo marquez de
Olinda, em 1863. Não conseguindo ser reeleito, abandonou a vida publica.
Era{73} conservador, nome que a muito custo admittiu, por lhe parecer
gallicismo politico. Saquarema é o que elle gostava de ser chamado. Mas
abriu mão de tudo; parece até que nos ultimos tempos desligou-se do
proprio partido, e afinal da mesma opinião. Ha razões para crêr que, de
certa data em diante, foi um profundo sceptico, e nada mais.

Era rico e lettrado. Formára-se em direito no anno de 1842. Agora não
fazia nada e lia muito. Não tinha mulheres em casa. Viuvo desde a primeira
invasão da febre amarella, recusou contrahir segundas nupcias, com grande
magoa de tres ou quatro damas, que nutriram essa esperança durante algum
tempo. Uma d'ellas chegou a prorogar perfidamente os seus bellos cachos
de 1845 até meiados do segundo neto; outra, mais moça e tambem viuva,
pensou retel-o com algumas concessões, tão generosas quão irreparaveis.
«Minha querida Leocadia, dizia elle nas occasiões em que ella insinuava a
solução conjugal, por que não continuaremos assim mesmo? O mysterio é o
encanto da vida.» Morava com um sobrinho, o Benjamim, filho de uma
irmã, orphão desde tenra idade. Joaquim Fidelis deu-lhe educação e fel-o
estudar, até obter diploma de bacharel em sciencias juridicas, no anno de
1877.{74}

Benjamim ficou atordoado. Não podia acabar de crer na morte do tio.
Correu ao quarto, achou o cadaver na cama, frio, olhos abertos, e um leve
arregaço ironico ao canto esquerdo da boca. Chorou muito e muito. Não
perdia um simples parente, mas um pai, um pai terno, dedicado, um coração
unico. Benjamim enxugou, emfim, as lagrimas; e, porque lhe fizesse mal
ver os olhos abertos do morto, e principalmente o labio arregaçado,
concertou-lhe ambas as cousas. A morte recebeu assim a expressão tragica;
mas a originalidade da mascara perdeu-se.

—Não me digam isto! bradava d'ahi a pouco um dos visinhos, Diogo
Villares, ao receber noticia do caso.

Diogo Villares era um dos cinco principaes familiares de Joaquim
Fidelis. Devia-lhe o emprego que exercia desde 1857. Veiu elle; vieram os
outros quatro, logo depois, um a um, estupefactos, incredulos. Primeiro

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chegou o Elias Xavier, que alcançára por intermedio do finado, segundo se
dizia, uma commenda; depois entrou o João Braz, deputado que foi, no
regimen das supplencias, eleito com o influxo do Joaquim Fidelis. Vieram,
emfim, o Fragoso e o Galdino, que lhe não deviam diplomas, commendas
nem empregos, mas outros favores. Ao{75} Galdino adiantou elle alguns
poucos capitaes, e ao Fragoso arranjou-lhe um bom casamento... E morto!
morto para todo sempre! De redor da cama, fitavam o rosto sereno e
recordavam a ultima festa, a do outro domingo, tão intima, tão expansiva!
E, mais perto ainda, a noite da ante-vespera, em que o voltarete do costume
foi até ás onze horas.

—Amanhã não venham, disse-lhes o Joaquim Fidelis; vou ao baile do
Carvalhinho.

—E depois?...

—Depois de amanhã, cá estou.

E, á sahida, deu-lhes ainda um maço de excellentes charutos, segundo
fazia ás vezes, com um accrescimo de doces seccos para os pequenos, e
duas ou tres pilherias finas... Tudo esvaido! tudo disperso! tudo acabado!

Ao enterro acudiram muitas pessoas gradas, dous senadores, um ex-
ministro, titulares, capitalistas, advogados, commerciantes, medicos; mas as
argolas do caixão foram seguras pelos cinco familiares e o Benjamim.
Nenhum d'elles quiz ceder a ninguem esse ultimo obsequio, considerando
que era um dever cordial e intransferivel. O adeus do cemiterio foi
proferido pelo João Braz, um adeus tocante, com algum excesso de estylo
para um caso tão urgente,{76} mas, emfim, desculpavel. Deitada a pá de
terra, cada um se foi arredando da cova, menos os seis, que assistiram ao
trabalho posterior e indifferente dos coveiros. Não arredaram pé antes de
vêr cheia a cova até acima, e depositadas sobre ellas as coroas funebres.

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II

A missa do setimo dia reuniu-os na igreja. Acabada a missa, os cinco
amigos acompanharam á casa o sobrinho do morto. Benjamim convidou-os
a almoçar.

—Espero que os amigos do tio Joaquim serão tambem meus amigos,
disse elle.

Entraram, almoçaram. Ao almoço fallaram do morto; cada um contou
uma anecdota, um dito; eram unanimes no louvor e nas saudades. No fim
do almoço, como tivessem pedido uma lembrança do finado, passaram ao
gabinete, e escolheram á vontade, este uma canneta velha, aquelle uma
caixa de oculos, um folheto, um retalho qualquer intimo, Benjamim sentia-
se consolado. Communicou-lhes que pretendia conservar o gabinete tal qual
estava.{77} Nem a secretária abrira ainda. Abriu-a então, e, com elles,
inventariou o conteudo de algumas gavetas. Cartas, papeis soltos,
programmas de concertos, menus de grandes jantares, tudo alli estava de
mistura e confusão. Entre outras cousas acharam alguns cadernos
manuscriptos, numerados e datados.

—Um diario! disse Benjamim.

Com effeito, era um diario das impressões do finado, especie de
memorias secretas, confidencias do homem a si mesmo. Grande foi a
commoção dos amigos; lêl-o era ainda conversal-o. Tão recto caracter! tão
discreto espirito! Benjamim começou a leitura; mas a voz embargou-se-lhe
depressa, e João Braz continuou-a.

O interesse do escripto adormeceu a dor do obito. Era um livro digno do
prelo. Muita observação politica e social, muita reflexão philosophica,

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anecdotas de homens publicos, do Feijó, do Vasconcellos, outras puramente
galantes, nomes de senhoras, o da Leocadia, entre outros; um repertorio de
factos e commentarios. Cada um admirava o talento do finado, as graças do
estylo, o interesse da materia. Uns opinavam pela impressão typographica;
Benjamim dizia que sim, com a condição de excluir alguma cousa, ou
inconveniente ou demasiado particular.{78} E continuavam a ler, saltando
pedaços e paginas, até que bateu meio-dia. Levantaram-se todos; Diogo
Villares ia já chegar á repartição fóra de horas; João Braz e Elias tinham
onde estar juntos. Galdino seguia para a loja. O Fragoso precisava mudar a
roupa preta, e acompanhar a mulher á rua do Ouvidor. Concordaram em
nova reunião para proseguir a leitura. Certas particularidades tinham-lhes
dado uma comichão de escandalo, e as comichões coçam-se: é o que elles
queriam fazer, lendo.

—Até amanhã, disseram.

—Até amanhã.

Uma vez só, Benjamim continuou a lêr o manuscripto. Entre outras
cousas, admirou o retrato da viuva Leocadia, obra-prima de paciencia e
semelhança, embora a data coincidisse com a dos amores. Era prova de uma
rara isenção de espirito. De resto, o finado era eximio nos retratos. Desde
1873 ou 1874, os cadernos vinham cheios d'elles, uns de vivos, outros de
mortos, alguns de homens publicos, Paula Souza, Aureliano, Olinda, etc.
Eram curtos e substanciaes, ás vezes trez ou quatro rasgos firmes, com tal
fidelidade e perfeição, que a figura parecia photographada. Benjamim ia
lendo; de repente deu{79} com o Diogo Villares. E leu estas poucas linhas:

«DIOGO VILLARES.—Tenho-me referido muitas vezes a este amigo, e fal-
o-hei algumas outras mais, se elle me não matar de tedio, cousa em que o
reputo profissional. Pediu-me ha annos que lhe arranjasse um emprego, e
arranjei-lh'o. Não me avisou da moeda em que me pagaria. Que singular
gratidão! Chegou ao excesso de compor um soneto e publical-o. Fallava-me
do obsequio a cada passo, dava-me grandes nomes; emfim, acabou. Mais
tarde relacionámo-nos intimamente. Conheci-o então ainda melhor. C'est le
genre ennuyeux. Não é mau parceiro de voltarete. Dizem-me que não deve
nada a ninguem. Bom pai de familia. Estupido e credulo. Com intervallo de
quatro dias, já lhe ouvi dizer de um ministerio que era excellente e

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detestavel:—differença dos interlocutores. Ri muito e mal. Toda a gente,
quando o vê pela primeira vez, começa por suppol-o um varão grave; no
segundo dia dá-lhe piparotes. A razão é a figura, ou, mais particularmente,
as bochechas, que lhe emprestam um certo ar superior.»

A primeira sensação do Benjamim foi a do perigo evitado. Se o Diogo
Villares estivesse alli? Releu o retrato e mal podia crer; mas não havia
negal-o,{80} era o proprio nome do Diogo Villares, era a mesma lettra do
tio. E não era o unico dos familiares; folheou o manuscripto e deu com o
Elias:

«ELIAS XAVIER.—Este Elias é um espirito subalterno, destinado a servir
alguem, e a servir com desvanecimento, como os cocheiros de casa
elegante. Vulgarmente trata as minhas visitas intimas com alguma
arrogancia e desdem: politica de lacaio ambicioso. Desde as primeiras
semanas, comprehendi que elle queria fazer-se meu privado; e não menos
comprehendi que, no dia que realmente o fosse, punha os outros no meio da
rua. Ha occasiões em que me chama a um vão da janella para fallar-me
secretamente do sol e da chuva. O fim claro é incutir nos outros a suspeita
de que ha entre nós cousas particulares, e alcança isso mesmo, porque todos
lhe rasgam muitas cortezias. É intelligente, risonho e fino. Conversa muito
bem. Não conheço comprehensão mais rapida. Não é poltrão nem
maldizente. Só falla mal de alguem, por interesse; faltando-lhe interesse,
cala-se; e a maledicencia legitima é gratuita. Dedicado e insinuante. Não
tem idéas, é verdade; mas ha esta grande differença entre elle e o Diogo
Villares:—o Diogo repete prompta e boçalmente as que ouve, ao passo que
o Elias sabe fazel-as{81} suas e plantal-as opportunamente na conversação.
Um caso de 1865 caracterisa bem a astucia d'este homem. Tendo dado
alguns libertos para a guerra do Paraguay, ia receber uma commenda. Não
precisava de mim; mas veiu pedir a minha intercessão, duas ou tres vezes,
com um ar consternado e supplice. Fallei ao ministro, que me disse:—«O
Elias já sabe que o decreto está lavrado; falta só a assignatura do
imperador.» Comprehendi então que era um estratagema para poder
confessar-me essa obrigação. Bom parceiro de voltarete; um pouco brigão,
mas entendido.»

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—Ora o tio Joaquim! exclamou Benjamim levantando-se. E depois de
alguns instantes, reflexionou comsigo:—Estou lendo um coração, livro
inedito. Conhecia a edição publica, revista e expurgada. Este é o texto
primitivo e interior, a lição exacta e authentica. Mas quem imaginaria
nunca... Ora o tio Joaquim!

E, tornando a sentar-se, releu tambem o retrato do Elias, com vagar,
meditando as feições. Posto lhe faltasse observação, para avaliar a verdade
do escripto, achou que em muitas partes, ao menos, o retrato era
semelhante. Cotejava essas notas iconographicas, tão cruas, tão seccas, com
as maneiras cordiaes e{82} graciosas do tio, e sentia-se tomado de um certo
terror e mau-estar. Elle, por exemplo, que teria dito delle o finado? Com
esta ideia, folheou ainda o manuscripto, passou por alto algumas damas,
alguns homens publicos, deu com o Fragoso,—um esboço curto e
curtissimo,—logo depois o Galdino, e quatro paginas adiante o João Braz.
Justamente o primeiro levára delle uma caneta, pouco antes, talvez a mesma
com que o finado o retratára. Curto era o esboço, e dizia assim:

«FRAGOSO.—Honesto, maneiras assucaradas e bonito. Não me custou
casal-o; vive muito bem com a mulher. Sei que me tem uma extraordinaria
adoração,—quasi tanta como a si mesmo. Conversação vulgar, polida e
chocha.»

«GALDINO MADEIRA.—O melhor coração do mundo e um caracter sem
macula; mas as qualidades do espirito destroem as outras. Emprestei-lhe
algum dinheiro, por motivo da familia, e porque me não fazia falta. Ha no
cerebro d'elle um certo furo, por onde o espirito escorrega e cai no vacuo.
Não reflecte tres minutos seguidos. Vive principalmente de imagens, de
phrases translatas. Os «dentes da calumnia» e outras expressões, surradas
como colchões de hospedaria, são os seus encantos. Mortifica-se{83}
facilmente no jogo, e, uma vez mortificado, faz timbre em perder, e em
mostrar que é de proposito. Não despede os maus caixeiros. Se não tivesse
guarda-livros, é duvidoso que sommasse os quebrados. Um subdelegado,
meu amigo, que lhe deveu algum dinheiro, durante dous annos, dizia-me
com muita graça, que o Galdino quando o via na rua, em vez de lhe pedir a
divida, pedia-lhe noticias do ministerio.»

Page 57

«JOÃO BRAZ.—Nem tolo nem bronco. Muito attencioso, embora sem
maneiras. Não póde ver passar um carro de ministro; fica pallido e vira os
olhos. Creio que é ambicioso; mas na edade em que está, sem carreira, a
ambição vai-se-lhe convertendo em inveja. Durante os dois annos em que
serviu de deputado, desempenhou honradamente o cargo: trabalhou muito, e
fez alguns discursos bons, não brilhantes, mas solidos, cheios de factos e
reflectidos. A prova de que lhe ficou um residuo de ambição, é o ardor com
que anda á cata de alguns cargos honorificos ou preeminentes; ha alguns
mezes consentiu em ser juiz de uma irmandade de S. José, e segundo me
dizem, desempenha o cargo com um zelo exemplar. Creio que é atheu, mas
não affirmo. Ri pouco e discretamente. A vida é pura e severa, mas o
caracter{84} tem uma ou duas cordas fraudulentas, a que só faltou a mão do
artista; nas cousas minimas, mente com facilidade.»

Benjamim, estupefacto, deu emfim comsigo mesmo.—«Este meu
sobrinho, dizia o manuscripto, tem vinte e quatro annos de edade, um
projecto de reforma judiciaria, muito cabello, e ama-me. Eu não o amo
menos. Discreto leal e bom,—bom até á credulidade. Tão firme nas
affeições como versatil nos pareceres. Superficial, amigo de novidades,
amando no direito o vocabulario e as formulas.»

Quiz reler, e não pôde; essas poucas linhas davam-lhe a sensação de um
espelho. Levantou-se, foi á janella, mirou a chacara e tornou dentro para
contemplar outra vez as suas feições. Contemplou-as; eram poucas, falhas,
mas não pareciam calumniosas. Se alli estivesse um publico, é provavel que
a mortificação do rapaz fosse menor, porque a necessidade de dissipar a
impressão moral dos outros dar-lhe-ia a força necessaria para reagir contra
o escripto; mas, a sós, comsigo, teve de supportal-o sem contraste. Então
considerou se o tio não teria composto essas paginas nas horas de máu
humor; comparou-as a outras em que a phrase era menos aspera, mas não
cogitou se alli a brandura vinha ou não de molde.{85}

Para confirmar a conjectura, recordou as maneiras usuaes do finado, as
horas de intimidade e riso, a sós com elle, ou de palestra com os demais
familiares. Evocou a figura do tio, com o olhar espirituoso e meigo, e a
pilheria grave; em logar d'essa, tão candida e sympathica, a que lhe
appareceu foi a do tio morto, estendido na cama, com os olhos abertos e o

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labio arregaçado. Sacudiu-a do espirito, mas a imagem ficou. Não podendo
rejeital-a, Benjamim tentou mentalmente fechar-lhe os olhos e concertar-lhe
a bocca; mas tão depressa o fazia, como a palpebra tornava a levantar-se, e
a ironia arregaçava o beiço. Já não era o homem, era o auctor do
manuscripto.

Benjamim jantou mal e dormiu mal. No dia seguinte, á tarde,
apresentaram-se os cinco familiares para ouvir a leitura. Chegaram
sofregos, anciosos; fizera-lhe muitas perguntas; pediram-lhe com instancia
para ver o manuscripto. Mas Benjamim tergiversava, dizia isto e aquillo,
inventava pretextos; por mal de peccados, appareceu-lhe na sala, por traz
d'elles, a eterna bocca do defunto, e esta circumstancia fel-o ainda mais
acanhado. Chegou a mostrar-se frio, para ficar só, e ver se com elles
desapparecia a visão. Assim se passaram trinta a quarenta minutos. Os cinco
olharam emfim uns para os outros, e deliberaram{86} sahir; despediram-se
ceremoniosamente, e foram conversando, para suas casas:

—Que differença do tio! que abysmo! a herança enfunou-o! deixal-o! ah!
Joaquim Fidelis! ah! Joaquim Fidelis!

FIM DA GALERIA POSTHUMA.

{87}

CAPITULO DOS CHAPÉOS

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GÉRONTE

Dans quel chapitre, s'il vous plait?

SCAGNARELLE

Dans le chapitre des chapeaux.

MOLIÈRE.

Musa, canta o despeito de Marianna, esposa do bacharel Conrado Seabra,
naquella manhã de abril de 1879. Qual a causa de tamanho alvoroço? Um
simples chapéo, leve, não deselegante, um chapéo baixo. Conrado,
advogado, com escriptorio na rua da Quitanda, trazia-o todos os dias á
cidade, ia com elle ás audiencias; só não o levava ás recepções, theatro
lyrico, enterros e visitas de ceremonia. No mais era constante, e isto desde
cinco ou seis annos, que tantos eram os do casamento. Ora, naquella
singular manhã de abril, acabado o almoço, Conrado começou a enrolar um
cigarro, e Marianna annunciou sorrindo que ia pedir-lhe uma cousa.{88}

—Que é, meu anjo?

—Você é capaz de fazer-me um sacrificio?

—Dez, vinte...

—Pois então não vá mais á cidade com aquelle chapéo.

—Porque? é feio?

—Não digo que seja feio; mas é cá para fóra, para andar na visinhança, á
tarde ou á noite, mas na cidade, um advogado, não me parece que...

—Que tolice, yayá!

—Pois sim, mas faz-me este favor, faz?

Conrado riscou um phosphoro, accendeu o cigarro, e fez-lhe um gesto de
gracejo, para desconversar; mas a mulher teimou. A teima, a principio
frouxa e supplice, tornou-se logo imperiosa e aspera. Conrado ficou
espantado. Conhecia a mulher; era, de ordinario, uma creatura passiva,

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meiga, de uma plasticidade de encommenda, capaz de usar com a mesma
divina indifferença tanto um diadema régio como uma touca. A prova é que,
tendo tido uma vida de andarilha nos ultimos dous annos de solteira, tão
depressa casou como se affez aos habitos quietos. Sahia ás vezes, e a maior
parte dellas por instancias do proprio consorte; mas só estava
commodamente em casa. Moveis, cortinas, ornatos suppriam-lhe os{89}
filhos; tinha-lhes um amor de mãe; e tal era a concordancia da pessoa com o
meio, que ella saboreava os trastes na posição occupada, as cortinas com as
dobras do costume, e assim o resto. Uma das tres janellas, por exemplo, que
davam para a rua vivia sempre meia aberta; nunca era outra. Nem o
gabinete do marido escapava ás exigencias monotonas da mulher, que
mantinha sem alteração a desordem dos livros, e até chegava a restaural-a.
Os habitos mentaes seguiam a mesma uniformidade. Marianna dispunha de
mui poucas noções, e nunca lêra se não os mesmos livros:—a Moreninha de
Macedo, sete vezes; Ivanhoe e o Pirata de Walter Scott, dez vezes; o Mot
de l'enigme, de Madame Craven, onze vezes.

Isto posto, como explicar o caso do chapéo? Na vespera, á noite,
emquanto o marido fôra a uma sessão do Instituto da Ordem dos
Advogados, o pae de Marianna veiu á casa d'elles. Era um bom velho,
magro, pausado, ex-funccionario publico, ralado de saudades do tempo em
que os empregados iam de casaca para as suas repartições. Casaca era o que
elle, ainda agora, levava aos enterros, não pela razão que o leitor suspeita, a
solemnidade da morte ou a gravidade da despedida ultima, mas por esta
menos{90} philosophica, por ser um costume antigo. Não dava outra, nem
da casaca nos enterros, nem do jantar ás duas horas, nem de vinte usos
mais. E tão afferrado aos habitos, que no anniversario do casamento da
filha, ia para lá ás seis horas da tarde, jantado e diggerido, via comer, e no
fim acceitava um pouco de doce, um calix de vinho e café. Tal era o sogro
de Conrado; como suppor que elle approvasse o chapéo baixo do genro?
Supportava-o calado, em attenção ás qualidades da pessoa; nada mais.
Acontecera-lhe, porém, naquelle dia, vel-o de relance na rua, de palestra
com outros chapéos altos de homens publicos, e nunca lhe pareceu tão
torpe. De noite, encontrando a filha sosinha, abriu-lhe o coração; pintou-lhe
o chapéo baixo como a abominação das abominações, e instou com ella
para que o fizesse desterrar.

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Conrado ignorava essa circumstancia, origem do pedido. Conhecendo a
docilidade da mulher, não entendeu a resistencia; e, porque era autoritario, e
voluntarioso, a teima veiu irrital-o profundamente. Conteve-se ainda assim;
preferiu mofar do caso; fallou-lhe com tal ironia e desdém, que a pobre
dama sentiu-se humilhada. Marianna quiz levantar-se duas vezes; elle
obrigou-a a ficar, a primeira pegando-lhe{91} levemente no pulso, a segunda
subjugando-a com o olhar. E dizia sorrindo:

—Olhe, yayá, tenho uma razão philosophica para não fazer o que você
me pede. Nunca lhe disse isto; mas já agora confio-lhe tudo.

Marianna mordia o labio, sem dizer mais nada; pegou de uma faca, e
entrou a bater com ella devagarinho para fazer alguma cousa; mas, nem isso
mesmo consentiu o marido, que lhe tirou a faca delicadamente, e continuou:

—A escolha do chapéo não é uma acção indifferente, como você póde
suppor; é regida por um principio metaphysico. Não cuide que quem
compra um chapéo exerce uma acção voluntária e livre; a verdade é que
obedece a um determinismo obscuro. A illusão da liberdade existe arraigada
nos compradores, e é mantida pelos chapelleiros que, ao verem um freguez
ensaiar trinta ou quarenta chapéos, e sair sem comprar nenhum, imaginam
que elle está procurando livremente uma combinação elegante. O principio
metaphysico é este:—o chapéo é a integração do homem, um
prolongamento da cabeça, um complemento decretado ab eterno; ninguem
o póde trocar sem mutilação. É uma questão profunda que ainda não
occorreu a ninguem. Os sabios tem estudado{92} tudo desde o astro até o
verme, ou, para exemplificar bibliographicamente, desde Laplace... Você
nunca leu Laplace? desde Laplace e a Mecanica Celeste até Darwin e o seu
curioso livro das Minhocas, e, entretanto, não se lembraram ainda de parar
deante do chapéo e estudal-o por todos os lados. Ninguem advertiu que ha
uma metaphysica do chapéo. Talvez eu escreva uma memoria a este
respeito. São nove horas e tres quartos; não tenho tempo de dizer mais
nada; mas você reflicta comsigo, e verá... Quem sabe? póde ser até que nem
mesmo o chapéo seja complemento do homem, mas o homem do chapéo...

Marianna venceu-se afinal, e deixou a mesa. Não entendera nada
d'aquella nomenclatura aspera nem da singular theoria; mas sentiu que era
um sarcasmo, e, dentro de si, chorava de vergonha. O marido subiu para

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vestir-se; desceu d'ahi a alguns minutos, e parou deante della com o famoso
chapéo na cabeça. Marianna achou-lh'o, na verdade, torpe, ordinario,
vulgar, nada serio. Conrado despediu-se ceremoniosamente e sahiu.

A irritação da dama tinha afrouxado muito; mas, o sentimento de
humiliação subsistia. Marianna não chorou, não clamou, como suppunha
que ia fazer; mas, comsigo mesma, recordou a simplicidade do{93} pedido,
os sarcasmos de Conrado, e, posto reconhecesse que fôra um pouco
exigente, não achava justificação para taes excessos. Ia de um lado para
outro, sem poder parar; foi á sala de visitas, chegou á janella meia aberta,
viu ainda o marido, na rua, á espera do bond, de costas para casa, com o
eterno e torpissimo chapéo na cabeça. Marianna sentiu-se tomada de odio
contra essa peça ridicula; não comprehendia como pudera supportal-a por
tantos annos. E relembrava os annos, pensava na docilidade dos seus
modos, na acquiescencia a todas as vontades e caprichos do marido, e
perguntava a si mesma se não seria essa justamente a causa do excesso
d'aquella manhã. Chamava-se tola, moleirona; se tivesse feito como tantas
outras, a Clara e a Sophia, por exemplo, que tratavam os maridos como
elles deviam ser tratados, não lhe aconteceria nem metade nem uma sombra
do que lhe aconteceu. De reflexão em reflexão, chegou á ideia de sahir.
Vestiu-se, e foi á casa da Sophia, uma antiga companheira de collegio, com
o fim de espairecer, não de lhe contar nada.

Sophia tinha trinta annos, mais dous que Marianna. Era alta, forte, muito
senhora de si. Recebeu a amiga com as festas do costume; e, posto que esta
lhe não dissesse nada, adivinhou que trazia um desgosto{94} e grande.
Adeus, planos de Marianna! D'ahi a vinte minutos contava-lhe tudo. Sophia
riu della, sacudiu os hombros; disse-lhe que a culpa não era do marido.

—Bem sei, é minha, concordava Marianna.

—Não seja tola, yayá! Você tem sido muito molle com elle. Mas seja
forte uma vez; não faça caso; não lhe falle tão cedo; e se elle vier fazer as
pazes, diga-lhe que mude primeiro de chapéo.

—Veja você, uma cousa de nada...

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—No fim de contas, elle tem muita razão; tanta como outros. Olhe a
pamonha da Beatriz; não foi agora para a roça, só porque o marido implicou
com um inglez que costumava passar o cavallo de tarde? Coitado do inglez!
Naturalmente nem deu pela falta. A gente póde viver bem com seu marido,
respeitando-se, não indo contra os desejos um do outro, sem pirraças, nem
despotismo. Olhe; eu cá vivo muito bem com o meu Ricardo; temos muita
harmonia. Não lhe peço uma cousa que elle me não faça logo; mesmo
quando não tem vontade nenhuma, basta que eu feche a cara, obedece logo.
Não era elle que teimaria assim por causa de um chapéo! Tinha que vêr!
Pois não! Onde iria elle parar! Mudava de chapéo, quer quizesse, quer não.
{95}

Marianna ouvia com inveja essa bella definição do socego conjugal. A
rebellião de Eva embocava nella os seus clarins; e o contacto da amiga
dava-lhe um prurido de independencia e vontade. Para completar a situação,
esta Sophia não era só muito senhora de si, mas tambem dos outros; tinha
olhos para todos os inglezes, a cavallo ou a pé. Honesta, mas namoradeira;
o termo é crú, e não ha tempo de compor outro mais brando. Namorava a
torto e a direito, por uma necessidade natural, um costume de solteira. Era o
troco miudo do amor, que ella distribuia a todos os pobres que lhe batiam á
porta:—um nikel a um, outro a outro; nunca uma nota de cinco mil réis,
menos ainda uma apolice. Ora este sentimento caritativo induziu-a a propor
á amiga que fossem passear, ver as lojas, contemplar a vista de outros
chapéos bonitos e graves. Marianna aceitou; um certo demonio soprava
n'ella as furias da vingança. Demais, a amiga tinha o dom de fascinar,
virtude de Bonaparte, e não lhe deu tempo de reflectir. Pois sim, iria, estava
cançada de viver captiva. Tambem queria gosar um pouco, etc., etc.

Emquanto Sophia foi vestir-se, Marianna deixou-se estar na sala,
irrequieta e contente comsigo mesma. Planeou a vida de toda aquella
semana,{96} marcando os dias e horas de cada cousa, como n'uma viagem
official. Levantava-se, sentava-se, ia á janella, á espera da amiga.

—Sophia parece que morreu, dizia de quando em quando.

De uma das vezes que foi á janella, viu passar um rapaz a cavallo. Não
era inglez, mas lembrou-lhe a outra, que o marido levou para a roça,
desconfiado de um inglez, e sentiu crescer-lhe o odio contra a raça

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masculina,—com excepção, talvez, dos rapazes a cavallo. Na verdade,
aquelle era affectado demais; esticava a perna no estribo com evidente
vaidade das botas, dobrava a mão na cintura, com um ar de figurino.
Marianna notou-lhe esses dous defeitos; mas achou que o chapéo resgatava-
os; não que fosse um chapéo alto; era baixo, mas proprio do apparelho
equestre. Não cobria a cabeça de um advogado indo gravemente para o
escriptorio, mas a de um homem que espairecia ou matava o tempo.

Os tacões de Sophia desceram a escada, compassadamente. Prompta!
disse ella d'ahi a pouco, ao entrar na sala. Realmente, estava bonita. Já
sabemos que era alta. O chapéo augmentava-lhe o ar senhoril; e um diabo
de vestido de seda preta, arredondando-lhe as fórmas do busto, fazia-a ainda
mais{97} vistosa. Ao pé della, a figura de Marianna desapparecia um pouco.
Era preciso attentar primeiro nesta para ver que possuia feições mui
graciosas, uns olhos lindos, muita e natural elegancia. O peior é que a outra
dominava desde logo; e onde houvesse pouco tempo de as ver, tomava-o
Sophia para si. Este reparo seria incompleto, se eu não accrescentasse que
Sophia tinha consciencia da superioridade, e que apreciava por isso mesmo
as bellezas do genero Marianna, menos derramadas e apparentes. Se é um
defeito, não me compete emendal-o.

—Onde vamos nós? perguntou Marianna.

—Que tolice! vamos passear á cidade... Agora me lembro, vou tirar o
retrato; depois vou ao dentista. Não; primeiro vamos ao dentista. Você não
precisa de ir ao dentista?

—Não.

—Nem tirar o retrato?

—Já tenho muitos. E para que? para dal-o «áquelle senhor»?

Sophia comprehendeu que o resentimento da amiga persistia, e, durante o
caminho, tratou de lhe pôr um ou dous bagos mais de pimenta. Disse-lhe
que, embora fosse difficil, ainda era tempo de libertar-se. E ensinava-lhe um
methodo para subtrahir-se á{98} tyrannia. Não convinha ir logo de um salto,
mas de vagar, com segurança, de maneira que elle desse por si quando ella

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lhe puzesse o pé no pescoço. Obra de algumas semanas, tres a quatro, não
mais. Ella, Sophia, estava prompta a ajudal-a. E repetia-lhe que não fosse
molle, que não era escrava de ninguem, etc. Marianna ia cantando dentro do
coração a marselheza do matrimonio.

Chegaram á rua do Ouvidor. Era pouco mais do meio dia. Muita gente,
andando ou parada, o movimento do costume. Marianna sentiu-se um
pouco atordoada, como sempre lhe acontecia. A uniformidade e a placidez,
que eram o fundo do seu caracter e da sua vida, receberam daquella
agitação os repellões do costume. Ella mal podia andar por entre os grupos,
menos ainda sabia onde fixasse os olhos, tal era a confusão das gentes, tal
era a variedade das lojas. Conchegava-se muito á amiga, e, sem reparar que
tinham passado a casa do dentista, ia anciosa de lá entrar. Era um repouso;
era alguma cousa melhor do que o tumulto.

—Esta rua do Ouvidor! ia dizendo.

—Sim? respondia Sophia, voltando a cabeça para ella e os olhos para um
rapaz que estava na outra calçada.{99}

Sophia, prática daquelles mares, transpunha, rasgava ou contornava as
gentes com muita pericia e tranquillidade. A figura impunha; os que a
conheciam gostavam de vel-a outra vez; os que não a conheciam paravam
ou voltavam-se para admirar-lhe o garbo. E a boa senhora, cheia de
caridade, derramava os olhos á direita e a esquerda, sem grande escandalo,
porque Marianna servia a cohonestar os movimentos. Nada dizia
seguidamente; parece até que mal ouvia as respostas da outra: mas fallava
de tudo, de outras damas que iam ou vinham, de uma loja, de um chapéo...
Justamente os chapéos,—de senhora ou de homem,—abundavam naquella
primeira hora da rua do Ouvidor.

—Olha este, dizia-lhe Sophia.

E Marianna acudia a vel-os, femininos ou masculinos, sem saber onde
ficar, porque os demonios dos chapéos succediam-se como n'um
kaleidoscopio. Onde era o dentista? perguntava ella á amiga. Sophia só á
segunda vez lhe respondeu que tinham passado a casa; mas já agora iriam
até ao fim da rua; voltariam depois. Voltaram finalmente.

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—Uf! respirou Marianna entrando no corredor.

—Que é, meu Deus? Ora você! Parece da roça... A sala do dentista tinha
já algumas freguezas.{100} Marianna não achou entre ellas uma só cara
conhecida, e para fugir ao exame das pessoas estranhas, foi para a janella.
Da janella podia gozar a rua, sem atropello. Recostou-se; Sophia veiu ter
com ella. Alguns chapéos masculinos, parados, começaram a fital-as;
outros, passando, faziam a mesma cousa. Marianna aborreceu-se da
insistencia; mas, notando que fitavam principalmente a amiga, dissolveu-se-
lhe o tédio n'uma especie de inveja. Sophia, entretanto, contava-lhe a
historia de alguns chapéos,—ou, mais correctamente, as aventuras. Um
delles merecia os pensamentos de Fulana; outro andava derretido por
Sicrana, e ella por elle, tanto que eram certos na rua do Ouvidor ás quartas e
sabbados, entre duas e tres horas. Marianna ouvia aturdida. Na verdade, o
chapéo era bonito, trazia uma linda gravata, e possuia um ar entre elegante e
pelintra, mas...

—Não juro, ouviu? replicava a outra, mas é o que se diz.

Marianna fitou pensativa o chapéo denunciado. Havia agora mais tres, de
egual porte e graça, e provavelmente os quatro fallavam dellas, e fallavam
bem. Marianna enrubeceu muito, voltou a cabeça para o outro lado, tornou
logo á primeira attitude, e afinal entrou. Entrando, viu na sala duas
senhoras{101} recem-chegadas, e com ellas um rapaz que se levantou
promptamente e veiu comprimental-a com muita ceremonia. Era o seu
primeiro namorado.

Este primeiro namorado devia ter agora trinta e tres annos. Andara por
fóra, na roça, na Europa, e afinal na presidencia de uma provincia do sul.
Era mediano de estatura, pallido, barba inteira e rara, e muito apertado na
roupa. Tinha na mão um chapéo novo, alto, preto, grave, presidencial,
administrativo, um chapéo adequado á pessoa e ás ambições. Marianna,
entretanto, mal pode vel-o. Tão confusa ficou, tão desorientada com a
presença de um homem que conhecera em especiaes circumstancias, e a
quem não vira desde 1877, que não pode reparar em nada. Estendeu-lhe os
dedos, parece mesmo que murmurou uma resposta qualquer, e ia tornar á
janella, quando a amiga sahiu dalli.

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Sophia conhecia tambem o recem-chegado. Trocaram algumas palavras.
Marianna, impaciente, perguntou-lhe ao ouvido se não era melhor adiar os
dentes para outro dia; mas a amiga disse-lhe que não; negocio de meia hora
a trez quartos. Marianna sentia-se oppressa: a presença de um tal homem
atava-lhe os sentidos, lançava-a na luta e na confusão. Tudo culpa do
marido. Se elle não teimasse e não caçoasse com{102} ella, ainda em cima,
não aconteceria nada. E Marianna, pensando assim, jurava tirar uma
desforra. De memoria contemplava a casa, tão socegada, tão bonitinha,
onde podia estar agora, como de costume, sem os safanões da rua, sem a
dependencia da amiga...

—Marianna, disse-lhe esta, o Dr. Viçoso teima que está muito magro.
Você não acha que está mais gordo do que no anno passado... Não se
lembra delle no anno passado?

Dr. Viçoso era o proprio namorado antigo, que palestrava com Sophia,
olhando muitas vezes para Marianna. Esta respondeu negativamente. Elle
aproveitou a fresta para puxal-a á conversação; disse, que, na verdade, não a
vira desde alguns annos. E sublinhava o dito com um certo olhar triste e
profundo. Depois abriu o estojo dos assumptos, saccou para fóra o theatro
lyrico. Que tal achavam a companhia? Na opinião delle era excellente,
menos o barytono; o barytono parecia-lhe cançado. Sophia protestou contra
o cançasso do barytono, mas elle insistiu, accrescentando que, em Londres,
onde o ouvira pela primeira vez, já lhe parecera a mesma cousa. As damas,
sim, senhora; tanto a soprano como a contralto eram de primeira ordem. E
fallou{103} das operas, citava os trechos, elogiou a orchestra, principalmente
nos Huguenotes... Tinha visto Marianna na ultima noite, no quarto ou
quinto camarote da esquerda, não era verdade?

—Fomos, murmurou ella, accentuando bem o plural.

—No Cassino é que a não tenho visto, continuou elle.

—Está ficando um bicho do matto, acudiu Sophia rindo.

Viçoso gostára muito do ultimo baile, e desfiou as suas recordações;
Sophia fez o mesmo ás della. As melhores toilettes foram descriptas por
ambos com muita particularidade; depois vieram as pessoas, os caracteres,

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dous ou tres picos de malicia, mas tão anodina, que não fez mal a ninguem.
Marianna ouvia-os sem interesse; duas ou tres vezes chegou a levantar-se e
ir á janella; mas os chapéos eram tantos e tão curiosos, que ella voltava a
sentar-se. Interiormente, disse alguns nomes feios á amiga; não os ponho
aqui por não serem necessarios, e, aliás, seria de máu gosto desvendar o que
esta moça pôde pensar da outra durante alguns minutos de irritação.

—E as corridas do Jockey-Club? perguntou o ex-presidente.{104}

Marianna continuava a abanar a cabeça. Não tinha ido ás corridas
naquelle anno. Pois perdêra muito, a penultima, principalmente; esteve
animadissima, e os cavallos eram de primeira ordem. As de Epsom, que elle
vira, quando esteve em Inglaterra, não eram melhores do que a penultima
do Prado Fluminense. E Sophia dizia que sim, que realmente a penultima
corrida honrava o Jockey-Club. Confessou que gostava muito; dava
emoções fortes. A conversação descambou em dous concertos daquella
semana; depois tomou a barca, subiu a serra e foi a Petropolis, onde dous
diplomatas lhe fizeram as despezas da estadia. Como fallassem da esposa
de um ministro, Sophia lembrou-se de ser agradavel ao ex-presidente,
declarando-lhe que era preciso casar tambem por que em breve estaria no
ministerio. Viçoso teve um estremeção de prazer, e sorriu, e protestou que
não; depois, com os olhos em Marianna, disse que provavelmente não
casaria nunca... Marianna enrubeceu muito e levantou-se.

—Você está com muita pressa, disse-lhe Sophia. Quantas são? continuou
voltando-se para Viçoso.

—Perto de tres! exclamou elle.

Era tarde; tinha de ir á camara dos deputados. Foi fallar ás duas senhoras,
que acompanhára, e que{105} eram primas suas, e despediu-se; vinha
despedir-se das outras, mas Sophia declarou que sahiria tambem. Já agora
não esperava mais. A verdade é que a ideia de ir á camara dos deputados
começára a faiscar-lhe na cabeça.

—Vamos á camara? propoz ella á outra.

—Não, não, disse Marianna; não posso, estou muito cançada.

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—Vamos, um bocadinho só; eu tambem estou muito cançada...

Marianna teimou ainda um pouco; mas teimar contra Sophia,—a pomba
discutindo com o gavião,—era realmente insensatez. Não teve remedio, foi.
A rua estava agora mais agitada, as gentes iam e vinham por ambas as
calçadas, e complicavam-se no cruzamento das ruas. De mais a mais, o
obsequioso ex-presidente flanqueiava as duas damas, tendo-se offerecido
para arranjar-lhes uma tribuna.

A alma de Marianna sentia-se cada vez mais dilacerada de toda essa
confusão de cousas. Perdera o interesse da primeira hora; e o despeito, que
lhe dera forças para um vôo audaz e fugidio, começava a afrouxar as azas,
ou afrouxara-as inteiramente. E outra vez recordava a casa, tão quieta, com
todas as cousas nos seus logares, methodicas, respeitosas umas com as{106}
outras, fazendo-se tudo sem atropello, e, principalmente, sem mudança
imprevista. E a alma batia o pé raivosa... Não ouvia nada do que o Viçoso ia
dizendo, comquanto elle fallasse alto, e muitas cousas fossem ditas para
ella. Não ouvia, não queria ouvir nada. Só pedia a Deus que as horas
andassem depressa. Chegaram á camara e foram para uma tribuna. O rumor
das saias chamou a attenção de uns vinte deputados, que restavam,
escutando um discurso de orçamento. Tão depressa o Viçoso pediu licença e
sahiu, Marianna disse rapidamente á amiga que não lhe fizesse outra.

—Que outra? perguntou Sophia.

—Não me pregue outra peça como esta de andar de um logar para outro
feito maluca. Que tenho eu com a camara? que me importam discursos que
não entendo?

Sophia sorriu, agitou o leque e recebeu em cheio o olhar de um dos
secretarios. Muitos eram os olhos que a fitavam quando ella ia á camara,
mas os do tal secretario tinham uma expressão mais especial, callida e
supplice. Entende-se, pois, que ella não o recebeu de sopetão; póde mesmo
entender-se que o procurou curiosa. Emquanto acolhia esse olhar legislativo
ia respondendo á amiga, com brandura,{107} que a culpa era della, e que a
sua intenção era boa, era restituir-lhe a posse de si mesma.

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—Mas, se você acha que a aborreço não venha mais commigo, concluiu
Sophia.

E, inclinando-se um pouco:

—Olha o ministro da justiça.

Marianna não teve remedio senão ver o ministro da justiça. Este
aguentava o discurso do orador, um governista, que provava a conveniencia
dos tribunaes correccionaes, e, incidentemente, compendiava a antiga
legislação colonial. Nenhum aparte; um silencio resignado, polido, discreto
e cauteloso. Marianna passeava os olhos de um lado para outro, sem
interesse; Sophia dizia-lhe muitas cousas, para dar saida a uma porção de
gestos graciosos. No fim de quinze minutos agitou-se a camara, graças a
uma expressão do orador e uma replica da opposição. Trocaram-se apartes,
os segundos mais bravos que os primeiros, e seguiu-se um tumulto, que
durou perto de um quarto de hora.

Essa diversão não o foi para Marianna, cujo espirito placido e uniforme,
ficou atarantado no meio de tanta e tão inesperada agitação. Ella chegou a
levantar-se para sair; mas, sentou-se outra vez. Já agora estava disposta a ir
ao fim, arrependida e{108} resoluta a chorar só comsigo as suas magoas
conjugaes. A duvida começou mesmo a entrar nella. Tinha razão no pedido
ao marido; mas era caso de doer-se tanto? era razoavel o espalhafato?
Certamente que as ironias delle foram crueis; mas, em summa, era a
primeira vez que ella lhe batêra o pé, e, naturalmente, a novidade irritou-o.
De qualquer modo porém, fôra um erro ir revelar tudo á amiga. Sophia iria
talvez contal-o a outras... Esta ideia trouxe um calafrio a Marianna; a
indiscrição da amiga era certa; tinha-lhe ouvido uma porção de historias de
chapéos masculinos e femininos, cousa mais grave do que uma simples
briga de casados. Marianna sentiu necessidade de lisonjeal-a, e cobriu a sua
impaciencia e zanga com uma mascara de docilidade hypocrita. Começou a
sorrir tambem, a fazer algumas observações, a respeito de um ou outro
deputado, e assim chegaram ao fim do discurso e da sessão.

Eram quatro horas dadas. Toca a recolher, disse Sophia; e Marianna
concordou que sim, mas sem impaciencia, e ambas tornaram a subir a rua
do Ouvidor. A rua, a entrada no bond, completaram a fadiga do espirito de

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Marianna, que afinal respirou quando viu que ia caminho de casa. Pouco
antes de{109} apear-se a outra, pediu-lhe que guardasse segredo sobre o que
lhe contára; Sophia prometteu que sim.

Marianna respirou. A rola estava livre do gavião. Levava a alma doente
dos encontrões, vertiginosa da diversidade de cousas e pessoas. Tinha
necessidade de equilibrio e saude. A casa estava perto; á medida que ia
vendo as outras casas e chacaras proximas, Marianna sentia-se restituida a
si mesma. Chegou finalmente; entrou no jardim, respirou. Era aquelle o seu
mundo; menos um vaso, que o jardineiro trocára de logar.

—João, bota este vaso onde estava antes, disse ella.

Tudo o mais estava em ordem, a sala de entrada, a de visitas, a de jantar,
os seus quartos, tudo. Marianna sentou-se primeiro, em differentes logares,
olhando bem para todas as cousas, tão quietas e ordenadas. Depois de uma
manhã inteira de perturbação e variedade, a monotonia trazia-lhe um grande
bem, e nunca lhe pareceu tão deliciosa. Na verdade, fizera mal... Quiz
recapitular os successos e não pode; a alma espreguiçava-se toda naquella
uniformidade caseira. Quando muito, pensou na figura do Viçoso, que
achava agora ridicula, e era injustiça. Despiu-se lentamente, com amor, indo
certeira{110} a cada objecto. Uma vez despida, pensou outra vez na briga
com o marido. Achou que, bem pesadas as cousas, a principal culpa era
della. Que diabo de teima por causa de um chapéo, que o marido usára ha
tantos annos? Tambem o pae era exigente de mais...

—Vou ver a cara com que elle vem, pensou ella.

Eram cinco e meia; não tardaria muito. Marianna foi á sala da frente
espiou pela vidraça, prestou o ouvido ao bond, e nada. Sentou-se alli
mesmo com o Ivanhoe nas palmas, querendo ler e não lendo nada. Os olhos
iam até o fim da pagina, e tornavam ao principio, em primeiro lugar, porque
não apanhavam o sentido, em segundo lugar, porque uma ou outra vez
desviavam-se para saborear a correcção das cortinas ou qualquer outra
feição particular da sala. Santa monotonia, tu a acalentavas no teu regaço
eterno.

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Emfim, parou um bond; apeou-se o marido; rangeu a porta de ferro do
jardim. Marianna foi á vidraça, e espiou. Conrado entrava lentamente,
olhando para a direita e a esquerda, com o chapéo na cabeça, não o famoso
chapéo do costume, porém outro, o que a mulher lhe tinha pedido de
manhã. O espirito de Marianna recebeu um choque violento,{111} egual ao
que lhe dera o vaso do jardim trocado,—ou ao que lhe daria uma lauda de
Voltaire entre as folhas da Moreninha ou de Ivanhoe... Era a nota desegual
no meio da harmoniosa sonata da vida. Não, não podia ser esse chapéo.
Realmente, que mania a della exigir que elle deixasse o outro que lhe ficava
tão bem? E que não fosse o mais proprio, era o de longos annos; era o que
quadrava á physionomia do marido... Conrado entrou por uma porta lateral.
Marianna recebeu-o nos braços.

—Então, passou? perguntou elle, emfim, cingindo-lhe a cintura.

—Escuta uma cousa, respondeu ella com uma caricia divina, bota fóra
esse; antes o outro.

FIM DO CAPITULO DOS CHAPÉOS.

{112}
{113}

CONTO ALEXANDRINO

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CAPITULO I

NO MAR

—O que, meu caro Stroibus? Não, impossivel. Nunca jámais ninguem
acreditará que o sangue de rato, dado a beber a um homem, possa fazer do
homem um ratoneiro.

—Em primeiro logar, Pythias, tu omittes uma condição:—é que o rato
deve expirar debaixo do escalpello, para que o sangue traga o seu principio.
Essa condição é essencial. Em segundo logar, uma vez que me apontas o
exemplo do rato, fica sabendo que já fiz com elle uma experiencia, e
cheguei a produzir um ladrão...

—Ladrão authentico?

—Levou-me o manto, ao cabo de trinta dias,{114} mas deixou-me a maior
alegria do mundo:—a realidade da minha doutrina. Que perdi eu? um pouco
de tecido grosso; e que lucrou o universo? a verdade immortal. Sim, meu
caro Pythias; esta é a eterna verdade. Os elementos constitutivos do
ratoneiro estão no sangue do rato, os do paciente no boi, os do arrojado na
aguia...

—Os do sabio na coruja, interrompeu Pythias sorrindo.

—Não; a coruja é apenas um emblema; mas a aranha, se pudessemos
transferi-la a um homem, daria a esse homem os rudimentos da geometria e
o sentimento musical. Com um bando de cegonhas, andorinhas ou grous,
faço-te de um caseiro um viageiro. O principio da fidelidade conjugal está

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no sangue da rola, o da enfatuação no dos pavões... Em summa, os deuses
puzeram nos bichos da terra, da agua e do ar a essencia de todos os
sentimentos e capacidades humanas. Os animaes são as letras soltas do
alphabeto: o homem é a syntaxe. Esta é a minha philosophia recente; esta é
a que vou divulgar na côrte do grande Ptolomeu.

Pythias sacudiu a cabeça, e fixou os olhos no mar. O navio singrava, em
direitura a Alexandria, com essa carga preciosa de dous philosophos, que
iam{115} levar áquelle regaço do saber os fructos da razão esclarecida. Eram
amigos, viuvos e quinquagenarios. Cultivavam especialmente a
methaphysica, mas conheciam a physica, a chimica, a medicina e a musica;
um d'elles, Stroibus, chegára a ser excellente anatomista, tendo lido muitas
vezes os tratados do mestre Herophilo. Chypre era a patria de ambos; mas,
tão certo é que ninguem é propheta em sua terra, Chypre não dava o
merecido respeito aos dous philosophos. Ao contrario, desdenhava-os; os
garotos tocavam ao extremo de rir d'elles. Não foi esse, entretanto, o motivo
que os levou a deixar a patria. Um dia, Pythias, voltando de uma viagem,
propoz ao amigo irem para Alexandria, onde as artes e as sciencias eram
grandemente honradas. Stroibus adheriu, e embarcaram. Só agora, depois
de embarcados, é que o inventor da nova doutrina expol-a ao amigo, com
todas as suas recentes cogitações e experiencias.

—Está feito, disse Pythias, levantando a cabeça, não affirmo nem nego
nada. Vou estudar a doutrina, e se a achar verdadeira, proponho-me a
desenvolvel-a e divulgal-a.

—Vive Helios! exclamou Stroibus. Posso contar que és meu discipulo.
{116}

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CAPITULO II

EXPERIENCIA

Os garotos alexandrinos não trataram os dous sabios com o escarneo dos
garotos cypriotas. A terra era grave como a ibis pousada n'uma só pata,
pensativa como a sphynge, circumspecta como as mumias, dura como as
pyramides; não tinha tempo nem maneira de rir. Cidade e côrte, que desde
muito tinham noticia dos nossos dous amigos, fizeram-lhes um recebimento
regio, mostraram conhecer seus escriptos, discutiram as suas idéas,
mandaram-lhes muitos presentes, papyros, crocodilos, zebras, purpuras.
Elles porém, recusaram tudo, com simplicidade, dizendo que a philosophia
bastava ao philosopho, e que o superfluo era um dissolvente. Tão nobre
resposta encheu de admiração tanto aos sabios como aos principaes e á
mesma plebe. E aliás, diziam os mais sagazes, que outra cousa se podia
esperar de dous homens tão sublimes, que em seus magnificos tratados...

—Temos cousa melhor do que esses tratados,{117} interrompia Stroibus.
Trago uma doutrina, que, em pouco, vai dominar o universo; cuido nada
menos que em reconstituir os homens e os Estados, distribuindo os talentos
e as virtudes.

—Não é esse o officio dos deuses? objectava um.

—Eu violei o segredo dos deuses, acudia Stroibus. O homem é a syntaxe
da natureza, eu descobri as leis da grammatica divina...

—Explica-te.

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—Mais tarde; deixa-me experimentar primeiro. Quando a minha doutrina
estiver completa, divulgal-a-hei como a maior riqueza que os homens
jámais poderão receber de um homem.

Imaginem a expectação publica e a curiosidade dos outros philosophos,
embora incredulos de que a verdade recente viesse aposentar as que elles
mesmos possuiam. Entretanto, esperavam todos. Os dous hospedes eram
apontados na rua até pelas crianças. Um filho meditava trocar a avareza do
pai, um pai a prodigalidade do filho, uma dama a frieza de um varão, um
varão os desvarios de uma dama, porque o Egypto, desde os Pharaós até aos
Lagides, era a terra de Putiphar, da mulher de Putiphar, da capa de José, e
do resto. Stroibus tornou-se a esperança da cidade e do mundo.{118}

Pythias, tendo estudado a doutrina, foi ter com Stroibus, e disse-lhe:

—Methaphysicamente, a tua doutrina é um desproposito; mas estou
prompto a admittir uma experiencia, comtanto que seja decisiva. Para isto,
meu caro Stroibus, ha só um meio. Tu e eu, tanto pelo cultivo da razão
como pela rigidez do caracter, somos o que ha mais opposto ao vicio do
furto. Pois bem, se conseguires incutir-nos esse vicio, não será preciso mais;
se não conseguires nada, (e pódes crel-o, porque é um absurdo) recuarás de
semelhante doutrina, e tornarás ás nossas velhas meditações.

Stroibus acceitou a proposta.

—O meu sacrifio é o mais penoso, disse elle, pois estou certo do
resultado; mas que não merece a verdade? A verdade é immortal; o homem
é um breve momento...

Os ratos egypcios, se pudessem saber de um tal accordo, teriam imitado
os primitivos hebreus, acceitando a fuga para o deserto, antes do que a nova
philosophia. E podemos crer que seria um desastre. A sciencia, como a
guerra, tem necessidades imperiosas; e desde que a ignorancia dos ratos, a
sua fraqueza, a superioridade mental e physica dos dois philosophos eram
outras tantas vantagens na experiencia{119} que ia começar, cumpria não
perder tão boa occasião de saber se efectivamente o principio das paixões e
das virtudes humanas estavam distribuidos pelas varias especies de
animaes, e se era possivel transmittil-o.

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Stroibus engaiolava os ratos; depois, um a um, ia-os sujeitando ao ferro.
Primeiro, atava uma tira de panno no focinho do paciente; em seguida, os
pés, finalmente, cingia com um cordel as pernas e o pescoço do animal á
taboa da operação. Isto feito, dava o primeiro talho no peito, com vagar, e
com vagar ia enterrando o ferro até tocar o coração, porque era opinião
d'elle que a morte instantanea corrompia o sangue e retirava-lhe o principio.
Habil anatomista, operava com uma firmeza digna do proposito scientifico.
Outro, menos destro, interromperia muita vez a tarefa, porque as contorsões
de dôr e de agonia tornavam difficil o meneio do escalpello; mas essa era
justamente a superioridade de Stroibus: tinha o pulso magistral e pratico.

Ao lado d'elle, Pythias aparava o sangue e ajudava a obra, já contendo os
movimentos convulsivos do paciente, já espiando-lhe nos olhos o progresso
da agonia. As observações que ambos faziam eram notadas em folhas de
papyro; e assim ganhava{120} a sciencia de duas maneiras. Ás vezes, por
divergencia de apreciação, eram obrigados a escalpellar maior numero de
ratos do que o necessario; mas não perdiam com isso, porque o sangue dos
excedentes era conservado e ingerido depois. Um só d'esses casos mostrará
a consciencia com que elles procediam. Pythias observára que a retina do
rato agonisante mudava de côr até chegar ao azul claro, ao passo que a
observação de Stroibus dava a côr de canella como o tom final da morte.
Estavam na ultima operação do dia; mas o ponto valia a pena, e, não
obstante o cansaço, fizeram successivamente desenove experiencias sem
resultado definitivo; Pythias insistia pela côr azul, e Stroibus pela côr de
canella. O vigesimo rato esteve prestes a pôl-os de accordo, mas Stroibus
advertiu, com muita sagacidade, que a sua posição era agora differente,
rectificou-a e escalpellaram mais vinte e cinco. D'estes, o primeiro ainda os
deixou em duvida; mas os outros vinte e quatro provaram-lhes que a côr
final não era canella nem azul, mas um lyrio roxo, tirando a claro.

A descripção exagerada das experimentações deu rebate á porção
sentimental da cidade, e excitou a loquella de alguns sophistas; mas o grave
Stroibus{121} (com brandura, para não aggravar uma disposição propria da
alma humana) respondeu que a verdade valia todos os ratos do universo, e
não só os ratos, como os pavões, as cabras, os cães, os rouxinoes, etc.; que,
em relação aos ratos, além de ganhar a sciencia, ganhava a cidade, vendo
diminuida a praga de um animal tão damninho; e, se a mesma consideração

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não se dava com outros animaes, como, por exemplo, as rolas e os cães, que
elles iam escalpellar d'ahi a tempos, nem por isso os direitos da verdade
eram menos imprescriptiveis. A natureza não ha de ser só a mesa de jantar,
concluia em fórma de aphorismo, mas tambem a mesa de sciencia.

E continuavam a extrahir o sangue e a bebel-o. Não o bebiam puro, mas
diluido em um cosimento de cinamomo, succo de acacia e balsamo, que lhe
tirava todo o sabor primitivo. As doses eram diarias e diminutas; tinham,
portanto, de aguardar um longo praso antes de produzido o effeito. Pythias,
impaciente e incredulo, mofava do amigo.

—Então? nada?

—Espera, dizia o outro, espera. Não se incute um vicio como se cose um
par de sandalias.{122}

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CAPITULO III

VICTORIA

Emfim, venceu Stroibus! A experiencia provou a doutrina. A Pythias foi o
primeiro que deu mostras da realidade do effeito, attribuindo-se umas tres
idéas ouvidas ao proprio Stroibus; este, em compensação, furtou-lhe quatro
comparações e uma theoria dos ventos. Nada mais scientifico do que essas
estréas. As idéas alheias, por isso mesmo que não foram compradas na
esquina, trazem um certo ar commum; e é muito natural começar por ellas
antes de passar aos livros emprestados, ás gallinhas, aos papeis falsos, ás
provincias, etc. A propria denominação de plagio é um indicio de que os
homens comprehendem a difficuldade de confundir esse embryão da
ladroeira com a ladroeira formal.

Duro é dizel-o; mas a verdade é que elles deitaram ao Nilo a bagagem
metaphysica, e dentro de pouco estavam larapios acabados. Concertavam-se
de vespera, e iam aos mantos, aos bronzes, ás amphoras de vinho, ás
mercadorias do porto, ás boas{123} drachmas. Como furtassem sem
estrepito, ninguem dava por elles; mas, ainda mesmo que os suspeitassem,
como fazel-o crêr aos outros? Já então Ptolomeu colligira na bibliotheca
muitas riquezas e raridades; e, porque conviesse ordenal-as, designou para
isso cinco grammaticos e cinco philosophos, entre estes os nossos dous
amigos. Estes ultimos trabalharam com singular ardor, sendo os primeiros
que entravam e os ultimos que sahiam, e ficando alli muitas noites, ao
clarão da lampada, decifrando, colligindo, classificando. Ptolomeu,
enthusiasmado, meditava para elles os mais altos destinos.

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Ao cabo de algum tempo, começaram a notar-se faltas graves:—um
exemplar de Homero, tres rolos de manuscriptos persas, dois de
samaritanos, uma soberba collecção de cartas originaes de Alexandre,
copias de leis athenienses, o 2º e o 3º livro da Republica de Platão, etc., etc.
A auctoridade poz-se á espreita; mas a esperteza do rato, transferida a um
organismo superior, era naturalmente maior, e os dois illustres gatunos
zombavam de espias e guardas. Chegaram ao ponto de estabelecer este
preceito philosophico de não sahir d'alli com as mãos vasias; traziam
sempre alguma cousa, uma fabula, quando menos. Emfim, estando a sahir
um{124} navio para Chypre, pediram licença a Ptolomeu, com promessa de
voltar, cozeram os livros dentro de couros de hippopotamo, puzeram-lhe
rotulos falsos, e trataram de fugir. Mas a inveja de outros philosophos não
dormia; deu rebate ás suspeitas dos magistrados, e descobriu-se o roubo.
Stroibus e Pythias foram tidos por aventureiros, mascarados com os nomes
d'aquelles dous varões illustres; Ptolomeu entregou-os á justiça com ordem
de os passar logo ao carrasco. Foi então que interveiu Herophilo, inventor
da anatomia.

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CAPITULO IV

PLUS ULTRA!

—Senhor, disse elle a Ptolomeu, tenho-me limitado até agora a
escalpellar cadaveres. Mas o cadaver dá-me a estructura, não me dá a vida;
dá-me os orgãos, não me dá as funcções. Eu preciso das funcções e da vida.

—Que me dizes? redarguiu Ptolomeu. Queres estripar os ratos de
Stroibus?{125}

—Não, senhor; não quero estripar os ratos.

—Os cães? os gansos? as lebres?...

—Nada; peço alguns homens vivos.

—Vivos? não é possivel...

—Vou demonstrar que não só é possivel, mas até legitimo e necessario.
As prisões egypicias estão cheias de criminosos, e os criminosos occupam,
na escala humana, um grau muito inferior. Já não são cidadãos, nem mesmo
se podem dizer homens, porque a razão e a virtude, que são os dois
principaes caracteristicos humanos, elles os perderam, infringindo a lei e a
moral. Além d'isso, uma vez que têm de expiar com a morte os seus crimes,
não é justo que prestem algum serviço á verdade e a sciencia? A verdade é
immortal; ella vale não só todos os ratos, como todos os delinquentes do
universo.

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Ptolomeu achou o raciocinio exacto, e ordenou que os criminosos fossem
entregues a Herophilo e seus discipulos. O grande anatomista agradeceu tão
insigne obsequio, e começou a escalpellar os réus. Grande foi o assombro
do povo; mas, salvo alguns pedidos verbaes, não houve nenhuma
manifestação contra a medida. Herophilo repetia o que dissera a Ptolomeu,
acrescentando que a sujeição dos réus á experiencia anatomica era até um
modo indirecto de{126} servir á moral, visto que o terror de escalpello
impediria a pratica de muitos crimes.

Nenhum dos criminosos, ao deixar a prisão, suspeitava o destino
scientifico que o esperava. Sahiam um por um; ás vezes dous a dous, ou tres
a tres. Muitos d'elles, estendidos e atados á mesa da operação, não
chegavam a desconfiar nada; imaginavam que era um novo genero de
execução summaria. Só quando os anatomistas definiam o objecto do
estudo do dia, alçavam os ferros e davam os primeiros talhos, é que os
desgraçados adquiriam a consciencia da situação. Os que se lembravam de
ter visto as experiencias dos ratos, padeciam em dobro, porque a
imaginação juntava á dôr presente o expectaculo passado.

Para conciliar os interesses da sciencia com os impulsos da piedade, os
réos não eram escalpellados á vista uns dos outros, mas successivamente.
Quando vinham aos dois ou aos tres, não ficavam em logar d'onde os que
esperavam pudessem ouvir os gritos do paciente, embora os gritos fossem
muitas vezes abafados por meio de apparelhos; mas se eram abafados, não
eram supprimidos, e em certos casos, o proprio objecto da experiencia
exigia que a emissão da voz fosse franca. Ás vezes as operações eram{127}
simultaneas; mas então faziam-se em logares distanciados.

Tinham sido escalpellados cerca de cincoenta réus, quando chegou a vez
de Stroibus e Pythias. Vieram buscal-os; elles suppuzeram que era para a
morte judiciaria, e encommendaram-se aos deuses. De caminho, furtaram
uns figos, e explicaram o caso allegando que era um impulso da fome,
adiante, porém, subtrahiram uma flauta, e essa outra acção não a puderam
explicar satisfactoriamente. Todavia, a astucia do larapio é infinita, e
Stroibus, para justificar a acção, tentou extrahir algumas notas do
instrumento, enchendo de compaixão as pessoas que os viam passar, e não

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ignoravam a sorte que iam ter. A noticia d'esses dous novos delictos foi
narrada por Herophilo, e abalou a todos os seus discipulos.

Realmente, disse o mestre, é um caso extraordinario, um caso lindissimo.
Antes do principal, examinemos aqui o outro ponto...

O ponto era saber se o nervo do latrocionio residia na palma da mão ou
na extremidade dos dedos; problema esse suggerido por um dos discipulos.
Stroibus foi o primeiro sujeito á operação. Comprehendeu tudo, desde que
entrou na sala; e, como{128} a natureza humana tem uma parte infima,
pediu-lhes humildemente que poupassem a vida a um philosopho. Mas
Herophilo, com um grande poder de dialectica, disse-lhe mais ou menos
isto:—Ou és um aventureiro ou o verdadeiro Stroibus; no primeiro caso,
tens aqui o unico meio para resgatar o crime de illudir a um principe
esclarecido, presta-te ao escalpello; no segundo caso, não deves ignorar que
a obrigação do philosopho é servir á philosophia, e que o corpo é nada em
comparação com o entendimento.

Dito isto, começaram pela experiencia das mãos, que produziu optimos
resultados, colligidos em livros, que se perderam com a queda dos
Ptolomeus. Tambem as mãos de Pythias foram rasgadas e minuciosamente
examinadas. Os infelizes berravam, choravam, supplicavam; mas Herophilo
dizia-lhes pacificamente que a obrigação do philosopho era servir á
philosophia, e que para os fins da sciencia, elles valiam ainda mais que os
ratos, pois era melhor concluir do homem para o homem, e não do rato para
o homem. E continuou a rasgal-os fibra por fibra, durante oito dias. No
terceiro dia arrancaram-lhes os olhos, para desmentir praticamente uma
theoria sobre a conformação interior do orgão.{129} Não fallo da extracção
do estomago de ambos, por se tratar de problemas relativamente
secundarios, e em todo caso estudados e resolvidos em cinco ou seis
individuos escalpellados antes d'elles.

Diziam os alexandrinos que os ratos celebraram esse caso afflictivo e
doloroso com dansas e festas, a que convidaram alguns cães, rolas, pavões e
outros animaes ameaçados de egual destino, e outrosim, que nenhum dos
convidados acceitou o convite, por suggestão de um cachorro, que lhes
disse melancolicamente:—«Seculo virá em que a mesma cousa nos
aconteça.» Ao que retorquiu um rato: «Mas até lá, riamos!»

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FIM DO CONTO ALEXANDRINO.

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{131}

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PRIMAS DE SAPUCAIA!

Ha umas occasiões opportunas e fugitivas, em que o acaso nos inflige
duas ou trez primas de Sapucaia; outras vezes, ao contrario, as primas de
Sapucaia são antes um beneficio do que um infortunio.

Era á porta de uma egreja. Eu esperava que as minhas primas Claudina e
Rosa tomassem agua benta, para conduzil-as á nossa casa, onde estavam
hospedadas. Tinham vindo de Sapucaia, pelo Carnaval, e demoraram-se
dois mezes na côrte. Era eu que as acompanhava a toda a parte, missas,
theatros, rua do Ouvidor, porque minha mãi, com o seu rheumatico, mal
podia mover-se dentro de casa, e ellas não sabiam andar sós. Sapucaia era a
nossa patria commum. Embora todos os parentes estivessem dispersos, alli
nasceu o tronco da familia. Meu tio José Ribeiro, pai d'estas primas, foi o
unico, de cinco irmãos, que lá ficou lavrando a terra e figurando{132} na
politica do logar. Eu vim cedo para a côrte, d'onde segui a estudar e
bacharelar-me em S. Paulo. Voltei uma só vez a Sapucaia, para pleitear uma
eleição, que perdi.

Rigorosamente, todas estas noticias são desnecessarias para a
comprehensão da minha aventura; mas é um modo de ir dizendo alguma
cousa, antes de entrar em materia, para a qual não acho porta grande nem
pequena; o melhor é afrouxar a redea á penna, e ella que vá andando, até
achar entrada. Hade haver alguma; tudo depende das circumstancias, regra
que tanto serve para o estylo como para a vida; palavra puxa palavra, uma
idéa traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução;
alguns dizem mesmo que assim é que a natureza compoz as suas especies.

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Portanto, agua benta e porta de egreja. Era a egreja de S. José. A missa
acabára; Claudina e Rosa fizeram uma cruz na testa, com o dedo pollegar,
molhado na agua benta e descalçado unicamente para esse gesto. Depois
ajustaram os manteletes, emquanto eu, ao portal, ia vendo as damas que
sahiam. De repente, estremeço, inclino-me para fóra, chego mesmo a dar
dous passos na direcção da rua.

—Que foi, primo?{133}

—Nada, nada.

Era uma senhora, que passára rentesinha com a egreja, vagarosa,
cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho de sol; ia pela rua da Misericordia
acima. Para explicar a minha commoção, é preciso dizer que era a segunda
vez que a via. A primeira foi no Prado Fluminense, dous mezes antes, com
um homem que, pelos modos, era seu marido, mas tanto podia ser marido
como pai. Estava então um pouco de espavento, vestida de escarlate, com
grandes enfeites vistosos, e umas argolas demasiado grossas nas orelhas;
mas os olhos e a bocca resgatavam o resto. Namorámos ás bandeiras
despregadas. Se disser que sahi d'alli apaixonado, não metto a minha alma
no inferno, porque é a verdade pura. Sahi tonto, mas sahi tambem
desapontado, perdia-a de vista na multidão. Nunca mais pude dar com ella,
nem ninguem me soube dizer quem fosse.

Calcule-se o meu enfado, vendo que a fortuna vinha trazel-a outra vez ao
meu caminho, e que umas primas fortuitas não me deixavam lançar-lhe as
mãos. Não será difficil calculal-o, porque estas primas de Sapucaia tomam
todas as fórmas, e o leitor, se não as teve de um modo, teve-as de outro.
Umas vezes copiam o ar confidencial de um cavalheiro informado{134} da
ultima crise do ministerio, de todas as causas apparentes ou secretas,
dissensões novas ou antigas, interesses aggravados, conspiração, crise.
Outras vezes, enfronham-se na figura d'aquelle eterno cidadão que affirma
de um modo ponderoso e abotoado, que não ha leis sem costumes, nisi lege
sine moribus. Outras, afivellam a mascara de um Dangeau de esquina, que
nos conta miudamente as fitas e rendas que esta, aquella, aquell'outra dama
levara ao baile ou ao theatro. E durante esse tempo, a Occasião passa,
vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho de sol: passa, dobra a

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esquina, e adeus... O ministerio esphacelava-se; malinas e bruxellas; nisi
lege sine moribus...

Esteve a pique de dizer ás primas, que se fossem embora; moravamos na
rua do Carmo, não era longe; mas abri mão da idéa. Já na rua pensei
tambem em deixal-as na egreja, á minha espera, e ir ver se agarrava a
Occasião pela calva. Creio mesmo que cheguei a parar um momento, mas
rejeitei egualmente esse alvitre e fui andando.

Fui andando com ellas para o lado opposto ao da minha incognita. Olhei
para traz repetidas vezes, até perdel-a n'uma das curvas da rua, com os
olhos no chão, como quem reflecte, devaneia ou espera uma{135} hora
marcada. Não minto dizendo que esta ultima idéa trouxe-me a emoção do
ciume. Sou exclusivo e pessoal; daria um triste amante de mulheres
casadas. Não importa que entre mim e aquella dama existisse apenas uma
contemplação fugitiva de algumas horas; desde que a minha personalidade
ia para ella, a partilha tornava-se-me insupportavel. Sou tambem imaginoso;
engenhei logo uma aventura e um aventureiro, dei-me ao prazer morbido de
affligir-me sem motivo nem necessidade. As primas iam adiante, e falavam-
me de quando em quando; eu respondia mal, se respondia alguma cousa.
Cordialmente, execrava-as.

Ao chegar á porta de casa, consultei o relogio, como si tivesse alguma
cousa que fazer; depois disse ás primas que subissem e fossem almoçando.
Corri á rua da Misericordia. Fui primeiro até á Escola de Medicina; depois
voltei e vim até a Camara dos Deputados, então mais devagar, esperando
vel-a ao chegar a cada curva da rua; mas nem sombra. Era insensato, não
era? Todavia, ainda subi outra vez a rua, porque adverti que, a pé e de
vagar, mal teria tempo de ir em meio da praia de Santa Luzia, se acaso não
parára antes; e ahi fui, rua acima e praia fóra, até o convento da Ajuda. Não
encontrei nada,{136} cousa nenhuma. Nem por isso perdi as esperanças;
arripiei caminho e vim, a passo lento ou apressado, conforme se me
afigurava que era possivel apanhal-a adiante, ou dar tempo a que sahisse de
alguma parte. Desde que a minha imaginação reproduzia a dama, todo eu
sentia um abalo, como se realmente tivesse de vel-a d'ahi a alguns minutos.
Comprehendi a emoção dos doudos.

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Entretanto, nada. Desci a rua sem achar o menor vestigio da minha
incognita. Felizes os cães, que pelo faro dão com os amigos! Quem sabe se
não estaria alli bem perto, no interior de alguma casa, talvez a propria casa
d'ella? Lembrou-me indagar; mas de quem, e como? Um padeiro, encostado
ao portal espiava-me; algumas mulheres faziam a mesma cousa enfiando os
olhos pelos postigos. Naturalmente desconfiavam do transeunte, do andar
vagaroso ou apressado, do olhar inquisidor, do gesto inquieto. Deixei-me ir
até á Camara dos Deputados, e parei uns cinco minutos, sem saber que
fizesse. Era perto de meio-dia. Esperei mais dez minutos, depois mais
cinco, parado, com a esperança de vel-a; afinal, desesperei e fui almoçar.

Não almocei em casa. Não queria ver os demonios das primas, que me
impediram de seguir a{137} dama incognita. Fui a um hotel. Escolhi uma
mesa no fim da sala, e sentei-me de costas para as outras; não queria ser
visto nem conversado. Comecei a comer o que me deram. Pedi alguns
jornaes, mas confesso que não li nada seguidamente, e apenas entendi tres
quartas partes do que ia lendo. No meio de uma noticia ou de um artigo,
escorregava-me o espirito e cahia na rua da Misericordia, á porta da egreja,
vendo passar a incognita, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho
de sol.

A ultima vez que me aconteceu essa separação da outra e da besta, estava
já no café, e tinha diante de mim um discurso parlamentar. Achei-me ainda
uma vez á porta da egreja; imaginei então que as primas não estavam
commigo, e que eu seguia atraz da bella dama. Assim é que se consolam os
preteridos da loteria; assim é que se fartam as ambições mallogradas.

Não me peçam minucias nem preliminares do encontro. Os sonhos
desdenham as linhas finas e o acabado das paysagens; contentam-se de
quatro ou cinco brochadas grossas, mas representativas. Minha imaginação
galgou as difficuldades da primeira falla, e foi direita á rua do Lavradio ou
dos Invalidos, á propria casa de Adriana. Chama-se Adriana.{138} Não viera
á rua da Misericordia por motivos de amores, mas a ver alguem, uma
parenta ou uma comadre, ou uma costureira. Conheceu-me, e teve egual
commoção. Escrevi-lhe; respondeu-me. Nossas pessoas foram uma para a
outra por cima de uma multidão de regras moraes e de perigos. Adriana é
casada; o marido conta cincoenta e dous annos, ella trinta imperfeitos. Não

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amou nunca, não amou mesmo o marido, com quem casou por obedecer á
familia. Eu ensinei-lhe ao mesmo tempo o amor e a traição; é o que ella me
diz nesta casinha que aluguei fóra da cidade, de proposito para nós.

Ouço-a embriagado. Não me enganei; é a mulher ardente e amorosa, qual
me diziam os seus olhos, olhos de touro, como os de Juno, grandes e
redondos. Vive de mim e para mim. Escrevemo-nos todos os dias; e, apezar
d'isso, quando nos encontramos na casinha, é como se medeara um seculo.
Creio até que o coração d'ella ensinou-me alguma cousa, embora noviço, ou
por isso mesmo. N'esta materia desapprende-se com o uso e o ignorante é
que é douto. Adriana não dissimula a alegria nem as lagrimas; escreve o que
pensa, conta o que sente; mostra-me que não somos dois, mas um, tão
sómente um ente universal, para quem Deus creou o sol e as flores, o{139}
papel e a tinta, o correio e as carruagens fechadas.

Emquanto ideava isto, creio que acabei de beber o café; lembra-me que o
criado veiu á mesa e retirou a chicara e o assucareiro. Não sei se lhe pedi
fogo, provavelmente viu-me com o charuto na mão e trouxe-me
phosphoros.

Não juro, mas penso que accendi o charuto, porque d'ahi a um instante,
atravez de um véu de fumaça, vi a cabeça meiga e energica da minha bella
Adriana, encostada a um sophá. Eu estou de joelhos, ouvindo-lhe a narração
da ultima rusga do marido. Que elle já desconfia; ella sahe muitas vezes,
distrahe-se, absorve-se, apparece-lhe triste ou alegre, sem motivo, e o
marido começa a ameaçal-a. Ameaçal-a de que? Digo-lhe que, antes de
qualquer excesso, era melhor deixal-o, para viver commigo, publicamente,
um para o outro. Adriana escuta-me pensativa, cheia de Eva, namorada do
demonio, que lhe sussurra de fóra o que o coração lhe diz de dentro. Os
dedos affagam-me os cabellos.

—Pois sim! pois sim!

Veiu no dia seguinte, consigo mesma, sem marido, sem sociedade, sem
escrupulos, tão sómente comsigo, e fomos d'alli viver juntos. Nem
ostentação, nem resguardo. Suppuzemo-nos estrangeiros, e realmente{140}
não eramos outra cousa; fallavamos uma lingua, que nunca ninguem antes
fallara nem ouvira. Os outros amores eram, desde seculos, verdadeiras

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contrafacções; nós davamos a edição authentica. Pela primeira vez,
imprimia-se o manuscripto divino, um grosso volume que nós dividiamos
em tantos capitulos e paragraphos quantas eram as horas do dia ou os dias
da semana. O estylo era tecido de sol e musica; a linguagem compunha-se
da fina flôr dos outros vocabularios. Tudo o que n'elles existia, meigo ou
vibrante, foi extrahido pelo autor para formar esse livro unico—livro sem
indice, porque era infinito—sem margens, para que o fastio não viesse
escrever n'ellas as suas notas,—sem fita, porque já não tinhamos precisão
de interromper a leitura e marcar a pagina.

Uma voz chamou-me á realidade. Era um amigo que acordara tarde, e
vinha almoçar. Nem o sonho me deixava esta outra prima de Sapucaia!
Cinco minutos depois despedi-me e sahi; eram duas horas passadas.

Vexa-me dizer que ainda fui á rua da Misericordia, mas é preciso narrar
tudo: fui e não achei nada. Voltei nos dias seguintes sem outro lucro, além
do tempo perdido. Resignei-me a abrir mão{141} da aventura, ou esperar a
solução do acaso. As primas achavam-me aborrecido ou doente; não lhes
disse que não. D'ahi a oito dias, foram-se embora, sem me deixar saudades;
despedi-me d'ellas como de uma febre maligna.

A imagem da minha incognita não me deixou durante muitas semanas.
Na rua, enganei-me varias vezes. Descobria ao longe uma figura, que era tal
qual a outra; picava os calcanhares, até apanhal-a e desenganar-me.
Comecei a achar-me ridiculo; mas lá vinha uma hora ou um minuto, uma
sombra ao longe, e a preoccupação revivia. Afinal vieram outros cuidados,
e não pensei mais n'isso.

No principio do anno seguinte, fui a Petropolis; fiz a viagem com um
antigo companheiro de estudos, Oliveira, que foi promotor em Minas-
Geraes, mas abandonara ultimamente a carreira por ter recebido uma
herança. Estava alegre como nos tempos da academia; mas de quando em
quando calava-se, olhando para fóra da barca ou da caleça, com a atonia de
quem regala a alma de uma recordação, de uma esperança ou de um desejo.
No alto da serra perguntei-lhe para que hotel ia; respondeu que ia para uma
casa particular, mas não me disse aonde, e até desconversou. Cuidei que me
visitaria{142} no dia seguinte; mas nem me visitou, nem o vi em parte

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alguma. Outro collega nosso ouvira dizer que elle tinha uma casa para os
lados da Rhenania.

Nenhuma d'estas circumstancias voltaria á memoria, se não fosse a
noticia que me deram dias depois. Oliveira tirára uma mulher ao marido, e
fôra refugiar-se com ella em Petropolis. Deram-me o nome do marido e o
d'ella. O d'ella era Adriana. Confesso que, embora o nome da outra fosse
pura invenção minha, estremeci ao ouvil-o; não seria a mesma mulher? Vi
logo depois que era pedir muito ao acaso. Já faz bastante esse pobre official
das cousas humanas, concertando alguns fios dispersos; exigir que os reate
a todos, e com os mesmos titulos, é saltar da realidade na novella. Assim
fallou o meu bom senso, e nunca disse tão gravemente uma tolice, pois as
duas mulheres eram nada menos que a mesmissima.

Vi-a tres semanas depois, indo visitar o Oliveira, que viera doente da
côrte. Subimos juntos na vespera; no meio da serra, começou elle a sentir-se
incommodado; no alto estava febril. Acompanhei-o no carro até a casa, e
não entrei, porque elle dispensou-me o incommodo. Mas no dia seguinte
fui{143} vel-o, um pouco por amizade, outro pouco por avidez de conhecer a
incognita. Vi-a; era ella, era a minha, era a unica Adriana.

Oliveira sarou depressa, e, apezar do meu zelo em visital-o, não me
offereceu a casa; limitou-se a vir ver-me no hotel. Respeitei-lhe os motivos;
mas elles mesmos é que faziam reviver a antiga preoccupação. Considerei
que, além das razões de decoro, havia da parte d'elle um sentimento de
ciume, filho de um sentimento de amor, e que um e outro podiam ser a
prova de um complexo de qualidades finas e grandes n'aquella mulher. Isto
bastava a transtornar-me; mas a idéa de que a paixão d'ella não seria menor
que a d'elle, o quadro d'esse casal que fazia uma só alma e pessoa, excitou
em mim todos os nervos da inveja. Baldei esforços para ver se mettia o pé
na casa; cheguei a fallar-lhe do boato que corria; elle sorria e tratava de
outra cousa.

Acabou a estação de Petropolis, e elle ficou. Creio que desceu em julho
ou agosto. No fim do anno encontrámo-nos casualmente; achei-o um pouco
taciturno e preoccupado. Vi-o ainda outras vezes, e não me pareceu
differente, a não ser que, além de taciturno, trazia na physionomia uma
longa préga{144} de desgosto. Imaginei que eram effeitos da aventura, e,

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como não estou aqui para empulhar ninguem, accrescento que tive uma
sensação de prazer. Durou pouco; era o demonio que trago em mim, e
costuma fazer d'esses esgares de saltimbanco. Mas castiguei-o depressa, e
puz no logar d'elle o anjo, que tambem uso, e que se compadeceu do pobre
rapaz, qualquer que fosse o motivo da tristeza.

Um visinho d'elle, amigo nosso, contou-me alguma cousa, que me
confirmou a suspeita de desgostos domesticos; mas foi elle mesmo quem
me disse tudo, um dia, perguntando-lhe eu, estouvadamente o que é que
tinha que o mudára tanto.

—Que hei de ter? Imagina tu que comprei um bilhete de loteria, e nem
tive, ao menos, o gosto de não tirar nada; tirei um escorpião.

E, como eu franzisse a testa interrogativamente:

—Ah! se soubesses metade só das cousas que me têm acontecido! Tens
tempo? Vamos aqui ao Passeio Publico.

Entrámos no jardim, e mettemo-nos por uma das alamedas. Contou-me
tudo. Gastou duas horas em desfiar um rosario infinito de miserias. Vi
atravez da narração duas indoles incompativeis, unidas pelo amor ou pelo
peccado, fartas uma da outra, mas condemnadas{145} á convivencia e ao
odio. Elle nem podia deixal-a nem supportal-a. Nenhuma estima, nenhum
respeito, alegria rara e impura; uma vida gorada.

—Gorada, repetia elle, gesticulando affirmativamente com a cabeça. Não
tem que ver; a minha vida gorou. Has de lembrar-te dos nossos planos da
academia, quando nos propunhamos, tu a ministro do imperio, eu da justiça.
Pódes guardar as duas pastas; não serei nada, nada. O ovo, que devia dar
uma aguia, não chega a dar um frango. Gorou completamente. Ha anno e
meio que ando n'isso, e não acho sahida nenhuma; perdia a energia...

Seis mezes depois, encontrei-o afflicto e desvairado. Adriana deixara-o
para ir estudar geometria com um estudante da antiga Escola Central. Tanto
melhor, disse-lhe eu. Oliveira olhou para o chão envergonhado; despediu-
se, e correu em procura d'ella. Achou-a d'ahi a algumas semanas, disseram
as ultimas um ao outro, e no fim reconciliaram-se. Comecei então a visital-

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os, com a idéa de os separar um do outro. Ella estava ainda bonita e
fascinante; as maneiras eram finas e meigas, mas evidentemente de
emprestimo, acompanhadas de umas attitudes e gestos, cujo intuito latente
era attrahir-me e arrastar-me.{146}

Tive medo e retrahi-me. Não se mortificou; deitou fóra a capa de renda,
restituiu-se ao natural. Vi então que era ferrenha, manhosa, injusta, muita
vez grosseira; em alguns lances notei-lhe uma nota de perversidade.
Oliveira, nos primeiros tempos, para fazer-me crer que mentira ou
exagerára, supportava tudo rindo; era a vergonha da propria fraqueza. Mas
não pôde guardar a mascara; ella arrancou-lh'a um dia, sem piedade,
denunciando as humilhações em que elle cahia, quando eu não estava
presente. Tive nojo da mulher e pena do pobre diabo. Convidei-o
abertamente a deixal-a, elle hesitou, mas prometteu que sim.

—Realmente, não posso mais...

Combinamos tudo; mas no momento da separação, não pôde. Ella
embebeu-lhe novamente os seus grandes olhos de touro e de basilisco, e
d'esta vez,—ó minhas queridas primas de Sapucaia!—d'esta vez para só
deixal-o exhausto e morto.

FIM DAS PRIMAS DE SAPUCAIA!

{147}

UMA SENHORA.

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Nunca encontro esta senhora que me não lembre a prophecia de uma
lagartixa ao poeta Heine, subindo os Appeninos: «Dia virá em que as pedras
serão plantas, as plantas animaes, os animaes homens e os homens deuses.»
E dá-me vontade de dizer-lhe:—A senhora, D. Camilla, amou tanto a
mocidade e a belleza, que atrazou o seu relogio, afim de ver se podia fixar
esses dois minutos de crystal. Não se desconsole, D. Camilla. No dia da
lagartixa, a senhora será Hebe, deusa da juventude; a senhora nos dará a
beber o nectar da perennidade com as suas mãos eternamente moças.

A primeira vez que a vi, tinha ella trinta e seis annos, posto só parecesse
trinta e dous, e não passasse da casa dos vinte e nove. Casa é um modo de
dizer. Não ha castello mais vasto do que a vivenda d'estes bons amigos, nem
tratamento mais obsequioso{148} do que o que elles sabem dar ás suas
hospedes. Cada vez que D. Camilla queria ir-se embora, elles pediam-lhe
muito que ficasse, e ella ficava. Vinham então novos folguedos, cavalhadas,
musica, dansa, uma successão de cousas bellas, inventadas com o unico fim
de impedir que esta senhora seguisse o seu caminho.

—Mamãi, mamãi, dizia-lhe a filha crescendo, vamos embora, não
podemos ficar aqui toda a vida.

D. Camilla olhava para ella mortificada, depois sorria, dava-lhe um beijo
e mandava-a brincar com as outras creanças. Que outras creanças?
Ernestina estava então entre quatorze e quinze annos, era muito espigada,
muito quieta, com uns modos naturaes de senhora. Provavelmente não se
divertiria com as meninas de oito e nove annos; não importa, uma vez que
deixasse a mãi tranquilla, podia alegrar-se ou enfadar-se. Mas, ai triste! ha
um limite para tudo, mesmo para os vinte e nove annos. D. Camilla
resolveu, emfim, despedir-se d'essses dignos amphytriões, e fel-o ralada de
saudades. Elles ainda instaram por uns cinco ou seis mezes de quebra; a
bella dama respondeu-lhes que era impossivel e, trepando no alazão do
tempo, foi alojar-se na casa dos trinta.{149}

Ella era, porém, d'aquella casta de mulheres que riem do sol e dos
almanaks. Côr de leite, fresca, inalteravel, deixava ás outras o trabalho de
envelhecer. Só queria o de existir. Cabello negro, olhos castanhos e callidos.
Tinha as espaduas e o collo feitos de encommenda para os vestidos
decotados, e assim tambem os braços, que eu não digo que eram os da

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Venus de Milo, para evitar uma vulgaridade, mas provavelmente não eram
outros. D. Camilla sabia d'isto; sabia que era bonita, não só porque lh'o
dizia o olhar sorrateiro das outras damas, como por um certo instincto que a
belleza possue, como o talento e o genio. Resta dizer que era casada, que o
marido era ruivo, e que os dois amavam-se como noivos; finalmente, que
era honesta. Não o era, note-se bem, por temperamento, mas por principio,
por amor ao marido, e creio que um pouco por orgulho.

Nenhum defeito, pois, excepto o de retardar os annos; mas é isso um
defeito? Ha, não me lembra em que pagina da Escriptura, naturalmente nos
Prophetas, uma comparação dos dias com as aguas de um rio que não
voltam mais. D. Camilla queria fazer uma represa para seu uso. No tumulto
d'esta marcha continua entre o nascimento e a morte, ella apegava-se á
illusão da estabilidade. Só se lhe podia exigir que{150} não fosse ridicula, e
não o era. Dir-me-ha o leitor que a belleza vive de si mesma, e que a
preoccupação do calendario mostra que esta senhora vivia principalmente
com os olhos na opinião. É verdade; mas como quer que vivam as mulheres
do nosso tempo?

D. Camilla entrou na casa dos trinta e não lhe custou passar adiante.
Evidentemente o terror era uma superstição. Duas ou tres amigas intimas,
nutridas de arithemetica, continuavam a dizer que ella perdera a conta dos
annos. Não advertiam que a natureza era complice no erro, e que aos
quarenta annos (verdadeiros), D. Camilla trazia um ar de trinta e poucos.
Restava um recurso: espiar-lhe o primeiro cabello branco, um fiosinho de
nada, mas branco. Em vão espiavam; o demonio do cabello parecia cada
vez mais negro.

N'isto enganavam-se. O fio branco estava alli; era a filha de D. Camilla
que entrava nos dezenove annos, e, por mal de peccados, bonita. D. Camilla
prolongou, quanto poude, os vestidos adolescentes da filha, conservou-a no
collegio até tarde, fez tudo para proclamal-a creança. A natureza, porem,
que não é só immoral, mas tambem illogica, emquanto sofreava os annos de
uma, afrouxava a redea aos da outra, e{151} Ernestina, moça feita, entrou
radiante no primeiro baile. Foi uma revelação. D. Camilla adorava a filha;
saboreou-lhe a gloria a tragos demorados. No fundo do copo achou a gotta
amarga e fez uma carêta. Chegou a pensar na abdicação; mas um grande

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prodigo de phrases feitas disse-lhe que ella parecia a irmã mais velha da
filha, e o projecto desfez-se. Foi d'essa noite em diante que D. Camilla
entrou a dizer a todos que casára muito creança.

Um dia, poucos mezes depois, apontou no horisonte o primeiro
namorado. D. Camilla pensára vagamente n'essa calamidade, sem encaral-a,
sem apparelhar-se para a defeza. Quando menos esperava, achou um
pretendente á porta. Interrogou a filha; descobriu-lhe um alvoroço
indefinivel, a inclinação dos vinte annos, e ficou prostrada. Casal-a era o
menos; mas, se os seres são como as aguas da Escriptura, que não voltam
mais, é porque atraz d'elles vêm outros, como atraz das aguas outras aguas;
e, para definir essas ondas successivas é que os homens inventaram este
nome de netos. D. Camilla viu imminente o primeiro neto, e determinou
adial-o. Está claro que não formulou a resolução, como não formulára a
idéa do perigo. A alma entende-se a si mesma; uma sensação vale um
raciocinio. As que ella teve foram rapidas,{152} obscuras, no mais intimo do
seu ser, d'onde não as extrahiu para não ser obrigada a encaral-as.

—Mas que é que você acha de máo no Ribeiro? perguntou-lhe o marido,
uma noite, á janella.

D. Camilla levantou os hombros.—Acho-lhe o nariz torto, disse.

—Máo! Você está nervosa; fallemos de outra cousa, respondeu o marido.
E, depois, de olhar uns dous minutos para a rua, cantarolando na garganta,
tornou ao Ribeiro, que achava um genro aceitavel, e se lhe pedisse
Ernestina, entendia que deviam ceder-lh'a. Era intelligente e educado. Era
tambem o herdeiro provavel de uma tia de Cantagallo. E depois tinha um
coração de ouro. Contavam-se d'elle cousas muito bonitas. Na academia,
por exemplo... D. Camilla ouviu o resto, batendo com a ponta do pé no chão
e rufando com os dedos a sonata da impaciencia; mas, quando o marido lhe
disse que o Ribeiro esperava um despacho do ministro de estrangeiros, um
logar para os Estados-Unidos, não poude ter-se e cortou-lhe a palavra.

—O que? separar-me de minha filha. Não, senhor.

Em que dóse entrára n'este grito o amor materno e o sentimento pessoal,
é um problema difficil de{153} resolver, principalmente agora, longe dos

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acontecimentos e das pessoas. Supponhamos que em partes eguaes. A
verdade é que o marido não soube que inventar para defender o ministro de
estrangeiros, as necessidades diplomaticas, a fatalidade do matrimonio, e,
não achando que inventar, foi dormir. Dois dias depois veiu a nomeação. No
terceiro dia, a moça declarou ao namorado que não a pedisse ao pai, porque
não queria separar-se da familia. Era o mesmo que dizer: prefiro a familia
ao senhor. É verdade que tinha a voz tremula e sumida, e um ar de profunda
consternação; mas o Ribeiro viu tão sómente a rejeição, e embarcou. Assim
acabou a primeira aventura.

D. Camilla padeceu com o desgosto da filha; mas consolou-se depressa.
Não faltam noivos, reflectiu ella. Para consolar a filha, levou-a a passeiar a
toda parte. Eram ambas bonitas, e Ernestina tinha a frescura dos annos; mas
a belleza da mãi era mais perfeita, e apezar dos annos, superava a da filha.
Não vamos ao ponto de crêr que o sentimento da superioridade é que
animava D. Camilla a prolongar e repetir os passeios. Não: o amor materno,
só por si, explica tudo. Mas concedamos que animasse um pouco. Que mal
ha n'isso? Que mal ha em que um{154} bravo coronel defenda nobremente a
patria, e as suas dragonas? Nem por isso acaba o amor da patria e o amor
das mãis.

Mezes depois despontou a orelha de um segundo namorado. D'esta vez
era um viuvo, advogado, vinte e sete annos. Ernestina não sentiu por elle a
mesma emoção que o outro lhe dera; limitou-se a aceital-o. D. Camilla
farejou depressa a nova candidatura. Não podia allegar nada contra elle;
tinha o nariz recto como a consciencia, e profunda aversão á vida
diplomatica. Mas haveria outros defeitos, devia haver outros. D. Camilla
buscou-os com alma; indagou de suas relações, habitos, passado. Conseguiu
achar umas cousinhas miudas, tão sómente a unha da imperfeição humana,
alternativas de humor, ausencia de graças intellectuaes, e, finalmente, um
grande excesso de amor proprio. Foi n'este ponto que a bella dama o
apanhou. Começou a levantar vagarosamente a muralha do silencio; lançou
primeiro a camada das pausas, mais ou menos longas, depois as phrases
curtas, depois os monosyllabos, as distracções, as absorpções, os olhares
complacentes, os ouvidos resignados, os bocejos fingidos por traz da
ventarola. Elle não entendeu logo; mas, quando reparou que os enfados da
mãi coincidiam com as{155} ausencias da filha, achou que era alli de mais e

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retirou-se. Se fosse homem de luta, tinha saltado a muralha; mas era
orgulhoso e fraco. D. Camilla deu graças aos deuses.

Houve um trimestre de respiro. Depois appareceram alguns namoricos de
uma noite, insectos ephemeros, que não deixaram historia. D. Camilla
comprehendeu que elles tinham de multiplicar-se, até vir algum decisivo
que a obrigasse a ceder; mas ao menos, dizia ella a si mesma, queria um
genro que trouxesse á filha a mesma felicidade que o marido lhe deu. E,
uma vez, ou para robustecer este decreto da vontade, ou por outro motivo,
repetiu o conceito em voz alta, embora só ella pudesse ouvil-o. Tu,
psychologo subtil, pódes imaginar que ella queria convencer-se a si mesma;
eu prefiro contar o que lhe aconteceu em 186....

Era de manhã. D. Camilla estava ao espelho, a janella aberta, a chacara
verde e sonora de cigarras e passarinhos. Ella sentia em si a harmonia que a
ligava ás cousas externas. Só a belleza intellectual é independente e
superior. A belleza physica é irmã da paysagem. D. Camilla saboreava essa
fraternidade intima, secreta, um sentimento de identidade, uma recordação
da vida anterior no mesmo utero{156} divino. Nenhuma lembrança
desagradavel, nenhuma occurrencia vinha turvar essa expansão mysteriosa.
Ao contrario, tudo parecia embebel-a de eternidade, e os quarenta e dous
annos em que ia não lhe pesavam mais do que outras tantas folhas de rosa.
Olhava para fóra, olhava para o espelho. De repente, como se lhe surdisse
uma cobra, recuou atterrada. Tinha visto, sobre a fonte esquerda, um
cabellinho branco. Ainda cuidou que fosse do marido; mas reconheceu
depressa que não, que era d'ella mesma, um telegramma da velhice, que ahi
vinha a marchas forçadas. O primeiro sentimento foi de prostração. D.
Camilla sentiu faltar-lhe tudo, tudo, viu-se encanecida e acabada no fim de
uma semana.

—Mamãi, mamãi, bradou Ernestina, entrando na saleta. Está aqui o
camarote que papai mandou.

D. Camilla teve um sobresalto de pudor, e instinctivamente voltou para a
filha o lado que não tinha o fio branco. Nunca a achou tão graciosa e lepida.
Fitou-a com saudade. Fitou-a tambem com inveja, e, para abafar este
sentimento máu, pegou no bilhete de camarote. Era para aquella mesma
noite. Uma idéa expelle outra; D. Camilla anteviu-se no meio das luzes e

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das gentes, e depressa levantou o coração. Ficando só, tornou a olhar
para{157} o espelho, e corajosamente arrancou o cabellinho branco, e deitou-
o á chacara. Out, damnet spot! Out! Mais feliz do que a outra lady Macbeth,
viu assim desapparecer a nodoa no ar, porque no animo d'ella, a velhice era
um remorso, e a fealdade um crime. Sae, maldita mancha! sae!

Mas, se os remorsos voltam, porque não hão de voltar os cabellos
brancos? Um mez depois, D. Camilla descobriu outro, insinuado na bella e
farta madeixa negra, e amputou-o sem piedade. Cinco ou seis semanas
depois, outro. Este terceiro coincidiu com um terceiro candidato á mão da
filha, e ambos acharam D. Camilla n'uma hora de prostração. A belleza, que
lhe supprira a mocidade, parecia-lhe prestes a ir tambem, como uma pomba
sae em busca da outra. Os dias precipitavam-se. Creanças que ella vira ao
collo, ou de carrinho empuxado pelas amas, dansavam agora nos bailes. Os
que eram homens fumavam; as mulheres cantavam ao piano. Algumas
d'estas apresentavam-lhe os seus babies, gorduchos, uma segunda geração
que mamava, á espera de ir bailar tambem, cantar ou fumar, apresentar
outros babies a outras pessoas, e assim por diante.

D. Camilla, apenas tergiversou um pouco, acabou cedendo. Que remedio,
senão aceitar um genro?{158} Mas, como um velho costume não se perde de
um dia para outro, D. Camilla viu parallelamente, n'aquella festa do
coração, um scenario e grande scenario. Preparou-se galhardamente, e o
efeito correspondeu ao esforço. Na egreja, no meio de outras damas; na
sala, sentada no sophá (o estofo que forrava este movel, assim como o papel
da parede foram sempre escuros para fazer sobresahir a tez de D. Camilla),
vestida a capricho, sem o requinte da extrema juventude, mas tambem sem
a rigidez matronal, um meio termo apenas, destinado a pôr em relevo as
suas graças outoniças, risonha, e feliz, emfim, a recente sogra colheu os
melhores suffragios. Era certo que ainda lhe pendia dos hombros um retalho
de purpura.

Purpura suppõe dynastia. Dynastia exige netos. Restava que o Senhor
abençoasse a união, e elle abençoou-a, no anno seguinte. D. Camilla
acostumara-se a idéa; mas era tão penoso abdicar, que ella aguardava o neto
com amor e repugnancia. Esse importuno embryão, curioso da vida e
pretencioso, era necessario na terra? Evidentemente, não; mas appareceu

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um dia, com as flores de Setembro. Durante a crise, D. Camilla só teve de
pensar na filha; depois da crise, pensou na filha e no neto.{159} Só dias
depois é que poude pensar em si mesma. Emfim, avó. Não havia duvidar;
era avó. Nem as feições que eram ainda concertadas, nem os cabellos, que
eram pretos (salvo meia duzia de fios escondidos), podiam por si sós
denunciar a realidade; mas a realidade existia; ella era, emfim, avó.

Quiz recolher-se; e para ter o neto mais perto de si, chamou a filha para
casa. Mas a casa não era um mosteiro, e as ruas e os jornaes com os seus
mil rumores acordavam n'ella os echos de outro tempo. D. Camilla rasgou o
acto de abdicação e tornou ao tumulto.

Um dia, encontrei-a ao lado de uma preta, que levava ao collo uma
creança de cinco a seis mezes. D. Camilla segurava na mão o chapellinho
de sol aberto para cobrir a creança. Encontrei-a oito dias depois, com a
mesma creança, a mesma preta e o mesmo chapéu de sol. Vinte dias depois,
e trinta dias mais tarde, tornei a vel-a, entrando para o bond, com a preta e a
creança.—Você já deu de mamar? dizia ella á preta. Olhe o sol. Não vá
cahir. Não aperte muito o menino. Acordou? Não mexa com elle. Cubra a
carinha, etc., etc.

Era o neto. Ella, porém, ia tão apertadinha, tão cuidadosa da creança, tão
a miudo, tão sem outra{160} senhora, que antes parecia mãi do que avó; e
muita gente pensava que era mãi. Que tal fosse a intenção de D. Camilla
não o juro eu. («Não jurarás», MATH. V, 34 ). Tão sómente digo que
nenhuma outra mãi seria mais desvellada do que D. Camilla com o neto;
attribuirem-lhe um simples filho era a cousa mais verosimil do mundo.

FIM DE UMA SENHORA.

{161}

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ANECDOTA PECUNIARIA

Chama-se Falcão o meu homem. N'aquelle dia—quatorze de Abril de
1870—quem lhe entrasse em casa, ás dez horas da noite, vel-o-hia passear
na sala, em mangas de camisa, calça preta e gravata branca, resmungando,
gesticulando, suspirando, evidentemente afflicto. Ás vezes, sentava-se;
outras, encostava-se á janella, olhando para a praia, que era a da Gambôa.
Mas, em qualquer logar ou attitude, demorava-se pouco tempo.

—Fiz mal, dizia elle, muito mal. Tão minha amiga que ella era! tão
amorosa! Ia chorando, coitadinha! Fiz mal, muito mal... Ao menos, que seja
feliz!

Se eu disser que este homem vendeu uma sobrinha, não me hão de crer;
se descer a definir o preço, dez contos de réis, voltar-me-hão as costas com
desprezo e indignação. Entretanto, basta ver este olhar felino, estes dois
beiços, mestres de calculo, que,{162} ainda fechados, parecem estar
contando alguma cousa, para adivinhar logo que a feição capital do nosso
homem é a voracidade do lucro. Entendamo-nos: elle faz arte pela arte, não
ama o dinheiro pelo que elle póde dar, mas pelo que é em si mesmo!
Ninguem lhe vá fallar dos regalos da vida. Não tem cama fofa, nem mesa
fina, nem carruagem, nem commenda. Não se ganha dinheiro para esbanjal-
o, dizia elle. Vive de migalhas; tudo o que amontoa é para a contemplação.
Vai muitas vezes á burra, que está na alcova de dormir, com o unico fim de
fartar os olhos nos rolos de ouro e maços de titulos. Outras vezes, por um
requinte de erotismo pecuniario, contempla-os só de memoria. N'este
particular, tudo o que eu pudesse dizer, ficaria abaixo de uma palavra d'elle
mesmo, em 1857.

Já então millionario, ou quasi, encontrou na rua dois meninos, seus
conhecidos, que lhe perguntaram se uma nota de cinco mil réis, que lhes
dera um tio, era verdadeira. Corriam algumas notas falsas, e os pequenos
lembraram-se d'isso em caminho. Falcão ia com um amigo. Pegou tremulo
na nota, examinou-a bem, virou-a, revirou-a...

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—É falsa? perguntou com impaciencia um dos meninos.{163}

—Não; é verdadeira.

—Dê cá, disseram ambos.

Falcão dobrou a nota vagarosamente, sem tirar-lhe os olhos de cima;
depois, restituiu-a aos pequenos, e, voltando-se para o amigo, que esperava
por elle, disse-lhe com a maior candura do mundo:

—Dinheiro, mesmo quando não é da gente, faz gosto vêr.

Era assim que elle amava o dinheiro, até á contemplação desinteressada.
Que outro motivo podia leval-o a parar, diante das vitrinas dos cambistas,
cinco, dez, quinze minutos, lambendo com os olhos os montes de libras e
francos, tão arrumadinhos e amarellos? O mesmo sobresalto com que pegou
na nota de cinco mil réis, era um rasgo subtil, era o terror da nota falsa.
Nada aborrecia tanto, como os moedeiros falsos, não por serem criminosos,
mas prejudiciaes, por desmoralisarem o dinheiro bom.

A linguagem do Falcão valia um estudo. Assim é que, um dia, em 1864,
voltando do enterro de um amigo, referiu o explendor do prestito,
exclamando com enthusiasmo:—«Pegavam no caixão tres mil contos!» E,
como um dos ouvintes não o entendesse logo, concluiu do espanto, que
duvidava d'elle, e discriminou a affirmação:—«Fulano quatro{164} centos,
Sicrano seiscentos... Sim, senhor, seiscentos; ha dois annos, quando desfez
a sociedade com o sogro, ia em mais de quinhentos; mas supponhamos
quinhentos...» E foi por diante, demonstrando, sommando e concluindo:
—«Justamente, tres mil contos!»

Não era casado. Casar era botar dinheiro fóra. Mas os annos passaram, e
aos quarenta e cinco entrou a sentir uma certa necessidade moral, que não
comprehendeu logo, e era a saudade paterna. Não mulher, não parentes, mas
um filho ou uma filha, se elle o tivesse, era como receber um patacão de
ouro. Infelizmente, esse outro capital devia ter sido accumulado em tempo;
não podia começal-o a ganhar tão tarde. Restava a loteria; a loteria deu-lhe
o premio grande.

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Morreu-lhe o irmão, e tres mezes depois a cunhada, deixando uma filha
de onze annos. Elle gostava muito d'esta e de outra sobrinha, filha de uma
irmã viuva; dava-lhes beijos, quando as visitava; chegava mesmo ao delirio
de levar-lhes, uma ou outra vez, biscoitos. Hesitou um pouco, mas, emfim,
recolheu a orphã; era a filha cobiçada. Não cabia em si de contente; durante
as primeiras semanas, quasi não sahia de casa, ao pé d'ella, ouvindo-lhe
historias e tolices.{165}

Chamava-se Jacintha, e não era bonita; mas tinha a voz melodiosa e os
modos fagueiros. Sabia ler e escrever; começava a aprender musica. Trouxe
o piano comsigo, o methodo e alguns exercicios; não pôde trazer o
professor, porque o tio entendeu que era melhor ir praticando o que
aprendera, e um dia... mais tarde... Onze annos, doze annos, treze annos,
cada anno que passava era mais um vinculo que atava o velho solteirão á
filha adoptiva, e vice-versa. Aos treze, Jacintha mandava na casa; aos
dezesete era verdadeira dona. Não abusou do dominio; era naturalmente
modesta, frugal, poupada.

—Um anjo! dizia o Falcão ao Chico Borges.

Este Chico Borges tinha quarenta annos, e era dono de um trapiche. Ia
jogar com o Falcão, á noite. Jacintha assistia ás partidas. Tinha então
dezoito annos; não era mais bonita, mas diziam todos «que estava
enfeitando muito.» Era pequenina, e o trapicheiro adorava as mulheres
pequeninas. Corresponderam-se, o namoro fez-se paixão.

—Vamos a ellas, dizia o Chico Borges ao entrar, pouco depois de ave-
marias.

As cartas eram o chapéu de sol dos dous namorados. Não jogavam a
dinheiro; mas o Falcão tinha{166} tal sêde ao lucro, que contemplava os
proprios tentos, sem valor, e contava-os de dez em dez minutos, para ver se
ganhava ou perdia. Quando perdia, cahia-lhe o rosto n'um desalento
incuravel, e elle recolhia-se pouco a pouco ao silencio. Se a sorte teimava
em perseguil-o, acabava o jogo, e levantava-se tão melancolico e cego, que
a sobrinha e o parceiro podiam apertar a mão, uma, duas, tres vezes, sem
que elle visse cousa nenhuma.

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Era isto em 1869. No principio de 1870 Falcão propoz ao outro uma
venda de acções. Não as tinha; mas farejou uma grande baixa, e contava
ganhar de um só lance trinta a quarenta contos ao Chico Borges. Este
respondeu-lhe finamente que andava pensando em offerecer-lhe a mesma
cousa. Uma vez que ambos queriam vender e nenhum comprar, podiam
juntar-se e propor a venda a um terceiro. Acharam o terceiro, e fecharam o
contracto a sessenta dias. Falcão estava tão contente, ao voltar do negocio,
que o socio abriu-lhe o coração e pediu-lhe a mão de Jacintha. Foi o mesmo
que, se de repente, começasse a fallar turco. Falcão parou, embasbacado,
sem entender. Que lhe desse a sobrinha? Mas então...

—Sim; confesso a vossê que estimaria muito{167} casar com ella, e ella...
penso que tambem estimaria casar comigo.

—Qual, nada! interrompeu o Falcão. Não, senhor; está muito criança,
não consinto.

—Mas reflicta...

—Não reflicto, não quero.

Chegou á casa irritado e aterrado. A sobrinha afagou-o tanto para saber o
que era, que elle acabou contando tudo, e chamando-lhe esquecida e
ingrata. Jacintha empallideceu; amava os dous, e via-os tão dados, que não
imaginou nunca esse contraste de affeições. No quarto chorou á larga;
depois escreveu uma carta ao Chico Borges pedindo-lhe pelas cinco chagas
de Nosso Senhor Jesus Christo, que não fizesse barulho nem brigasse com o
tio; dizia-lhe que esperasse, e jurava-lhe um amor eterno.

Não brigaram os dois parceiros; mas as visitas foram naturalmente mais
escassas e frias. Jacintha não vinha á sala, ou retirava-se logo. O terror do
Falcão era enorme. Elle amava a sobrinha com um amor de cão, que
persegue e morde aos extranhos. Queria-a para si, não como homem, mas
como pai. A paternidade natural dá forças para o sacrificio da separação; a
paternidade d'elle era de emprestimo, e, talvez, por isso mesmo, mais
egoista. Nunca{168} pensara em perdel-a; agora, porém, eram trinta mil
cuidados, janellas fechadas, advertencias á preta, uma vigilancia perpetua,
um espiar os gestos e os ditos, uma campanha de D. Bartholo.

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Entretanto, o sol, modelo de funccionarios, continuou a servir
pontualmente os dias, um a um, até chegar aos dois mezes do prazo
marcado para a entrega das acções. Estas deviam baixar, segundo a previsão
dos dois; mas as acções, como as loterias e as batalhas, zombam dos
calculos humanos. N'aquelle caso, além de zombaria, houve crueldade,
porque nem baixaram, nem ficaram ao par; subiram até converter o
esperado lucro de quarenta contos n'uma perda de vinte.

Foi aqui que o Chico Borges teve uma inspiração de genio. Na vespera,
quando o Falcão, abatido e mudo, passeava na sala o seu desapontamento,
propoz elle custear todo o deficit, se lhe désse a sobrinha. Falcão teve um
deslumbramento.

—Que eu...?

—Isso mesmo, interrompeu o outro, rindo.

—Não, não...

Não quiz; recusou tres e quatro vezes. A primeira impressão fôra de
alegria, eram os dez contos na algibeira. Mas a idéa de separar-se de
Jacintha{169} era insupportavel, e recusou. Dormiu mal. De manhã, encarou
a situação, pesou as cousas, considerou que, entregando Jacintha ao outro,
não a perdia inteiramente, ao passo que os dez contos iam-se embora. E,
depois, se ella gostava d'elle e elle d'ella, porque razão separal-os? Todas as
filhas casam-se, e os pais contentam-se de as vêr felizes. Correu á casa do
Chico Borges, e chegaram a accordo.

—Fiz mal, muito mal, bradava elle na noite do casamento. Tão minha
amiga que ella era! Tão amorosa! Ia chorando, coitadinha... Fiz mal, muito
mal.

Cessára o terror dos dez contos; começára o fastio da solidão. Na manhã
seguinte, foi visitar os noivos. Jacintha não se limitou a regalal-o com um
bom almoço, encheu-o de mimos e affagos; mas nem estes, nem o almoço
lhe restituiram a alegria. Ao contrario, a felicidade dos noivos entristeceu-o
mais. Ao voltar para casa não achou a carinha meiga de Jacintha. Nunca
mais lhe ouviria as cantigas de menina e moça; não seria ella quem lhe faria

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o chá, quem lhe traria, á noite, quando elle quizesse ler, o velho tomo
ensebado do Saint-Clair das Ilhas, dadiva de 1850.

—Fiz mal, muito mal...

Para remediar o mal feito, transferiu as cartas{170} para a casa da
sobrinha, e ia lá jogar, á noute, com o Chico Borges. Mas a fortuna, quando
flagella um homem, corta-lhe todas as vazas. Quatro mezes depois, os
recem-casados foram para a Europa; a solidão alargou-se de toda a extensão
do mar. Falcão contava então cincoenta e quatro annos. Já estava mais
consolado do casamento de Jacintha; tinha mesmo o plano de ir morar com
elles, ou de graça, ou mediante uma pequena retribuição, que calculou ser
muito mais economico do que a despeza de viver só. Tudo se esboroou; eil-
o outra vez na situação de oito annos antes, com a differença que a sorte
arrancára-lhe a taça entre dous goles.

Vai senão quando cai-lhe outra sobrinha em casa. Era a filha da irmã
viuva, que morreu e lhe pediu a esmola de tomar conta d'ella. Falcão não
prometteu nada, por que um certo instincto o levava a não prometter cousa
nenhuma a ninguem, mas a verdade é que recolheu a sobrinha, tão depressa
a irmã fechou os olhos. Não teve constrangimento; ao contrario, abriu-lhe
as portas de casa, com um alvoroço de namorado, e quasi abençoou a morte
da irmã. Era outra vez a filha perdida.

—Esta ha de fechar-me os olhos, dizia elle comsigo.

Não era facil. Virginia tinha dezoito annos, feições{171} lindas e
originaes; era grande e vistosa. Para evitar que lh'a levassem, Falcão
começou por onde acabara da primeira vez:—janellas cerradas,
advertencias á preta, raros passeios, só com elle e de olhos baixos. Virginia
não se mostrou enfadada.—Nunca fui janelleira, dizia ella, e acho muito
feio que uma moça viva com o sentido na rua. Outra cautella do Falcão foi
não trazer para casa senão parceiros de cincoenta annos para cima ou
casados. Emfim, não cuidou mais da baixa das acções. E tudo isso era
desnecessario, porque a sobrinha não cuidava realmente senão d'elle e da
casa. Ás vezes, como a vista do tio começava a diminuir muito, lia-lhe ella
mesma alguma pagina do Saint-Clair das Ilhas. Para supprir os parceiros,
quando elles faltavam, apprendeu a jogar cartas, e, entendendo que o tio

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gostava de ganhar, deixava-se sempre perder. Ia mais longe: quando perdia
muito, fingia-se zangada ou triste, com o unico fim de dar ao tio um
accrescimo de prazer. Elle ria então á larga, mofava d'ella, achava-lhe o
nariz comprido, pedia um lenço para enxugar-lhe as lagrimas; mas não
deixava de contar os seus tentos de dez em dez minutos, e se algum cahia
no chão (eram grãos de milho) descia a vela para apanhal-o.{172}

No fim de tres mezes, Falcão adoeceu. A molestia não foi grave nem
longa; mas o terror da morte apoderou-se-lhe do espirito, e foi então que se
pôde vêr toda a affeição que elle tinha á moça. Cada visita que se lhe
chegava, era recebida com rispidez, ou pelo menos com sequidão. Os mais
intimos padeciam mais, porque elle dizia-lhes brutalmente que ainda não
era cadaver, que a carniça ainda estava viva, que os urubús enganavam-se
de cheiro, etc. Mas nunca Virginia achou n'elle um só instante de máu
humor. Falcão obedecia-lhe em tudo, com uma passividade de creança, e
quando ria, é porque ella o fazia rir.

—Vamos, tome o remedio, deixe-se disso, vosmecê agora é meu filho...

Falcão sorria e bebia a droga. Ella sentava-se ao pé da cama, contando-
lhe historias, espiava o relogio para dar-lhe os caldos ou a gallinha, lia-lhe o
sempiterno Saint-Clair. Veiu a convalecença. Falcão sahiu a alguns
passeios, acompanhado de Virginia. A prudencia com que esta, dando-lhe o
braço, ia mirando as pedras da rua, com medo de encarar os olhos de algum
homem, encantavam o Falcão.

—Esta ha de fechar-me os olhos, repetia elle comsigo mesmo. Um dia,
chegou a pensal-o em voz{173} alta:—Não é verdade que você me ha de
fechar os olhos?

—Não diga tolices!

Comquanto estivesse na rua, elle parou, apertou-lhe muito as mãos,
agradecido, não achando que dizer. Se tivesse a faculdade de chorar, ficaria
provavelmente com os olhos humidos. Chegando á casa? Virginia correu ao
quarto para reler uma carta que lhe entregára na vespera uma D. Bernarda,
amiga de sua mãi. Era datada de New-York, e trazia por unica assignatura
este nome: Reginaldo. Um dos trechos dizia assim: «Vou d'aqui no paquete

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de 25. Espera-me sem falta. Não sei ainda se irei ver-te logo ou não. Teu tio
deve lembrar-se de mim; viu-me em casa de meu tio Chico Borges, no dia
do casamento de tua prima...»

Quarenta dias depois, desembarcava este Reginaldo, vindo de New-York,
com trinta annos feitos e trezentos mil dollars ganhos. Vinte e quatro horas
depois visitou o Falcão, que o recebeu apenas com polidez. Mas o
Reginaldo era fino e pratico; atinou com a principal corda do homem, e
vibrou-a. Contou-lhe os prodigios de negocio nos Estados-Unidos, as
hordas de moedas que corriam de um a outro dos dous oceanos. Falcão
ouvia deslumbrado, e pedia{174} mais. Então o outro fez-lhe uma extensa
computação das companhias e bancos, acções, saldos de orçamento publico,
riquezas particulares, receita municipal de New-York; descreveu-lhe os
grandes palacios do commercio...

—Realmente, é um grande paiz, dizia o Falcão, de quando em quando. E
depois de tres minutos de reflexão:—Mas, pelo que o senhor conta, só ha
ouro?

—Ouro só, não; ha muita prata e papel; mas alli papel e ouro é a mesma
cousa. E moedas de outras nações? Hei de mostrar-lhe uma collecção que
trago. Olhe; para vêr o que é aquillo basta pôr os olhos em mim. Fui para lá
pobre, com vinte e tres annos; no fim de sete annos, trago seiscentos contos.

Falcão estremeceu:—Eu, com a sua edade, confessou elle, mal chegaria a
cem.

Estava encantado. Reginaldo disse-lhe que precisava de duas ou tres
semanas, para lhe contar os milagres do dollar.

—Como é que o senhor lhe chama?

—Dollar.

—Talvez não acredite que nunca vi essa moeda.

Reginaldo tirou do bolso do collete um dollar e mostrou-lh'o. Falcão,
antes de lhe pôr a mão, agarrou-o{175} com os olhos. Como estava um

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pouco escuro, levantou-se e foi até á janella, para examinal-o bem—de
ambos os lados; depois restituiu-o, gabando muito o desenho e a cunhagem,
e accrescentando que os nossos antigos patacões eram bem bonitos.

As visitas repetiram-se. Reginaldo assentou de pedir a moça. Esta,
porém, disse-lhe que era preciso ganhar primeiro as boas graças do tio; não
casaria contra a vontade d'elle. Reginaldo não desanimou. Tratou de
redobrar as finezas; abarrotou o tio de dividendos fabulosos.

—A proposito, o senhor nunca me mostrou a sua collecção de moedas,
disse-lhe um dia o Falcão.

—Vá amanhã á minha casa.

Falcão foi. Reginaldo mostrou-lhe a collecção mettida n'um movel
envidraçado por todos os lados. A sorpreza de Falcão foi extraordinaria;
esperava uma caixinha com um exemplar de cada moeda, e achou montes
de ouro, de prata, de bronze e de cobre. Falcão mirou-as primeiro de um
olhar universal e collectivo; depois, começou a fixal-as especificadamente.
Só conheceu as libras, os dollars e os francos; mas o Reginaldo nomeou-as
todas: florins, corôas, rublos, drachmas, piastras, pesos, rupias, toda a
numismatica do trabalho, concluiu elle poeticamente.{176}

—Mas que paciencia a sua para ajuntar tudo isto! disse elle.

—Não fui eu que ajuntei, replicou o Reginaldo; a collecção pertencia ao
espolio de um sujeito de Philadelphia. Custou-me uma bagatella:—cinco
mil dollars.

Na verdade, valia mais. Falcão sahiu d'alli com a collecção na alma;
fallou d'ella á sobrinha, e, imaginariamente, desarrumou e tornou a arrumar
as moedas, como um amante desgrenha a amante para toucal-a outra vez.
De noite sonhou que era um florim, que um jogador o deitava á mesa do
lansquenet, e que elle trazia comsigo para a algibeira do jogador mais de
duzentos florins. De manhã, para consolar-se, foi contemplar as proprias
moedas que tinha na burra; mas não se consolou nada. O melhor dos bens é
o que se não possue.

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D'alli a dias, estando em casa, na sala, pareceu-lhe ver uma moeda no
chão. Inclinou-se a apanhal-a; não era moeda, era uma simples carta. Abriu
a carta distrahidamente e leu-a espantado: era de Reginaldo a Virginia...

—Basta! interrompe-me o leitor; adivinho o resto. Virginia casou com o
Reginaldo, as moedas passaram ás mãos do Falcão, e eram falsas...{177}

Não, senhor, eram verdadeiras. Era mais moral que, para castigo do nosso
homem, fossem falsas; mas, ai de mim! eu não sou Seneca, não passo de
um Suetonio que contaria dez vezes a morte de Cezar, se elle resussitasse
dez vezes, pois não tornaria á vida, se não para tornar ao imperio.

FIM DE UMA ANECDOTA PECUNIARIA.

{178}
{179}

FULANO

Venha o leitor commigo assistir á abertura do testamento do meu amigo
Fulano Beltrão. Conheceu-o? Era um homem de cerca de sessenta annos.
Morreu hontem, dous de Janeiro de 1884, ás onze horas e trinta minutos da
noite. Não imagina a força de animo que mostrou em toda a molestia. Cahiu
na vespera de finados, e a principio suppunhamos que não fosse nada; mas
a doença persistiu, e ao fim de dous mezes e poucos dias a morte o levou.

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Eu confesso-lhe que estou curioso de ouvir o testamento. Ha de conter
por força algumas determinações de interesse geral e honrosas para elle.
Antes de 1863 não seria assim, porque até então era um homem muito
mettido comsigo, reservado, morando no caminho do Jardim Botanico, para
onde ia de omnibus ou de mula. Tinha a mulher e o filho vivos, a filha
solteira, com treze annos. Foi n'esse{180} anno que elle começou a occupar-
se com outras cousas, além da familia, revellando um espirito universal e
generoso. Nada posso affirmar-lhe sobre a causa disto. Creio que foi uma
apologia de amigo, por occasião d'elle fazer quarenta annos. Fulano Beltrão
leu no Jornal do Commercio, no dia cinco de Março de 1864, um artigo
anonymo em que se lhe diziam cousas bellas e exactas:—bom pai, bom
esposo, amigo pontual, cidadão digno, alma levantada e pura. Que se lhe
fizesse justiça, era muito; mas anonymamente, era raro.

—Você verá, disse Fulano Beltrão á mulher, você verá que isto é do
Xavier ou do Castro; logo rasgaremos o capote.

Castro e Xavier eram dous habituados da casa, parceiros constantes do
voltarete e velhos amigos do meu amigo. Costumavam dizer cousas
amaveis, no dia cinco de março, mas era ao jantar, na intimidade da familia,
entre quatro paredes; impressos, era a primeira vez que elle se benzia com
elogios. Póde ser que me engane; mas estou que o expectaculo da justiça, a
prova material de que as boas qualidades e as boas acções não morrem no
escuro, foi o que animou o meu amigo a dispersar-se, a apparecer, a
divulgar-se, a dar á collectividade humana um{181} pouco das virtudes com
que nasceu. Considerou que milhares de pessoas estariam lendo o artigo, á
mesma hora em que o lia tambem; imaginou que o commentavam, que
interrogavam, que confirmavam, ouviu mesmo, por um phenomeno de
allucinação que a sciencia ha de explicar, e que não é raro, ouviu
distinctamente algumas vozes do publico. Ouviu que lhe chamavam homem
de bem, cavalheiro distincto, amigo dos amigos, laborioso, honesto, todos
os qualificativos que elle vira empregados em outros, e que na vida de
bicho do matto em que ia, nunca presumiu que lhe fossem—
typographicamente—applicados.

—A imprensa é uma grande invenção, disse elle á mulher.

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Foi ella, D. Maria Antonia, quem rasgou o capote; o artigo era do Xavier.
Declarou este que só em attenção á dona casa confessava a auctoria; e
accrescentou que a manifestação não sahira completa, porque a idéa d'elle
era que o artigo fosse dado em todos os jornaes, não o tendo feito por havel-
o acabado ás sete horas da noite. Não houve tempo de tirar cópias. Fulano
Beltrão emendou essa falta, se falta se lhe podia chamar, mandando
transcrever o artigo no Diario do Rio e o Correio Mercantil.{182}

Quando mesmo, porém, este facto não desse causa á mudança de vida do
nosso amigo, fica uma cousa de pé, a saber, que daquelle anno em diante, e
propriamente do mez de março, é que elle começou a apparecer mais. Era
até então um casmurro, que não ia ás assembléas das companhias, não
votava nas eleições politicas, não frequentava theatros, nada, absolutamente
nada. Já n'aquelle mez de março, a vinte e dous ou vinte ou vinte e tres,
presenteou a Santa Casa da Misericordia com um bilhete da grande loteria
de Hespanha, e recebeu uma honrosa carta do provedor, agradecendo em
nome dos pobres. Consultou a mulher e os amigos, se devia publicar a carta
ou guardal-a, parecendo-lhe que não a publicar era uma desattenção. Com
effeito, a carta foi dada a vinte e seis de março, em todas as folhas, fazendo
uma dellas commentarios desenvolvidos ácerca da piedade do doador. Das
pessoas que leram esta noticia, muitas naturalmente ainda se lembravam do
artigo do Xavier, e ligaram as duas occurencias: «Fulano Beltrão é aquelle
mesmo que, etc.» primeiro alicerce da reputação de um homem.

É tarde, temos de ir ouvir o testamento, não posso estar a contar-lhe tudo.
Digo-lhe summariamente que as injustiças da rua começaram a ter{183}
n'elle um vingador activo e discursivo; que as miserias, principalmente as
miserias dramaticas, filhas de um incendio ou inundação, acharam no meu
amigo a iniciativa dos soccorros que, em taes casos, devem ser promptos e
publicos. Ninguem como elle para um desses movimentos. Assim tambem
com as alforias de escravos. Antes da lei de 28 de setembro de 1871, era
muito commum apparecerem na Praça do Commercio crianças escravas,
para cuja liberdade se pedia o favor dos negociantes. Fulano Beltrão
iniciava tres quartas partes das subscripções, com tal exito, que em poucos
minutos ficava o preço coberto.

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A justiça que se lhe fazia, animava-o, e até lhe trazia lembranças que,
sem ella, é possivel que nunca lhe tivessem acudido. Não fallo do baile que
elle deu para celebrar a victoria de Riachuelo, porque era um baile planeado
antes de chegar a noticia da batalha, e elle não fez mais do que attribuir-lhe
um motivo mais alto do que a simples recreação de familia, metter o retrato
do almirante Barroso no meio de um trophéu de armas navaes e bandeiras
no salão de honra, em frente ao retrato do imperador, e fazer, á ceia, alguns
brindes patrioticos, como tudo consta dos jornaes de 1865.{184}

Mas aqui vai, por exemplo, um caso bem caracteristico da influencia que
a justiça dos outros póde ter no nosso procedimento. Fulano Beltrão vinha
um dia do thesouro, aonde tinha ido tratar de umas decimas. Ao passar pela
egreja da Lampadosa, lembrou-se que fôra alli baptisado; e nenhum homem
tem uma recordação d'estas, sem remontar o curso dos annos e dos
acontecimentos, deitar-se outra vez no collo materno, rir e brincar, como
nunca mais se ri nem brinca. Fulano Beltrão não escapou a este effeito;
atravessou o adro, entrou na egreja, tão singela, tão modesta, e para elle tão
rica e linda. Ao sahir, tinha uma resolução feita, que pôz por obra dentro de
poucos dias: mandou de presente á Lampadosa um soberbo castiçal de
prata, com duas datas, além do nome do doador—a data da doação e a do
baptisado. Todos os jornaes deram esta noticia, e até a receberam em
duplicata, porque a administração da egreja entendeu (com muita razão) que
tambem lhe cumpria divulgal-a aos quatro ventos.

No fim de tres annos, ou menos, entrára o meu amigo nas cogitações
publicas; o nome d'elle era lembrado, mesmo quando nenhum successo
recente vinha suggeril-o, e não só lembrado como adjectivado.{185} Já se lhe
notava a ausencia em alguns logares. Já o iam buscar para outros. D. Maria
Antonia via assim entrar-lhe no Eden a serpente biblica, não para tental-a,
mas para tentar a Adão. Com effeito, o marido ia a tantas partes, cuidava de
tantas cousas, mostrava-se tanto na rua do Ouvidor, á porta do Bernardo,
que afrouxou a convivencia antiga da casa. D. Maria Antonia disse-lh'o.
Elle concordou que era assim, mas demonstrou-lhe que não podia ser de
outro modo, e, em todo caso, se mudára de costumes, não mudára de
sentimentos. Tinha obrigações moraes com a sociedade; ninguem se
pertence exclusivamente; d'ahi um pouco de dispersão dos seus cuidados. A
verdade é que tinham vivido demasiadamente reclusos; não era justo nem

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bonito. Não era mesmo conveniente; a filha caminhava para a edade do
matrimonio, e casa fechada cria morrinha de convento; por exemplo, um
carro, porque é que não teriam um carro? D. Maria Antonia sentiu um
arrepio de prazer, mas curto; protestou logo, depois de um minuto de
reflexão.

—Não; carro para que? Não; deixemo-nos de carro.

—Já está comprado, mentiu o marido.

Mas aqui chegamos ao juizo da provedoria. Não{186} veiu ainda
ninguem; esperemos á porta. Tem pressa? São vinte minutos no maximo.
Pois é verdade, comprou uma linda victoria; e, para quem, só por modestia,
andou tantos annos ás costas de mula ou apertado n'um omnibus, não era
facil acostumar-se logo ao novo vehiculo. A isso attribuo eu as attitudes
salientes e inclinadas com que elle andava, nas primeiras semanas, os olhos
que estendia a um lado e outro, á maneira de pessoa que procura alguem ou
uma casa. Afinal acostumou-se; passou a usar das attitudes reclinadas,
embora sem um certo sentimento de indifferença ou despreoccupação, que a
mulher e a filha tinham muito bem, talvez por serem mulheres. Ellas, aliás,
não gostavam de sahir de carro; mas elle teimava tanto que sahissem, que
fossem a toda a parte, e até a parte nenhuma, que não tinham remedio senão
obedecer-lhe; e, na rua, era sabido, mal vinha ao longe a ponta do vestido
de duas senhoras, e na almofada um certo cocheiro, toda a gente dizia logo:
—ahi vem a familia de Fulano Beltrão. E isto mesmo, sem que elle talvez o
pensasse, tornava-o mais conhecido.

No anno de 1868 deu entrada na politica. Sei do anno porque coincidiu
com a queda dos liberaes e a subida dos conservadores. Foi em março ou
abril de{187} 1868 que elle declarou adherir á situação, não á socapa, mas
estrepitosamente. Este foi, talvez, o ponto mais fraco da vida do meu
amigo. Não tinha idéas politicas; quando muito, dispunha de um d'esses
temperamentos que substituem as idéas, e fazem crer que um homem pensa,
quando simplesmente transpira. Cedeu, porém, a uma allucinação de
momento. Viu-se na camara vibrando um áparte, ou inclinado sobre a
balaustrada, em conversa com o presidente do conselho, que sorria para
elle, n'uma intimidade grave de governo. E ahi é que a galeria, na exacta
accepção do termo, tinha de o contemplar. Fez tudo o que poude para entrar

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na camara; a meio caminho cahiu a situação. Voltando do atordoamento,
lembrou-se de affirmar ao Itaborahy o contrario do que dissera ao Zacarias,
ou antes a mesma cousa; mas perdeu a eleição, e deu de mão á politica.
Muito mais acertado andou, mettendo-se na questão da maçonaria com os
prelados. Deixára-se estar quedo, a principio; por um lado, era maçon; por
outro, queria respeitar os sentimentos religiosos da mulher. Mas o conflicto
tomou taes proporções que elle não podia ficar calado; entrou n'elle com o
ardor, a expansão, a publicidade que mettia em tudo; celebrou reuniões em
que fallou muito da liberdade{188} de consciencia e do direito que assistia
ao maçon de enfiar uma opa; assignou protestos, representações,
felicitações, abriu a bolsa e o coração, escancaradamente.

Morreu-lhe a mulher em 1878. Ella pediu-lhe que a enterrasse sem
apparato, e elle assim o fez, porque a amava deveras e tinha a sua ultima
vontade como um decreto do céu. Já então perdera o filho; e a filha, casada,
achava-se na Europa. O meu amigo dividiu a dôr com o publico; e, se
enterrou a mulher sem apparato, não deixou de lhe mandar esculpir na Italia
um magnifico mausoléu, que esta cidade admirou exposto, na rua do
Ouvidor, durante perto de um mez. A filha ainda veiu assistir á inauguração.
Deixei de os ver uns quatro annos. Ultimamente surgiu a doença, que no
fim de pouco mais de dous mezes o levou d'esta para a melhor. Note que,
até começar a agonia, nunca perdeu a razão nem a força d'alma. Conversava
com as visitas, mandava-as relacionar, não esquecia mesmo noticiar ás que
chegavam, as que acabavam de sahir; cousa inutil, porque uma folha amiga
publicava-as todas. Na manhã do dia em que morreu ainda ouviu lêr os
jornaes, e n'um d'elles uma pequena communicação relativamente á sua
molestia, o que de algum modo{189} pareceu reanimal-o. Mas para a tarde
enfraqueceu um pouco; á noite expirou.

Vejo que está aborrecido. Realmente demoram-se... Espere; creio que são
elles. São; entremos. Cá está o nosso magistrado, que começa a ler o
testamento. Está ouvindo? Não era preciso esta minuciosa genealogia,
excedente das praticas tabelliôas; mas isto mesmo de contar a familia desde
o quarto avô prova o espirito exacto e paciente do meu amigo. Não esquecia
nada. O ceremonial do sahimento é longo e complicado, mas bonito.
Começa agora a lista dos legados. São todos pios; alguns industriaes. Vá
vendo a alma do meu amigo. Trinta contos...

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Trinta contos para que? Para servir de começo a uma subscripção publica
destinada a erigir uma estatua a Pedro Alvares Cabral. «Cabral, diz alli o
testamento, não póde ser olvidado dos brazileiros, foi o precursor do nosso
imperio». Recommenda que a estatua seja de bronze, com quatro
medalhões no pedestal, a saber, o retrato do bispo Coutinho, presidente da
Constituinte, o de Gonzaga, chefe da conjuração mineira, e o de dous
cidadãos da presente geração «notáveis por seu patriotismo e liberalidade»
á escolha da commissão, que elle mesmo nomeou para levar a empreza a
cabo.{190}

Que ella se realise, não sei; falta-nos a perseverança do fundador da
verba. Dado, porém, que a commissão se desempenhe da tarefa, e que este
sol americano ainda veja erguer-se a estatua de Cabral, é da nossa honra que
elle contemple n'um dos medalhões o retrato do meu finado amigo. Não lhe
parece? Bem, o magistrado acabou, vamos embora.

FIM DO FULANO.

{191}

A SEGUNDA VIDA

Monsenhor Caldas interrompeu a narração do desconhecido:—Dá
licença? é só um instante. Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o
preto velho que o servia, e disse-lhe em voz baixa:

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—João, vae alli á estação de urbanos, falla da minha parte ao
commandante, e pede-lhe que venha cá com um ou dous homens, para
livrar-me de um sujeito doudo. Anda, vae depressa.

E, voltando á sala:

—Prompto, disse elle; podemos continuar.

—Como ia dizendo a Vossa Reverendissima, morri no dia vinte de março
de 1860, ás cinco horas e quarenta e tres minutos da manhã. Tinha então
sessenta e oito annos de edade. Minha alma vôou pelo espaço, até perder a
terra de vista, deixando muito abaixo a lua, as estrellas e o sol; penetrou
finalmente n'um espaço em que não havia mais nada,{192} e era clareado tão
sómente por uma luz diffusa. Continuei a subir, e comecei a ver um
pontinho mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu, fez-se sol.
Fui por alli dentro, sem arder, porque as almas são incombustiveis. A sua
pegou fogo alguma vez?

—Não, senhor.

—São incombustiveis. Fui subindo, subindo; na distancia de quarenta mil
legoas, ouvi uma deliciosa musica, e logo que cheguei a cinco mil legoas,
desceu um enxame de almas, que me levaram n'um palanquim feito de ether
e plumas. Entrei dahi a pouco no novo sol, que é o planeta dos virtuosos da
terra. Não sou poeta, monsenhor; não ouso descrever-lhe as magnificencias
daquella estancia divina. Poeta que fosse, não poderia, usando a linguagem
humana, transmittir-lhe a emoção da grandeza, do deslumbramento, da
felicidade, os extasis, as melodias, os arrojos de luz e cores, uma cousa
indefinivel e incomprehensivel. Só vendo. Lá dentro é que soube que
completava mais um milheiro de almas; tal era o motivo das festas
extraordinarias que me fizeram, e que duraram dous seculos, ou, pelas
nossas contas, quarenta e oito horas. Afinal, concluidas as festas,
convidaram-me a tornar á terra para cumprir uma{193} vida nova; era o
privilegio de cada alma que completava um milheiro. Respondi
agradecendo e recusando, mas não havia recusar. Era uma lei eterna. A
unica liberdade que me deram foi a escolha do vehiculo; podia nascer
principe ou conductor de omnibus. Que fazer? Que faria Vossa
Reverendissima no meu logar?

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—Não posso saber; depende...

—Tem razão; depende das circumstancias. Mas imagine que as minhas
eram taes que não me davam gosto a tornar cá. Fui victima da
inexperiencia, monsenhor, tive uma velhice ruim, por essa razão. Então
lembrou-me que sempre ouvira dizer a meu pae e outras pessoas mais
velhas, quando viam algum rapaz:—«Quem me dera aquella edade,
sabendo o que sei hoje!» Lembrou-me isto, e declarei que me era
indifferente nascer mendigo ou potentado, com a condição de nascer
experiente. Não imagina o riso universal com que me ouviram. Job, que alli
preside a provincia dos pacientes, disse-me que um tal desejo era disparate;
mas eu teimei e venci. Dahi a pouco escorreguei no espaço; gastei nove
mezes a atravessal-o até cair nos braços de uma ama de leite, e chamei-me
José Maria. Vossa Reverendissima é Romualdo, não?{194}

—Sim, senhor; Romualdo de Souza Caldas.

—Será parente do padre Souza Caldas?

—Não, senhor.

—Bom poeta o padre Caldas. Poesia é um dom; eu nunca pude compor
uma decima. Mas, vamos ao que importa. Conto-lhe primeiro o que me
succedeu; depois lhe direi o que desejo de Vossa Reverendissima.
Entretanto, se me permittisse ir fumando...

Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder de vista a
bengala que José Maria conservava atravessada sobre as pernas. Este
preparou vagarosamente um cigarro. Era um homem de trinta e poucos
annos, pallido, com um olhar ora molle e apagado, ora inquieto e
centelhante. Appareceu alli, tinha o padre acabado de almoçar, e pediu-lhe
uma entrevista para negocio grave e urgente. Monsenhor fel-o entrar e
sentar-se; no fim de dez minutos, viu que estava com um lunatico.
Perdoava-lhe a incoherencia das idéas ou o assombroso das invenções; póde
ser até que lhe servissem de estudo. Mas o desconhecido teve um assomo
de raiva, que metteu medo ao pacato clerigo. Que podiam fazer elle e o
preto, ambos velhos, contra qualquer aggressão de um homem forte e
louco? Em quanto esperava o auxilio policial, monsenhor Caldas desfazia-

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se em{195} sorrisos e assentimentos de cabeça, espantava-se com elle,
alegrava-se com elle, politica util com os loucos, as mulheres e os
potentados. José Maria accendeu finalmente o cigarro, e continuou:

—Renasci em cinco de Janeiro de 1861. Não lhe digo nada da nova
meninice, porque ahi a experiencia teve só uma fórma instinctiva. Mamava
pouco; chorava o menos que podia para não apanhar pancada. Comecei a
andar tarde, por medo de cair, e dahi me ficou uma tal ou qual fraqueza nas
pernas. Correr e rolar, trepar nas arvores, saltar paredões, trocar murros,
cousas tão uteis, nada disso fiz, por medo de contusão e sangue. Para fallar
com franqueza, tive uma infancia aborrecida, e a escola não o foi menos.
Chamavam-me tolo e moleirão. Realmente, eu vivia fugindo de tudo. Creia
que durante esse tempo não escorreguei, mas tambem não corria nunca.
Palavra, foi um tempo de aborrecimento; e, comparando as cabeças
quebradas de outro tempo com o tédio de hoje, antes as cabeças quebradas.
Cresci; fiz-me rapaz, entrei no periodo dos amores... Não se assuste; serei
casto, como a primeira ceia. Vossa Reverendissima sabe o que é uma ceia
de rapazes e mulheres?

—Como quer que saiba?...{196}

—Tinha dezenove annos, continuou José Maria, e não imagina o espanto
dos meus amigos, quando me declarei prompto a ir a uma tal ceia...
Ninguem esperava tal cousa de um rapaz tão cautelloso, que fugia de tudo,
dos somnos atrazados, dos somnos excessivos, de andar sozinho a horas
mortas, que vivia, por assim dizer, ás apalpadellas. Fui á ceia; era no Jardim
Botanico, obra explendida. Comidas, vinhos, luzes, flores, alegria dos
rapazes, os olhos das damas, e, por cima de tudo, um appetite de vinte
annos. Hade crer que não comi nada? A lembrança de tres indigestões
apanhadas quarenta annos antes, na primeira vida, fez-me recuar. Menti
dizendo que estava indisposto. Uma das damas veiu sentar-se á minha
direita, para curar-me; outra levantou-se tambem, e veiu para a minha
esquerda, com o mesmo fim. Você cura de um lado, eu curo do outro,
disseram ellas. Eram lepidas, frescas, astuciosas, e tinham fama de devorar
o coração e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que fiquei com medo e retrahi-
me. Ellas fizeram tudo, tudo; mas em vão. Vim de lá de manhã, apaixonado
por ambas, sem nenhuma dellas, e caindo de fome. Que lhe parece?

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concluiu José Maria pondo as mãos nos joelhos, e arqueando os braços para
fóra?{197}

—Com effeito...

—Não lhe digo mais nada; Vossa Reverendissima adivinhará o resto. A
minha segunda vida é assim uma mocidade expansiva e impetuosa,
enfreiada por uma experiencia virtual e tradiccional. Vivo como Eurico,
atado ao proprio cadaver... Não, a comparação não é boa. Como lhe parece
que vivo?

—Sou pouco imaginoso. Supponho que vive assim como um passaro,
batendo as azas e amarrado pelos pés...

—Justamente. Pouco imaginoso? Achou a formula; é isso mesmo. Um
passaro, um grande passaro, batendo as azas, assim...

José Maria ergueu-se, agitando os braços, á maneira de azas. Ao erguer-
se, caiu-lhe a bengala no chão; mas elle não deu por ella. Continuou a agitar
os braços, em pé, defronte do padre, e a dizer que era isso mesmo, um
passaro, um grande passaro... De cada vez que batia os braços nas coxas,
levantava os calcanhares, dando ao corpo uma cadencia de movimentos, e
conservava os pés unidos, para mostrar que os tinha amarrados. Monsenhor
approvava de cabeça; ao mesmo tempo afiava as orelhas para vêr se ouvia
passos na escada. Tudo silencio. Só lhe chegavam os rumores de fóra:—
carros e carroças{198} que desciam, quitandeiras apregoando legumes, e um
piano da vizinhança. José Maria sentou-se finalmente, depois de apanhar a
bengala, e continuou nestes termos:

—Um passaro, um grande passaro. Para ver quanto é feliz a comparação,
basta a aventura que me traz aqui, um caso de consciencia, uma paixão,
uma mulher, uma viuva, D. Clemencia. Tem vinte e seis annos, uns olhos
que não acabam mais, não digo no tamanho, mas na expressão, e duas
pincelladas de buço, que lhe completam a physionomia. É filha de um
professor jubilado. Os vestidos pretos ficam-lhe tão bem que eu ás vezes
digo-lhe rindo que ella não enviuvou senão para andar de luto. Caçoadas!
Conhecemo-nos ha um anno, em casa de um fazendeiro de Cantagallo.

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Saimos namorados um do outro. Já sei o que me vae perguntar: porque é
que não nos casamos, sendo ambos livres...

—Sim, senhor.

—Mas, homem de Deus! é essa justamente a materia da minha aventura.
Somos livres, gostamos um do outro, e não nos casamos: tal é a situação
tenebrosa que venho expor a Vossa Reverendissima, e que a sua theologia
ou o que quer que seja, explicará, se puder. Voltamos para a Côrte
namorados.{199} Clemencia morava com o velho pae, e um irmão
empregado no commercio; relacionei-me com ambos, e comecei a
frequentar a casa, em Matacavallos. Olhos, apertos de mão, palavras soltas,
outras ligadas, uma phrase, duas phrases, e estavamos amados e
confessados. Uma noite, no patamar da escada, trocamos o primeiro beijo...
Perdôe estas cousas, monsenhor; faça de conta que me está ouvindo de
confissão. Nem eu lhe digo isto senão para acrescentar que sahi dalli tonto,
desvairado, com a imagem de Clemencia na cabeça e o sabor do beijo na
bocca. Errei cerca de duas horas, planeando uma vida unica; determinei
pedir-lhe a mão no fim da semana, e casar dahi a um mez. Cheguei ás
derradeiras minucias, cheguei a redigir e ornar de cabeça as cartas de
participação. Entrei em casa depois de meia noite, e toda essa fantasmagoria
vôou, como as mutações á vista nas antigas peças de theatro. Veja se
adivinha como.

—Não alcanço...

—Considerei, no momento de despir o collete, que o amor podia acabar
depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao descalçar as botas, lembrou-me
cousa peior:—podia ficar o fastio. Conclui a toilette de dormir, accendi um
cigarro, e, reclinado no canapé, pensei que o costume, a convivencia,
podia{200} salvar tudo; mas, logo depois adverti que as duas indoles podiam
ser incompativeis; e que fazer com duas indoles imcompativeis e
inseparaveis? Mas, emfim, dei de barato tudo isso, porque a paixão era
grande, violenta; considerei-me casado, com uma linda creancinha... Uma?
duas, seis, oito; podiam vir oito, podiam vir dez; algumas aleijadas.
Tambem podia vir uma crise, duas crises, falta de dinheiro, penuria,
doenças; podia vir alguma dessas affeições espurias que perturbam a paz
domestica... Considerei tudo e conclui que o melhor era não casar. O que

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não lhe posso contar é o meu desespero; faltam-me expressões para lhe
pintar o que padeci nessa noite... Deixa-me fumar outro cigarro?

Não esperou resposta, fez o cigarro, e accendeu-o. Monsenhor não podia
deixar de admirar-lhe a bella cabeça, no meio do desalinho proprio do
estado; ao mesmo tempo notou que elle fallava em termos polidos, e, que
apesar dos rompantes morbidos, tinha maneiras. Quem diabo podia ser esse
homem? José Maria continuou a historia, dizendo que deixou de ir á casa de
Clemencia, durante seis dias, mas não resistiu ás cartas e ás lagrimas. No
fim de uma semana correu para lá, e confessou-lhe tudo, tudo. Ella ouviu-o
com muito interesse, e quiz saber o{201} que era preciso para acabar com
tantas scismas, que prova de amor queria que ella lhe désse.—A resposta de
José Maria foi uma pergunta.

—Está disposta a fazer-me um grande sacrificio? disse-lhe eu. Clemencia
jurou que sim. «Pois bem, rompa com tudo, familia e sociedade; venha
morar commigo; casamo-nos depois desse noviciado.» Comprehendo que
Vossa Reverendissima arregale os olhos. Os della encheram-se de lagrimas;
mas, apesar de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou um
monstro.

—Não, senhor...

—Como não? Sou um monstro. Clemencia veiu para minha casa, e não
imagina as festas com que a recebi. «Deixo tudo, disse-me ella; você é para
mim o universo.» Eu beijei-lhe os pés, beijei-lhe os tacões dos sapatos. Não
imagina o meu contentamento. No dia seguinte, recebi uma carta tarjada de
preto; era a noticia da morte de um tio meu, em Santa Anna do Livramento,
deixando-me vinte mil contos. Fiquei fulminado. «Entendo, disse a
Clemencia, você sacrificou tudo, por que tinha noticia da herança.» Desta
vez, Clemencia não chorou, pegou em si e sahiu. Fui atraz della,
envergonhado, pedi-lhe perdão; ella resistiu. Um dia, dous dias, tres dias,
foi tudo vão;{202} Clemencia não cedia nada, não fallava sequer. Então
declarei-lhe que me mataria; comprei um revolver, fui ter com ella, e
apresentei-lh'o: é este.

Monsenhor Caldas empallideceu. José Maria mostrou-lhe o revolver,
durante alguns segundos, tornou a mettel-o na algibeira, e continuou:

Page 123

—Cheguei a dar um tiro. Ella, assustada, desarmou-me e perdoou-me.
Ajustámos precipitar o casamento, e, pela minha parte, impuz uma
condição: doar os vinte mil contos á Bibliotheca Nacional. Clemencia
atirou-se-me aos braços, e approvou-me com um beijo. Dei os vinte mil
contos. Ha de ter lido nos jornaes... Tres semanas depois casamo-nos. Vossa
Reverendissima respira como quem chegou ao fim. Qual! Agora é que
chegamos ao tragico. O que posso fazer é abreviar umas particularidades e
supprimir outras; restrinjo-me a Clemencia. Não lhe fallo de outras
emoções truncadas, que são todas as minhas, abortos de prazer, planos que
se esgarçam no ar, nem das illusões de saia rota, nem do tal passaro... plas...
plas... plas...

E, de um salto, José Maria ficou outra vez de pé, agitando os braços, e
dando ao corpo uma cadencia. Monsenhor Caldas começou a suar frio. No
fim de alguns segundos, José Maria parou, sentou-se, e{203} reatou a
narração, agora mais diffusa, mais derramada, evidentemente mais
delirante. Contava os sustos em que vivia, desgostos e desconfianças. Não
podia comer um figo ás dentadas, como outr'ora; o receio do bicho
diminuia-lhe o sabor. Não cria nas caras alegres da gente que ia pela rua:
preoccupações, desejos, odios, tristezas, outras cousas, iam dissimuladas
por umas tres quartas partes dellas. Vivia a temer um filho cego ou surdo-
mudo, ou tuberculoso, ou assassino, etc. Não conseguia dar um jantar que
não ficasse triste logo depois da sopa, pela idéa de que uma palavra sua, um
gesto da mulher, qualquer falta de serviço podia suggerir o epigramma
digestivo, na rua, debaixo de um lampeão. A experiencia dera-lhe o terror
de ser empulhado. Confessava ao padre que, realmente, não tinha até agora
lucrado nada; ao contrario, perdera até, porque fôra levado ao sangue... Ia
contar-lhe o caso do sangue. Na vespera, deitara-se cedo, e sonhou... Com
quem pensava o padre que elle sonhou?

—Não atino...

—Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto em que
Jesus falla dos lyrios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-m'os. «Toma,
disse-me elle; são os lyrios da Escriptura; segundo{204} ouviste, nem
Salomão em toda a pompa, pôde hombrear com elles. Salomão é a
sapiencia. E sabes o que são estes lyrios, José? São os teus vinte annos.»

Page 124

Fitei-os encantado; eram lindos como não imagina. O Diabo pegou delles,
cheirou-os e disse-me que os cheirasse tambem. Não lhe digo nada; no
momento de os chegar ao nariz, vi sahir de dentro um reptil fedorento e
torpe, dei um grito, e arrojei para longe as flôres. Então, o Diabo,
escancarando uma formidavel gargalhada: «José Maria, são os teus vinte
annos». Era uma gargalhada assim:—cá, cá, cá, cá, cá...

José Maria ria á solta, ria de um modo estridente e diabolico. De repente,
parou; levantou-se, e contou que, tão depressa abriu os olhos, como viu a
mulher deante d'elle, afflicta e desgrenhada. Os olhos de Clemencia eram
doces, mas elle disse-lhe que os olhos doces tambem fazem mal. Ella
arrojou-se-lhe aos pés... Neste ponto a physionomia de José Maria estava
tão transtornada que o padre, tambem de pé, começou a recuar, tremulo e
pallido. «Não, miseravel! não! tu não me fugirás!» bradava José Maria
investindo para elle. Tinha os olhos esbugalhados, as temporas latejantes; o
padre ia recuando... recuando... Pela escada acima ouvia-se um rumor de
espadas e de pés. {205}

NOITE DE ALMIRANTE

Deolindo Venta-Grande (era uma alcunha de bordo) sahio do arsenal de
marinha e enfiou pela rua de Bragança. Batiam tres horas da tarde. Era a
fina flor dos marujos e, de mais, levava um grande ar de felicidade nos
olhos. A corveta d'elle voltou de uma longa viagem de instrucção, e
Deolindo veiu á terra tão depressa alcançou licença. Os companheiros
disseram-lhe, rindo:

Page 125

—Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você pasmar! ceia, viola
e os braços de Genoveva. Collosinho de Genoveva...

Deolindo sorriu. Era assim mesmo, uma noite de almirante, como elles
dizem, uma d'essas grandes noites de almirante que o esperava em terra.
Começára a paixão tres mezes antes de sahir a corveta. Chamava-se
Genoveva, caboclinha de vinte annos, esperta, olho negro e atrevido.
Encontraram-se em casa de terceiro{206} e ficaram morrendo um pelo outro,
a tal ponto que estiveram prestes a dar uma cabeçada, elle deixaria o serviço
e ella o acompanharia para a villa mais recondita do interior.

A velha Ignacia, que morava com ella, dissuadiu-os disso; Deolindo não
teve remedio senão seguir em viagem de instrucção. Eram oito ou dez
mezes de ausencia. Como fiança reciproca, entenderam dever fazer um
juramento de fidelidade.

—Juro por Deus que está no céu. E você?

—Eu tambem.

—Diz direito.

—Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte.

Estava celebrado o contracto. Não havia descrer da sinceridade de
ambos; ella chorava doudamente, elle mordia o beiço para dissimular.
Afinal separaram-se, Genoveva foi ver sahir a corveta e voltou para casa
com um tal aperto no coração que parecia que «lhe ia dar uma cousa». Não
lhe deu nada, felizmente; os dias foram passando, as semanas, os mezes,
dez mezes, ao cabo dos quaes, a corveta tornou e Deolindo com ella.

Lá vai elle agora, pela rua de Bragança, Prainha e Saude, até ao principio
da Gambôa, onde mora{207} Genoveva. A casa é uma rotulasinha escura,
portal rachado do sol, passando o cemiterio dos inglezes; lá deve estar
Genoveva, debruçada á janella, esperando por elle. Deolindo prepara uma
palavra que lhe diga. Já formulou esta: «jurei e cumpri» mas procura outra
melhor. Ao mesmo tempo lembra as mulheres que viu por esse mundo de
Christo, italianas, marselhezas ou turcas, muitas d'ellas bonitas, ou que lhe

Page 126

pareciam taes. Concorda que nem todas seriam para os beiços d'elle, mas
algumas eram, e nem por isso fez caso de nenhuma. Só pensava em
Genoveva. A mesma casinha d'ella, tão pequenina, e a mobilia de pé
quebrado, tudo velho e pouco, isso mesmo lhe lembrava deante dos palacios
de outras terras. Foi á custa de muita economia que comprou em Trieste um
par de brincos, que leva agora no bolso com algumas bugigangas. E ella que
lhe guardaria? Pode ser que um lenço marcado com o nome d'elle e uma
ancora na ponta, porque ella sabia marcar muito bem. N'isto chegou á
Gambôa, passou o cemiterio e deu com a casa fechada. Bateu, fallou-lhe
uma voz conhecida, a da velha Ignacia, que veiu abrir-lhe a porta com
grandes exclamações de prazer. Deolindo, impaciente, perguntou por
Genoveva.

—Não me falle n'essa maluca, arremetteu a{208} velha. Estou bem
satisfeita com o conselho que lhe dei. Olhe lá se fugisse. Estava agora como
o lindo amor.

—Mas que foi? que foi?

A velha disse-lhe que descançasse, que não era nada, uma d'essas cousas
que apparecem na vida; não valia a pena zangar-se. Genoveva andava com
a cabeça virada...

—Mas virada porque?

—Está com um mascate, José Diogo. Conheceu José Diogo, mascate de
fazendas? Está com elle. Não imagina a paixão que elles têm um pelo outro.
Ella então anda maluca. Foi o motivo da nossa briga. José Diogo não me
sahia da porta; eram conversas e mais conversas, até que eu um dia disse
que não queria a minha casa diffamada. Ah! meu pai do céu! foi um dia de
juizo. Genoveva investiu para mim com uns olhos d'este tamanho, dizendo
que nunca diffamou ninguem e não precisava de esmolas. Que esmolas,
Genoveva? O que digo é que não quero esses cochichos á porta, desde as
ave-marias... Dous dias depois estava mudada e brigada commigo.

—Onde mora ella?

Page 127

—Na praia Formosa, antes de chegar á pedreira, uma rotula pintada de
novo.{209}

Deolindo não quiz ouvir mais nada. A velha Ignacia, um tanto
arrependida, ainda lhe deu avisos de prudencia, mas elle não os escutou e
foi andando. Deixo de notar o que pensou em todo o caminho; não pensou
nada. As idéas marinhavam-lhe no cerebro, como em hora de temporal, no
meio de uma confusão de ventos e apitos. Entre ellas rutilou a faca de
bordo, ensanguentada e vingadora. Tinha passado a Gambôa, o Sacco do
Alferes, entrára na praia Formosa. Não sabia o numero da casa, mas era
perto da pedreira, pintada de novo, e com auxilio da visinhança poderia
achal-a. Não contou com o acaso que pegou de Genoveva e fel-a sentar á
janella, cosendo, no momento em que Deolindo ia passando. Elle conheceu-
a e parou; ella, vendo o vulto de um homem, levantou os olhos e deu com o
marujo.

—Que é isso? exclamou espantada. Quando chegou? Entre, seu
Deolindo.

E, levantando-se, abriu a rotula e fel-o entrar. Qualquer outro homem
ficaria alvoroçado de esperanças, tão francas eram as maneiras da rapariga;
podia ser que a velha se enganasse ou mentisse; podia ser mesmo que a
cantiga do mascate estivesse acabada. Tudo isso lhe passou pela cabeça,
sem a fórma precisa do raciocinio ou da reflexão, mas em tumulto{210} e
rapido.. Genoveva deixou a porta aberta, fel-o sentar-se, pediu-lhe noticias
da viagem e achou-o mais gordo; nenhuma commoção nem intimidade.
Deolindo perdeu a ultima esperança. Em falta de faca, bastavam-lhe as
mãos para estrangular Genoveva, que era um pedacinho de gente, e durante
os primeiros minutos não pensou em outra cousa.

—Sei tudo, disse elle.

—Quem lhe contou?

Deolindo levantou os hombros.

—Fosse quem fosse, tornou ella, disseram-lhe que eu gostava muito de
um moço?

Page 128

—Disseram.

—Disseram a verdade.

Deolindo chegou a ter um impeto; ella fel-o parar só com a acção dos
olhos. Em seguida disse que, se lhe abrira a porta, é porque contava que era
homem de juizo. Contou-lhe então tudo, as saudades que curtira, as
propostas do mascate, as suas recusas, até que um dia, sem saber como,
amanhecera gostando d'elle.

—Pode crer que pensei muito e muito em você. Sinhá Ignacia que lhe
diga se não chorei muito... Mas o coração mudou... Mudou... Conto-lhe
tudo isto, como se estivesse diante do padre, concluiu sorrindo.{211}

Não sorria de escarneo. A expressão das palavras é que era uma mescla
de candura e cynismo, de insolencia e simplicidade, que desisto de definir
melhor. Creio até que insolencia e cynismo são mal applicados. Genoveva
não se defendia de um erro ou de um perjurio; não se defendia de nada;
faltava-lhe o padrão moral das acções. O que dizia, em resumo, é que era
melhor não ter mudado, dava-se bem com a affeição do Deolindo, a prova é
que quiz fugir com elle; mas, uma vez que o mascate venceu o marujo, a
razão era do mascate, e cumpria declaral-o. Que vos parece? O pobre
marujo citava o juramento de despedida, como uma obrigação eterna, diante
da qual consentira em não fugir e embarcar: «Juro por Deus que está no
céu; a luz me falte na hora da morte». Se embarcou, foi porque ella lhe
jurou isso. Com essas palavras é que andou, viajou, esperou e tornou; foram
ellas que lhe deram a força de viver. Juro por Deos que está no céu; a luz
me falte na hora da morte...

—Pois, sim, Deolindo, era verdade. Quando jurei, era verdade. Tanto era
verdade que eu queria fugir com você para o sertão. Só Deus sabe se era
verdade! Mas vieram outras cousas... Veio este moço e eu comecei a gostar
d'elle...{212}

—Mas a gente jura é para isso mesmo; é para não gostar de mais
ninguem...

Page 129

—Deixa d'isso, Deolindo. Então você só se lembrou de mim? Deixa de
partes...

—A que horas volta José Diogo?

—Não volta hoje.

—Não?

—Não volta; está lá para os lados de Guaratiba com a caixa; deve voltar
sexta-feira ou sabbado... E por que é que você quer saber? Que mal lhe fez
elle?

Pode ser que qualquer outra mulher tivesse egual palavra; poucas lhe
dariam uma expressão tão candida, não de proposito, mas
involuntariamente. Vêde que estamos aqui muito proximos da natureza.
Que mal lhe fez elle? Que mal lhe fez esta pedra que cahiu de cima?
Qualquer mestre de physica lhe explicaria a queda das pedras. Deolindo
declarou, com um gesto de desespero, que queria matal-o. Genoveva olhou,
para elle com desprezo, sorriu de leve e deu um muxoxo; e, como elle lhe
fallasse de ingratidão e perjurio, não poude disfarçar o pasmo. Que
perjurio? que ingratidão? Já lhe tinha dito e repetia que quando jurou era
verdade. Nossa Senhora, que alli estava, em cima da commoda, sabia se era
verdade ou não. Era assim que lhe pagava o que padeceu? E elle que{213}
tanto enchia a bocca de fidelidade, tinha-se lembrado d'ella por onde
andou?

A resposta d'elle foi metter a mão no bolso e tirar o pacote que lhe trazia.
Ella abriu-o, aventou as bugigangas, uma por uma, e por fim deu com os
brincos. Não eram nem poderiam ser ricos; eram mesmo de mau gosto, mas
faziam uma vista de todos os diabos. Genoveva pegou d'elles, contente,
deslumbrada, mirou-os por um lado e outro, perto e longe dos olhos, e
afinal enfiou-os nas orelhas; depois foi ao espelho de pataca, suspenso na
parede, entre a janella e a rotula, para ver o effeito que lhe faziam. Recuou,
approximou-se, voltou a cabeça da direita para esquerda e da esquerda para
a direita.

Page 130

—Sim, senhor, muito bonitos, disse ella, fazendo uma grande mesura de
agradecimento. Onde é que comprou?

Creio que elle não respondeu nada, nem teria tempo para isso, porque
ella disparou mais duas ou tres perguntas, uma atraz da outra, tão confusa
estava de receber um mimo a troco de um esquecimento. Confusão de cinco
ou quatro minutos; pode ser que dous. Não tardou que tirasse os brincos, e
os contemplasse e puzesse na caixinha em cima da mesa redonda que estava
no meio da sala. Elle pela sua parte{214} começou a crer que, assim como a
perdeu, estando ausente, assim o outro, ausente, podia tambem perdel-a; e,
provavelmente, ella não lhe jurára nada.

—Brincando, brincando, é noite, disse Genoveva.

Com effeito, a noite ia cahindo rapidamente. Já não podiam ver o hospital
dos Lazaros e mal distinguiam a ilha dos Melões; as mesmas lanchas e
canôas, postas em secco, defronte da casa, confundiam-se com a terra e o
lodo da praia. Genoveva accendeu uma vela. Depois foi sentar-se na soleira
da porta e pediu-lhe que contasse alguma cousa das terras por onde andara.
Deolindo recusou a principio; disse que se ia embora, levantou-se e deu
alguns passos na sala. Mas o demonio da esperança mordia e babujava o
coração do pobre diabo, e elle voltou a sentar-se, para dizer duas ou tres
anecdotas de bordo. Genoveva escutava com attenção. Interrompidos por
uma mulher da visinhança, que alli veiu, Genoveva fel-a sentar-se tambem
para ouvir «as bonitas historias que o Sr. Deolindo estava contando». Não
houve outra apresentação. A grande dama que prolonga a vigilia para
concluir a leitura de um livro ou de um capitulo, não vive mais intimamente
a vida dos personagens do que a antiga amante do marujo vivia as scenas
que elle ia contando, tão livremente{215} interessada e presa, como se entre
ambos não houvesse mais que uma narração de episodios. Que importa á
grande dama o auctor do livro? Que importava a esta rapariga o contador
dos episodios?

A esperança, entretanto, começava a desemparal-o e elle levantou-se
definitivamente para sahir. Genoveva não quiz deixal-o sahir antes que a
amiga visse os brincos, e foi mostrar-lh'os com grandes encarecimentos. A
outra ficou encantada, elogiou-os muito, perguntou se os comprara em
França e pediu a Genoveva que os puzesse.

Page 131

—Realmente, são muito bonitos.

Quero crer que o proprio marujo concordou com essa opinião. Gostou de
os ver, achou que pareciam feitos para ella e, durante alguns segundos,
saboreou o prazer exclusivo e superfino de haver dado um bom presente;
mas foram só alguns segundos.

Como elle se despedisse, Genoveva acompanhou-o até á porta para lhe
agradecer ainda uma vez o mimo, e provavelmente dizer-lhe algumas
cousas meigas e inuteis. A amiga, que deixára ficar na sala, apenas lhe
ouviu esta palavra: «Deixa d'isso, Deolindo»; e esta outra do marinheiro:
«Você verá». Não poude ouvir o resto, que não passou de um sussurro.{216}

Deolindo seguiu, praia fóra, cabisbaixo e lento, não já o rapaz impetuoso
da tarde, mas com um ar velho e triste, ou, para usar outra metaphora de
marujo, como um homem «que vai do meio caminho para terra». Genoveva
entrou logo depois, alegre e barulhenta. Contou á outra a anecdota dos seus
amores maritimos, gabou muito o genio do Deolindo e os seus bonitos
modos; a amiga declarou achal-o grandemente sympathico.

—Muito bom rapaz, insistiu Genoveva. Sabe o que elle me disse agora?

—Que foi!

—Que vai matar-se.

—Jesus!

—Qual o que! Não se mata, não. Deolindo é assim mesmo; diz as cousas,
mas não faz. Você verá que não se mata. Coitado, são ciumes. Mas os
brincos são muito engraçados.

—Eu aqui ainda não vi d'estes.

—Nem eu, concordou Genoveva, examinando-os á luz. Depois guardou-
os e convidou a outra a coser.—Vamos coser um bocadinho, quero acabar o
meu corpinho azul...

Page 132

A verdade é que o marinheiro não se matou. No dia seguinte, alguns dos
companheiros bateram-lhe{217} no hombro, comprimentando-o pela noite
de almirante, e pediram-lhe noticias de Genoveva, se estava mais bonita, se
chorára muito na ausencia, etc. Elle respondia a tudo com um sorriso
satisfeito e discreto, um sorriso de pessoa que viveu uma grande noite.
Parece que teve vergonha da realidade e preferiu mentir.

FIM DA NOITE DE ALMIRANTE.

{218}
{219}

MANUSCRITO DE UM
SACHRISTÃO

Page 133

I

........... Ao dar com o padre Theophilo fallando a uma senhora, ambos
sentadinhos no banco da egreja, e a egreja deserta, confesso que fiquei
espantado. Note-se que conversavam em voz tão baixa e discreta, que eu,
por mais que afiasse o ouvido e me demorasse a apagar as velas do altar,
não podia apanhar nada, nada, nada. Não tive remedio senão adivinhar
alguma cousa. Que eu sou um sacristão philosopho. Ninguem me julgue
pela sobrepeliz rota e amarrotada nem pelo uso clandestino das galhetas.
Sou um philosopho sacristão. Tive estudos ecclesiasticos, que interrompi
por causa de uma doença e que inteiramente deixei por outro motivo, uma
paixão violenta, que me trouxe á miseria. Como o seminario deixa sempre
um certo vinco, fiz-me{220} sacristão aos trinta annos, para ganhar a vida.
Venhamos, porém, ao nosso padre e á nossa dama.

Page 134

II

Antes de ir adiante, direi que eram primos. Soube depois que eram
primos, nascidos em Vassouras. Os pais d'ella mudaram-se para a côrte,
tendo Eulalia (é o seu nome) sete annos. Theophilo veiu depois. Na familia
era uso antigo que um dos rapazes fosse padre. Vivia ainda na Bahia um tio,
d'elle, conego. Cabendo-lhe n'esta geração envergar a batina, veiu para o
seminario de S. José, no anno de mil oitocentos e cincoenta e tantos, e foi
ahi que o conheci. Comprehende-se o sentimento de discrição que me leva a
deixar a data no ar.

Page 135

III

No seminario, dizia-nos o lente de rhetorica:—A theologia é a cabeça do
genero humano, o{221} latim a perna esquerda, e a rhetorica a perna direita.

Justamente da perna direita é que o Theophilo coxeava. Sabia muito as
outras cousas: theologia, philosophia, latim, historia sagrada; mas a
rhetorica é que lhe não entrava no cerebro. Elle, para desculpar-se, dizia que
a palavra divina não precisava de adornos. Tinha então vinte ou vinte e dous
annos de edade, e era lindo como S. João.

Já n'esse tempo era um mystico; achava em todas as cousas uma
significação recondita. A vida era uma eterna missa, em que o mundo servia
de altar, a alma de sacerdote e o corpo de acolyto; nada respondia á
realidade exterior. Vivia ancioso de tomar ordens para sahir a prégar
grandes cousas, espertar as almas, chamar os corações á Egreja, e renovar o
genero humano. Entre todos os apostolos, amava principalmente S. Paulo.

Não sei se o leitor é da minha opinião; eu cuido que se póde avaliar um
homem pelas suas sympathias historicas; tu serás mais ou menos da familia
dos personagens que amares devéras. Applico assim aquella lei de
Helvetius: «o grau de espirito que nos deleita dá a medida exacta do grau de
espirito que possuimos». No nosso caso, ao menos, a regra não falhou.
Theophilo amava S. Paulo, adorava-o,{222} estudava-o dia e noite, parecia
viver d'aquelle converso que ia de cidade em cidade, á custa de um officio
mecanico, espalhando a boa nova aos homens. Nem tinha sómente esse
modelo, tinha mais dous: Hildebrando e Loyola. D'aqui podeis concluir que
nasceu com a fibra da peleja e do apostolado. Era um faminto de ideal e
creação, olhando todas as cousas correntes por cima da cabeça do seculo.
Na opinião de um conego, que lá ia ao seminario, o amor dos dous modelos
ultimos temperava o que pudesse haver perigoso em relação ao primeiro.

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—Não vá o senhor cair no excesso e no exclusivo, disse-lhe um dia com
brandura; não pareça que, exaltando sómente a Paulo, intenta diminuir
Pedro. A egreja, que os commemora ao lado um do outro, metteu-os ambos
no Credo; mas veneremos Paulo e obedeçamos a Pedro. Super hanc
petram...

Os seminaristas gostavam do Theophilo, principalmente tres, um
Vasconcellos, um Soares e um Velloso, todos excellentes rhetoricos. Eram
tambem bons rapazes, alegres por natureza, graves por necessidade e
ambiciosos. Vasconcellos jurava que seria bispo; Soares contentava-se com
algum grande cargo; Velloso cobiçava as meias roxas de conego e{223} um
pulpito. Theophilo tentou repartir com elles o pão mystico dos seus sonhos,
mas reconheceu depressa que era manjar leve ou pesado de mais, e passou a
devoral-o sosinho. Até aqui o padre; vamos agora á dama.

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IV

Agora a dama. No momento em que os vi fallar baixinho na egreja,
Eulalia contava trinta e oito annos de edade. Juro-lhes que era ainda bonita.
Não era pobre; os pais deixaram-lhe alguma cousa. Nem casada; recusou
cinco ou seis pretendentes.

Este ponto nunca foi entendido pelas amigas. Nenhuma d'ellas era capaz
de repellir um noivo. Creio até que não pediam outra cousa, quando
resavam antes de entrar na cama, e ao domingo, á missa, no momento de
levantar a Deus. Porque é que Eulalia recusava-os todos? Vou dizer desde já
o que soube depois. Suppuzeram-lhe, a principio, um simples desdem,—
nariz torcido, dizia uma d'ellas;—mas, no fim da terceira recusa,
inclinaram-se a crer que havia namoro encoberto, e esta explicação
prevaleceu.{224} A propria mãi de Eulalia não aceitou outra. Não lhe
importaram as primeiras recusas; mas, repetindo-se, ella começou a
assustar-se. Um dia, voltando de um casamento, perguntou á filha, no carro
em que vinham, se não se lembrava que tinha de ficar só.

—Ficar só?

—Sim, um dia hei de morrer. Por ora tudo são flores; cá estou para
governar a casa; e você é só ler, scismar, tocar e brincar; mas eu tenho de
morrer, Eulalia, e você tem de ficar só...

Eulalia apertou-lhe muito a mão, sem poder dizer palavra. Nunca pensára
na morte da mãi; perdel-a era perder metade de si mesma. Na expansão de
momento, a mãi atreveu-se a perguntar-lhe se amava alguem e não era
correspondida; Eulalia respondeu que não. Não sympathisara com os
candidatos. A boa velha abanou a cabeça; fallou dos vinte sete annos da
filha, procurou atterral-a com os trinta, disse-lhe que, se nem todos os

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noivos a mereciam egualmente, alguns eram dignos de ser aceitos, e que
importava a falta de amor? O amor conjugal podia ser assim mesmo; podia
nascer depois, como um fructo da convivencia. Conhecera pessoas que se
casaram por simples interesse de familia e acabaram{225} amando-se muito.
Esperar uma grande paixão para casar era arriscar-se a morrer esperando.

—Pois sim, mamãi, deixe estar...

E, reclinando a cabeça, fechou um pouco os olhos para espiar alguem,
para ver o namorado encoberto, que não era só encoberto, mas tambem e
principalmente impalpavel. Concordo que isto agora é obscuro; não tenho
duvida em dizer que entramos em pleno sonho.

Eulalia era uma exquisita, para usarmos a linguagem da mãi, ou
romanesca, para empregarmos a definição das amigas. Tinha, em verdade,
uma singular organisação. Saiu ao pai. O pai nascera com o amor do
enigmatico, do arriscado e do obscuro; morreu quando apparelhava uma
expedição para ir á Bahia descobrir a «cidade abandonada». Eulalia recebeu
essa herança moral, modificada ou aggravada pela natureza feminil. N'ella
dominava principalmente a contemplação. Era na cabeça que ella descobria
as cidades abandonadas. Tinha os olhos dispostos de maneira que não
podiam apanhar integralmente os contornos da vida. Começou idealisando
as cousas, e, se não acabou negando-as, é certo que o sentimento da
realidade esgarçou-se-lhe até chegar á transparencia fina em que o tecido
parece confundir-se com o ar.{226}

Aos dezoito annos, recusou o primeiro casamento. A razão é que
esperava outro, um marido extraordinario, que ella viu e conversou, em
sonho ou allucinação, a mais radiosa figura do universo, a mais sublime e
rara, uma creatura em que não havia falha ou quebra, verdadeira
grammatica sem irregularidades, pura lingua sem solecismos.

Perdão, interrompe-me uma senhora, esse noivo não é obra exclusiva de
Eulalia, é o marido de todas as virgens de dezesete annos. Perdão, digo-lhe
eu, ha uma differença entre Eulalia e as outras, é que as outras trocam
finalmente o original esperado por uma copia gravada, antes ou depois da
lettra, e ás vezes por uma simples photographia ou lithographia, ao passo
que Eulalia continuou a esperar o painel authentico. Vinham as gravuras,

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vinham as lithographias, algumas muito bem acabadas, obra de artista e
grande artista, mas para ella traziam o defeito de ser copias. Tinha fome e
sêde de originalidade. A vida commum parecia-lhe uma copia eterna. As
pessoas do seu conhecimento caprichavam em repetir as idéas umas das
outras, com eguaes palavras, e ás vezes sem differente inflexão, á
semelhança do vestuario que usavam, e que era do mesmo gosto e feitio. Se
ella visse alvejar na rua um turbante{227} mourisco ou fluctuar um
pennacho, póde ser que perdoasse o resto; mas nada, cousa nenhuma, uma
constante uniformidade de idéas e colletes. Não era outro o peccado mortal
das cousas. Mas, como tinha a faculdade de viver tudo o que sonhava,
continuou a esperar uma vida nova e um marido unico.

Em quanto esperava, as outras iam casando. Assim perdeu ella as tres
principaes amigas: Julia Costinha, Josepha e Marianna. Viu-as todas
casadas, viu-as mãis, a principio de um filho, depois de dous, de quatro e de
cinco. Visitava-as, assistia ao viver dellas, sereno e alegre, mediocre,
vulgar, sem sonhos nem quedas, mais ou menos feliz. Assim se passaram os
annos; assim chegou aos trinta, aos trinta e tres, aos trinta e cinco, e
finalmente aos trinta e oito em que a vemos na egreja, conversando com o
padre Theophilo.

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V

N'aquelle dia mandara dizer uma missa por alma da mãe, que morrera um
anno antes. Não convidou{228} ninguem: foi ouvil-a sosinha. Ouviu-a,
resou, depois sentou-se no banco.

Eu, depois de ajudar á missa, voltei para a sacristia, e vi alli o padre
Theophilo, que viera da roça duas semanas antes e andava á cata de alguma
missa para comer. Parece que elle ouviu do outro sacristão ou do mesmo
padre officiante o nome da pessoa suffragada; viu que era o da tia e correu á
egreja, onde ainda achou a prima no banco. Sentou-se ao pé d'ella,
esquecido do logar e das posições, e fallaram naturalmente de si mesmos.
Não se viam desde longos annos. Theophilo visitára-as logo depois de
ordenado padre; mas saiu para o interior e nunca mais soube d'ellas, nem
ellas d'elle.

Já disse que não pude ouvir nada. Estiveram assim perto de meia hora. O
coadjutor veiu espiar, deu com elles e ficou justamente escandalisado. A
noticia do caso chegou, dous dias depois, ao bispo. Theophilo recebeu uma
advertencia amiga, subiu á Conceição e explicou tudo: era uma prima, a
quem não via desde muito. O padre coadjutor, quando soube da explicação,
exclamou com muito criterio que o ser parenta não lhe trocava o sexo nem
suppria o escandalo.

Entretanto, como eu tinha sido companheiro do{229} Theophilo no
seminario e gostava d'elle, defendi-o com muito calor e fiz chegar o meu
testemunho ao palacio da Conceição. Elle ficou-me grato por isso, e d'ahi
veiu a intimidade de nossas relações. Como os dous primos podiam vêr-se
em casa, Theophilo passou a visital-a, e ella a recebel-o com muito prazer.
No fim de oito dias, recebeu-me tambem; ao cabo de duas semanas era eu
um dos seus familiares.

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Dous patricios que se encontram em plaga estrangeira e podem
finalmente trocar as palavras mamadas na infancia não sentem maior
alvoroço do que estes dous primos, que eram mais que primos: moralmente
eram gemeos. Elle contou-lhe a vida e, como os acontecimentos
acarretassem os sentimentos, ella olhou para dentro da alma do primo e
achou que era a sua mesma alma e que, em substancia, a vida de ambos era
a mesma. A differença é que uma esperou quieta o que o outro andou
buscando por montes e valles; no mais, egual equivoco, egual conflicto com
a realidade, identico dialogo de arabe e japonez.

—Tudo o que me cerca é trivial e chocho, dizia-lhe elle.

Com effeito, gastara o aço da mocidade em divulgar uma concepção que
ninguem lhe entendeu. Emquanto os tres amigos mais chegados do
seminario{230} passavam adiante, trabalhando e servindo, afinados pela nota
do seculo, Velloso conego e prégador, Soares com uma grande vigararia,
Vasconcellos a caminho de bispar, elle Theophilo era o mesmo apostolo e
mystico dos primeiros annos, em plena aurora christã e metaphysica. Vivia
miseravelmente, costeando a fome, pão magro e batina surrada; tinha
instantes e horas de tristeza e de abatimento: confessou-os á prima...

—Tambem o senhor? perguntou ella.

E as suas mãos apertaram-se com energia: entendiam-se. Não tendo
achado um astro na loja de um relojoeiro, a culpa era do relojoeiro; tal era a
logica de ambos. Olharam-se com a sympathia de naufragos,—naufragos e
não desenganados—, porque não o eram. Crusoe, na ilha deserta, inventa e
trabalha; elles não; lançados á ilha, estendiam os olhos para o mar
illimitado, esperando a aguia que viria buscal-os com as suas grandes azas
abertas. Uma era a eterna noiva sem noivo, outro o eterno propheta sem
Israel; ambos punidos e obstinados.

Já disse que Eulalia era ainda bonita. Resta dizer que o padre Theophilo,
com quarenta e dous annos tinha os cabellos grisalhos e as feições
cançadas; as mãos não possuiam nem a maciez nem o aroma da{231}
sacristia, eram magras e callosas e cheiravam ao matto. Os olhos é que
conservavam o fogo antigo era por alli que a mocidade interior fallava cá
para fóra, e força é dizer que elles valiam só por si todo o resto.

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As visitas amiudaram-se. Afinal iamos passar alli as tardes e as noites e
jantar aos domingos. A convivencia produziu dous effeitos, e até tres. O
primeiro foi que os dous primos, frequentando-se, deram força e vida um ao
outro; relevem-me esta expressão familiar:—fizeram um pique-nique de
illusões. O segundo é que Eulalia, cançada de esperar um noivo humano,
volveu os olhos para o noivo divino e, assim como ao primo viera a
ambição de S. Paulo, veiu-lhe a ella a de Santa Thereza. O terceiro effeito é
o que o leitor já adivinhou.

Já adivinhou. O terceiro foi o caminho de Damasco,—um caminho ás
avessas, porque a voz não baixou do céu, mas subiu da terra; não chamava a
prégar Deus, mas a prégar o homem. Sem metaphora, amavam-se. Outra
differença é que a vocação aqui não foi subita como em relação ao apostolo
das gentes; foi vagarosa, muito vagarosa, cochichada, insinuada, bafejada
pelas azas da pomba mystica.{232}

Note-se que a faina precedeu ao amor. Sussurrava-se desde muito que as
visitas do padre eram menos de confessor que de peccador. Era mentira; eu
juro que era mentira. Via-os, acompanhava-os, estudava esses dous
temperamentos tão espirituaes, tão cheios de si mesmos, que nem sabiam da
fama, nem cogitavam no perigo da apparencia. Um dia vi-lhes os primeiros
signaes do amor. Será o que quizerem, uma paixão quarentona, rosa
outoniça e pallida, mas era, existia, crescia, ia tomal-os inteiramente. Pensei
em avisar o padre, não por mim, mas por elle mesmo; mas era difficil, e
talvez perigoso. Demais, eu era e sou gastronomo e psychologo; avisal-o
era botar fóra uma fina materia de estudo e perder os jantares dominicaes. A
psychologia, ao menos, merecia um sacrificio: calei-me.

Calei-me á toa. O que eu não quiz dizer, publicou-o o coração de ambos.
Se o leitor me leu de corrida, conclue por si mesmo a anecdota, conjugando
os dous primos: mas, se me leu de vagar, adivinha o que succedeu. Os dous
mysticos recuaram; não tiveram horror um do outro nem de si mesmos,
porque essa sensação estava excluida de ambos, mas recuaram, agitados de
medo e de desejo.

—Volto para a roça, disse-me o padre.{233}

—Mas por que?

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—Volto para o roça.

Voltou para a roça e nunca mais cá veiu. Ella, é claro que tinha achado o
marido que esperava, mas saiu-lhe tão impossivel como a vida que sonhou.
Eu, gastronomo e psychologo, continuei a ir jantar com Eulalia aos
domingos. Considero que alguma cousa deve subsistir debaixo do sol, ou
amor ou o jantar, se é certo, como quer Schiller, que o amor e a fome
governam este mundo.

FIM DO MANUSCRITO DE UM SACRISTÃO

{234}
{235}

EX CATHEDRA

—Padrinho, vosmecê assim fica cégo.

—O que?

—Vosmecê fica cégo; lê que é um desespero. Não, senhor, dê cá o livro.

Caetaninha tirou-lhe o livro das mãos. O padrinho deu uma volta, e foi
metter-se no gabinete, onde lhe não faltavam livros; fechou-se por dentro e
continuou a ler. Era o seu mal; lia com excesso, lia de manhã, de tarde e de
noute, ao almoço e ao jantar, antes de dormir, depois do banho, lia andando,

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lia parado, lia em casa e na chacara, lia antes de ler e depois de ler, lia toda
a casta de livros, mas especialmente direito (em que era graduado),
mathematicas e philosophia; ultimamente dava-se tambem ás sciencias
naturaes.

Peior que cégo, ficou aluado. Foi pelos fins de 1873, na Tijuca, que elle
começou a dar signaes de{236} transtorno cerebral; mas, como eram leves e
poucos, só em Março ou Abril de 1874 é que a afilhada lhe percebeu a
alteração. Um dia, almoçando, interrompeu elle a leitura para lhe perguntar:

—Como é que eu me chamo?

—Como é que padrinho se chama? repetiu ella espantada. Chama-se
Fulgencio.

—De hoje em diante, chamar-me-has Fulgencius.

E, enterrando a cara no livro, proseguiu na leitura. Caetaninha referiu o
caso ás mucamas, que lhe declararam desconfiar desde algum tempo, que
elle não andava bom. Imagine-se o medo da moça; mas o medo passou
depressa para só deixar a piedade que lhe augmentou a affeição. Tambem a
mania era restricta e mansa; não passava dos livros. Fulgencio vivia do
escripto, do impresso, do doutrinal, do abstracto, dos principios e das
formulas. Com o tempo chegou, não já á superstição, mas á allucinação da
theoria. Uma de suas maximas era, que a liberdade não morre onde restar
uma folha de papel para decretal-a; e um dia, acordando com a idea de
melhorar a condição dos turcos, redigiu uma constituição, que mandou de
presente ao ministro inglez, em Petrópolis. De outra occasião, metteu-se a
estudar nos livros a anatomia dos olhos, para verificar se{237} realmente
elles podiam vêr, e concluiu que sim.

Digam-me, se, em taes condições, a vida de Caetaninha podia ser alegre.
Não lhe faltava nada, é verdade, porque o padrinho era rico. Foi elle mesmo
que a educou, desde os sete annos, quando perdeu a mulher; ensinou-lhe a
ler e escrever, francez, um pouco de historia e geographia, para não dizer
quasi nada, e incumbiu uma das mucamas de lhe ensinar crivo, renda e
costura. Tudo isso é verdade. Mas Caetaninha fizera quatorze annos; e, se
nos primeiros tempos bastavam os brinquedos e as escravas para divertil-a,

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era chegada a idade em que os brinquedos perdem de moda e as escravas de
interesse, em que não ha leituras nem escripturas que façam de uma casa
solitaria na Tijuca um paraiso. Descia algumas vezes, raras, e de corrida;
não ia a theatros nem bailes; não fazia nem recebia visitas. Quando via
passar na estrada uma cavalgada de homens e senhoras, punha a alma na
garupa dos animaes, e deixava-a ir com elles, ficando-lhe o corpo, ao pé do
padrinho, que continuava a ler.

Um dia, estando na chacara, viu parar ao portão um rapaz, montado
n'uma bestinha, e ouviu que lhe perguntava se era alli a casa do doutor
Fulgencio.

—Sim, senhor, é aqui mesmo.{238}

—Podia fallar-lhe?

Caetaninha respondeu que ia ver; entrou em casa, e foi ao gabinete, onde
achou o padrinho remoendo, com a mais voluptuaria e beata das expressões,
um capitulo de Hegel. Mocinho? Que mocinho? Caetaninha disse-lhe que
era um mocinho vestido de luto. De luto? repetiu o velho doutor fechando
precipitadamente o livro; ha de ser elle. Esquecia-me dizer (mas ha tempo
para tudo) que, tres mezes antes, fallecera um irmão de Fulgencio, no norte,
deixando um filho natural. Como o irmão, dias antes de morrer, lhe
escrevera recommendando o orphão que ia deixar, Fulgencio mandou que
este viesse para o Rio de Janeiro. Ouvindo que estava alli um mocinho de
luto, concluiu que era o sobrinho, e não concluiu mal. Era elle mesmo.

Parece que até aqui nada ha que destoe de uma historia ingenuamente
romanesca: temos um velho lunatico, uma mocinha solitaria e suspirosa, e
vemos despontar inopinadamente um sobrinho. Para não descer da região
poetica em que nos achamos, deixo de dizer que a mula em que o
Raymundo veiu montado, foi reconduzida por um preto ao alugador; passo
tambem por alto as circumstancias da accommodação do rapaz, limitando-
me a dizer que, como{239} o tio, á força de viver lendo, esquecera
inteiramente que o mandára buscar, nada havia em casa preparado para
recebel-o. Mas a casa era grande e abastada; uma hora depois, estava o
rapaz aposentado n'um lindo quarto, d'onde podia ver a chacara, a cisterna
antiga, o lavadouro, basta folha verde e vasto céu azul.

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Creio que ainda não disse a idade do hospede; tem quinze annos e um
ameaço de buço; é quasi uma criança. Logo, se a nossa Caetaninha ficou
alvoroçada, e as mucamas andam de um lado para outro espiando e fallando
do «sobrinho de sinhô velho que chegou de fóra», é porque a vida alli não
tem outros episodios, não porque elle seja homem feito. Essa foi tambem a
impressão do dono da casa; mas, aqui vae a differença. A afilhada não
advertia que o officio do buço é virar bigode, ou, se pensou n'isso, fel-o tão
vagamente, que não vale a pena de o pôr aqui. Não assim o velho
Fulgencio. Comprehendeu este que havia alli a massa de um marido, e
resolveu casal-os; mas viu tambem que, a menos de lhes pegar nas mãos e
mandar que se amassem, o acaso podia guiar as cousas por modo differente.

Uma idéia traz outra. A idéia de os casar pegou{240} por um lado com
uma de suas opiniões recentes. Era esta que as calamidades ou os simples
dissabores nas relações do coração provinham de que o amor era praticado
de um modo empyrico; faltava-lhe a base scientifica. Um homem e uma
mulher, desde que conhecessem as razões physicas e metaphysicas d'esse
sentimento, estariam mais aptos a recebel-o e nutril-o com efficacia, do que
outro homem e outra mulher que nada soubessem do phenomeno.

—Os meus pequenos estão verdes, dizia elle comsigo: tenho tres a quatro
annos diante da mim, e posso começar desde já a preparal-os. Vamos com
logica; primeiro os alicerces, depois as paredes, depois o tecto..., em vez de
começar pelo tecto... Dia virá em que se aprenda a amar como se aprende a
ler... Nesse dia...

Estava atordoado, deslumbrado, delirante. Foi ás estantes, desceu alguns
tomos, astronomia, geologia, physiologia, anatomia, jurisprudencia,
politica, linguistica, abriu-os, folheou-os, comparou-os, extractou d'aqui e
d'ali, até formular um programma de ensino. Compunha-se este de vinte
capitulos, nos quaes entravam as noções geraes do universo, uma definição
da vida, demonstração da existencia do homem e da mulher, organisação
das sociedades, definição e analyse{241} das paixões, definição e analyse do
amor, suas causas, necessidades e effeitos. Em verdade, as materias eram
crespas; elle entendeu tornal-as doceis, tratando-as em phrase corriqueira e
chã, dando-lhes um tom puramente familiar, como a astronomia de

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Fontenelle. E dizia com emphasis que o essencial da fructa era o miolo, não
a casca.

Tudo isso era engenhoso; mas aqui vai o mais engenhoso. Não os
convidou a aprender. Uma noite, olhando para o céo, disse que as estrellas
estavam brilhando muito; e o que eram as estrellas? acaso sabiam elles o
que eram as estrellas?

—Não senhor.

D'aqui a iniciar uma descripção do universo era um passo. Fulgencio deu
o passo, com tal presteza e naturalidade, que os deixou encantados e elles
pediram a viagem toda.

—Não, disse o velho; não esgotemos tudo hoje, nem isto se entende bem
se não de vagar; amanhã ou depois...

Foi assim, sorrateiramente, que elle começou a executar o plano. Os dois
alumnos, assombrados com o mundo astronomico, pediam-lhe todos os dias
que continuasse, e, posto que no fim dessa primeira parte Caetaninha
ficasse um tanto confusa, ainda assim{242} quiz ouvir as outras cousas que o
padrinho lhe prometteu.

Não digo nada da familiaridade entre os dois alumnos, por ser cousa
obvia. Entre quatorze e quinze annos a differença é tão pequena, que os
portadores das duas edades, não tinha mais que dar a mão um ao outro. Foi
o que aconteceu.

No fim de tres semanas pareciam ter sido criados juntos. Só isto bastava
a mudar a vida de Caetaninha; mas Raymundo trouxe-lhe mais. Não ha dez
minutos, vimol-a olhar com saudade as cavalgadas de homens e damas que
passavam na estrada. Raymundo matou-lhe a saudade, ensinando-lhe a
montaria, apezar da relutancia do velho, que temia algum desastre; mas este
cedeu e alugou dois cavallos. Caetaninha mandou fazer uma linda amazona,
Raymundo veiu á cidade comprar-lhe as luvas e um chicotinho, com o
dinheiro do tio—já se sabe—que tambem lhe deu as botas e o demais
apparelho masculino. D'ahi a pouco era um gosto vel-os ambos, galhardos e
intrepidos, abaixo e acima da montanha.

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Em casa, brincavam á larga, jogavam damas e cartas, cuidavam de aves e
plantas. Brigavam muita vez; mas, segundo as mucamas, eram brigas de
mentira, só para fazerem as pazes depois. Era o pico do{243} arrufo.
Raymundo vinha ás vezes á cidade, a mandado do tio. Caetaninha ia
esperal-o ao portão, espiando anciosa. Quando elle chegava, brigavam,
porque ella queria tirar-lhe os maiores embrulhos, a pretexto de que elle
vinha cançado, e elle queria dar-lhe os mais leves, allegando que ella era
fraquinha.

No fim de quatro mezes, a vida era totalmente outra. Póde-se até dizer
que só então é que Caetaninha começou a usar rosas no cabello. Antes
d'isso vinha muita vez despenteada para a mesa do almoço. Agora, não só se
penteava logo cedo, mas até, como digo, trazia rosas, uma ou duas; estas
eram, ou colhidas na vespera, por ella mesma, e guardadas em agua, ou na
propria manhã, por elle, que ia levar-lh'as á janella. A janella era alta, mas
Raymundo, pondo-se na ponta dos pés, e levantando o braço, conseguia
dar-lhe as rosas em mão. Foi por esse tempo que elle adquiriu o séstro de
mortificar o buço, puchando-o muito de um e outro lado. Caetaninha
chegava a bater-lhe nos dedos, para lhe tirar tão máo costume.

Entretanto, as licções continuavam regularmente. Já tinham uma idéa
geral do universo, e uma definição da vida, que nenhum d'elles entendeu.
Assim chegaram ao quinto mez. No sexto, começou a demonstração{244} da
existencia do homem. Caetaninha não pôde suster o riso, quando o
padrinho, expondo a materia, perguntou-lhes se elles sabiam que existiam e
porque; mas ficou logo séria, e respondeu que não.

—Nem você?

—Nem eu, não, senhor, concordou o sobrinho,

Fulgencio iniciou uma demonstração em regra, profundamente
cartesiana. A seguinte licção foi na chacara. Chovera muito nos dias
anteriores; mas o sol agora alagava tudo de luz, e a chacara parecia uma
linda viuva, que troca o véo do luto pelo do noivado. Raymundo, como se
quizesse copiar o sol, (copiam-se naturalmente os grandes) despedia das
pupillas um olhar vasto e longo, que Caetaninha recebia, palpitando, como

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a chacara. Fusão, transfusão, diffusão, confusão e profusão de seres e de
cousas.

Emquanto o velho fallava, recto, logico, vagaroso, curtido de formulas,
com os olhos fixos em parte nenhuma, os dous alumnos faziam trinta mil
esforços para escutal-o, mas vinham trinta mil incidentes distrahil-os. Foi a
principio um casal de borboletas que brincavam no ar. Façam-me o favor de
dizer o que é que póde haver extraordinario n'um casal de borboletas?
Concordo que eram amarellas, mas esta circumstancia não basta a explicar
a distracção. O facto{245} de voarem uma atraz da outra, ora á direita, ora á
esquerda, ora abaixo, ora acima, tambem não dá a razão do desvio, visto
que nunca as borboletas voaram, em linha recta, como simples militares.

—O entendimento, dizia o velho, o entendimento, segundo eu já
expliquei...

Raymundo olhou para Caetaninha, e achou-a olhando para elle. Um e
outro pareciam confusos e acanhados. Ella foi a primeira que baixou os
olhos ao regaço. Depois, levantou-os, afim de os levar a outra parte, mais
remota, o muro da chacara; na passagem como os de Raymundo ali
estivessem, ella encarou-os o mais rapidamente que pôde. Felizmente, o
muro apresentava um expectaculo que a encheu de admiração: um casal de
andorinhas (era o dia dos casaes) saltitava n'elle, com a graça peculiar ás
pessoas aladas. Saltitavam piando, dizendo cousas uma á outra, o que quer
que fosse, talvez isto—que era bem bom não haver philosophia nos muros
das chacaras. Se não quando, uma d'ellas voou, provavelmente a dama, e a
outra, naturalmente o garção, não se deixou ficar atraz: esticou as azas e
seguiu o mesmo caminho. Caetaninha desceu os olhos á gramma do chão.

Quando a licção acabou, d'ahi a alguns minutos,{246} ella pediu ao
padrinho que continuasse, e, recusando este, tomou-lhe o braço e convidou-
o a dar um giro na chacara.

—Está muito sol, contestou o velho.

—Vamos pela sombra.

—Faz muito calor.

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Caetaninha propoz irem continuar na varanda; mas o padrinho disse-lhe
mysteriosamente que Roma não se fez n'um dia, e acabou declarando que só
dois dias depois continuaria a licção. Caetaninha recolheu-se ao quarto,
esteve ali tres quartos de hora fechada, sentada, á janella, de um lado para
outro, procurando as cousas que tinha na mão, e chegando ao cumulo de
ver-se a si mesma, cavalgando, estrada acima, ao lado de Raymundo. De
uma vez aconteceu-lhe ver o rapaz no muro da chacara; mas attentou bem,
reconheceu que era um par de bezouros que zumbiam no ar. E dizia um
d'elles ao outro:

—Tu és a flor da nossa raça, a flor do ar, a flor das flôres, o sol e a lua da
minha vida.

Ao que respondia o outro:

—Ninguem te vence na belleza e na graça; o teu zumbir é um éco das
fallas divinas; mas, deixa-me... deixa-me...

—Porque deixar-te, alma d'estes bosques?{247}

—Já te disse, rei dos ares puros, deixa-me.

—Não me falles assim, feitiço e gala das mattas. Tudo por cima e em
volta de nós está dizendo que me deves fallar de outra maneira. Conheces a
cantiga dos mysterios azues?

—Vamos ouvil-a nas folhas verdes da larangeira.

—As da mangueira são mais bonitas.

—Tu és mais linda que umas e outras.

—E tu, sol da minha vida?

—Lua do meu ser, eu sou o que tu quizeres...

Era assim que os dous bezouros fallavam. Ella ouviu-os scismando.
Como elles desapparecessem, ella entrou, viu as horas e saiu do quarto.
Raymundo estava fóra; ella foi esperal-o ao portão, dez, vinte, trinta,

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quarenta, cincoenta minutos. Na volta disseram pouco; uniram-se e
separaram-se duas ou tres vezes. Da ultima vez foi ella que o trouxe á
varanda, para mostrar-lhe um enfeite que julgava perdido e acabava de
achar. Façam-lhe a justiça de crer que era pura mentira. Entretanto,
Fulgencio antecipou a licção; deu-a no dia seguinte, entre o almoço e o
jantar. Nunca a palavra lhe saiu tão limpida e singella. E assim devia ser;
tratava-se da existencia do homem, capitulo profundamente methaphysico,
em que era preciso considerar tudo e por todos os lados.{248}

—Estão entendendo? perguntava elle.

—Perfeitamente.

E a licção seguia até o fim. No fim, deu-se a mesma cousa da vespera;
Caetaninha, como se tivesse medo de ficar só, pediu-lhe para continuar ou
passear; elle recusou uma e outra cousa, bateu-lhe paternalmente na cara, e
foi encerrar-se no gabinete.

—Para a semana, pensava o velho doutor, dando volta á chave, para a
semana entro na organisação das sociedades; todo o mez que vem e o outro
é para a definição e classificação das paixões; em maio, passaremos ao
amor... já será tempo...

Emquanto elle dizia isto, e fechava a porta, alguma cousa resoava do lado
da varanda—um trovão de beijos, segundo disseram as lagartas da chacara;
mas, para as lagartas qualquer pequeno rumor vale um trovão. Quanto aos
auctores do ruido nada positivo se sabe. Parece que um maribondo, vendo
Caetaninha e Raymundo unidos n'essa occasião, concluiu da coincidencia
para a consequencia, e entendeu que eram elles; mas um velho gafanhoto
demonstrou a inanidade do fundamento, allegando que ouvira muitos
beijos, outr'ora, em logares onde nem Raymundo nem Caetaninha puzera os
pés. Convenhamos que este outro argumento não prestava para nada; mas,
tal é o{249} prestigio de um bom caracter, que o gafanhoto foi acclamado
como tendo ainda uma vez defendido a verdade e a razão. E d'ahi pode ser
que fosse assim mesmo. Mas um trovão de beijos? Supponhamos dous;
supponhamos tres ou quatro.

Page 152

FIM DA EX CATHEDRA.

{250}
{251}

A SENHORA DO GALVÃO

Começaram a rosnar dos amores d'este advogado com a viuva do
brigadeiro, quando elles não tinham ainda passado dos primeiros obsequios.
Assim vai o mundo. Assim se fazem algumas reputações más, e, o que
parece absurdo, algumas boas. Com effeito, ha vidas que só têm prologo;
mas toda a gente falla do grande livro que se lhe segue, e o autor morre com
as folhas em branco. No presente caso, as folhas escreveram-se, formando
todas um grosso volume de tresentas paginas compactas, sem contar as
notas. Estas foram postas no fim, não para esclarecer, mas para recordar os
capitulos passados; tal é o methodo n'esses livros de collaboração. Mas a
verdade é que elles apenas combinavam no plano, quando a mulher do
advogado recebeu este bilhete anonymo:

«Não é possivel que a senhora se deixe embair mais tempo, tão
escandalosamente, por uma de suas{252} amigas, que se consola da viuvez,
seduzindo os maridos alheios, quando bastava conservar os cachos...»

Que cachos? Maria Olympia não perguntou que cachos eram; eram da
viuva do brigadeiro, que os trazia por gosto, e não por moda. Creio que isto
se passou em 1853. Maria Olympia leu e releu o bilhete; examinou a lettra,
que lhe pareceu de mulher e disfarçada, e percorreu mentalmente a primeira
linha das suas amigas, a ver se descobria a autora. Não descobriu nada,

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dobrou o papel e fitou o tapete do chão, cahindo-lhe os olhos justamente no
ponto do desenho em que dous pombinhos ensinavam um ao outro a
maneira de fazer de dous bicos um bico. Ha d'essas ironias do acaso, que
dão vontade de destruir o universo. Afinal metteu o bilhete no vestido, e
encarou a mucama, que esperava por ella, e que lhe perguntou:

—Nhanhã não quer mais ver o chale?

Maria Olympia pegou no chale, que a mucama lhe dava e foi pol-o aos
hombros, defronte do espelho. Achou que lhe ficava bem, muito melhor que
á viuva. Cotejou as suas graças com as da outra. Nem os olhos nem a bocca
eram comparaveis; a viuva tinha os hombros estreitinhos, a cabeça grande,
e o andar feio. Era alta; mas que tinha ser alta? E os{253} trinta e cinco
annos de edade, mais nove que ella? Emquanto fazia essas reflexões, ia
compondo, pregando e despregando o chale.

—Este parece melhor, que o outro, aventurou a mucama.

—Não sei... disse a senhora, chegando-se mais para a janella, com os
dous nas mãos.

—Bota o outro, nhanhã.

A nhanhã obdeceu. Experimentou cinco chales dos dez que alli estavam,
em caixas, vindos de uma loja da rua da Ajuda. Concluiu que os dois
primeiros eram os melhores; mas aqui surgiu uma complicação—minima,
realmente—mas tão subtil e profunda na solução, que não vacillo em
recommendal-a aos nossos pensadores de 1906. A questão era saber qual
dos dois chales escolheria, uma vez que o marido, recente advogado, pedia-
lhe que fosse economica. Contemplava-os alternadamente, e ora preferia
um, ora outro. De repente, lembrou-lhe a aleivosia do marido, a necessidade
de mortifical-o, castigal-o, mostrar-lhe que não era peteca de ninguem, nem
maltrapilha; e, de raiva, comprou ambos os chales.

Ao bater das quatro horas (era a hora do marido) nada de marido. Nem ás
quatro, nem ás quatro e meia. Maria Olympia imaginava uma porção
de{254} cousas aborrecidas, ia á janella, tornava a entrar, temia um desastre
ou doença repentina; pensou tambem que fosse uma sessão do jury. Cinco

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horas, e nada. Os cachos da viuva tambem negrejavam diante d'ella, entre a
doença e o jury, com uns tons de azul-ferrete, que era provavelmente a côr
do diabo. Realmente era para exhaurir a paciencia de uma moça de vinte e
seis annos. Tinte e seis annos; não tinha mais. Era filha de um deputado do
tempo da Regencia, que a deixou menina; e foi uma tia que a educou com
muita distincção. A tia não a levou muito cedo a bailes e expectaculos. Era
religiosa, conduziu-a primeiro á egreja. Maria Olympia tinha a vocação da
vida exterior, e, nas procissões e missas cantadas, gostava principalmente
do rumor, da pompa; a devoção era sincera, tibia e distrahida. A primeira
cousa que ella via na tribuna das egrejas, era a si mesma. Tinha um gosto
particular era olhar de cima para baixo, fitar a multidão das mulheres
ajoelhadas ou sentadas, e os rapazes, que, por baixo do coro ou nas portas
lateraes, temperavam com attitudes namoradas as ceremonias latinas. Não
entendia os sermões; o resto, porém, orchestra, canto, flores, luzes, sanefas,
ouros, gentes, tudo exercia n'ella um singular feitiço. Magra devoção, que
escasseou ainda mais com{255} o primeiro expectaculo e o primeiro baile.
Não alcançou a Candiani, mas ouviu a Ida Edelvira, dansou á larga, e
ganhou fama de elegante.

Eram cinco horas e meia, quando o Galvão chegou. Maria Olympia, que
então passeava na sala, tão depressa lhe ouviu os pés, fez o que faria
qualquer outra senhora na mesma situação: pegou de um jornal de modas, e
sentou-se, lendo, com um grande ar de pouco caso. Galvão entrou
offegante, risonho, cheio de carinhos, perguntando-lhe se estava zangada, e
jurando que tinha um motivo para a demora, um motivo que ella havia de
agradecer, se soubesse...

—Não é preciso, interrompeu ella friamente. Levantou-se; foram jantar.
Fallaram pouco; ella menos que elle, mas em todo o caso, sem parecer
magoada. Póde ser que entrasse a duvidar da carta anonyma; póde ser
tambem que os dous chales lhe pesassem na consciencia. No fim do jantar,
Galvão explicou a demora; tinha ido, a pé, ao theatro Provisorio, comprar
um camarote para essa noite: davam os Lombardos. De lá, na volta, foi
encommendar um carro...

Os Lombardos? interrompeu Maria Olympia.

Page 155

—Sim; canta o Laboceta, canta a Jacobson; ha bailado. Você nunca ouviu
os Lombardos?{256}

—Nunca.

—E ahi está porque me demorei. Que é que você merecia agora? Merecia
que eu lhe cortasse a ponta d'esse narizinho arrebitado...

Como elle acompanhasse o dito com um gesto, ella recuou a cabeça;
depois acabou de tomar o café. Tenhamos pena da alma d'esta moça. Os
primeiros accórdes dos Lombardos ecoavam n'ella, emquanto a carta
anonyma lhe trazia uma nota lugubre, especie de Requiem. E porque é que a
carta não seria uma calumnia? Naturalmente não era outra cousa: alguma
invenção de inimigas, ou para affligil-a, ou para fazel-os brigar. Era isto
mesmo. Entretanto, uma vez que estava avisada, não os perderia de vista.
Aqui acudiu-lhe uma idéa: consultou o marido se mandaria convidar a
viuva.

—Não, respondeu elle; o carro só tem dois logares, e eu não hei de ir na
boléa.

Maria Olympia sorriu de contente, e levantou-se. Ha muito tempo que
tinha vontade de ouvir os Lombardos. Vamos aos Lombardos! Trá, lá, lá,
lá... Meia hora depois foi vestir-se. Galvão, quando a viu prompta d'ahi a
pouco, ficou encantado. Minha mulher é linda, pensou elle; e fez um gesto
para estreital-a ao peito; mas a mulher recuou, pedindo-lhe{257} que não a
amarrotasse. E, como elle, por umas velleidades de camareiro, pretendeu
concertar-lhe a pluma do cabello, ella disse-lhe enfastiada:

—Deixa, Eduardo! Já veiu o carro?

Entraram no carro e seguiram para o theatro. Quem é que estava no
camarote contiguo ao d'elles? Justamente a viuva e a mãe. Esta
coincidencia, filha do acaso, podia fazer crer algum ajuste prévio. Maria
Olympia chegou a suspeital-o; mas a sensação da entrada não lhe deu
tempo de examinar a suspeita. Toda a sala voltara-se para vel-a, e ella
bebeu, a tragos demorados, o leite da admiração publica. Demais, o marido
teve a inspiração machiavelica de lhe dizer ao ouvido: «Antes a mandasses

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convidar; ficava-nos devendo o favor.» Qualquer suspeita cahiria diante
d'esta palavra. Comtudo, ella cuidou de os não perder de vista—e renovou a
resolução de cinco em cinco minutos, durante meia hora, até que, não
podendo fixar a attenção, deixou-a andar. Lá vae ella, inquieta, vai direito
ao clarão das luzes, ao explendor dos vestuarios, um pouco á opera, como
pedindo a todas as cousas alguma sensação deleitosa em que se espreguice
uma alma fria e pessoal. E volta depois á propria dona, ao seu leque, ás suas
luvas, aos adornos do vestido, realmente magnifico.{258} Nos intervallos,
conversando com a viuva, Maria Olympia tinha a voz e os gestos do
costume, sem calculo, sem esforço, sem sentimento, esquecida da carta.
Justamente nos intervallos é que o marido, com uma discrição rara entre os
filhos dos homens, ia para os corredores ou para o saguão pedir noticias do
ministerio.

Juntas sahiram do camarote, no fim, e atravessaram os corredores. A
modestia com que a viuva trajava podia realçar a magnificencia da amiga.
As feições, porém, não eram o que esta affirmou, quando ensaiava os chales
de manhã. Não, senhor; eram engraçadas, e tinham um certo pico original.
Os hombros proporcionaes e bonitos. Não contava trinta e cinco annos, mas
trinta e um; nasceu em 1822, na vespera da independencia, tanto que o pae,
por brincadeira, entrou a chamal-a Ypiranga, e ficou-lhe esta alcunha entre
as amigas. Demais, lá estava em Santa Rita o assentamento de baptismo.

Uma semana depois, recebeu Maria Olympia outra carta anonyma. Era
mais longa e explicita. Vieram outras, uma por semana, durante tres mezes.
Maria Olympia leu as primeiras com algum aborrecimento; as seguintes
foram callejando a sensibilidade. Não havia duvida que o marido{259}
demorava-se fóra, muitas vezes, ao contrario do que fazia d'antes, ou sahia á
noite e regressava tarde; mas, segundo dizia, gastava o tempo no
Wallerstein ou no Bernardo, em palestras politicas. E isto era verdade, uma
verdade de cinco a dez minutos, o tempo necessario para recolher alguma
anecdota ou novidade, que pudesse repetir em casa, á laia de documento.
D'alli seguia para o largo de S. Francisco, e mettia-se no omnibus.

Tudo era verdade. E, comtudo, ella continuava a não crêr nas cartas.
Ultimamente, não se dava mais ao trabalho de as refutar comsigo; lia-as
uma só vez, e rasgava-as. Com o tempo foram surgindo alguns indicios

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menos vagos, pouco a pouco, ao modo do apparecimento da terra aos
navegantes; mas este Colombo teimava em não crêr na America. Negava o
que via; não podendo negal-o, interpretava-o; depois recordava algum caso
de allucinação, uma anecdota de apparencias illusorias, e n'esse travesseiro
commodo e molle punha a cabeça e dormia. Já então, prosperando-lhe o
escriptorio, dava o Galvão partidas e jantares, iam a bailes, theatros,
corridas de cavallos. Maria Olympia vivia alegre, radiante; começava a ser
um dos nomes da moda. E andava muita vez, com a viuva, a despeito das
cartas, a tal ponto que{260} uma d'estas lhe dizia: «Parece que é melhor não
escrever mais, uma vez que a senhora se regala n'uma comborçaria de máu
gosto.» Que era comborçaria? Maria Olympia quiz perguntal-o ao marido,
mas esqueceu o termo, e não pensou mais n'isso.

Entretanto, constou ao marido que a mulher recebia cartas pelo correio.
Cartas de quem? Esta noticia foi um golpe duro e inesperado. Galvão
examinou de memoria as pessoas que lhe frequentavam a casa, as que
podiam encontral-a em theatros ou bailes, e achou muitas figuras
verosimeis. Em verdade, não lhe faltavam adoradores.

—Cartas de quem? repetia elle mordendo o beiço e franzindo a testa.

Durante sete dias passou uma vida inquieta e aborrecida, espiando a
mulher e gastando em casa grande parte do tempo. No oitavo dia, veiu uma
carta.

—Para mim? disse elle vivamente.

—Não; é para mim, respondeu Maria Olympia, lendo o sobrescripto;
parece letra de Mariana ou de Lulú Fontoura...

Não queria lel-a; mas o marido disse que a lesse; podia ser alguma
noticia grave. Maria Olympia leu a carta e dobrou-a, sorrindo; ia guardal-a,
quando o marido desejou ver o que era.{261}

—Você sorriu, disse elle gracejando; ha de ser algum epigramma
commigo.

—Qual! é um negocio de moldes.

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—Mas deixa ver.

—Para que, Eduardo?

—Que tem? Você, que não quer mostrar, por algum motivo ha de ser. De
cá.

Ja não sorria; tinha a voz tremula. Ella ainda recusou a carta, uma, duas,
tres vezes. Teve mesmo ideia de rasgal-a, mas era peior, e não conseguiria
fazel-o até o fim. Realmente, era uma situação original. Quando ella viu que
não tinha remedio, determinou ceder. Que melhor occasião para ler no rosto
d'elle a expressão da verdade? A carta era das mais explicitas; fallava da
viuva em termos crús. Maria Olympia entregou-lh'a.

—Não queria mostrar esta, disse-lhe ella primeiro, como não mostrei
outras que tenho recebido e botado fóra; são tolices, intrigas, que andam
fazendo para... Leia, leia a carta.

Galvão abriu a carta e deitou-lhe os olhos avidos. Ella enterrou a cabeça
na cintura, para ver de perto a franja do vestido. Não o viu empallidecer.
Quando elle, depois de alguns minutos, proferiu duas ou tres palavras, tinha
já a physionomia composta e um{262} esboço de sorriso. Mas a mulher, que
o não adivinhava, respondeu ainda de cabeça baixa; só a levantou d'ahi a
tres ou quatro minutos, e não para fital-o de uma vez, mas aos pedaços,
como se temesse descobrir-lhe nos olhos a confirmação do anonymo.
Vendo-lhe, ao contrario, um sorriso, achou que era o da innocencia, e fallou
de outra cousa.

Redobraram as cautelas do marido; parece tambem que elle não pôde
esquivar-se a um tal ou qual sentimento de admiração para com a mulher.
Pela sua parte, a viuva, tendo noticia das cartas, sentiu-se envergonhada;
mas reagiu depressa, e requintou de maneiras affectuosas com a amiga.

Na segunda ou terceira semana de agosto, Galvão fez-se socio do
Cassino fluminense. Era um dos sonhos da mulher. A seis de setembro fazia
annos a viuva, como sabemos. Na vespera, foi Maria Olympia (com a tia
que chegara de fóra), comprar-lhe um mimo: era uso entre ellas. Comprou-
lhe um annel. Viu na mesma casa uma joia engraçada, uma meia lua de

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diamantes para o cabello, emblema de Diana, que lhe iria muito bem sobre
a testa. De Mahomet que fosse; todo o emblema de diamantes é christão.
Maria Olympia pensou naturalmente na primeira noite do Cassino; e a tia,
vendo-lhe o{263} desejo, quiz comprar a joia, mas era tarde, estava vendida.

Veiu a noite do baile. Maria Olympia subiu commovida as escadas do
Cassino. Pessoas que a conheceram n'aquelle tempo, dizem que o que ella
achava na vida exterior, era a sensação de uma grande caricia publica, a
distancia; era a sua maneira de ser amada. Entrando no Cassino, ia recolher
nova copia de admirações, e não se enganou, porque ellas vieram, e de fina
casta.

Foi pelas dez horas e meia que a viuva ali appareceu. Estava realmente
bella, trajada a primor, tendo na cabeça a meia lua de diamantes. Ficava-lhe
bem o diabo da joia, com as duas pontas para cima, emergindo do cabello
negro. Toda a gente admirou sempre a viuva n'aquelle salão. Tinha muitas
amigas, mais ou menos intimas, não poucos adoradores, e possuia um
genero de espirito que espertava com as grandes luzes. Certo secretario de
legação não cessava de a recommendar aos diplomatas novos: «Causes
avec Mme. Tavares; c'est adorable!» Assim era nas outras noites; assim foi
n'esta.

—Hoje quasi não tenho tido tempo de estar com você, disse ella a Maria
Olympia, perto de meia-noite.{264}

—Naturalmente, disse a outra abrindo e fechando o leque; e, depois de
humedecer os labios, como para chamar a elles todo o veneno que tinha no
coração:—Ypiranga, você está hoje uma viuva deliciosa... Vem seduzir mais
algum marido?

A viuva empalideceu, e não pode dizer nada. Maria Olympia
accrescentou, com os olhos, alguma cousa que a humilhasse bem, que lhe
respingasse lama no triumpho. Já no resto da noite fallaram pouco; trez dias
depois romperam para nunca mais.

FIM DA SENHORA DO GALVÃO.

Page 160

{265}

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AS ACADEMIAS DE SIÃO

Conhecem as academias de Sião? Bem sei que em Sião nunca houve
academias: mas supponhamos que sim, e que eram quatro, e escutem-me.

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I

As estrellas, quando viam subir, atravez da noite, muitos vagalumes côr
de leite, costumavam dizer que eram os suspiros do rei de Sião, que se
divertia com as suas trezentas concubinas. E, piscando o olho umas ás
outras, perguntavam:

—Reaes suspiros, em que é que se occupa esta noite o lindo
Kalaphangko?

Ao que os vagalumes respondiam com gravidade:

—Nós somos os pensamentos sublimes das quatro academias de Sião;
trazemos comnosco toda a sabedoria do universo.{266}

Uma noite, foram em tal quantidade os vagalumes, que as estrellas, de
medrosas, refugiaram-se nas alcovas, e elles tomaram conta de uma parte
do espaço, onde se fixaram para sempre com o nome de via-lactea.

Deu logar, a essa enorme ascenção de pensamentos o facto de quererem
as quatro academias de Sião resolver este singular problema:—porque é que
ha homens femininos e mulheres masculas? E o que as induziu a isso foi a
indole do joven rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Tudo n'elle
respirava a mais esquisita feminidade: tinha os olhos doces, a voz argentina,
attitudes molles e obedientes e um cordial horror ás armas. Os guerreiros
siamezes gemiam, mas a nação vivia alegre, tudo eram dansas, comedias e
cantigas, á maneira do rei que não cuidava de outra cousa. D'ahi a illusão
das estrellas.

Vai senão quando, uma das academias achou esta solução ao problema:

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—Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se
observa é uma questão de corpos errados.

—Nego, bradaram as outras tres; a alma é neutra; nada tem com o
contraste exterior.{267}

Não foi preciso mais para que as vielas e aguas de Bangkok se tingissem
de sangue academico. Veiu primeiramente a controversia, depois a
descompostura, e finalmente a pancada. No principio da descompostura
tudo andou menos mal; nenhuma das rivaes arremessou um improperio que
não fosse escrupulosamente derivado do sanscrito, que era a lingua
academica, o latim de Sião. Mas d'alli em diante perderam a vergonha. A
rivalidade desgrenhou-se, pôz as mãos na cintura, baixou á lama, á pedrada,
ao murro, ao gesto vil, até que a academia sexual, exasperada, resolveu dar
cabo das outras, e organisou um plano sinistro... Ventos que passaes, se
quizesseis levar comvosco estas folhas de papel, para que eu não contasse a
tragedia de Sião! Custa-me (ai de mim!), custa-me escrever a singular
desforra. Os academicos armaram-se em segredo, e foram ter com os
outros, justamente quando estes, curvados sobre o famoso problema, faziam
subir ao céu uma nuvem de vagalumes. Nem preambulo, nem piedade.
Cahiram-lhe em cima espumando de raiva. Os que puderam fugir, não
fugiram por muitas horas; perseguidos e attacados, morreram na beira do
rio, a bordo das lanchas, ou nas vielas escusas. Ao todo, trinta e oito
cadaveres. Cortaram uma{268} orelha aos principaes, e fizeram d'ellas collar
e braceletes para o presidente vencedor, o sublime U-Tong. Ebrios da
victoria, celebraram o feito com um grande festim, no qual cantaram este
hymno magnifico: «Gloria a nós, que somos o arroz da sciencia e a
luminaria do universo».

A cidade acordou estupefacta. O terror apoderou-se da multidão.
Ninguem podia absolver uma acção tão crúa e feia; alguns chegavam
mesmo a duvidar do que viam... Uma só pessoa approvou tudo: foi a bella
Kinnara, a flôr das concubinas regias.

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II

Mollemente deitado aos pés da bella Kinnara, o joven rei pedia-lhe uma
cantiga.

—Não dou outra cantiga que não seja esta: creio na alma sexual.

—Crês no absurdo, Kinnara.

—Vossa Magestade crê então na alma neutra?

—Outro absurdo, Kinnara. Não, não creio na alma neutra, nem na alma
sexual.

—Mas então em que é que Vossa Magestade crê, se não crê em nenhuma
d'ellas?{269}

—Creio nos teus olhos, Kinnara, que são o sol e a luz do universo.

—Mas cumpre-lhe escolher:—ou crêr na alma neutra, e punir a academia
viva, ou crêr na alma sexual, e absolvel-a.

—Que deliciosa que é a tua boca, minha doce Kinnara! Creio na tua
boca: é a fonte da sabedoria.

Kinnara levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino,
ella era a mulher mascula—um bufalo com pennas de cysne. Era o bufalo
que andava agora no aposento, mas d'ahi a pouco foi o cysne que parou, e,
inclinando o pescoço, pediu e obeteve do rei, entre duas caricias, um
decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada legitima e
orthodoxa, e a outra absurda e perversa. N'esse mesmo dia, foi o decreto

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mandado á academia triumphante, aos pagodes, aos mandarins, a todo o
reino. A academia poz luminarias; restabeleceu-se a paz publica.

Page 166

III

Entretanto, a bella Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto. Uma
noite, como o rei examinasse{270} alguns papeis do Estado, perguntou-lhe
ella se os impostos eram pagos com pontualidade.

—Ohimé! exclamou elle, repetindo essa palavra que lhe ficara de um
missionario italiano. Poucos impostos têm sido pagos. Eu não quizera
mandar cortar a cabeça aos contribuintes... Não, isso nunca... Sangue?
sangue? não, não quero sangue...

—E se eu lhe der um remedio a tudo?

—Qual?

—Vossa Magestade decretou que as almas eram femininas e masculinas,
disse Kinnara depois de um beijo. Supponha que os nossos corpos estão
trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos os
nossos...

Kalaphangko riu muito da idéa, e perguntou-lhe como é que fariam a
troca. Ella respondeu que pelo methodo Mukunda, rei dos Hindus, que se
metteu no cadaver de um brahamane, emquanto um truão se mettia no d'elle
Mukunda,—velha lenda passada aos turcos, persas e christãos. Sim, mas a
formula da invocação? Kinnara declarou que a possuia; um velho bonzo
achára copia d'ella nas ruinas de um templo.

—Valeu?

—Não creio no meu proprio decreto, redarguiu{271} elle rindo; mas vá lá,
se fôr verdade, troquemos... mas por um semestre não mais. No fim do

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semestre destrocaremos os corpos.

Ajustaram que seria n'essa mesma noite. Quando toda a cidade dormia,
elles mandaram vir a piroga real, metteram-se dentro e deixaram-se ir á tôa.
Nenhum dos remadores os via. Quando a aurora começou a apparecer,
fustigando as vaccas rútilas, Kinnara proferiu a mysteriosa invocação; a
alma desprendeu-se-lhe, e ficou pairando, á espera que o corpo do rei
vagasse tambem. O d'ella cahira no tapete.

—Prompto? disse Kalaphangko.

—Prompto, aqui estou no ar esperando. Desculpe Vossa Magestade a
indignidade da minha pessoa...

Mas a alma do rei não ouviu o resto. Lepida e scintilante, deixou o seu
vaso physico e penetrou no corpo de Kinnara, emquanto a d'esta se
apoderava do despojo real. Ambos os corpos ergueram-se e olharam um
para o outro, imagine-se com que assombro. Era a situação do Buoso e da
cobra, segundo conta o velho Dante; mas vede aqui a minha audacia. O
poeta manda calar Ovidio e Lucano, por achar que a sua methamorphose
vale mais{272} que a d'elles dous. Eu mando-os calar a todos tres. Buoso e a
cobra não se encontram mais, ao passo que os meus dous heróes, uma vez
trocados continuam a fallar e a viver juntos—cousa evidente mais dantesca,
em que me peze á modéstia.

—Realmente, disse Kalaphangko, isto de olhar para mim mesmo e dar-
me magestade é exquisito. Vossa Magestade não sente a mesma cousa?

Um e outro estavam bem, como pessoas que acham finalmente uma casa
adequada. Kalaphangko espreguiçava-se todo nas curvas femininas de
Kinnara. Esta esteiriçava-se no tronco rijo de Kalaphangko. Sião tinha,
finalmente, um rei.

Page 168

IV

A primeira acção de Kalaphangko (d'aqui em diante entenda-se que é o
corpo do rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bella siameza
com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias á
academia sexual. Não elevou os seus membros ao mandarinato, pois eram
mais homens de pensamento que de acção e administração, dados á
philosophia e á litteratura, mas{273} decretou que todos se prosternassem
diante d'elles, como é de uso aos mandarins. Além d'isso, fez-lhes grandes
presentes, cousas raras ou de valia, crocodillos empalhados, cadeiras de
marfim, apparelhos de esmeralda para almoço, diamantes, reliquias. A
academia, grata a tantos beneficios, pediu mais o direito de usar
officialmente o titulo de Claridade do Mundo, que lhe foi outorgado.

Feito isso, cuidou Kalaphangko da fazenda publica, da justiça, do culto e
do ceremonial. A nação começou de sentir o peso grosso, para fallar como o
excelso Camões, pois nada menos de onze contribuintes remissos foram
logo decapitados. Naturalmente os outros, preferindo a cabeça ao dinheiro,
correram a pagar as taxas, e tudo se regularisou. A justiça e a legislação
tiveram grandes melhoras. Construiram-se novos pagodes; e a religião
pareceu até ganhar outro impulso, desde que Kalaphangko, copiando as
antigas artes hespanholas, mandou queimar uma duzia de pobres
missionarios christãos que por lá andavam; acção que os bonzos da terra
chamaram a perola do reinado.

Faltava uma guerra. Kalaphangko, com um pretexto mais ou menos
diplomatico, atacou a outro reino, e fez a campanha mais breve e gloriosa
do{274} seculo. Na volta a Bangkok, achou grandes festas esplendidas.
Trezentos barcos, forrados de seda escarlate e azul, foram recebel-o. Cada
um d'estes tinha na prôa um cysne ou um dragão de ouro, e era tripolado

Page 169

pela mais fina gente da cidade; musicas e acclamações atroaram os ares. De
noite, acabadas as festas, sussurrou-lhe ao ouvido a bella concubina:

—Meu joven guerreiro, paga-me as saudades que curti na ausencia; dize-
me que a melhor das festas é a tua meiga Kinnara.

Kalaphangko respondeu com um beijo.

—Os teus beiços têm o frio da morte ou do desdem, suspirou ella.

Era verdade, o rei estava distrahido e preoccupado; meditava uma
tragedia. Ia-se approximando o termo do prazo em que deviam destrocar os
corpos, e elle cuidava em illudir a clausula, matando a linda siameza.
Hesitava por não saber se padeceria com a morte d'ella visto que o corpo
era seu, ou mesmo se teria de succumbir tambem. Era esta a duvida de
Kalaphangko; mas a idéa da morte sombreava-lhe a fronte, emquanto elle
afagava ao peito um frasquinho com veneno, imitado dos Borgias.

De repente, pensou na douta academia; podia consultal-a, não
claramente, mas por hypothese. Mandou{275} chamar os academicos;
vieram todos menos o presidente, o illustre U-Tong, que estava enfermo.
Eram treze; prosternaram-se e disseram ao modo de Sião:

—Nós, despreziveis palhas, corremos ao chamado de Kalaphangko.

—Erguei-vos, disse benevolamente o rei.

—O logar da poeira é o chão, teimaram elles com os cotovelos e joelhos
em terra.

—Pois serei o vento que subleva a poeira, redarguiu Kalaphangko; e,
com um gesto cheio de graça e tolerancia, estendeu-lhes as mãos.

Em seguida, começou a fallar de cousas diversas, para que o principal
assumpto viesse de si mesmo; fallou nas ultimas noticias do occidente e nas
leis de Manú. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era um
grande sabio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta,
ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade,

Page 170

confessaram elles que U-Tong era um dos mais singulares estupidos do
reino; espirito raso, sem valor, nada sabendo e incapaz de aprender nada.
Kalaphangko estava pasmado. Um estupido?

—Custa-nos dizel-o, mas não é outra cousa; é um espirito raso e chocho.
O coração é excellente, caracter puro, elevado...{276}

Kalaphangko, quando voltou a si do espanto, mandou embora os
academicos, sem lhes perguntar o que queria. Um estupido? Era mister
tiral-o da cadeira sem molestal-o. Tres dias depois, U-Tong compareceu ao
chamado do rei. Este perguntou-lhe carinhosamente pela saude; depois
disse que queria mandar alguem ao Japão estudar uns documentos, negocio
que só podia ser confiado a pessoa esclarecida. Qual dos seus collegas da
academia lhe parecia idoneo para tal mister? Comprehende-se o plano
artificioso do rei; era ouvir dois ou tres nomes, e concluir que a todos
preferia o do proprio U-Tong; mas eis aqui o que este lhe respondeu:

—Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: são treze camellos,
com a differença que os camellos são modestos, e elles não; comparam-se
ao sol e á lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais
singulares pulhas do que esses treze... Comprehendo o assombro de Vossa
Magestade; mas eu não seria digno de mim se não dissesse isto com
lealdade, embora confidencialmente...

Kalaphangko tinha a boca aberta. Treze camellos? Treze, treze. U-Tong
resalvou tão sómente o coração de todos, que declarou excellente; nada
superior a elles pelo lado do caracter. Kalaphangko, com um{277} fino gesto
de complacencia, despediu o sublime U-Tong, e ficou pensativo. Quaes
fossem, as suas reflexões, não o soube ninguem. Sabe-se que elle mandou
chamar os outros academicos, mas d'esta vez separadamente, afim de não
dar na vista, e para obter maior expansão. O primeiro que chegou,
ignorando aliás a opinão de U-Tong, confirmou-a integralmente, com a
unica emenda de serem doze os camellos, ou treze, contando o proprio U-
Tong. O segundo não teve opinião differente, nem o terceiro, nem os
restantes academicos. Differiam no estylo; uns diziam camellos, outros
usavam circumloquios e metaphoras, que vinham a dar na mesma cousa. E,
entretanto, nenhuma injuria ao caracter moral das pessoas. Kalaphangko
estava attonito.

Page 171

Mas não foi esse o ultimo espanto do rei. Não podendo consultar a
academia, tratou de deliberar por si, no que gastou dois dias, até que a linda
Kinnara lhe segredou que era mãi. Esta noticia fel-o recuar do crime. Como
destruir o vaso eleito da flôr que tinha de vir com a primavera proxima?
Jurou ao céo e á terra que o filho havia de nascer e viver. Chegou ao fim do
semestre; chegou o momento de destrocar os corpos.

Como da primeira vez, metteram-se no barco real, á noite, e deixaram-se
ir aguas abaixo, ambos de{278} má vontade, saudosos do corpo que iam
restituir um ao outro. Quando as vaccas scintillantes da madrugada
começaram de pisar vagarosamente o céo, proferiram elles o formula
mysteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Kinnara, tornando
ao seu, teve a commoção materna, como tivera a paterna, quando occupava
o corpo de Kalaphangko. Parecia-lhe até que era ao mesmo tempo mãi e pai
da creança.

—Pai e mãi? repetiu o principe restituido á fórma anterior.

Foram interrompidos por uma deleitosa musica, ao longe. Era algum
junco ou piroga que subia o rio, pois a musica approximava-se
rapidamente! Já então o sol alagava de luz as aguas e as margens verdes,
dando ao quadro um tom de vida e renascença, que de algum modo fazia
esquecer aos dous amantes a restituição psychica. E a musica vinha
chegando, agora mais distincta, até que n'uma curva do rio, appareceu aos
olhos de ambos um barco magnifico, adornado de plumas e flammulas.
Vinham dentro os quatorze membros da academia (contando U-Tong) e
todos em côro mandavam aos ares o velho hymno: «Gloria a nós, que
somos o arroz da sciencia e a claridade do mundo»!{279}

A bella Kinnara (antigo Kalaphangko) tinha os olhos esbogalhados de
assombro. Não podia entender como é que quatorze varões reunidos em
academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de
camellos. Kalaphangko consultado por ella, não achou explicação. Se
alguem descobrir alguma, pode obsequiar uma das mais graciosas damas do
Oriente, mandando-lh'a em carta fechada, e, para maior segurança,
sobrescriptada ao nosso consul em Changai, China.

Page 172

FIM DAS ACADEMIAS DE SIÃO.

{280}

{281}

Page 173

*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS SEM
DATA ***

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