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The Project Gutenberg eBook of Paisagens da China e do
Japão
This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will
have to check the laws of the country where you are located before using
this eBook.
Title: Paisagens da China e do Japão
Author: Wenceslau de Moraes
Release date: May 20, 2008 [eBook #25537]
Most recently updated: July 26, 2015
Language: Portuguese
Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/25537
Credits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal)).
*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK PAISAGENS DA
CHINA E DO JAPÃO ***
Nota de editor: Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto,
foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a
Japão
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Author: Wenceslau de Moraes
Release date: May 20, 2008 [eBook #25537]
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Language: Portuguese
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CHINA E DO JAPÃO ***
Nota de editor: Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto,
foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a
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grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a
lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Maio 2008)
lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Maio 2008)
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PAISAGENS DA CHINA E DO JAPÃO
WENCESLAU DE MORAES
WENCESLAU DE MORAES
Page 8
Paisagens
da
China e do Japão
LISBOA
livraria editora
VIUVA TAVARES CARDOSO
5, Largo de Camões, 6
1906
LISBOA
da
China e do Japão
LISBOA
livraria editora
VIUVA TAVARES CARDOSO
5, Largo de Camões, 6
1906
LISBOA
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Typ. de Francisco Luiz Gonçalves
80, Rua do Alecrim, 82
1906
A Camillo Pessanha e João Vasco
Nos baldões da vida bohemia, na
confusa successão dos dias e das
scenas, acontece que os factos, as
coisas, os individuos, invocados pela
pobre memoria exhausta, vão
perdendo pouco a pouco as suas
qualidades intensivas, as suas côres,
os seus contornos, a sua feição
propria, emancipando-se do real,
como uma pagina de aguarella
desmerece, solta e perdida no espaço
e voando com as brisas; diluindo-se
por fim n'uma emoção generica,
vaga, indifinivel,―a saudade.―A
essas duas grandes saudades,
Camillo Pessanha e João Vasco,
dedico hoje este livro.
Kobe, 10 de Abril de 1901.
Wenceslau de Moraes.
80, Rua do Alecrim, 82
1906
A Camillo Pessanha e João Vasco
Nos baldões da vida bohemia, na
confusa successão dos dias e das
scenas, acontece que os factos, as
coisas, os individuos, invocados pela
pobre memoria exhausta, vão
perdendo pouco a pouco as suas
qualidades intensivas, as suas côres,
os seus contornos, a sua feição
propria, emancipando-se do real,
como uma pagina de aguarella
desmerece, solta e perdida no espaço
e voando com as brisas; diluindo-se
por fim n'uma emoção generica,
vaga, indifinivel,―a saudade.―A
essas duas grandes saudades,
Camillo Pessanha e João Vasco,
dedico hoje este livro.
Kobe, 10 de Abril de 1901.
Wenceslau de Moraes.
Page 10
AS BORBOLETAS
a J. Moreira de Sá.
A lenda das borboletas.
São tão lindas, as borboletas! Quem as vê, que não lhes queira? ahi
vagabundando pelo azul dos campos, razando as corollas frescas, amando-
se, beijando-se, libertas da larva abjecta, como almas de amantes despidas
da miseria terreal, a viajarem no infinito... São tão lindas, as borboletas!...
Mas na China são talvez mais lindas do que todas. É um deslumbramento
surprehendel-as na quietação dos bosques, voejando aos pares, que se
tocam, que se abraçam, e enfiando pelas sombras mysteriosas dos
bambuaes, com as suas longas azas palpitantes, lancioladas, em matizes
maravilhosos, de negros avelludados, de azues meigos, de amarellos
quentes, como se as loucas vestissem cabaias de setim, de sedas de alto
preço...
Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, ha longos seculos, uma
pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang, não longe do logar que hoje se diz
Shanghae. Como fosse muito dada a estudos litterarios e as escolas do seu
sexo não lhe satisfizessem a ambição, conseguiu que seus paes lhe
permittissem o disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar a
mais famosa universidade do imperio. Volveu ao lar apóz tres annos; volveu
tão pura como fôra; da sua innocencia ha provas irrecusaveis. Para não
a J. Moreira de Sá.
A lenda das borboletas.
São tão lindas, as borboletas! Quem as vê, que não lhes queira? ahi
vagabundando pelo azul dos campos, razando as corollas frescas, amando-
se, beijando-se, libertas da larva abjecta, como almas de amantes despidas
da miseria terreal, a viajarem no infinito... São tão lindas, as borboletas!...
Mas na China são talvez mais lindas do que todas. É um deslumbramento
surprehendel-as na quietação dos bosques, voejando aos pares, que se
tocam, que se abraçam, e enfiando pelas sombras mysteriosas dos
bambuaes, com as suas longas azas palpitantes, lancioladas, em matizes
maravilhosos, de negros avelludados, de azues meigos, de amarellos
quentes, como se as loucas vestissem cabaias de setim, de sedas de alto
preço...
Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, ha longos seculos, uma
pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang, não longe do logar que hoje se diz
Shanghae. Como fosse muito dada a estudos litterarios e as escolas do seu
sexo não lhe satisfizessem a ambição, conseguiu que seus paes lhe
permittissem o disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar a
mais famosa universidade do imperio. Volveu ao lar apóz tres annos; volveu
tão pura como fôra; da sua innocencia ha provas irrecusaveis. Para não
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divagar muito n'estas paginas, basta dizer a quem me queira ouvir, que um
lenço de seda branca, que ella enterrara na lama em presença d'uma sua
cunhada predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois tirado sem uma
só mancha e sem um só farpão, branco, puro, como a alma da donzella; e
basta saber que as flôres da sua preferencia, que ella deixára no jardim,
rogando aos deus Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, ha longos
seculos, uma pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang, não longe do logar que
hoje se diz Shanghae. Como fosse muito dada a estudos litterarios e as
escolas do seu sexo não lhe satisfizessem a ambição, conseguiu que seus
paes lhe permittissem o disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir
frequentar a mais famosa universidade do imperio. Volveu ao lar apóz tres
annos; volveu tão pura como fôra; da sua innocencia ha provas irrecusaveis.
Para não divagar muito n'estas paginas, basta dizer a quem me queira ouvir,
que um lenço de seda branca, que ella enterrara na lama em presença d'uma
sua cunhada predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois tirado sem
uma só mancha e sem um só farpão, branco, puro, como a alma da donzella;
e basta saber que as flôres da sua preferencia, que ella deixára no jardim,
rogando aos deuses que as conservassem frescas como ella, assim se
conservaram durante a longa ausencia, embora, como consta, a cunhada as
fosse regando com agua quente tirada da chaleira.
Durante os tres annos de seu estudo, um companheiro, por nome Leun-San-
Pac, intimamente se lhe afeiçoou. Era o seu camarada inseparavel, o seu
irmão; dormindo juntos, conversando juntos, estudando juntos, divagando,
sonhando; e o lorpa do mocinho nunca se apercebeu que tinha a seu lado
uma mulher.
Quando soou a hora das despedidas, cortava o coração vêr o rapaz,
lamentando o futuro isolamento, a perda d'um amigo como aquelle. A moça
consolava-o. A moça poisava-lhe nos hombros as suas mãos gentis, e
exhortava-o a que se enchesse de coragem, a que se entregasse ao amor do
estudo, té alcançar um alto grau de sapiencia.―«E depois, dizia-lhe ella
entre soluços, e depois, se com saudade te recordares ainda de mim, abala,
vem vêr me á minha aldeia.»―E dava-lhe indicações precisas do logar.
Despediram-se, entre choros.
lenço de seda branca, que ella enterrara na lama em presença d'uma sua
cunhada predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois tirado sem uma
só mancha e sem um só farpão, branco, puro, como a alma da donzella; e
basta saber que as flôres da sua preferencia, que ella deixára no jardim,
rogando aos deus Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, ha longos
seculos, uma pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang, não longe do logar que
hoje se diz Shanghae. Como fosse muito dada a estudos litterarios e as
escolas do seu sexo não lhe satisfizessem a ambição, conseguiu que seus
paes lhe permittissem o disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir
frequentar a mais famosa universidade do imperio. Volveu ao lar apóz tres
annos; volveu tão pura como fôra; da sua innocencia ha provas irrecusaveis.
Para não divagar muito n'estas paginas, basta dizer a quem me queira ouvir,
que um lenço de seda branca, que ella enterrara na lama em presença d'uma
sua cunhada predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois tirado sem
uma só mancha e sem um só farpão, branco, puro, como a alma da donzella;
e basta saber que as flôres da sua preferencia, que ella deixára no jardim,
rogando aos deuses que as conservassem frescas como ella, assim se
conservaram durante a longa ausencia, embora, como consta, a cunhada as
fosse regando com agua quente tirada da chaleira.
Durante os tres annos de seu estudo, um companheiro, por nome Leun-San-
Pac, intimamente se lhe afeiçoou. Era o seu camarada inseparavel, o seu
irmão; dormindo juntos, conversando juntos, estudando juntos, divagando,
sonhando; e o lorpa do mocinho nunca se apercebeu que tinha a seu lado
uma mulher.
Quando soou a hora das despedidas, cortava o coração vêr o rapaz,
lamentando o futuro isolamento, a perda d'um amigo como aquelle. A moça
consolava-o. A moça poisava-lhe nos hombros as suas mãos gentis, e
exhortava-o a que se enchesse de coragem, a que se entregasse ao amor do
estudo, té alcançar um alto grau de sapiencia.―«E depois, dizia-lhe ella
entre soluços, e depois, se com saudade te recordares ainda de mim, abala,
vem vêr me á minha aldeia.»―E dava-lhe indicações precisas do logar.
Despediram-se, entre choros.
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A donzella esperou, esperou, esperou,―quem poderá
descrever esse tormento? guardando da familia o seu
segredo; e o moço não apparecia. Segundo os usos do
paiz, os paes destinaram-lhe um marido; e ella, a
desolada, escrava da obediencia filial, obediencia
cega, indiscutivel, que é a base da vida inteira moral
do povo china, inclinou-se, acceitou, sem que uma só
queixa proferisse.
Tres dias decorridos depois do contracto nupcial, eis
que chega á aldeia o pobre Leun-San-Pac; pobre,
porque a desventura se lhe acerca; mas rico de
erudição, de uma alma culta, e occupando um logar
proeminente. Encontra o seu amigo, encontra o seu
irmão; mas agora sem disfarces, na graça plena dos
seus enlevos femininos, na gentil elegancia das vestes
que lhe são proprias, e com grinaldas de flores na
trança negra. De começo, este enigma, pouco a pouco
explicado, confunde-o, desnortea-o; mas tudo se aclara; da amisade ao amor
o salto é rapido. Oh! elle ama-a agora, elle ama-a de todas as forças do seu
ser; e no olhar de fogo transluzem mil mysterios de adorações e de
desejos!... É tarde. A palavra dada ao feliz noivo não se quebra. Os velhos
paes prezam mais do que tudo, a propria honra.
Elle parte; elle parte para um logar visinho, louco, com a alma embebida no
fel dos desesperos. É ainda ella, a doce pomba obediente, que tenta
consolal-o. Ella escreve-lhe; ella diz-lhe que a vida não é eterna; que a
piedade filial arrasta-a a um consorcio que só lhe vaticina dores e prantos;
mas que as almas são livres, emigram d'uns corpos para outros; encarnam-
se n'outros seres; que elle socegue, aguarde outra existencia, para a qual ella
lhe jura será a sua companheira, toda fidelidade e toda amor. Leun-San-Pac
lê, faz um bolo d'essa carta, onde tão demoradamente poisara a mão da sua
bella, e engole-o, e suffoca-se com elle, e exhala assim na solidão o ultimo
suspiro. Um pouco além, sobre a montanha, se lhe elevou a sepultura.
descrever esse tormento? guardando da familia o seu
segredo; e o moço não apparecia. Segundo os usos do
paiz, os paes destinaram-lhe um marido; e ella, a
desolada, escrava da obediencia filial, obediencia
cega, indiscutivel, que é a base da vida inteira moral
do povo china, inclinou-se, acceitou, sem que uma só
queixa proferisse.
Tres dias decorridos depois do contracto nupcial, eis
que chega á aldeia o pobre Leun-San-Pac; pobre,
porque a desventura se lhe acerca; mas rico de
erudição, de uma alma culta, e occupando um logar
proeminente. Encontra o seu amigo, encontra o seu
irmão; mas agora sem disfarces, na graça plena dos
seus enlevos femininos, na gentil elegancia das vestes
que lhe são proprias, e com grinaldas de flores na
trança negra. De começo, este enigma, pouco a pouco
explicado, confunde-o, desnortea-o; mas tudo se aclara; da amisade ao amor
o salto é rapido. Oh! elle ama-a agora, elle ama-a de todas as forças do seu
ser; e no olhar de fogo transluzem mil mysterios de adorações e de
desejos!... É tarde. A palavra dada ao feliz noivo não se quebra. Os velhos
paes prezam mais do que tudo, a propria honra.
Elle parte; elle parte para um logar visinho, louco, com a alma embebida no
fel dos desesperos. É ainda ella, a doce pomba obediente, que tenta
consolal-o. Ella escreve-lhe; ella diz-lhe que a vida não é eterna; que a
piedade filial arrasta-a a um consorcio que só lhe vaticina dores e prantos;
mas que as almas são livres, emigram d'uns corpos para outros; encarnam-
se n'outros seres; que elle socegue, aguarde outra existencia, para a qual ella
lhe jura será a sua companheira, toda fidelidade e toda amor. Leun-San-Pac
lê, faz um bolo d'essa carta, onde tão demoradamente poisara a mão da sua
bella, e engole-o, e suffoca-se com elle, e exhala assim na solidão o ultimo
suspiro. Um pouco além, sobre a montanha, se lhe elevou a sepultura.
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Soam bategas festivas, estalejam nos ares fogos de gala, de alegria; e pela
longa estrada em ziguezague, bordada aqui e alli de bambus e bananeiras,
doirada pelo sol do meio dia, serpea em rutilantes theorias o monumental
cortejo do noivado, caminho do lar feliz.
O estylo de ha mil annos é o mesmo
estylo de hoje. São os grandes balões,
os estandartes, conduzidos por moços
vestidos de vermelho. São os
enxovaes primorosos, as cabaias, a
collecção dos sapatinhos, tudo
disposto nas liteiras luzentes dos
esmaltes. São as colossaes peças de
doçaria, castellos de assucar, dragões
de assucar, coisas espantosas. São os porcos assados, loiros, deliciosos,
espalmados sobre os taboleiros, com laços de fita nos focinhos. São as
orchestras estridentes, de flautas, de rebecas. São as creanças ataviadas em
setins, em allegorias de scenas de outros tempos, cavalgando alimarias
pachorrentas. É finalmente a liteira da noiva, toda ella oiros, toda ella
esmaltes, fechada como um cofre, furtando á vista dos curiosos o precioso
fardo, Choc-In-Toi.
A noiva solicita do cortejo um curto desvio na sua marcha. A noiva, antes
de entrar no lar e de ser esposa e escrava, quer abeirar-se, além, d'aquella
sepultura esquecida na montanha, e orar junto dos restos do que morreu por
ella. Quem lhe recusaria tal licença? Eil-a que desce da liteira, nas suas
cabaias deslumbrantes; e eil-a que se prostra, eil-a que beija a terra...
A terra abre-se então, carinhosa, mãe; a terra traga-a, chama-a a si, chama-a
para junto dos ossos do seu querido. A comitiva pasma do milagre. As mãos
avançam a detel-a; mas só logram colher um pedaço do vestido, que se
rasga, e é tudo... O pedaço de seda, de mil matizes, transforma-se de subito
n'uma borboleta de mil côres, que vôa das mãos rudes, e desapparece no
azul, desapparece!... É desde aquella epocha que ha borboletas n'este
longa estrada em ziguezague, bordada aqui e alli de bambus e bananeiras,
doirada pelo sol do meio dia, serpea em rutilantes theorias o monumental
cortejo do noivado, caminho do lar feliz.
O estylo de ha mil annos é o mesmo
estylo de hoje. São os grandes balões,
os estandartes, conduzidos por moços
vestidos de vermelho. São os
enxovaes primorosos, as cabaias, a
collecção dos sapatinhos, tudo
disposto nas liteiras luzentes dos
esmaltes. São as colossaes peças de
doçaria, castellos de assucar, dragões
de assucar, coisas espantosas. São os porcos assados, loiros, deliciosos,
espalmados sobre os taboleiros, com laços de fita nos focinhos. São as
orchestras estridentes, de flautas, de rebecas. São as creanças ataviadas em
setins, em allegorias de scenas de outros tempos, cavalgando alimarias
pachorrentas. É finalmente a liteira da noiva, toda ella oiros, toda ella
esmaltes, fechada como um cofre, furtando á vista dos curiosos o precioso
fardo, Choc-In-Toi.
A noiva solicita do cortejo um curto desvio na sua marcha. A noiva, antes
de entrar no lar e de ser esposa e escrava, quer abeirar-se, além, d'aquella
sepultura esquecida na montanha, e orar junto dos restos do que morreu por
ella. Quem lhe recusaria tal licença? Eil-a que desce da liteira, nas suas
cabaias deslumbrantes; e eil-a que se prostra, eil-a que beija a terra...
A terra abre-se então, carinhosa, mãe; a terra traga-a, chama-a a si, chama-a
para junto dos ossos do seu querido. A comitiva pasma do milagre. As mãos
avançam a detel-a; mas só logram colher um pedaço do vestido, que se
rasga, e é tudo... O pedaço de seda, de mil matizes, transforma-se de subito
n'uma borboleta de mil côres, que vôa das mãos rudes, e desapparece no
azul, desapparece!... É desde aquella epocha que ha borboletas n'este
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mundo, tão lindas, tão cheias de
matizes!...
Eu não lhes estou contando uma
mentira, meus amigos. Ainda hoje se
vê a sepultura, esboroada pelos
seculos, d'aquelles amorosos. E as
esposas desprezadas alem vão em
romaria, e d'aquella terra bemdita se suprem ás mãos cheias, e d'ella
provam, e disfarçada com o arroz a ministram aos maridos. Consta que o
estranho tempero, aquella terra, que em alguma coisa participa da essencia
dos amantes que ali jazem para sempre, tem virtude comsigo, e é sempre
efficaz em trazer ao bom caminho os mariolas, os maridos.
A ALFORRECA
a Henrique Carvalhosa.
Falla a lenda japoneza.
Antigamente―e quem sabe se ainda hoje!―no seio do oceano era o reino
faustuoso dos dragões. Por longos annos, o senhor d'este reino, o dragão
real, viveu celibatario, n'uma existencia descuidosa; e sabem só os deuses, e
não nós, quantas noites de dissipação, em companhia de tartarugas e
lagostas ligeiras de costumes, que lhe cantavam trovas ao som do shamicen
e lhe iam servindo saké em ricas taças, quantas noites elle passou em
travessas intimidades amorosas!...
matizes!...
Eu não lhes estou contando uma
mentira, meus amigos. Ainda hoje se
vê a sepultura, esboroada pelos
seculos, d'aquelles amorosos. E as
esposas desprezadas alem vão em
romaria, e d'aquella terra bemdita se suprem ás mãos cheias, e d'ella
provam, e disfarçada com o arroz a ministram aos maridos. Consta que o
estranho tempero, aquella terra, que em alguma coisa participa da essencia
dos amantes que ali jazem para sempre, tem virtude comsigo, e é sempre
efficaz em trazer ao bom caminho os mariolas, os maridos.
A ALFORRECA
a Henrique Carvalhosa.
Falla a lenda japoneza.
Antigamente―e quem sabe se ainda hoje!―no seio do oceano era o reino
faustuoso dos dragões. Por longos annos, o senhor d'este reino, o dragão
real, viveu celibatario, n'uma existencia descuidosa; e sabem só os deuses, e
não nós, quantas noites de dissipação, em companhia de tartarugas e
lagostas ligeiras de costumes, que lhe cantavam trovas ao som do shamicen
e lhe iam servindo saké em ricas taças, quantas noites elle passou em
travessas intimidades amorosas!...
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Verdores, que passam
breve. Um bello dia,
resolveu casar-se, o bom
soberano. A noiva
escolhida foi uma joven
dragôasita, dezeseis annos
apenas, adoravel, digna
pelos seus mil encantos
de ser a consorte feliz de
tal senhor. Explendidas foram as bodas por essa
occasião, segundo consta: sem já fallar na côrte
intima, toda a bicharia aquatica, peixes, mariscos,
molluscos, todos vieram processionalmente, em
cardumes, em bellos kimonos de sedas encarnadas,
offerecer seus respeitos e presentes; e foram,
durante longos dias, estupendos regabofes, em
danças, em musicas, em banquetes...
Mas nem os dragões escapam ás duras provações da
existencia! Ainda bem um mez se não passára,
quando a augusta soberana caiu doente; e taes
cuidados inspirou desde logo o seu estado, que era
uma lastima observar as trombas compungidas dos fidalgos, commentando
baixinho, em lamentações do seu officio, o triste caso. Reuniram-se os
doutores em conferencia; fallaram muito, discutiram muito, sem chegarem a
accordo, como sempre succede; consultaram-se abalisados alfarrabios de
therapeutica; as barbatanas incançaveis rabiscaram um milhão de receitas
milagrosas, e todas as tisanas se serviram. Baldado intento; a soberana
extinguia-se; e afinal os focinhos dos sabios, n'um tregeito de piedade e
desengano, tiveram de ser francos, de declarar que a sciencia―já n'aquella
epoca se enchia a bocca com a sciencia―que a sciencia nada mais podia
fazer, e que um angustioso desfecho era de esperar-se.
breve. Um bello dia,
resolveu casar-se, o bom
soberano. A noiva
escolhida foi uma joven
dragôasita, dezeseis annos
apenas, adoravel, digna
pelos seus mil encantos
de ser a consorte feliz de
tal senhor. Explendidas foram as bodas por essa
occasião, segundo consta: sem já fallar na côrte
intima, toda a bicharia aquatica, peixes, mariscos,
molluscos, todos vieram processionalmente, em
cardumes, em bellos kimonos de sedas encarnadas,
offerecer seus respeitos e presentes; e foram,
durante longos dias, estupendos regabofes, em
danças, em musicas, em banquetes...
Mas nem os dragões escapam ás duras provações da
existencia! Ainda bem um mez se não passára,
quando a augusta soberana caiu doente; e taes
cuidados inspirou desde logo o seu estado, que era
uma lastima observar as trombas compungidas dos fidalgos, commentando
baixinho, em lamentações do seu officio, o triste caso. Reuniram-se os
doutores em conferencia; fallaram muito, discutiram muito, sem chegarem a
accordo, como sempre succede; consultaram-se abalisados alfarrabios de
therapeutica; as barbatanas incançaveis rabiscaram um milhão de receitas
milagrosas, e todas as tisanas se serviram. Baldado intento; a soberana
extinguia-se; e afinal os focinhos dos sabios, n'um tregeito de piedade e
desengano, tiveram de ser francos, de declarar que a sciencia―já n'aquella
epoca se enchia a bocca com a sciencia―que a sciencia nada mais podia
fazer, e que um angustioso desfecho era de esperar-se.
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Do seu leito de enferma, de entre os futon, as fofas colchas de setim, agita
as tremulas patinhas a rainha; chama junto de si o esposo, e diz-lhe estas
palavras ao ouvido:―«Uma só coisa me salvará: arranquem o figado a um
macaco vivo, e consintam que o devore; recuperarei a saude....»―O rei não
poude reprimir um gesto de surpresa, quasi de enfado, e todo se lhe erriçou
o bigode façanhudo:―«Um figado de macaco! estás louca, minha
querida!...»―Ella promptamente retrucou:―«Louca, porquê? Vossa
magestade esquece por ventura, que
nós, o grande povo dos dragões, no
mar vivemos sempre; emquanto que
os macacos, muito longe d'aqui,
vivem na terra, nos bosques, entre as
arvores, nutrindo-se de fructos... No
figado do mono alguma coisa virá que
participe d'esse mundo, tão diverso,
tão outro; e essa particula estranha,
senhor, me salvaria!...»―E a rainha, a
quem as lagrimas acodem, prosegue
n'um tom reprehensivo e
lastimoso:―«Uma insignificancia, um
nada, pedi, e esse nada vossa magestade me recusa. Julgava merecer-lhe
mais affectos. Dispa-me d'estas pompas de soberana, não as quero; dê a
corôa a outra esposa, mais digna, mais formosa; consinta que volva ao
ninho carinhoso de meus paes...»―A voz suffoca-se em soluços, não pode
mais proferir uma só queixa...
O rei dos dragões não queria passar, entre damas por um dragão cruel; por
demais conhecia elle os caprichos pueris do sexo fragil, mas perdoava-os
complacentemente, por systema; e sobretudo adorava a esposa, cujas
lagrimas desejaria poupar a todo o transe. Satisfaça-se pois o capricho da
rainha. Mandou chamar a sua escrava mais fiel e dedicada, a alforreca, e
disse-lhe o seguinte:―«Vou dar-te uma espinhosa tarefa, minha velha, mas
confio na tua dedicação nunca mentida; preciso que emprehendas uma
longa viagem, que nades até junto da terra, e alli convenças um macaco a
vir comtigo a estes meus reinos; falla-lhe, para o resolveres, da magica
belleza d'estes sitios, tão differentes dos seus, e da gentileza d'estes meus
subditos felizes; mas o que eu realmente quero n'este caso, é que se
as tremulas patinhas a rainha; chama junto de si o esposo, e diz-lhe estas
palavras ao ouvido:―«Uma só coisa me salvará: arranquem o figado a um
macaco vivo, e consintam que o devore; recuperarei a saude....»―O rei não
poude reprimir um gesto de surpresa, quasi de enfado, e todo se lhe erriçou
o bigode façanhudo:―«Um figado de macaco! estás louca, minha
querida!...»―Ella promptamente retrucou:―«Louca, porquê? Vossa
magestade esquece por ventura, que
nós, o grande povo dos dragões, no
mar vivemos sempre; emquanto que
os macacos, muito longe d'aqui,
vivem na terra, nos bosques, entre as
arvores, nutrindo-se de fructos... No
figado do mono alguma coisa virá que
participe d'esse mundo, tão diverso,
tão outro; e essa particula estranha,
senhor, me salvaria!...»―E a rainha, a
quem as lagrimas acodem, prosegue
n'um tom reprehensivo e
lastimoso:―«Uma insignificancia, um
nada, pedi, e esse nada vossa magestade me recusa. Julgava merecer-lhe
mais affectos. Dispa-me d'estas pompas de soberana, não as quero; dê a
corôa a outra esposa, mais digna, mais formosa; consinta que volva ao
ninho carinhoso de meus paes...»―A voz suffoca-se em soluços, não pode
mais proferir uma só queixa...
O rei dos dragões não queria passar, entre damas por um dragão cruel; por
demais conhecia elle os caprichos pueris do sexo fragil, mas perdoava-os
complacentemente, por systema; e sobretudo adorava a esposa, cujas
lagrimas desejaria poupar a todo o transe. Satisfaça-se pois o capricho da
rainha. Mandou chamar a sua escrava mais fiel e dedicada, a alforreca, e
disse-lhe o seguinte:―«Vou dar-te uma espinhosa tarefa, minha velha, mas
confio na tua dedicação nunca mentida; preciso que emprehendas uma
longa viagem, que nades até junto da terra, e alli convenças um macaco a
vir comtigo a estes meus reinos; falla-lhe, para o resolveres, da magica
belleza d'estes sitios, tão differentes dos seus, e da gentileza d'estes meus
subditos felizes; mas o que eu realmente quero n'este caso, é que se
Page 17
arranque o figado das entranhas de tal
mono, e se sirva como medicamento á
tua joven ama, que, como de certo
sabes, se acha em perigo de vida, a
desditosa.»
Lá vae, oceano fóra, vento em pôpa, a
alforreca, emissaria obediente e
ufanosa do encargo. Por aquelles
tempos, a alforreca, como qualquer
bicho das aguas, era um animal
gracioso, de contornos esbeltos, com
cabecinha, com olhinhos, com
mãosinhas, e com a competente cauda titillante; e ficava-lhe tão bem o fato
de marujo!... Lá vae, oceano fóra, olhar sereno e cogitador, rompendo a
vigorosas braçadas a onda fria. Não tarda muito a abeirar-se do paiz onde
vivem os macacos; por felicidade, um alem está, um lindo mono, saltando
de ramo em ramo, dependurando-se das arvores que enraizam nos penedos
e se debruçam sobre o mar.―«Bons dias, senhor macaco. Eu venho aqui
expressamente para fallar-lhe d'um paiz longinquo, muito mais bello do que
o seu; é elle situado alem das ondas e conhecido pelo reino dos dragões;
alli, não ha estações, é eterna a amenidade do clima; alli, nas copas das
arvores repolhudas, constantemente amanhecem avelludados fructos
saborosos, é colhel-os, não ha outra tarefa; para cumulo do conforto, essas
creaturas malfazejas, homens chamados, não pisam taes paragens. Se lhe
agrada vir commigo, eu serei o seu guia; não tem mais que fazer do que
saltar d'esse tronco para cima do meu lombo...» O macaco achou gracioso
isso de ir vêr novos paizes. Vá lá mais esta extravagancia á conta da
bohemia simiesca.―«Ao largo, amiga!»―E lá foram os dois; porém, a
meia travessia, pensou tardiamente o mono na temeridade do seu feito,
expondo-se assim ao arbitrio d'um extrangeiro, e abandonando a sua patria.
Decidiu-se emfim a perguntar:―«Que pensa você que vão fazer de mim na
sua terra?»―A alforreca deveria agora ser discreta, encapotar as respostas
em evasivas; mas oiçam lá o que ella deu em troco:―«Eu lhe digo: meu
amo, rei dos dragões, ordena ao senhor macaco que arranque o proprio
figado, o qual vae ser servido á nossa soberana, hoje enferma, e salval-a da
morte.»―Então o mono, guardando para si os commentarios que o caso
mono, e se sirva como medicamento á
tua joven ama, que, como de certo
sabes, se acha em perigo de vida, a
desditosa.»
Lá vae, oceano fóra, vento em pôpa, a
alforreca, emissaria obediente e
ufanosa do encargo. Por aquelles
tempos, a alforreca, como qualquer
bicho das aguas, era um animal
gracioso, de contornos esbeltos, com
cabecinha, com olhinhos, com
mãosinhas, e com a competente cauda titillante; e ficava-lhe tão bem o fato
de marujo!... Lá vae, oceano fóra, olhar sereno e cogitador, rompendo a
vigorosas braçadas a onda fria. Não tarda muito a abeirar-se do paiz onde
vivem os macacos; por felicidade, um alem está, um lindo mono, saltando
de ramo em ramo, dependurando-se das arvores que enraizam nos penedos
e se debruçam sobre o mar.―«Bons dias, senhor macaco. Eu venho aqui
expressamente para fallar-lhe d'um paiz longinquo, muito mais bello do que
o seu; é elle situado alem das ondas e conhecido pelo reino dos dragões;
alli, não ha estações, é eterna a amenidade do clima; alli, nas copas das
arvores repolhudas, constantemente amanhecem avelludados fructos
saborosos, é colhel-os, não ha outra tarefa; para cumulo do conforto, essas
creaturas malfazejas, homens chamados, não pisam taes paragens. Se lhe
agrada vir commigo, eu serei o seu guia; não tem mais que fazer do que
saltar d'esse tronco para cima do meu lombo...» O macaco achou gracioso
isso de ir vêr novos paizes. Vá lá mais esta extravagancia á conta da
bohemia simiesca.―«Ao largo, amiga!»―E lá foram os dois; porém, a
meia travessia, pensou tardiamente o mono na temeridade do seu feito,
expondo-se assim ao arbitrio d'um extrangeiro, e abandonando a sua patria.
Decidiu-se emfim a perguntar:―«Que pensa você que vão fazer de mim na
sua terra?»―A alforreca deveria agora ser discreta, encapotar as respostas
em evasivas; mas oiçam lá o que ella deu em troco:―«Eu lhe digo: meu
amo, rei dos dragões, ordena ao senhor macaco que arranque o proprio
figado, o qual vae ser servido á nossa soberana, hoje enferma, e salval-a da
morte.»―Então o mono, guardando para si os commentarios que o caso
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suggeria, disse cortêzmente, que era
para elle uma alta honra e um
esperado prazer, o assim tornar-se util
a sua magestade; acrescentou, porem,
que agora se lembrava de ter deixado
o figado dependurado n'um tronco de
arvore, aquelle mesmo castanheiro
d'onde saltara para as costas da
alforreca. Continuou discursando em
linguagem fluente, de orador emerito,
descendo a explanações minuciosas; e
explicou como o figado era uma coisa
bastante pesada, embaraçosa, um
quasi alforge de peregrino, um empecilho que elle costumava pôr de parte,
durante o dia, para se entregar mais á vontade aos seus exercicios de
acrobata; habitos de familia, já seu avô fazia o mesmo; e concluiu, que o
melhor que tinham a fazer n'este momento, era voltarem para trás, e na
arvore encontrariam o figado em questão.
Não pôz objecções a nadadora. Voltando á terra, o macaco saltou ao
castanheiro com uma ligeireza nunca vista, nem mesmo entre macacos,
acompanhando o pulo d'uma alegre careta e d'um gesto que traduzia o
jubilo do bestunto, coisa que passou estranha á alforreca. Procurou entre as
folhas o seu figado. Não o encontrou. Explicou então do alto, á alforreca,
que provavelmente algum companheiro o levára para longe, o que o
obrigava a mais demoradas pesquisas pelo bosque; no entretanto que fôsse
ella contar o caso ao seu senhor, que devia estar ancioso por vêl-a chegar
antes da noite.
Assim procedeu o bicho.
El-rei, que a esperava, e que a escutou, enraivecido por tamanha
ingenuidade―para não lhe chamar coisa mais feia,―mandou logo vir da
maladia um bando dos seus mais soberbos samurais, e ordenou-lhes que
malhassem no bicho á pancada, até cançarem. O castigo foi cumprido, e
para elle uma alta honra e um
esperado prazer, o assim tornar-se util
a sua magestade; acrescentou, porem,
que agora se lembrava de ter deixado
o figado dependurado n'um tronco de
arvore, aquelle mesmo castanheiro
d'onde saltara para as costas da
alforreca. Continuou discursando em
linguagem fluente, de orador emerito,
descendo a explanações minuciosas; e
explicou como o figado era uma coisa
bastante pesada, embaraçosa, um
quasi alforge de peregrino, um empecilho que elle costumava pôr de parte,
durante o dia, para se entregar mais á vontade aos seus exercicios de
acrobata; habitos de familia, já seu avô fazia o mesmo; e concluiu, que o
melhor que tinham a fazer n'este momento, era voltarem para trás, e na
arvore encontrariam o figado em questão.
Não pôz objecções a nadadora. Voltando á terra, o macaco saltou ao
castanheiro com uma ligeireza nunca vista, nem mesmo entre macacos,
acompanhando o pulo d'uma alegre careta e d'um gesto que traduzia o
jubilo do bestunto, coisa que passou estranha á alforreca. Procurou entre as
folhas o seu figado. Não o encontrou. Explicou então do alto, á alforreca,
que provavelmente algum companheiro o levára para longe, o que o
obrigava a mais demoradas pesquisas pelo bosque; no entretanto que fôsse
ella contar o caso ao seu senhor, que devia estar ancioso por vêl-a chegar
antes da noite.
Assim procedeu o bicho.
El-rei, que a esperava, e que a escutou, enraivecido por tamanha
ingenuidade―para não lhe chamar coisa mais feia,―mandou logo vir da
maladia um bando dos seus mais soberbos samurais, e ordenou-lhes que
malhassem no bicho á pancada, até cançarem. O castigo foi cumprido, e
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com esse vigor de braços de villões, que miram aos applausos do monarcha.
É esta a razão porque a alforreca, hoje em dia, não tem pernas, nem cabeça,
nem cauda, nem barbatanas: tanta pancada levou, que ficou reduzida a esta
miseria, massa informe, um farrapo, um pedaço de gelatina, boiando
despresivelmente á mercê do turbilhão das vagas.
Com respeito á soberana, reconsiderando no disparate do seu capricho,
concluiu que o melhor que tinha a fazer era erguer-se da cama e pôr-se bôa;
e assim fez, com grande pasmo dos doutores.
A historia da alforreca está contada, na sua simplicidade commovente. É
veridica esta historia, como tudo que o povo relata de memoria; creia n'ella
quem crê. Fica-se já sabendo no entretanto,―e é isto d'um proveitoso
ensinamento,―que os japonezes tão prodigamente propensos ao perdão
para tantos pecadilhos de alma e de costumes, castigam os patetas.
Diga-se francamente: esta desgraça da alforreca, no paiz do sol nascente,
era inevitavel; e o caso presta-se a interessantes commentarios, que eu vou
resumir em poucas linhas. Os japonezes―povo de artistas―são os grandes
amorosos da creação, da forma, da vida; ninguem como elles conhece os
segredos da ave, do insecto, do reptil, do peixe, dos molluscos, do verme,
de todos os seres da terra; a animalidade graciosa d'esses seres, estudada
com percepções especiaes, que nos escapam, constitue o thema mil e mil
vezes variado, dos seus primores de
arte. Mas esse monstro, essa
disformidade, essa alforreca que se
apresenta como unica excepção da lei
geral da gentileza da vida, e parece
resumir em si o enfado inteiro d'um
dia de mau humor do Omnipotente,
devia ter deixado impressões tristes
nos primeiros japonezes que a
avistaram; e foi preciso arranjar logo
uma explicação condigna do phenomeno, e é a que ficou descripta n'estas
linhas.
É esta a razão porque a alforreca, hoje em dia, não tem pernas, nem cabeça,
nem cauda, nem barbatanas: tanta pancada levou, que ficou reduzida a esta
miseria, massa informe, um farrapo, um pedaço de gelatina, boiando
despresivelmente á mercê do turbilhão das vagas.
Com respeito á soberana, reconsiderando no disparate do seu capricho,
concluiu que o melhor que tinha a fazer era erguer-se da cama e pôr-se bôa;
e assim fez, com grande pasmo dos doutores.
A historia da alforreca está contada, na sua simplicidade commovente. É
veridica esta historia, como tudo que o povo relata de memoria; creia n'ella
quem crê. Fica-se já sabendo no entretanto,―e é isto d'um proveitoso
ensinamento,―que os japonezes tão prodigamente propensos ao perdão
para tantos pecadilhos de alma e de costumes, castigam os patetas.
Diga-se francamente: esta desgraça da alforreca, no paiz do sol nascente,
era inevitavel; e o caso presta-se a interessantes commentarios, que eu vou
resumir em poucas linhas. Os japonezes―povo de artistas―são os grandes
amorosos da creação, da forma, da vida; ninguem como elles conhece os
segredos da ave, do insecto, do reptil, do peixe, dos molluscos, do verme,
de todos os seres da terra; a animalidade graciosa d'esses seres, estudada
com percepções especiaes, que nos escapam, constitue o thema mil e mil
vezes variado, dos seus primores de
arte. Mas esse monstro, essa
disformidade, essa alforreca que se
apresenta como unica excepção da lei
geral da gentileza da vida, e parece
resumir em si o enfado inteiro d'um
dia de mau humor do Omnipotente,
devia ter deixado impressões tristes
nos primeiros japonezes que a
avistaram; e foi preciso arranjar logo
uma explicação condigna do phenomeno, e é a que ficou descripta n'estas
linhas.
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É ainda interessante recordar de passagem a approximação, pela desdita, da
alforreca japoneza com a medusa mythologica da Grecia, não merecendo
esta melhor tratamento dos deuses olympicos. Curiosa coincidencia!
O ANNO NOVO
a Feliciano do Rozario.
Temos festa hoje, aqui. Acaba o anno velho, começa o anno novo. Mas não
vão imaginar que seja do anno novo de que rezam os nossos calendarios, a
commemoração; tal commemoração, aqui, no fim do mundo, no seio d'esta
colonia nostalgica, passa insipida, quasi sem alvoroços intimos de familia,
limitada á troca banal―troca sem cedilha e com cedilha―de algumas
duzias de bilhetes de visita, com as competentes boas-festas escriptas, da
pragmatica. Trata-se do anno lunar que finda, do anno lunar que principia, o
anno chinez emfim, a ampulheta que marca para o povo amarello as suas
horas de existencia; vamos entrar no anno XXII do reinado de sua
magestade imperial celestial, Kuang-Su.
Temos festa hoje, aqui. A alma chineza manifesta-se, evidencea-se, domina,
hoje; offusca, pela grande maioria dos rabichos, o pallido reflexo da
civilisação do Occidente que logrou chegar a este Macau, a este exiguo
penedo asiatico, onde Portugal implantou a sua bandeira.
Meia noite. Ao meu obscuro albergue, chega, de alem dos bazares, o ruido
da bombardada amotinadora dos foguetes, e das mil e mil embarcações
alforreca japoneza com a medusa mythologica da Grecia, não merecendo
esta melhor tratamento dos deuses olympicos. Curiosa coincidencia!
O ANNO NOVO
a Feliciano do Rozario.
Temos festa hoje, aqui. Acaba o anno velho, começa o anno novo. Mas não
vão imaginar que seja do anno novo de que rezam os nossos calendarios, a
commemoração; tal commemoração, aqui, no fim do mundo, no seio d'esta
colonia nostalgica, passa insipida, quasi sem alvoroços intimos de familia,
limitada á troca banal―troca sem cedilha e com cedilha―de algumas
duzias de bilhetes de visita, com as competentes boas-festas escriptas, da
pragmatica. Trata-se do anno lunar que finda, do anno lunar que principia, o
anno chinez emfim, a ampulheta que marca para o povo amarello as suas
horas de existencia; vamos entrar no anno XXII do reinado de sua
magestade imperial celestial, Kuang-Su.
Temos festa hoje, aqui. A alma chineza manifesta-se, evidencea-se, domina,
hoje; offusca, pela grande maioria dos rabichos, o pallido reflexo da
civilisação do Occidente que logrou chegar a este Macau, a este exiguo
penedo asiatico, onde Portugal implantou a sua bandeira.
Meia noite. Ao meu obscuro albergue, chega, de alem dos bazares, o ruido
da bombardada amotinadora dos foguetes, e das mil e mil embarcações
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fundeadas no porto o clamor ovante das bategas, vibradas pelas mãos rudes
das companhas. Que irá lá por esses bazares, a estas horas, santo Deus!...
Eu não me arredo do meu canto. Bem sei que a febre das massas
suggestiona, contamina todos. Bem sei que não se dorme hoje; que não ha
chapéo de côco de amanuense ou kepi de militar, direi mesmo chapelinho
de pellucia com laçarotes de setim e seu competente passaro empalhado, de
menina, que não vá correr as viellas, perder-se na onda, confundir-se com
os rabichos, gosar com elles. Mas está tanto frio, e as bagas de agua
zurzem-me tão desapiedadamente os vidros das janellas... E, peor do que
isto, é o frio da alma, é a apathia enervante do meu espirito, é o sorriso
amargo que me enruga os labios, provocado por esse mesmo jubilo do
enxame, que aqui me retêem e me impedem de tambem ir galhofar.
Não, decididamente não serei da festa. Imagino-a d'aqui. Imagino essas ruas
lamacentas, coalhadas de povo sujo, com as cabaias negras ensopadas dos
chuvascos; e imagino os lumes tremeluzentes das lanternas de papel,
accendendo nas poças, pelo reflexo... grandes labaredas ephemeras,
ziguezagueando. As lojas estão escancaradas ao publico; fructos, flôres,
doces, carniças, bonecos, coisas santas, estendem-se pelos caminhos em
prodigiosas theorias, em coloridos quasi estonteantes; e é comprar, e
comprar já, porque não tarda em romper o glorioso dia de descanço, o unico
na China em que o camponez, o artifice, o vendilhão, todos, cruzam os
braços, não trabalham; e nem a peso de ouro se encontraria um linguado,
das companhas. Que irá lá por esses bazares, a estas horas, santo Deus!...
Eu não me arredo do meu canto. Bem sei que a febre das massas
suggestiona, contamina todos. Bem sei que não se dorme hoje; que não ha
chapéo de côco de amanuense ou kepi de militar, direi mesmo chapelinho
de pellucia com laçarotes de setim e seu competente passaro empalhado, de
menina, que não vá correr as viellas, perder-se na onda, confundir-se com
os rabichos, gosar com elles. Mas está tanto frio, e as bagas de agua
zurzem-me tão desapiedadamente os vidros das janellas... E, peor do que
isto, é o frio da alma, é a apathia enervante do meu espirito, é o sorriso
amargo que me enruga os labios, provocado por esse mesmo jubilo do
enxame, que aqui me retêem e me impedem de tambem ir galhofar.
Não, decididamente não serei da festa. Imagino-a d'aqui. Imagino essas ruas
lamacentas, coalhadas de povo sujo, com as cabaias negras ensopadas dos
chuvascos; e imagino os lumes tremeluzentes das lanternas de papel,
accendendo nas poças, pelo reflexo... grandes labaredas ephemeras,
ziguezagueando. As lojas estão escancaradas ao publico; fructos, flôres,
doces, carniças, bonecos, coisas santas, estendem-se pelos caminhos em
prodigiosas theorias, em coloridos quasi estonteantes; e é comprar, e
comprar já, porque não tarda em romper o glorioso dia de descanço, o unico
na China em que o camponez, o artifice, o vendilhão, todos, cruzam os
braços, não trabalham; e nem a peso de ouro se encontraria um linguado,
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uma caixa de phosphoros, qualquer infimo objecto nos mercados. As
espeluncas de jogo, em galas desusadas, offerecem-se, tentam a onda; e até
pelas ruas o taboleiro de azar se estende ao passeante. Que pechincha, se se
apanha para a festa um accrescimo de peculio não esperado! O china adora
o jogo―era preciso que elle adorasse alguma coisa!―mas hoje todos
jogam, todos são chinas, e é isto um exemplo interessante da influencia
suggestiva das grandes maiorias; a mão mais circumspecta de funccionario,
a mão mais mimosa de dama (de nhônha, em dialecto vulgar d'esta colonia)
avançam sem pejo, arriscam á sorte varia umas pratinhas...
Quando bate meia noite; quando, junto do altar dos penates, se curvaram
em piedosas adorações milhares de cabeças agradecidas, e se queimaram
papeis mysticos, e se accenderam pivetes odorificos; quando em plena rua
um brado de alleluia os echos acordou; dirige-se então a onda humana para
o lar, já mercas feitas, já bolsas esvasiadas; e vae surgir um grande dia
votado inteiro ao descanço, votado á glorificação dos deuses, cuja
magnanima assistencia se exalta pelas graças concedidas e pelas graças que
vão esperar-se!....
Mesquinha humanidade! como tu me entristeces, ó pobre humanidade, ó
pobre familia minha, ainda mais nos teus regosijos e nas tuas esperanças, do
que nos teus choros e nos teus desenganos!... Para este bando chinez com
quem me encontro agora, que explosão de bençãos lhe estimula a
sentimentalidade? que altos beneficios commemora? O bando abençoa a
sua eterna existencia de miseria, a miseria passada, a presente e a que
fatalmente vae seguir-se-lhe. Abençoa a labuta sem treguas, em busca do
punhado de arroz de cada dia; ora exercida no lar immundo, sem sombra de
conforto; ora exercida pelos campos, nas varzeas, nas collinas, no amanho
da terra, sob a oppressão constante dos raios do sol que escalda, ou dos frios
que paralysam; ora exercida nos barcos, que se cruzam na podridão dos
estuarios, ou pairam sobre a onda adormecida durante as calmas torpidas,
ou se desfazem no escarceo, quando os tufões rugem em furia. O bando
abençôa a fatalidade da sua condição social, o problema espantoso,
paradoxal, do seu feitio de ser, que em todas as depravações, em todas as
iniquidades imaginaveis, parece ir buscar as leis unicas por que se rege. O
bando abençôa ainda as calamidades tremendas, que n'estes ultimos tempos,
como uma maldição divina, teem pairado sobre a immensa patria:―nas
espeluncas de jogo, em galas desusadas, offerecem-se, tentam a onda; e até
pelas ruas o taboleiro de azar se estende ao passeante. Que pechincha, se se
apanha para a festa um accrescimo de peculio não esperado! O china adora
o jogo―era preciso que elle adorasse alguma coisa!―mas hoje todos
jogam, todos são chinas, e é isto um exemplo interessante da influencia
suggestiva das grandes maiorias; a mão mais circumspecta de funccionario,
a mão mais mimosa de dama (de nhônha, em dialecto vulgar d'esta colonia)
avançam sem pejo, arriscam á sorte varia umas pratinhas...
Quando bate meia noite; quando, junto do altar dos penates, se curvaram
em piedosas adorações milhares de cabeças agradecidas, e se queimaram
papeis mysticos, e se accenderam pivetes odorificos; quando em plena rua
um brado de alleluia os echos acordou; dirige-se então a onda humana para
o lar, já mercas feitas, já bolsas esvasiadas; e vae surgir um grande dia
votado inteiro ao descanço, votado á glorificação dos deuses, cuja
magnanima assistencia se exalta pelas graças concedidas e pelas graças que
vão esperar-se!....
Mesquinha humanidade! como tu me entristeces, ó pobre humanidade, ó
pobre familia minha, ainda mais nos teus regosijos e nas tuas esperanças, do
que nos teus choros e nos teus desenganos!... Para este bando chinez com
quem me encontro agora, que explosão de bençãos lhe estimula a
sentimentalidade? que altos beneficios commemora? O bando abençoa a
sua eterna existencia de miseria, a miseria passada, a presente e a que
fatalmente vae seguir-se-lhe. Abençoa a labuta sem treguas, em busca do
punhado de arroz de cada dia; ora exercida no lar immundo, sem sombra de
conforto; ora exercida pelos campos, nas varzeas, nas collinas, no amanho
da terra, sob a oppressão constante dos raios do sol que escalda, ou dos frios
que paralysam; ora exercida nos barcos, que se cruzam na podridão dos
estuarios, ou pairam sobre a onda adormecida durante as calmas torpidas,
ou se desfazem no escarceo, quando os tufões rugem em furia. O bando
abençôa a fatalidade da sua condição social, o problema espantoso,
paradoxal, do seu feitio de ser, que em todas as depravações, em todas as
iniquidades imaginaveis, parece ir buscar as leis unicas por que se rege. O
bando abençôa ainda as calamidades tremendas, que n'estes ultimos tempos,
como uma maldição divina, teem pairado sobre a immensa patria:―nas
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provincias do sul, nos seus centros mais populosos, é a peste, a peste negra,
roubando em cada lar um ou dois filhos, ou o pae, ou a mãe, ou mesmo
todos juntos, e vestindo de lucto, de tristes roupas alvas, os parentes, e
ameaçando estabelecer-se definitivamente, enraizar como uma arvore de
peçonha, d'onde emanará a cada instante o veneno subtil, destruidor das
turbas; e, para cumulo de infortunio e de descredito, um visinho, um povo
irmão, o povo japonez, invade, vence e desbarata a China, morde e come
pedaços do seu torrão sagrado, envergonha-a, offerece-a ao escarneo do
mundo na miserrima condição da sua plebe e na opulenta infamia dos seus
nobres, desprestigiada emfim, indefeza á cubiça das gentes, aos homens
loiros da Europa, que não tardarão em vir espezinhal-a.―Embora!
esqueçam-se hoje as miserias, vista-se o povo em gala, chovam bençãos
sobre o anno que começa. E amanhã, decorridas algumas horas de folgança,
recomecem, prosigam,―pouco importa!―os turvos dias de amargura, a
fatalidade da existencia no antro, a dura labuta no campo e no barco, a faina
eterna, a orgia torpe dos maridos, a escravidão das esposas, a venda das
filhas a quem mais der, os horrores da
prostituição, as vergastadas nas
creadinhas, as extorções dos
mandarins, as torturas nos carceres, a
morte lenta nos patibulos, a obra de
destruição das epidemias e do opio, as
humilhações perante o vencedor, as
exigencias do Occidente, as
arrogancias dos homens loiros...
roubando em cada lar um ou dois filhos, ou o pae, ou a mãe, ou mesmo
todos juntos, e vestindo de lucto, de tristes roupas alvas, os parentes, e
ameaçando estabelecer-se definitivamente, enraizar como uma arvore de
peçonha, d'onde emanará a cada instante o veneno subtil, destruidor das
turbas; e, para cumulo de infortunio e de descredito, um visinho, um povo
irmão, o povo japonez, invade, vence e desbarata a China, morde e come
pedaços do seu torrão sagrado, envergonha-a, offerece-a ao escarneo do
mundo na miserrima condição da sua plebe e na opulenta infamia dos seus
nobres, desprestigiada emfim, indefeza á cubiça das gentes, aos homens
loiros da Europa, que não tardarão em vir espezinhal-a.―Embora!
esqueçam-se hoje as miserias, vista-se o povo em gala, chovam bençãos
sobre o anno que começa. E amanhã, decorridas algumas horas de folgança,
recomecem, prosigam,―pouco importa!―os turvos dias de amargura, a
fatalidade da existencia no antro, a dura labuta no campo e no barco, a faina
eterna, a orgia torpe dos maridos, a escravidão das esposas, a venda das
filhas a quem mais der, os horrores da
prostituição, as vergastadas nas
creadinhas, as extorções dos
mandarins, as torturas nos carceres, a
morte lenta nos patibulos, a obra de
destruição das epidemias e do opio, as
humilhações perante o vencedor, as
exigencias do Occidente, as
arrogancias dos homens loiros...
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Para o anno novo, tudo se prepara com antecedencia, em prodigiosa
azafama; é para todos uma occupação incessante e desusada, durante as
ultimas semanas do anno que vae findar. Lavam-se os covis, lavam-se as
podres mobilias. É o pó d'um anno que se sacode, é a lama d'um anno que
se deita fóra, é o piolho e é a pulga d'um anno que se afogam na onda das
barrelas; porque, durante os labores de cada dia, nunca a idéa de limpeza
preoccupou os espiritos durante um só instante. Tudo é providencial neste
mundo, ao que parece. Na chafurda typica d'estas povoações chinezas, tão
frequentemente visitadas por todas as pragas―cholera, peste,
lepra,―embebidas no lodo dos canaes, no ambiente das emanações dos
estrumes pachorrentamente acogulados e dos despejos que apodrecem pelas
ruas, custa a crêr como a gentalha pollula, e como os consorcios fructificam
em ninhadas de garotos; e parece á gente que um sopro qualquer destruidor,
de calamidade immensa, irá em breve prostrar esses enxames, sem que
deixe de pé um só vivente nos albergues. Puro engano: as povoações
eternizam-se. No parecer de alguns investigadores, que taes exotismos
interessam, se os miasmas putridos convidam as epidemias a entrar e a
vindimar providencialmente as muitas vidas que superabundam, estes
mesmos miasmas, sobrecarregados de vapores de ammoniaco, de
exhalações corrosivas de fermentos, se encarregam de ferir tambem
mortalmente os virus morbidos, poupando o resto do povo. Chegamos ao
facecioso paradoxo de ser na China a immundicie o purificador por
excellencia, um como que elixir de longa vida, indispensavel a todas as
familias, feito da mais estupenda alchimia de dejectos.
Conceda-se pois, por excepção, a este bom povo celestial, o capricho de
lavar uma vez cada anno o antro onde se abriga. Depois, é ver a faina de
collar pelas paredes, pelas portas, pelas janellas, papeis de bella côr
escarlate, com negras inscripções cabalisticas, que são votos de ventura e de
riqueza, que são preces aos deuses. E chega a occasião de se adornarem os
altares, de se irem comprar junquilhos em flor, que se dispõem em vasos
gentis com agua e seixos alvos, e assim vão enfeitar os aposentos, levando o
viço e o perfume, por um dia, aos negrumes das alcovas. No meio do
complicado rito das usanças, algumas praticas enternecedoras, de
ingenuidade primitiva, interessam o curioso. Reparem por exemplo nas
enormes celhas expostas pelos mercados, onde enxames de pequeninos
azafama; é para todos uma occupação incessante e desusada, durante as
ultimas semanas do anno que vae findar. Lavam-se os covis, lavam-se as
podres mobilias. É o pó d'um anno que se sacode, é a lama d'um anno que
se deita fóra, é o piolho e é a pulga d'um anno que se afogam na onda das
barrelas; porque, durante os labores de cada dia, nunca a idéa de limpeza
preoccupou os espiritos durante um só instante. Tudo é providencial neste
mundo, ao que parece. Na chafurda typica d'estas povoações chinezas, tão
frequentemente visitadas por todas as pragas―cholera, peste,
lepra,―embebidas no lodo dos canaes, no ambiente das emanações dos
estrumes pachorrentamente acogulados e dos despejos que apodrecem pelas
ruas, custa a crêr como a gentalha pollula, e como os consorcios fructificam
em ninhadas de garotos; e parece á gente que um sopro qualquer destruidor,
de calamidade immensa, irá em breve prostrar esses enxames, sem que
deixe de pé um só vivente nos albergues. Puro engano: as povoações
eternizam-se. No parecer de alguns investigadores, que taes exotismos
interessam, se os miasmas putridos convidam as epidemias a entrar e a
vindimar providencialmente as muitas vidas que superabundam, estes
mesmos miasmas, sobrecarregados de vapores de ammoniaco, de
exhalações corrosivas de fermentos, se encarregam de ferir tambem
mortalmente os virus morbidos, poupando o resto do povo. Chegamos ao
facecioso paradoxo de ser na China a immundicie o purificador por
excellencia, um como que elixir de longa vida, indispensavel a todas as
familias, feito da mais estupenda alchimia de dejectos.
Conceda-se pois, por excepção, a este bom povo celestial, o capricho de
lavar uma vez cada anno o antro onde se abriga. Depois, é ver a faina de
collar pelas paredes, pelas portas, pelas janellas, papeis de bella côr
escarlate, com negras inscripções cabalisticas, que são votos de ventura e de
riqueza, que são preces aos deuses. E chega a occasião de se adornarem os
altares, de se irem comprar junquilhos em flor, que se dispõem em vasos
gentis com agua e seixos alvos, e assim vão enfeitar os aposentos, levando o
viço e o perfume, por um dia, aos negrumes das alcovas. No meio do
complicado rito das usanças, algumas praticas enternecedoras, de
ingenuidade primitiva, interessam o curioso. Reparem por exemplo nas
enormes celhas expostas pelos mercados, onde enxames de pequeninos
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peixes negros, carpas barbudas, estrebucham na gotta
de agua do improvisado captiveiro; o povo compra-as,
e vae lançal-as em seguida nas ribeiras, gosando na
acção do resgate, por certo grata aos deuses, e que
redundará em beneficios...
A PRIMAVERA
a Camillo Pessanha
Ha alguns dias,
na cidade de
Kobe,―poderia
precisar o dia, e
quasi a hora, se
tamanho
rigorismo me
exigissem,―irro
mpeu a
Primavera.
Irrompeu: não ha
sombra de
exagero no
vocabulo.
Irrompeu, surgiu
d'um pulo, fez
explosão. N'este
paiz do Sol
Nascente, onde o
sol, e com elle
todas as grandes forças naturaes, são ainda uns selvagens―se assim posso
de agua do improvisado captiveiro; o povo compra-as,
e vae lançal-as em seguida nas ribeiras, gosando na
acção do resgate, por certo grata aos deuses, e que
redundará em beneficios...
A PRIMAVERA
a Camillo Pessanha
Ha alguns dias,
na cidade de
Kobe,―poderia
precisar o dia, e
quasi a hora, se
tamanho
rigorismo me
exigissem,―irro
mpeu a
Primavera.
Irrompeu: não ha
sombra de
exagero no
vocabulo.
Irrompeu, surgiu
d'um pulo, fez
explosão. N'este
paiz do Sol
Nascente, onde o
sol, e com elle
todas as grandes forças naturaes, são ainda uns selvagens―se assim posso
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expressar-me―uns selvagens sem freio, sem noção das conveniencias,
incapazes de se apresentarem de visita, de luvas e casaca, n'uma côrte
qualquer da nossa Europa; n'este paiz do Sol Nascente, ia eu dizendo, a
creação inteira apostou, parece, em offerecer em cada dia uma surpresa,
toda ella exuberancias inauditas, espalhafatos unicos, repentismos nervosos,
caprichos doidos, como se reunisse em si a quinta essencia da alma das
creanças e a quinta essencia da alma das mulheres, a gargalhada, a troça,
emfim, motejadora de tudo quanto é ordem, harmonia, contemporisadora lei
das transições.
Hontem, foi um inverno duro, gelido, vestido apenas d'uma ampla tunica de
neve. Hoje, d'um salto, o sol rompeu em quenturas amorosas, começaram
de florir as arvores, e evolaram-se os insectos. Amanhã, será o estio torrido,
em brazas, como nem na China, nem na Africa se sente. E assim corre o
tempo, vôam as horas; cada instante é um meteoro; e aqui um tufão arranca
os troncos, e alli a chuva torrencial inunda as varzeas, e alem um rio
transborda do seu leito, e uma onda do largo afoga as aldeias, e uma
convulsão subterranea abala o solo...
O europeu, o pobre europeu das paizagens serenas, soffre os choques d'esta
natureza, por demais subversiva para o seu espirito triste, meditativo e
attribulado. Offerece-se-lhe um de dois caminhos a seguir: ou communga
na vida japoneza, inicia-se nos seus segredos intimos, ama-a nas suas
modalidades, e assim a existencia se lhe gasta, se consome rapida,
esgazeada em admirações, doidejando em vertigens; ou se retrae, se isola,
odeia a natureza que não comprehende, odeia o exilio, vive de saudades da
patria, entre as quatro paredes do seu lar, ou dos clubs cosmopolitas da
colonia forasteira. Não é preciso mais para justificar o tique de loucura,
facilmente perceptivel, da enorme maioria d'estes expatriados, homens e
mulheres, após curta residencia no paiz japonez.
Ora pois,―dada esta concisa explicação á gente incredula,―ha alguns dias,
na cidade de Kobe, irrompeu a Primavera.
incapazes de se apresentarem de visita, de luvas e casaca, n'uma côrte
qualquer da nossa Europa; n'este paiz do Sol Nascente, ia eu dizendo, a
creação inteira apostou, parece, em offerecer em cada dia uma surpresa,
toda ella exuberancias inauditas, espalhafatos unicos, repentismos nervosos,
caprichos doidos, como se reunisse em si a quinta essencia da alma das
creanças e a quinta essencia da alma das mulheres, a gargalhada, a troça,
emfim, motejadora de tudo quanto é ordem, harmonia, contemporisadora lei
das transições.
Hontem, foi um inverno duro, gelido, vestido apenas d'uma ampla tunica de
neve. Hoje, d'um salto, o sol rompeu em quenturas amorosas, começaram
de florir as arvores, e evolaram-se os insectos. Amanhã, será o estio torrido,
em brazas, como nem na China, nem na Africa se sente. E assim corre o
tempo, vôam as horas; cada instante é um meteoro; e aqui um tufão arranca
os troncos, e alli a chuva torrencial inunda as varzeas, e alem um rio
transborda do seu leito, e uma onda do largo afoga as aldeias, e uma
convulsão subterranea abala o solo...
O europeu, o pobre europeu das paizagens serenas, soffre os choques d'esta
natureza, por demais subversiva para o seu espirito triste, meditativo e
attribulado. Offerece-se-lhe um de dois caminhos a seguir: ou communga
na vida japoneza, inicia-se nos seus segredos intimos, ama-a nas suas
modalidades, e assim a existencia se lhe gasta, se consome rapida,
esgazeada em admirações, doidejando em vertigens; ou se retrae, se isola,
odeia a natureza que não comprehende, odeia o exilio, vive de saudades da
patria, entre as quatro paredes do seu lar, ou dos clubs cosmopolitas da
colonia forasteira. Não é preciso mais para justificar o tique de loucura,
facilmente perceptivel, da enorme maioria d'estes expatriados, homens e
mulheres, após curta residencia no paiz japonez.
Ora pois,―dada esta concisa explicação á gente incredula,―ha alguns dias,
na cidade de Kobe, irrompeu a Primavera.
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Pela noite velha, fóra chegando uma brisa como que amorosa, acariciadora,
perfumada. No silencio das trevas, as carpas acordaram, n'um charco
fronteiro ao meu albergue; e estrabuchavam, e produziam desusados ruidos,
saltando fora d'agua, ardendo em cios, endemoninhadas. Quando rompeu o
dia, e appareceu o sol, não se descreve o enlevo do bafo morno,
embalsamado, genesiaco, que enchia o espaço. O ceu tinha azues novos;
cirros de paz pairavam nas alturas. A paizagem esverdeára; esverdeára da
herva nova, que surgia, e das arvores velhas, que se coloriam. A nossa
observação educa-se n'este meio em especialidades de minucia, abundando
por toda a parte, em campos e jardins, as coniferas, de todas as fórmas, de
todas as grandezas; estas arvores nunca se desfolham, mas no inverno
descoloram-se, empallidecem como mulheres chloroticas, chegam a
lembrar enfermos, chegam a lembrar coisas mortas; depois, a primavera
excita-lhes a seiva, um verde intenso assoma-lhes ás folhas, a vida
recomeça, doida, vão desabrochar flores em fúria!...
Já as ameixieiras se apresentam em galas de florescencia; os negros troncos
rugosos e lavrados pela lepra dos lichens, sem uma folha sequer, cobrem-se
agora de bastas cabelleiras, alvas ou rosadas, feitas de mil e mil florinhas
presas aos galhos por minusculos penduculos. Vistas de longe, nos sitios
onde abundam, fazem lembrar uma floresta de arvores seccas, envolvidas
pelo fumo e pelas chammas d'uma queimada devoradora. Em breve serão os
pecegueiros a florirem. Depois as cerejeiras. Depois as pereiras. Todas as
arvores. Todas em apotheoses de coloridos. Chalaça tudo, em todo o
caso―estas arvores não dão fructos, não dão ameixas, não dão pecegos,
não dão cerejas, não dão peras; ou, se os dão, não prestam. Esgotam os
ardores da seiva na superabundancia das petalas das flores enormes,
enormes como nunca se viram em outra parte; contribuem, em meras orgias
de cores, para a incrivel hilaridade do scenario, para a supina gargalhada
primaveral; nada mais. Servem de pretexto para os mil motivos de
debandada para os campos, d'estes bons japonezes, cabaça ao hombro,
musumé ao lado, alma descuidosa aberta aos esplendores.
perfumada. No silencio das trevas, as carpas acordaram, n'um charco
fronteiro ao meu albergue; e estrabuchavam, e produziam desusados ruidos,
saltando fora d'agua, ardendo em cios, endemoninhadas. Quando rompeu o
dia, e appareceu o sol, não se descreve o enlevo do bafo morno,
embalsamado, genesiaco, que enchia o espaço. O ceu tinha azues novos;
cirros de paz pairavam nas alturas. A paizagem esverdeára; esverdeára da
herva nova, que surgia, e das arvores velhas, que se coloriam. A nossa
observação educa-se n'este meio em especialidades de minucia, abundando
por toda a parte, em campos e jardins, as coniferas, de todas as fórmas, de
todas as grandezas; estas arvores nunca se desfolham, mas no inverno
descoloram-se, empallidecem como mulheres chloroticas, chegam a
lembrar enfermos, chegam a lembrar coisas mortas; depois, a primavera
excita-lhes a seiva, um verde intenso assoma-lhes ás folhas, a vida
recomeça, doida, vão desabrochar flores em fúria!...
Já as ameixieiras se apresentam em galas de florescencia; os negros troncos
rugosos e lavrados pela lepra dos lichens, sem uma folha sequer, cobrem-se
agora de bastas cabelleiras, alvas ou rosadas, feitas de mil e mil florinhas
presas aos galhos por minusculos penduculos. Vistas de longe, nos sitios
onde abundam, fazem lembrar uma floresta de arvores seccas, envolvidas
pelo fumo e pelas chammas d'uma queimada devoradora. Em breve serão os
pecegueiros a florirem. Depois as cerejeiras. Depois as pereiras. Todas as
arvores. Todas em apotheoses de coloridos. Chalaça tudo, em todo o
caso―estas arvores não dão fructos, não dão ameixas, não dão pecegos,
não dão cerejas, não dão peras; ou, se os dão, não prestam. Esgotam os
ardores da seiva na superabundancia das petalas das flores enormes,
enormes como nunca se viram em outra parte; contribuem, em meras orgias
de cores, para a incrivel hilaridade do scenario, para a supina gargalhada
primaveral; nada mais. Servem de pretexto para os mil motivos de
debandada para os campos, d'estes bons japonezes, cabaça ao hombro,
musumé ao lado, alma descuidosa aberta aos esplendores.
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São estas florescencias paradoxaes, tão caracteristicas do solo nipponico,
que encaminham a cada momento o pincel indigena para requintes de
matizes que a esthetica occidental não comprehende; ellas que inspiram aos
artistas esses tão frequentes fundos de paizagem salpicados de brancos e
vermelhos, a reminiscencia do instante em que as flores se desfolharam e
cairam do alto, n'um chuveiro de petalas.
De parceria com as arvores, são as hervas, as plantas, os arbustos, que se
vestem de folhas e se enfeitam de flores. Já ao longo dos muros espreitam,
por entre as pedras, as violetas silvestres; e o solo vae vicejar de musgos,
fetos, de relvas, de bambus e de humildes gramineas; e matizar-se de
brancos, de azues, de amarellos, de escarlates, de roxos, de mil côres, de mil
flores sem nome, apenas conhecidas dos insectos, que são botanicos
emeritos e sabem de cór e salteado onde as corollas lhes offerecem os
manjares mais capitosos. Já desabrocham os junquilhos, as camelias. Vão
desabrochar a wistaria, as azaleas, os lirios, os iris, os narcisos, os
convolvulos, as peonias, a legião vegetal.
As ameixieiras, por aqui pelas cercanias de Kobe, vão vêr-se ao pittoresco
oiteiro de Okamoto, ou a Suma, no dominio d'um templo famoso. Os
que encaminham a cada momento o pincel indigena para requintes de
matizes que a esthetica occidental não comprehende; ellas que inspiram aos
artistas esses tão frequentes fundos de paizagem salpicados de brancos e
vermelhos, a reminiscencia do instante em que as flores se desfolharam e
cairam do alto, n'um chuveiro de petalas.
De parceria com as arvores, são as hervas, as plantas, os arbustos, que se
vestem de folhas e se enfeitam de flores. Já ao longo dos muros espreitam,
por entre as pedras, as violetas silvestres; e o solo vae vicejar de musgos,
fetos, de relvas, de bambus e de humildes gramineas; e matizar-se de
brancos, de azues, de amarellos, de escarlates, de roxos, de mil côres, de mil
flores sem nome, apenas conhecidas dos insectos, que são botanicos
emeritos e sabem de cór e salteado onde as corollas lhes offerecem os
manjares mais capitosos. Já desabrocham os junquilhos, as camelias. Vão
desabrochar a wistaria, as azaleas, os lirios, os iris, os narcisos, os
convolvulos, as peonias, a legião vegetal.
As ameixieiras, por aqui pelas cercanias de Kobe, vão vêr-se ao pittoresco
oiteiro de Okamoto, ou a Suma, no dominio d'um templo famoso. Os
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pecegueiros vão vêr-se a Momoyama, em Osaka, que as florinhas côr de
rosa incendeiam por curtos dias. As cerejeiras, particularmente queridas dos
japonezes, vão vêr-se a um ou dois templos em Osaka; ou á formosissima
collina de Arashiyama, em Kioto, marginando a ribeira de Hozukawa,
caudalosa e rumorejante; ou, no mesmo Kioto, ao parque de Maruiyama,
onde uma só arvore, a vetusta cerejeira da noite de Guion, de delicados
ramos em pendor, tem merecido os enthusiasmos e as estrophes de não sei
quantas gerações de amorosos e de poetas, que junto d'ella poisam, dia ou
noite, embevecidos no extasis do espectaculo; ou ainda a Yoshino, o logar
por excellencia preferido, sitio montanhoso e agreste, de difficil accesso,
mas por isto mesmo frequentado pelos grandes fanaticos da natureza em
pompas; Yoshino, com a sua sentida lenda d'um monarcha fugitivo, e com o
peregrino enlevo das suas mil―conta justa, affirmam,―das suas mil
cerejeiras, muitas vezes macrobias, offerecendo aqui, acolá, além, n'um
valle, sobre uma ponte, á borda d'um precipicio, as scenas mais
surprehendentes, mais arrebatadoras, parecendo as arvores em flor, flocos
de nuvens brancas a rasarem a relva da paizagem. A wistaria, o fugi, vê-se
em Nara, a velha cidade classica; os ramos trepadores enrolando-se em
torno dos troncos das chryptomerias gigantes, e os longos cachos brancos e
os longos cachos roxos pendentes ao capricho das brisas.
Romarias indescriptiveis de graça pagã,
de vida exuberante, estas romarias,
reunindo se ao quadro bello da
natureza, de uma magestade
commovente e estonteadora, a
kermesse hilariante do povo em festa.
Barracas embandeiradas expondo mil
artigos; poisos improvisados para a
refeição frugal; os homens em bandos a
folgarem; as creanças aos saltos, ás
gargalhadas, vestidas a primor, de sedas
de mil tons; mulheres de todas as
condições, graves mamans deliciosas,
meninas recatadas em mimos de flor de
estufa, petulantes cantadeiras das ruas, camponezas em roupas escarlates,
gueshas em requintes de luxo e de encantos, ovantes como idolos, todas
rosa incendeiam por curtos dias. As cerejeiras, particularmente queridas dos
japonezes, vão vêr-se a um ou dois templos em Osaka; ou á formosissima
collina de Arashiyama, em Kioto, marginando a ribeira de Hozukawa,
caudalosa e rumorejante; ou, no mesmo Kioto, ao parque de Maruiyama,
onde uma só arvore, a vetusta cerejeira da noite de Guion, de delicados
ramos em pendor, tem merecido os enthusiasmos e as estrophes de não sei
quantas gerações de amorosos e de poetas, que junto d'ella poisam, dia ou
noite, embevecidos no extasis do espectaculo; ou ainda a Yoshino, o logar
por excellencia preferido, sitio montanhoso e agreste, de difficil accesso,
mas por isto mesmo frequentado pelos grandes fanaticos da natureza em
pompas; Yoshino, com a sua sentida lenda d'um monarcha fugitivo, e com o
peregrino enlevo das suas mil―conta justa, affirmam,―das suas mil
cerejeiras, muitas vezes macrobias, offerecendo aqui, acolá, além, n'um
valle, sobre uma ponte, á borda d'um precipicio, as scenas mais
surprehendentes, mais arrebatadoras, parecendo as arvores em flor, flocos
de nuvens brancas a rasarem a relva da paizagem. A wistaria, o fugi, vê-se
em Nara, a velha cidade classica; os ramos trepadores enrolando-se em
torno dos troncos das chryptomerias gigantes, e os longos cachos brancos e
os longos cachos roxos pendentes ao capricho das brisas.
Romarias indescriptiveis de graça pagã,
de vida exuberante, estas romarias,
reunindo se ao quadro bello da
natureza, de uma magestade
commovente e estonteadora, a
kermesse hilariante do povo em festa.
Barracas embandeiradas expondo mil
artigos; poisos improvisados para a
refeição frugal; os homens em bandos a
folgarem; as creanças aos saltos, ás
gargalhadas, vestidas a primor, de sedas
de mil tons; mulheres de todas as
condições, graves mamans deliciosas,
meninas recatadas em mimos de flor de
estufa, petulantes cantadeiras das ruas, camponezas em roupas escarlates,
gueshas em requintes de luxo e de encantos, ovantes como idolos, todas
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ellas comesticos, todas ellas aromas, todas ellas sedas rojantes, todas ellas
mimicas e requebros, espanto-sas.... Ao recolher da festa, a onda humana é
curiosissima: cada qual empunhando uma haste florida, cada qual com seu
embrulho para o presente de estylo aos amigos que não foram; as mulheres
commentando as scenas em gestos e em risinhos; as creanças abarrotando
de fructas e de bolos, cançadas, somnolentas, rabujando; os homens em
galhofa, pouco firmes, com as frontes e as palpebras encarnadas, que é
como se lhes accusa o peccadilho de terem bebido um pouco mais do que
convinha...
N'esta contemplação dos scenarios está a alma do indigena. Eu vou
reproduzir-lhes uma local, que ha dias appareceu n'um jornal da terra, e que
define bem a gentil puerilidade pantheista d'esta gente unica:―«em Himeji
já se deu fé este anno de duas flores de cerejeira...» duas, é sobretudo
delicioso!... O homem do Occidente pensa, o japonez vê; eis a enorme
distincção que os separa. O prazer dos olhos é a alegre preocupação de
todos; vive-se no presente, para gosar do momento de hoje, para sorrir ás
coisas; e pode ser que seja esta a maneira mais coherente do ser humano
prestar culto aos seus deuses, ao Creador, que lhe impoz na terra uma
missão.
N'aquella primeira manhã primaveral, debandaram dos bosques mais cedo,
em magotes alegres, em serenos vôos altos em busca de aventuras,
chocarreando, atirando aos ventos as suas gargalhadas de mofa, os corvos,
nos quaes tão bem encaixa, sem eu saber porque, o nome japonez, de
karuçu. A pardalada papeava amores, e safava-se resolutamente dos
povoados em demanda dos campos. Uma borboleta amarella,―ia apostar
que a primeira da estação,―atravessou n'um vôo o meu jardim. Sobre cada
flôr poisava um bicho, mosca, ou abelha, ou vespa, ou besoiro, ou
moscardo, vindos não sei como, por feitiço, pois havia longos mezes que
ninguem lhes punha a vista em cima; e não tarda que chegue a immensa
corja alada, cigarras, gafanhotos, mariposas, mosquitos, tira-olhos, os
pandigos do ar, todos bulicio, côres e vida!... Pelos corregos, pelas
mimicas e requebros, espanto-sas.... Ao recolher da festa, a onda humana é
curiosissima: cada qual empunhando uma haste florida, cada qual com seu
embrulho para o presente de estylo aos amigos que não foram; as mulheres
commentando as scenas em gestos e em risinhos; as creanças abarrotando
de fructas e de bolos, cançadas, somnolentas, rabujando; os homens em
galhofa, pouco firmes, com as frontes e as palpebras encarnadas, que é
como se lhes accusa o peccadilho de terem bebido um pouco mais do que
convinha...
N'esta contemplação dos scenarios está a alma do indigena. Eu vou
reproduzir-lhes uma local, que ha dias appareceu n'um jornal da terra, e que
define bem a gentil puerilidade pantheista d'esta gente unica:―«em Himeji
já se deu fé este anno de duas flores de cerejeira...» duas, é sobretudo
delicioso!... O homem do Occidente pensa, o japonez vê; eis a enorme
distincção que os separa. O prazer dos olhos é a alegre preocupação de
todos; vive-se no presente, para gosar do momento de hoje, para sorrir ás
coisas; e pode ser que seja esta a maneira mais coherente do ser humano
prestar culto aos seus deuses, ao Creador, que lhe impoz na terra uma
missão.
N'aquella primeira manhã primaveral, debandaram dos bosques mais cedo,
em magotes alegres, em serenos vôos altos em busca de aventuras,
chocarreando, atirando aos ventos as suas gargalhadas de mofa, os corvos,
nos quaes tão bem encaixa, sem eu saber porque, o nome japonez, de
karuçu. A pardalada papeava amores, e safava-se resolutamente dos
povoados em demanda dos campos. Uma borboleta amarella,―ia apostar
que a primeira da estação,―atravessou n'um vôo o meu jardim. Sobre cada
flôr poisava um bicho, mosca, ou abelha, ou vespa, ou besoiro, ou
moscardo, vindos não sei como, por feitiço, pois havia longos mezes que
ninguem lhes punha a vista em cima; e não tarda que chegue a immensa
corja alada, cigarras, gafanhotos, mariposas, mosquitos, tira-olhos, os
pandigos do ar, todos bulicio, côres e vida!... Pelos corregos, pelas
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regueiras, ao longo das ruas e caminhos, surdiam pela vez primeira das
tocas os sapos, rouquejando; e dois a dois, graves... mas não estou agora
para contar-lhes o que faziam nas regueiras e nos corregos, os sapos,
graves, dois a dois...
Nos rostos da gente, suggestionada, embriagada em aromas, pintava-se uma
alegria nova, uma recrudescencia de actividade animal. As raparigas
passavam mais lepidas, em kimonos alegres, claros, descalças sobre os
sóccos pela primeira vez depois do inverno, os seus pés muito brancos,
muito mimosos, após o recatado abrigo durante os mezes frios. Encontrei
além, n'aquella esquina, uma musumé, que vendia ovos, e um vendilhão
ambulante de cestos e vassouras; haviam poisado no chão a sua industria,
conversavam em segredo, mas com intensa vivacidade de expressão; elle
agarrava-a pelos pulsos, brutalmente; e ella, a rir, a julgar pelo brilho dos
olhos e pelo rostinho alvoroçado de desejos... dava-se-lhe, em promessas.
Pois foi n'aquelle dia, que eu, em vez de ir divagar pelos campos, como os
pardaes,―já não digo: (ir vender cestos e vassouras) pelas ruas...―que eu
me engravatei cuidadamente e fui bater á porta d'um amigo. Tratava-se
d'uma festa de creanças, o que é dizer, d'uma estopada para adultos.
Effectivamente, exhibia-se, em frente d'uma duzia de meninos e de outra
duzia de pessoas circumspectas, um graphophone americano; graphophone,
ou coisa parecida; um phone qualquer em todo o caso; que isto de phones,
para quem cursou aulas de physica ha perto de trinta annos, é de uma
complicação tal, que nunca a gente chega, por mais que se applique, a fallar
com segurança do assumpto.
Mal lhes posso agora traduzir a dolorosissima impressão, que a festa me
deixou. Ratice minha, sem duvida. Introduzia-se n'uma caixa um cylindro
apropriado para o caso e dava-se corda ao instrumento... mas a quem estou
ensinando o padre-nosso!... Então, um americano fanhoso, imbirrante,
assim com ares de bebedo e ademanes de exhibidor de saltimbancos, a
ponto de se lhe presumir a casaca no fio e cheia de nodoas e a gravata
tocas os sapos, rouquejando; e dois a dois, graves... mas não estou agora
para contar-lhes o que faziam nas regueiras e nos corregos, os sapos,
graves, dois a dois...
Nos rostos da gente, suggestionada, embriagada em aromas, pintava-se uma
alegria nova, uma recrudescencia de actividade animal. As raparigas
passavam mais lepidas, em kimonos alegres, claros, descalças sobre os
sóccos pela primeira vez depois do inverno, os seus pés muito brancos,
muito mimosos, após o recatado abrigo durante os mezes frios. Encontrei
além, n'aquella esquina, uma musumé, que vendia ovos, e um vendilhão
ambulante de cestos e vassouras; haviam poisado no chão a sua industria,
conversavam em segredo, mas com intensa vivacidade de expressão; elle
agarrava-a pelos pulsos, brutalmente; e ella, a rir, a julgar pelo brilho dos
olhos e pelo rostinho alvoroçado de desejos... dava-se-lhe, em promessas.
Pois foi n'aquelle dia, que eu, em vez de ir divagar pelos campos, como os
pardaes,―já não digo: (ir vender cestos e vassouras) pelas ruas...―que eu
me engravatei cuidadamente e fui bater á porta d'um amigo. Tratava-se
d'uma festa de creanças, o que é dizer, d'uma estopada para adultos.
Effectivamente, exhibia-se, em frente d'uma duzia de meninos e de outra
duzia de pessoas circumspectas, um graphophone americano; graphophone,
ou coisa parecida; um phone qualquer em todo o caso; que isto de phones,
para quem cursou aulas de physica ha perto de trinta annos, é de uma
complicação tal, que nunca a gente chega, por mais que se applique, a fallar
com segurança do assumpto.
Mal lhes posso agora traduzir a dolorosissima impressão, que a festa me
deixou. Ratice minha, sem duvida. Introduzia-se n'uma caixa um cylindro
apropriado para o caso e dava-se corda ao instrumento... mas a quem estou
ensinando o padre-nosso!... Então, um americano fanhoso, imbirrante,
assim com ares de bebedo e ademanes de exhibidor de saltimbancos, a
ponto de se lhe presumir a casaca no fio e cheia de nodoas e a gravata
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branca em uso ha mais de seis semanas, fallava ao publico, annunciava a
casa constructora em Nova York, e o que em seguida iria ouvir-se. Eram
cançonetas chulas, solos de flauta, estrondos de orchestra, devaneios em
viola, discursos grotescos; e tudo aquillo, e as vozes do publico que ria, que
vociferava, que dava palmas, que pedia bis, creanças berrando, damas mal
suffocando o riso, cavalheiros atirando chufas, tudo aquillo, distinctamente,
saía da caixa enfeitiçada e enchia a sala onde me achava, como se uma
multidão de patuscos, vindos da America, vindos do inferno, a tivesse
invadido de surpresa.
Mas que tristeza immensa!... Como eu amaldiçoava, n'aquella hora, estas
invenções da epocha, estes engenhos surprehendentes, monstruosos, que
vem zombar da vida, e assassinar arte, enlevos fugaces que passam,
reminiscencias, saudades, tudo o que é doce ao espirito... porque,―affirmo-
o tanto quanto as palavras me podem traduzir o pensamento,―porque, no
fim de contas, ficou-me uma desconsoladora noção de desprestigio da
existencia, e de troça ás leis do mundo, á lei da successão dos factos no
tempo; e vi em pensamento um bando de velhinhos alchimistas largarem as
retortas, por um momento, e virem bradar á creação, fitando o ceu ás
gargalhadas:―«não tenhas imposturas, sabemos tanto, fazemos tanto como
tu!...»―Já não bastava a photographia, esta artimanha irreverente, que vae
implicar com os ausentes, com os defuntos, com o mundo distante, dando-
nos em troca da sentida recordação, que guardavamos, o phantasma, em
contornos, do que fugiu dos nossos olhos. Agora é o graphophone, que
eterniza os sons, a voz dos de longe, a voz dos que morreram. Morte,
ausencia, já não tem razão de existir nos diccionarios. Para o caso a que me
refiro, cá continua o americano imbirrante a vomitar os seus discursos, os
musicos a tocarem, os cantores a cantarem, o publico a rir, a chorar, a
applaudir, a chalaçar. Passaram-se assim as scenas ha dois annos, ha cinco
annos, ha dez annos. Estará a estas horas o americano morto, coisa de
alguma bebedeira mais forte, que o prostou? a creança, que chorava,
dormirá tambem n'um tumulo, coitadita? a dama, que ria, estará doida, n'um
asylo? o homem, que applaudia, n'um carcere, cumprindo uma sentença?
Nada importa. A machina chama-os, reune-os, ressuscita-os, renova-os para
a pandiga d'um momento da existencia; o passado é presente; e a machina
agita-os, empurra-os para o interior das nossas casas, para nos divertirmos á
custa d'elles mesmos...
casa constructora em Nova York, e o que em seguida iria ouvir-se. Eram
cançonetas chulas, solos de flauta, estrondos de orchestra, devaneios em
viola, discursos grotescos; e tudo aquillo, e as vozes do publico que ria, que
vociferava, que dava palmas, que pedia bis, creanças berrando, damas mal
suffocando o riso, cavalheiros atirando chufas, tudo aquillo, distinctamente,
saía da caixa enfeitiçada e enchia a sala onde me achava, como se uma
multidão de patuscos, vindos da America, vindos do inferno, a tivesse
invadido de surpresa.
Mas que tristeza immensa!... Como eu amaldiçoava, n'aquella hora, estas
invenções da epocha, estes engenhos surprehendentes, monstruosos, que
vem zombar da vida, e assassinar arte, enlevos fugaces que passam,
reminiscencias, saudades, tudo o que é doce ao espirito... porque,―affirmo-
o tanto quanto as palavras me podem traduzir o pensamento,―porque, no
fim de contas, ficou-me uma desconsoladora noção de desprestigio da
existencia, e de troça ás leis do mundo, á lei da successão dos factos no
tempo; e vi em pensamento um bando de velhinhos alchimistas largarem as
retortas, por um momento, e virem bradar á creação, fitando o ceu ás
gargalhadas:―«não tenhas imposturas, sabemos tanto, fazemos tanto como
tu!...»―Já não bastava a photographia, esta artimanha irreverente, que vae
implicar com os ausentes, com os defuntos, com o mundo distante, dando-
nos em troca da sentida recordação, que guardavamos, o phantasma, em
contornos, do que fugiu dos nossos olhos. Agora é o graphophone, que
eterniza os sons, a voz dos de longe, a voz dos que morreram. Morte,
ausencia, já não tem razão de existir nos diccionarios. Para o caso a que me
refiro, cá continua o americano imbirrante a vomitar os seus discursos, os
musicos a tocarem, os cantores a cantarem, o publico a rir, a chorar, a
applaudir, a chalaçar. Passaram-se assim as scenas ha dois annos, ha cinco
annos, ha dez annos. Estará a estas horas o americano morto, coisa de
alguma bebedeira mais forte, que o prostou? a creança, que chorava,
dormirá tambem n'um tumulo, coitadita? a dama, que ria, estará doida, n'um
asylo? o homem, que applaudia, n'um carcere, cumprindo uma sentença?
Nada importa. A machina chama-os, reune-os, ressuscita-os, renova-os para
a pandiga d'um momento da existencia; o passado é presente; e a machina
agita-os, empurra-os para o interior das nossas casas, para nos divertirmos á
custa d'elles mesmos...
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Primavera? ia eu pensando com os meus botões. Primavera? ri a natureza?
florescem as arvores? cantam amores os passaros? é uma realidade? Ah!
talvez não, que hoje, a um phenomeno substitue-se quasi sempre uma
industria; e espectaculos do Pae do Ceu fôram já quasi todos supprimidos,
porque iam aborrecendo a humanidade... Cada dia que passa, regista cem
descobertas, tendente cada qual a apagar do nosso espirito a lenda do
mysterio, do incomprehensivel. A vida, o mundo reduzem-se a machinas, a
engenhos mais ou menos complicados. Doce Primavera, que me enfeitiça?
Troça. Aqui anda machina, apostára! Quem me assegura, que isto não foi
primavera servida a meus avós ha mais de um seculo, gravada n'um
cylindro, e impingida depois como nova, de quando em quando, aos patetas,
que a applaudem?...
E a proposito da Primavera que irrompia, duas
palavras sobre outra Primavera, que morria, ahi pela
mesma epocha.
Não haverá ninguem, imagino, que, tendo passado em
Kobe, não conheça Nunobiki, a cascata. É que o sitio,
pela sua fama merecida, é o passeio obrigado de todos
os que chegam, embora se demorem duas horas. Não
ha conductor de carro, guia de viajeiros, um qualquer
alcoviteiro que ande á cata de gente que desembarca
dos paquetes, que se esqueça de indicar, como
primeira diversão, a ida á queda de agua. Lá vão todos.
Lá fui eu, uma vez, como viajeiro: e muitas vezes,
depois, como residente, residente em ocios, attrahido pelos scenarios
apraziveis. Lá em riba, muito em riba da montanha, e salpicada de espumas
florescem as arvores? cantam amores os passaros? é uma realidade? Ah!
talvez não, que hoje, a um phenomeno substitue-se quasi sempre uma
industria; e espectaculos do Pae do Ceu fôram já quasi todos supprimidos,
porque iam aborrecendo a humanidade... Cada dia que passa, regista cem
descobertas, tendente cada qual a apagar do nosso espirito a lenda do
mysterio, do incomprehensivel. A vida, o mundo reduzem-se a machinas, a
engenhos mais ou menos complicados. Doce Primavera, que me enfeitiça?
Troça. Aqui anda machina, apostára! Quem me assegura, que isto não foi
primavera servida a meus avós ha mais de um seculo, gravada n'um
cylindro, e impingida depois como nova, de quando em quando, aos patetas,
que a applaudem?...
E a proposito da Primavera que irrompia, duas
palavras sobre outra Primavera, que morria, ahi pela
mesma epocha.
Não haverá ninguem, imagino, que, tendo passado em
Kobe, não conheça Nunobiki, a cascata. É que o sitio,
pela sua fama merecida, é o passeio obrigado de todos
os que chegam, embora se demorem duas horas. Não
ha conductor de carro, guia de viajeiros, um qualquer
alcoviteiro que ande á cata de gente que desembarca
dos paquetes, que se esqueça de indicar, como
primeira diversão, a ida á queda de agua. Lá vão todos.
Lá fui eu, uma vez, como viajeiro: e muitas vezes,
depois, como residente, residente em ocios, attrahido pelos scenarios
apraziveis. Lá em riba, muito em riba da montanha, e salpicada de espumas
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e acalentada em rumorejos, na penumbra do ermo apertado entre penedos a
prumo, cobertos de ramaria silvestre, era a casa de chá, a cháya tradicional,
offerecendo repoiso por alguns minutos e uma bebida ao forasteiro
extasiado, sem fallar nos sorrisos, nas mesuras, que prodigalizavam
largamente as raparigas que alli olhavam pela venda. Ha alguns annos,
disseram-me, eram tres as raparigas, tres irmans,―as tres graças;―mas eu
conheci só duas, tendo casado a outra com um titular europeu, conforme
ouvi. Eu conheci só duas: O-Tane San, a Senhora Semente, e O-Haru San, a
Senhora Primavera. Como se fica presumindo, eram as japonezas mais
populares de Kobe inteiro; das quaes, talvez não erre, acreditando que os
muitos milhares de forasteiros, que n'estes ultimos seis annos visitaram o
Japão, guardam uma reminiscencia, uma saudade... Duas fadas dos bosques,
a enfeitiçarem os incautos? Não tanto: quando muito, duas sereias de agua
doce, simplesmente meigas, simplesmente gentis, vendendo graciosamente
uma chavena de chá, sem assucar, á moda japoneza, e dando de graça um
sorriso, tão doce, que tirava ao chá o travor proprio, mesmo para o paladar
mais exigente. Eu preferia á Semente, a Primavera. Era mais fresca,―fresca
como o seu lindo nome,―e mais avelludado o olhar negro, e mais esmerada
nos kimonos de seda e na curva em azas de borboleta dos cabellos. Com ella
palestrava, com ella ria, ria sobretudo, que o riso é a linguagem mais em
uso n'esta terra; e, tomando-lhe das mãos, perguntava-lhe quem fôra o
delicado, inglez, russo, coreano, hottentote, que lhe offerecêra aquelle annel
com uma saphira, que enfiava tão bem no seu dedo côr de rosa...
Pois muito bem. Sabe-se que em materia de progresso material o Japão
anda a galope. Lembraram-se ha pouco estes senhores de constituir uma
empreza para a distribuição da agua aos domicilios, em Kobe. A idea não é
nova: já Yokohama, Osaka, Nagazaki e certamente outros centros, gosam de
instituições da mesma especie. O que é lastima,―se vale a pena a gente
prender-se em ninharias,―é que assim, alcançado pelo turbilhão
reformador, que vae dando cabo de todo o pittoresco d'este povo, tenda a
desapparecer o poço... o poço classico dos velhos tempos, com a borda
circular talhada n'uma só pedra, o alpendre gracioso sustido por dois
madeiros, os baldes suspensos das duas pontas da corda de cairo, que enfia
no tosco gorne central; estabelecido em plena cosinha domestica, ou a um
canto do jardim, ou n'uma vereda accessivel a um bando de visinhos; e
cerca as vasilhas de uso, celhas, escudellas, colheres, da mais graciosa e
prumo, cobertos de ramaria silvestre, era a casa de chá, a cháya tradicional,
offerecendo repoiso por alguns minutos e uma bebida ao forasteiro
extasiado, sem fallar nos sorrisos, nas mesuras, que prodigalizavam
largamente as raparigas que alli olhavam pela venda. Ha alguns annos,
disseram-me, eram tres as raparigas, tres irmans,―as tres graças;―mas eu
conheci só duas, tendo casado a outra com um titular europeu, conforme
ouvi. Eu conheci só duas: O-Tane San, a Senhora Semente, e O-Haru San, a
Senhora Primavera. Como se fica presumindo, eram as japonezas mais
populares de Kobe inteiro; das quaes, talvez não erre, acreditando que os
muitos milhares de forasteiros, que n'estes ultimos seis annos visitaram o
Japão, guardam uma reminiscencia, uma saudade... Duas fadas dos bosques,
a enfeitiçarem os incautos? Não tanto: quando muito, duas sereias de agua
doce, simplesmente meigas, simplesmente gentis, vendendo graciosamente
uma chavena de chá, sem assucar, á moda japoneza, e dando de graça um
sorriso, tão doce, que tirava ao chá o travor proprio, mesmo para o paladar
mais exigente. Eu preferia á Semente, a Primavera. Era mais fresca,―fresca
como o seu lindo nome,―e mais avelludado o olhar negro, e mais esmerada
nos kimonos de seda e na curva em azas de borboleta dos cabellos. Com ella
palestrava, com ella ria, ria sobretudo, que o riso é a linguagem mais em
uso n'esta terra; e, tomando-lhe das mãos, perguntava-lhe quem fôra o
delicado, inglez, russo, coreano, hottentote, que lhe offerecêra aquelle annel
com uma saphira, que enfiava tão bem no seu dedo côr de rosa...
Pois muito bem. Sabe-se que em materia de progresso material o Japão
anda a galope. Lembraram-se ha pouco estes senhores de constituir uma
empreza para a distribuição da agua aos domicilios, em Kobe. A idea não é
nova: já Yokohama, Osaka, Nagazaki e certamente outros centros, gosam de
instituições da mesma especie. O que é lastima,―se vale a pena a gente
prender-se em ninharias,―é que assim, alcançado pelo turbilhão
reformador, que vae dando cabo de todo o pittoresco d'este povo, tenda a
desapparecer o poço... o poço classico dos velhos tempos, com a borda
circular talhada n'uma só pedra, o alpendre gracioso sustido por dois
madeiros, os baldes suspensos das duas pontas da corda de cairo, que enfia
no tosco gorne central; estabelecido em plena cosinha domestica, ou a um
canto do jardim, ou n'uma vereda accessivel a um bando de visinhos; e
cerca as vasilhas de uso, celhas, escudellas, colheres, da mais graciosa e
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original tanoaria, de que as creadas, meias-nuas, se vão servindo nas
lavagens, demorando-as para alongar tagarelices, proprias do sexo e ainda
mais das japonezas; eis o poço, correspondendo a um quadro muito
caracteristico da vida intima; o poço, que os adoraveis pinceis dos mestres
da pintura se compraziam em reproduzir mil vezes, emaranhando-os na
rama das trepadeiras, das asagao, cujas bellas campanulas de côres variadas
abrem com o nascer do sol e fenecem logo após...
Para o caso de Kobe, dirigiram-se logo desde o inicio as picaretas e as
enxadas para a montanha de Nunobiki, onde a agua jorrava em manancial
sem fim; e, á força de braços e de dynamite, no intuito de encaminhar a
torrente aos reservatorios da empreza, fez-se um desbarato tal, abatendo as
arvores, cortando as rochas, cavando a terra, que todo o enlevo do sitio
desappareceu, a paisagem tornou-se em ruinas. Rigorosamente fallando, a
cascata acabava de existir. A cháya, tal como a gente a conhecêra no seu
rustico pittoresco, forçada pelas escavações a mudar de poiso, acabava de
existir. E as raparigas? logicamente, tinham de desapparecer tambem. Com
effeito, a Semente casou com um japonez e safou-se... e faço votos para que
o seu nome lhe seja de bom agoiro, dispondo os fados a concederem aos
conjuges uma prole feliz e numerosa; e a Primavera morreu; morreu, por
mofina coincidencia, quando a outra Primavera ia renascer, dar viço e flôres
ás arvores, não ás da cascata, mercê da nova empreza. Morreu tisica; a sua
cascata, onde nascêra, onde vivêra vinte annos, com a sua eterna penumbra
crepuscular, com as suas rochas eternamente gottejantes, com o seu
ambiente eternamente humido, roêra-lhe os pulmões...
Pobre Primavera... Mas não morreu talvez, pensem bem n'isto que lhes
digo; embora ninguem mais lograsse vel-a, embora as amigas tivessem
acompanhado ao cemiterio o seu corpinho inerte... O seu retrato já corre
mundo, em photographia, vendido pelas lojas, perpetuando-lhe o rostinho.
E nada mais possivel do que o facto de andar ganhando cobres pelas feiras,
hoje, amanhã, d'aqui a quarenta annos, um sujeito qualquer ajoujado com
um graphophone, um phone qualquer americano... Estão imaginando a
patuscada:―Cylindro apropriado; dá-se corda... A plebe ouve pouco mais
ou menos o seguinte:―«Grande companhia de graphophones de Nova-York
e de Paris! Scena da famosa cascata de Nunobiki, no Japão!»―E a plebe
continua de ouvir: é agora o murmurio continuo, soluçante, de agua
lavagens, demorando-as para alongar tagarelices, proprias do sexo e ainda
mais das japonezas; eis o poço, correspondendo a um quadro muito
caracteristico da vida intima; o poço, que os adoraveis pinceis dos mestres
da pintura se compraziam em reproduzir mil vezes, emaranhando-os na
rama das trepadeiras, das asagao, cujas bellas campanulas de côres variadas
abrem com o nascer do sol e fenecem logo após...
Para o caso de Kobe, dirigiram-se logo desde o inicio as picaretas e as
enxadas para a montanha de Nunobiki, onde a agua jorrava em manancial
sem fim; e, á força de braços e de dynamite, no intuito de encaminhar a
torrente aos reservatorios da empreza, fez-se um desbarato tal, abatendo as
arvores, cortando as rochas, cavando a terra, que todo o enlevo do sitio
desappareceu, a paisagem tornou-se em ruinas. Rigorosamente fallando, a
cascata acabava de existir. A cháya, tal como a gente a conhecêra no seu
rustico pittoresco, forçada pelas escavações a mudar de poiso, acabava de
existir. E as raparigas? logicamente, tinham de desapparecer tambem. Com
effeito, a Semente casou com um japonez e safou-se... e faço votos para que
o seu nome lhe seja de bom agoiro, dispondo os fados a concederem aos
conjuges uma prole feliz e numerosa; e a Primavera morreu; morreu, por
mofina coincidencia, quando a outra Primavera ia renascer, dar viço e flôres
ás arvores, não ás da cascata, mercê da nova empreza. Morreu tisica; a sua
cascata, onde nascêra, onde vivêra vinte annos, com a sua eterna penumbra
crepuscular, com as suas rochas eternamente gottejantes, com o seu
ambiente eternamente humido, roêra-lhe os pulmões...
Pobre Primavera... Mas não morreu talvez, pensem bem n'isto que lhes
digo; embora ninguem mais lograsse vel-a, embora as amigas tivessem
acompanhado ao cemiterio o seu corpinho inerte... O seu retrato já corre
mundo, em photographia, vendido pelas lojas, perpetuando-lhe o rostinho.
E nada mais possivel do que o facto de andar ganhando cobres pelas feiras,
hoje, amanhã, d'aqui a quarenta annos, um sujeito qualquer ajoujado com
um graphophone, um phone qualquer americano... Estão imaginando a
patuscada:―Cylindro apropriado; dá-se corda... A plebe ouve pouco mais
ou menos o seguinte:―«Grande companhia de graphophones de Nova-York
e de Paris! Scena da famosa cascata de Nunobiki, no Japão!»―E a plebe
continua de ouvir: é agora o murmurio continuo, soluçante, de agua
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despenhando-se de rocha em rocha;
trina um passaro vagabundo; um
francez bate as palmas, pede cerveja;
um inglez pede whisky; um nipponico
pede chá; a vóz da Senhora Primavera
vibra distincta, fresca, doce;
Primavera desfaz-se em desculpas, em
risinhos, diz que já vae, não tarda; mas
o inglez tem pressa, renova o seu
pedido com azedume: e o instrumento
é então perfeito―oh, maravilhas da
sciencia!―que se ouve até o ciciar
d'um beijo, que é naturalmente do
francez...
1899.
NILGUYO
Mukashi, mukasi (nos velhos tempos,
nos velhos tempos, como diriam estes
bons japonezes, e conforme reza a
lenda, interpretada pelo Nihon no
Mukashibanashi (Antigas Legendas do Japão), viveu um homem, um
simples, de indole bondosa, de quem se poderia dizer que passára a
mocidade em desejos de matrimonio; mas como desejos e realização d'elles
são duas coisas mui differentes, attingiu o pobre a meia idade sem ter
levado a effeito essa firma...―commercial não é talvez o termo
proprio,―em todo o caso essa firma a dois parceiros, que partilham entre si,
da vida, alegrias e tristezas.
As alegrias d'elle consistiam principalmente em entregar-se á pesca, pesca á
trina um passaro vagabundo; um
francez bate as palmas, pede cerveja;
um inglez pede whisky; um nipponico
pede chá; a vóz da Senhora Primavera
vibra distincta, fresca, doce;
Primavera desfaz-se em desculpas, em
risinhos, diz que já vae, não tarda; mas
o inglez tem pressa, renova o seu
pedido com azedume: e o instrumento
é então perfeito―oh, maravilhas da
sciencia!―que se ouve até o ciciar
d'um beijo, que é naturalmente do
francez...
1899.
NILGUYO
Mukashi, mukasi (nos velhos tempos,
nos velhos tempos, como diriam estes
bons japonezes, e conforme reza a
lenda, interpretada pelo Nihon no
Mukashibanashi (Antigas Legendas do Japão), viveu um homem, um
simples, de indole bondosa, de quem se poderia dizer que passára a
mocidade em desejos de matrimonio; mas como desejos e realização d'elles
são duas coisas mui differentes, attingiu o pobre a meia idade sem ter
levado a effeito essa firma...―commercial não é talvez o termo
proprio,―em todo o caso essa firma a dois parceiros, que partilham entre si,
da vida, alegrias e tristezas.
As alegrias d'elle consistiam principalmente em entregar-se á pesca, pesca á
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linha durante os longos ocios; tristezas, sentia-as sobretudo, mais
mordentes, ao recolher á noite a casa, derreado, cambaleando de somno e de
fadiga, sem encontrar uma alma companheira que lhe sorrisse á porta, e em
saudações o convidasse a entrar, nem mãos prestimosas que lhe tomassem
do peixe e o amanhassem, e fossem depois leval-o ao fogo do brazeiro. Em
toda a parte, e especialmente no Japão, estes sentimentos intimos
d'alma,―jubilos de pescador á linha e desalentos de solteiro,―são bem
justificaveis. Com effeito, para um temperamento vagabundo e
impressionavel aos enlevos da paizagem, como se dá com todo o japonez,
quantos encantos não vão proporcionando a linha e o anzol, induzindo-nos
sem esforço a longos passeios de bohemio, penedos e praias fóra,
contornando margens ziguezagueantes de ribeiras e enseadas, em face dos
scenarios serenos, todos verde, frescuras, espelhos de aguas e murmurios...
e como as horas vôam, acocorado o corpo sobre a rocha, a mão ora affeita,
ora prendendo o isco, ora demorando-se em commovente espectactiva, ora
colhendo o peixe a estrebuchar; e o espirito voando, como as horas, alheio
ao officio, deliciando-se em sonhos, viajando no reino das chimeras... Mas á
noite, após um dia inteiro de labuta, é que o corpo se doe e falham os
joelhos; e deve então saber tão bem chegar a gente ao lar de esteiras e
papel, e vir á entrada ajoelhar-se em cortezias a figura gentil d'uma
esposinha fresca, envolvida em sedas e perfumes, com as mãositas rosadas
em posição submissa, as mãositas tão habeis em córarem nas brazas as
trutas saborosas...
Ora, um bello dia, o nosso homem, de quem a tradição não tomou conta do
nome, achava-se pescando segundo o seu costume, bambu em punho, e
meditando ao mesmo tempo sobre o seu desconsolo e desolada sorte,
quando... zaz! um grande safanão na linha lhe fez logo imaginar que alguma
coisa fóra do commum viera de colher. Por pouco se lhe não vão, linha, e
anzol, e peixe ao mesmo tempo; então, com muitas manhas que são
proprias da arte, poz-se a cançar a presa, já alongando o braço e deixando-a
debater-se a seu capricho, já aproveitando o repoiso para traze-la á praia;
até que emfim, azado o instante, puxou com força, e veio cair-lhe o peixe
aos pés.
O peixe? o peixão!... Era uma Ninguyo, uma sereia; nem mais nem menos;
face de mulher, d'uma rara formosura, e um enorme corpo ventrudo,
mordentes, ao recolher á noite a casa, derreado, cambaleando de somno e de
fadiga, sem encontrar uma alma companheira que lhe sorrisse á porta, e em
saudações o convidasse a entrar, nem mãos prestimosas que lhe tomassem
do peixe e o amanhassem, e fossem depois leval-o ao fogo do brazeiro. Em
toda a parte, e especialmente no Japão, estes sentimentos intimos
d'alma,―jubilos de pescador á linha e desalentos de solteiro,―são bem
justificaveis. Com effeito, para um temperamento vagabundo e
impressionavel aos enlevos da paizagem, como se dá com todo o japonez,
quantos encantos não vão proporcionando a linha e o anzol, induzindo-nos
sem esforço a longos passeios de bohemio, penedos e praias fóra,
contornando margens ziguezagueantes de ribeiras e enseadas, em face dos
scenarios serenos, todos verde, frescuras, espelhos de aguas e murmurios...
e como as horas vôam, acocorado o corpo sobre a rocha, a mão ora affeita,
ora prendendo o isco, ora demorando-se em commovente espectactiva, ora
colhendo o peixe a estrebuchar; e o espirito voando, como as horas, alheio
ao officio, deliciando-se em sonhos, viajando no reino das chimeras... Mas á
noite, após um dia inteiro de labuta, é que o corpo se doe e falham os
joelhos; e deve então saber tão bem chegar a gente ao lar de esteiras e
papel, e vir á entrada ajoelhar-se em cortezias a figura gentil d'uma
esposinha fresca, envolvida em sedas e perfumes, com as mãositas rosadas
em posição submissa, as mãositas tão habeis em córarem nas brazas as
trutas saborosas...
Ora, um bello dia, o nosso homem, de quem a tradição não tomou conta do
nome, achava-se pescando segundo o seu costume, bambu em punho, e
meditando ao mesmo tempo sobre o seu desconsolo e desolada sorte,
quando... zaz! um grande safanão na linha lhe fez logo imaginar que alguma
coisa fóra do commum viera de colher. Por pouco se lhe não vão, linha, e
anzol, e peixe ao mesmo tempo; então, com muitas manhas que são
proprias da arte, poz-se a cançar a presa, já alongando o braço e deixando-a
debater-se a seu capricho, já aproveitando o repoiso para traze-la á praia;
até que emfim, azado o instante, puxou com força, e veio cair-lhe o peixe
aos pés.
O peixe? o peixão!... Era uma Ninguyo, uma sereia; nem mais nem menos;
face de mulher, d'uma rara formosura, e um enorme corpo ventrudo,
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alongado, escamoso, agitando barbatanas e terminando em amplo rabo, que
então desesperadamente estremecia. Face de mulher de uma rara
formosura,―disse-o eu, e não me engano:―esse contorno doce de oval, de
urizanegao, de pevide de melão, tão querido em esthetica japoneza; os
bastos cabellos negros fluctuando em coma; a tez de jaspe; os olhinhos de
velludo; a boquinha escarlate. Mas chorava, a sereia, em contracções de
angustia; chorava certamente pela dôr, pois lhe rasgava a carne o traiçoeiro
anzol; e ainda mais talvez pela vergonha de vêr-se assim arrebatada do seu
meio habitual, expiando um peccado de lambarice, indefeza, nua deante
d'um estrangeiro!...
O pescador porém era d'uma indole bondosa, como ficou notado um pouco
atraz; e vae-se agora ver como o provou. Comprehende-se, é claro, o seu
primeiro espanto: o homem punha as mãos sobre a cabeça, a esbugalhar os
olhos, e gaguejava não sei que exclamações... Podera não! Acalmado, sacou
cautelosamente o anzol da bella face em sangue; e tomando nas mãos o
estranho ser, poz-se a scismar maduramente sobre o caso. Ora, ia pensando,
se elle fosse correr as feiras todas, as festas dos mil e mil templos do paiz; e
alinhando a sua barraca com as outras, onde se exhibem salamandras,
crocodilos, creanças sem pés e sem mãos, cães sabios e muitas outras
coisas, que abundantissima chuva de sapecas lhe não cahiria em cima, quer
dizer, dentro das mangas do kimono!...―"Meus senhores, entrem todos!
Quem não tem cabeça, não paga nada! Ora aqui está uma sereia
authentica..."―e já ia estudando o discurso que faria, soberbo, dominador,
impondo-se á plebe embasbacada. Ou então, outra ideia: se elle comesse a
carne da sereia, cosinhadinha, feita em postas... e sabem todos que a carne
da sereia tem virtude de conservar perpetuas a vida e a juventude a quem
d'ella provou... Mas a sua indole bondosa revoltou-se afinal contra a
lembrança de reter n'uma tina, em exposição, ou peor ainda, de levar á
degolla aquelle pobre bicho, que sobre as suas mãos se lamentava e desfazia
em prantos, como se fôra uma pessoa; contemplou-o ainda, longamente; e
com um nobre gesto e decidido esforço, atirou a sereia ás vagas, d'onde
viera, e onde mergulhou e desappareceu sem mais cerimonias, após um
então desesperadamente estremecia. Face de mulher de uma rara
formosura,―disse-o eu, e não me engano:―esse contorno doce de oval, de
urizanegao, de pevide de melão, tão querido em esthetica japoneza; os
bastos cabellos negros fluctuando em coma; a tez de jaspe; os olhinhos de
velludo; a boquinha escarlate. Mas chorava, a sereia, em contracções de
angustia; chorava certamente pela dôr, pois lhe rasgava a carne o traiçoeiro
anzol; e ainda mais talvez pela vergonha de vêr-se assim arrebatada do seu
meio habitual, expiando um peccado de lambarice, indefeza, nua deante
d'um estrangeiro!...
O pescador porém era d'uma indole bondosa, como ficou notado um pouco
atraz; e vae-se agora ver como o provou. Comprehende-se, é claro, o seu
primeiro espanto: o homem punha as mãos sobre a cabeça, a esbugalhar os
olhos, e gaguejava não sei que exclamações... Podera não! Acalmado, sacou
cautelosamente o anzol da bella face em sangue; e tomando nas mãos o
estranho ser, poz-se a scismar maduramente sobre o caso. Ora, ia pensando,
se elle fosse correr as feiras todas, as festas dos mil e mil templos do paiz; e
alinhando a sua barraca com as outras, onde se exhibem salamandras,
crocodilos, creanças sem pés e sem mãos, cães sabios e muitas outras
coisas, que abundantissima chuva de sapecas lhe não cahiria em cima, quer
dizer, dentro das mangas do kimono!...―"Meus senhores, entrem todos!
Quem não tem cabeça, não paga nada! Ora aqui está uma sereia
authentica..."―e já ia estudando o discurso que faria, soberbo, dominador,
impondo-se á plebe embasbacada. Ou então, outra ideia: se elle comesse a
carne da sereia, cosinhadinha, feita em postas... e sabem todos que a carne
da sereia tem virtude de conservar perpetuas a vida e a juventude a quem
d'ella provou... Mas a sua indole bondosa revoltou-se afinal contra a
lembrança de reter n'uma tina, em exposição, ou peor ainda, de levar á
degolla aquelle pobre bicho, que sobre as suas mãos se lamentava e desfazia
em prantos, como se fôra uma pessoa; contemplou-o ainda, longamente; e
com um nobre gesto e decidido esforço, atirou a sereia ás vagas, d'onde
viera, e onde mergulhou e desappareceu sem mais cerimonias, após um
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acenar de rabo, que poderia ser um adeus, um adeus e um agradecimento.
O nosso pescador voltou á sua faina. Consta que, n'aquelle dia memoravel,
o cabaz se lhe encheu de uma espantosa quantidade de tudo que o mar dá. Á
tarde, tornando a casa ajoujado com a carga, bailava-lhe nos labios um
sorriso, que provinha da boa pesca que
fizera, e tambem da boa acção que
praticara.
Quando pela noite, na cosinha, mangas do kimono arregaçadas até acima
dos sovacos, avental sobre as pernas, celha ao lado, se dispunha a preparar a
sua ceia, ouviu que de fóra, e junto á porta, uma fallinha mansa lhe ia
dizendo:―"Dá licença! dá licença?"...―Corre o homem a abrir a corrediça,
ainda com a faca da cosinha, e um carapau na dextra adunca; e á luz frouxa
d'um luar de quarto minguante, poude distinguir um vulto de mulher em
nada extraordinario, porém doce e cortez, que lhe confessou ser uma
viajante extraviada do caminho, sem casa e sem abrigo, e lhe pedia poisada
só para aquella noite.―«Entre depressa, menina, acode-lhe o sujeito, e
venha partilhar do pouco que aqui tenho».―Então, dando-lhe entrada,
conduzindo-a ao aposento das visitas, fel-a descançar sobre a esteira, e
junto do brazeiro, foi-lhe servido o chá tradicional.―«Muito obrigada.»―O
homem rogou-lhe seguidamente que esperasse pela ceia, uma ceia de peixe
por signal, que elle ia amanhar sem perda de um minuto.―«Permitte-me
que eu ganhe o direito ao meu quinhão, ajudando-o n'essa lida?»―Disse
que não redondamente, que nunca consentiria que os seus hospedes
trabalhassem na cosinha. Em replicas e treplicas, a rapariga assegurou-lhe
O nosso pescador voltou á sua faina. Consta que, n'aquelle dia memoravel,
o cabaz se lhe encheu de uma espantosa quantidade de tudo que o mar dá. Á
tarde, tornando a casa ajoujado com a carga, bailava-lhe nos labios um
sorriso, que provinha da boa pesca que
fizera, e tambem da boa acção que
praticara.
Quando pela noite, na cosinha, mangas do kimono arregaçadas até acima
dos sovacos, avental sobre as pernas, celha ao lado, se dispunha a preparar a
sua ceia, ouviu que de fóra, e junto á porta, uma fallinha mansa lhe ia
dizendo:―"Dá licença! dá licença?"...―Corre o homem a abrir a corrediça,
ainda com a faca da cosinha, e um carapau na dextra adunca; e á luz frouxa
d'um luar de quarto minguante, poude distinguir um vulto de mulher em
nada extraordinario, porém doce e cortez, que lhe confessou ser uma
viajante extraviada do caminho, sem casa e sem abrigo, e lhe pedia poisada
só para aquella noite.―«Entre depressa, menina, acode-lhe o sujeito, e
venha partilhar do pouco que aqui tenho».―Então, dando-lhe entrada,
conduzindo-a ao aposento das visitas, fel-a descançar sobre a esteira, e
junto do brazeiro, foi-lhe servido o chá tradicional.―«Muito obrigada.»―O
homem rogou-lhe seguidamente que esperasse pela ceia, uma ceia de peixe
por signal, que elle ia amanhar sem perda de um minuto.―«Permitte-me
que eu ganhe o direito ao meu quinhão, ajudando-o n'essa lida?»―Disse
que não redondamente, que nunca consentiria que os seus hospedes
trabalhassem na cosinha. Em replicas e treplicas, a rapariga assegurou-lhe
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que passara a vida toda, além, da banda do oceano (talvez filha de gente
embarcadiça? pescadora?) e que ella conhecia as melhores receitas de
cosinhar o peixe, no que até muitas vezes, por passatempo, se occupava; e
tanto ella teimou,―sabem todos o que são teimas de mulheres!―que
sempre foi levando a sua ávante.
O que é certo, é que nunca o pobre solteirão se lambera com tão deliciosas
petisqueiras. Comeu a sua dose, repetiu, pediu terceira vez; e dizia, a
chuchar ainda as cabeças dos ruivos, que a pena que lhe ficava, era de não
lhe ser servida uma ceia egual, todas as noites. A companheira observou
então modestamente, a meias fallas, que lhe parecia não ir além dos seus
poderes, um tal desejo; e instada a explicar melhor a sua phrase,
accrescentou que era solteira, sem parentes, sem lar... Comprehendida
finalmente, o remate de tão feliz encontro foi ella consentir em ser a esposa
do sujeito.
Antes, porém, impôz as suas condições.―«Danna, meu dono, eu tenho,
como disse, passado a vida pelo mar, e não posso prescindir do meu banho
de agua salgada ao menos uma vez cada semana; consente-me isto?»―Elle
acenou que sim.―«E jura-me (agora vão ouvir os pudores da
pequerrucha...) que me deixará banhar em paz, sem seguir-me, e sem sequer
espreitar-me?»―Elle jurou que sim; e deu-se por feliz (já se ia babando
pela moça, o maganão!) de, por tão pouco preço, ver-se possuidor de tal
thesoiro.
Casaram. Bodas de estrondo; e viveram ditosos durante longos mezes. O
peixe, o prato querido dos nipponicos, foi sêmpre excellentemente
preparado pela esposa, activa, intelligente, a rir-se sempre. O pargo, em
fatias cruas regadas com molhos excitantes, era divino! As enguias com
arroz, uma delicia! O caldinho de ameijoas, superfino! As trutas assadas
sobre o lume, sem egual! E até uma certa caldeirada, assim como quem diz
á moda do Algarve, era de estalo, sem favor! E o marido tornava-se anafado
e luzidio, a testemunhar a toda a gente, pelo volume e pelas banhas, que
alguem olhava por elle com disvelo...
embarcadiça? pescadora?) e que ella conhecia as melhores receitas de
cosinhar o peixe, no que até muitas vezes, por passatempo, se occupava; e
tanto ella teimou,―sabem todos o que são teimas de mulheres!―que
sempre foi levando a sua ávante.
O que é certo, é que nunca o pobre solteirão se lambera com tão deliciosas
petisqueiras. Comeu a sua dose, repetiu, pediu terceira vez; e dizia, a
chuchar ainda as cabeças dos ruivos, que a pena que lhe ficava, era de não
lhe ser servida uma ceia egual, todas as noites. A companheira observou
então modestamente, a meias fallas, que lhe parecia não ir além dos seus
poderes, um tal desejo; e instada a explicar melhor a sua phrase,
accrescentou que era solteira, sem parentes, sem lar... Comprehendida
finalmente, o remate de tão feliz encontro foi ella consentir em ser a esposa
do sujeito.
Antes, porém, impôz as suas condições.―«Danna, meu dono, eu tenho,
como disse, passado a vida pelo mar, e não posso prescindir do meu banho
de agua salgada ao menos uma vez cada semana; consente-me isto?»―Elle
acenou que sim.―«E jura-me (agora vão ouvir os pudores da
pequerrucha...) que me deixará banhar em paz, sem seguir-me, e sem sequer
espreitar-me?»―Elle jurou que sim; e deu-se por feliz (já se ia babando
pela moça, o maganão!) de, por tão pouco preço, ver-se possuidor de tal
thesoiro.
Casaram. Bodas de estrondo; e viveram ditosos durante longos mezes. O
peixe, o prato querido dos nipponicos, foi sêmpre excellentemente
preparado pela esposa, activa, intelligente, a rir-se sempre. O pargo, em
fatias cruas regadas com molhos excitantes, era divino! As enguias com
arroz, uma delicia! O caldinho de ameijoas, superfino! As trutas assadas
sobre o lume, sem egual! E até uma certa caldeirada, assim como quem diz
á moda do Algarve, era de estalo, sem favor! E o marido tornava-se anafado
e luzidio, a testemunhar a toda a gente, pelo volume e pelas banhas, que
alguem olhava por elle com disvelo...
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Mas o banho? Melhor fôra não fallarmos n'elle...
Ai que pandega que era esse tal banho!... Ella passava a manhã inteira
preparando-o, afinando o appetite, podia-se dizer; e no banho se quedava
horas esquecidas, pela tarde. Depois, ajoelhada sobre a esteira, espelhinho
em frente, e em torno os cofresinhos mysteriosos, era a interminavel tarefa
de fazer-se bella, ora branqueando as faces, ora avermelhando os labios, ora
compondo o penteado. O esposo chegára mesmo a esta conclusão não
muito lisongeira:―que a companheira mais queria á agua salgada do que a
elle;―mas perdoava-lhe,―outros ha que bem menos innocentes caprichos
vão perdoando...―e nunca a sombra sequer d'um arrependimento viera
turvar a paz do seu viver.
Uma bella tarde,―tarde de banho por signal―chegou o homem a casa, e,
como se diz em portuguez... cheio de fome.―«Tardará muito para a ceia?
resmungava. Irá o banho em meio ou em principio?» A esposa, é claro,
achava-se invisivel, e com a portinha fechada a sete chaves; mas casas
japonezas são casas de papel, e uma fenda, um rasgão, convida-nos a enfiar
os olhos para dentro. O caso é que elle espreitou. Surpresa! Horror!... Não é
uma mulher, mas uma sereia, que se banhava, melhor dizendo―que
nadava, em demoradas circumvoluções de regalo ao longo da tina, agitando
mansamente o rabo e as barbatanas, e cantarolando baixinho canções do
mar, canções das praias...
Pobre marido!―«Ah! canta-me assim, exclamou elle, canta-me assim,
grande mostrengo!... Agora percebo eu as tuas habilidades em lidar com
peixes,―lidas com os teus parentes, grande mostrengo!...―Melhor fôra,
sem duvida, que eu nunca te conhecesse em tal estado, em tal nudez; mas,
feito o mal, quer-me parecer que nunca mais poderei tragar com appetite os
teus guisados, intrujona...»
A porta, abriu-se então e appareceu a esposa. Chorava, cahiam-lhe as
lagrimas a punhos; chorava mas digna, resignada, lia-se-lhe no olhar uma
resolução fatal. Fallou assim, ajoelhando:―«Danna, meu dono, foi a sua
benevolencia para mim, um dia, extrema, tirando-me das aguas, podendo
Ai que pandega que era esse tal banho!... Ella passava a manhã inteira
preparando-o, afinando o appetite, podia-se dizer; e no banho se quedava
horas esquecidas, pela tarde. Depois, ajoelhada sobre a esteira, espelhinho
em frente, e em torno os cofresinhos mysteriosos, era a interminavel tarefa
de fazer-se bella, ora branqueando as faces, ora avermelhando os labios, ora
compondo o penteado. O esposo chegára mesmo a esta conclusão não
muito lisongeira:―que a companheira mais queria á agua salgada do que a
elle;―mas perdoava-lhe,―outros ha que bem menos innocentes caprichos
vão perdoando...―e nunca a sombra sequer d'um arrependimento viera
turvar a paz do seu viver.
Uma bella tarde,―tarde de banho por signal―chegou o homem a casa, e,
como se diz em portuguez... cheio de fome.―«Tardará muito para a ceia?
resmungava. Irá o banho em meio ou em principio?» A esposa, é claro,
achava-se invisivel, e com a portinha fechada a sete chaves; mas casas
japonezas são casas de papel, e uma fenda, um rasgão, convida-nos a enfiar
os olhos para dentro. O caso é que elle espreitou. Surpresa! Horror!... Não é
uma mulher, mas uma sereia, que se banhava, melhor dizendo―que
nadava, em demoradas circumvoluções de regalo ao longo da tina, agitando
mansamente o rabo e as barbatanas, e cantarolando baixinho canções do
mar, canções das praias...
Pobre marido!―«Ah! canta-me assim, exclamou elle, canta-me assim,
grande mostrengo!... Agora percebo eu as tuas habilidades em lidar com
peixes,―lidas com os teus parentes, grande mostrengo!...―Melhor fôra,
sem duvida, que eu nunca te conhecesse em tal estado, em tal nudez; mas,
feito o mal, quer-me parecer que nunca mais poderei tragar com appetite os
teus guisados, intrujona...»
A porta, abriu-se então e appareceu a esposa. Chorava, cahiam-lhe as
lagrimas a punhos; chorava mas digna, resignada, lia-se-lhe no olhar uma
resolução fatal. Fallou assim, ajoelhando:―«Danna, meu dono, foi a sua
benevolencia para mim, um dia, extrema, tirando-me das aguas, podendo
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fazer da minha vida o que quizesse, e salvando-m'a. Trouxe-me aqui um
dever de gratidão: julguei com a minha presença poder amenisar a sua
soledade, servindo-o como escrava. Deu-me o nome de esposa. A minha
gratidão será eterna. No entretanto, acabando de ver-me assim na minha
forma verdadeira, um bicho, um monstro que mette medo a toda a gente,
comprehendo que a missão que tomei chegou ao termo. Estala-me o
coração, mas pouco importa!... Danna, meu dono, adeus. Do ceu lhe
chovam bençãos...»―E correu para a praia e desappareceu nas ondas.
Pobre marido!... Por um acto inpensado, perdeu para sempre uma
companheira carinhosa; e, como das nupcias com a sereia lhe resultava o
dom de longa vida, foi longa a sua viuvez, e longo o seu martyrio...
A fabula, segundo observa, e com criterio, o auctor japonez que consultei a
tal respeito, offerece duas lições de alta moral. Uma é esta: a mulher que
pretenda conservar um bom marido, deve captival-o pela barriga, isto é,
pelo esmero do seu repasto; parecendo averiguado que o estomago é o
orgão mais sensivel, e porventura o mais grato, do homem, o rei da creação.
A outra lição é a seguinte: o marido que deseje manter a harmonia do seu
lar, nunca interfira na toilette intima da consorte; porque, isto de
damas,―com sua licença,―todas lá têem o seu rabo, ou escama, ou
barbatana, coisa emfim que melhor é não seja conhecida, em proveito dos
dois, e em conformidade com o codigo inedito do amor, capitulo Illusões,
artigo... esqueceu-me agora o artigo, meus senhores.
1899.
O CAVALLO BRANCO DE NANKO
A Carlos Campos
dever de gratidão: julguei com a minha presença poder amenisar a sua
soledade, servindo-o como escrava. Deu-me o nome de esposa. A minha
gratidão será eterna. No entretanto, acabando de ver-me assim na minha
forma verdadeira, um bicho, um monstro que mette medo a toda a gente,
comprehendo que a missão que tomei chegou ao termo. Estala-me o
coração, mas pouco importa!... Danna, meu dono, adeus. Do ceu lhe
chovam bençãos...»―E correu para a praia e desappareceu nas ondas.
Pobre marido!... Por um acto inpensado, perdeu para sempre uma
companheira carinhosa; e, como das nupcias com a sereia lhe resultava o
dom de longa vida, foi longa a sua viuvez, e longo o seu martyrio...
A fabula, segundo observa, e com criterio, o auctor japonez que consultei a
tal respeito, offerece duas lições de alta moral. Uma é esta: a mulher que
pretenda conservar um bom marido, deve captival-o pela barriga, isto é,
pelo esmero do seu repasto; parecendo averiguado que o estomago é o
orgão mais sensivel, e porventura o mais grato, do homem, o rei da creação.
A outra lição é a seguinte: o marido que deseje manter a harmonia do seu
lar, nunca interfira na toilette intima da consorte; porque, isto de
damas,―com sua licença,―todas lá têem o seu rabo, ou escama, ou
barbatana, coisa emfim que melhor é não seja conhecida, em proveito dos
dois, e em conformidade com o codigo inedito do amor, capitulo Illusões,
artigo... esqueceu-me agora o artigo, meus senhores.
1899.
O CAVALLO BRANCO DE NANKO
A Carlos Campos
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Isto aconteceu ha cerca de mil annos, em terras japonezas: um cavallo, que
o grande artista Kanaoka desenhára n'um biombo do templo de Ninnadji,
perto de Kioto, era uma tão bella creação, cheia de verdade e palpitante de
vida, que todas as noites se escapava do papel para ir galopar pelos campos
em roda, culturas fóra, devastando a esmo as sementeiras; e o caso dava-se,
claramente, com magno espanto e raiva dos camponios, que o perseguiam á
pedrada. Estes camponios, impressionados pelas fórmas incomparaveis do
animal, persuadiram-se por fim de que elle não podia ser outro senão o
cavallo de Kanaoka; e a persuação converteu-se um dia em certeza
absoluta, quando viram na pintura as patas do travesso, humidas ainda da
lama fresca dos caminhos. Sem mais cerimonias, arremetteram contra a tela
e esfuracaram-lhe os olhos; e consta que nunca mais houve queixas de
estragos nas fazendas.
o grande artista Kanaoka desenhára n'um biombo do templo de Ninnadji,
perto de Kioto, era uma tão bella creação, cheia de verdade e palpitante de
vida, que todas as noites se escapava do papel para ir galopar pelos campos
em roda, culturas fóra, devastando a esmo as sementeiras; e o caso dava-se,
claramente, com magno espanto e raiva dos camponios, que o perseguiam á
pedrada. Estes camponios, impressionados pelas fórmas incomparaveis do
animal, persuadiram-se por fim de que elle não podia ser outro senão o
cavallo de Kanaoka; e a persuação converteu-se um dia em certeza
absoluta, quando viram na pintura as patas do travesso, humidas ainda da
lama fresca dos caminhos. Sem mais cerimonias, arremetteram contra a tela
e esfuracaram-lhe os olhos; e consta que nunca mais houve queixas de
estragos nas fazendas.
Page 44
Ainda outro cavallo de Kanaoka, que era mestre no genero, cavallo
desenhado n'uma parede interior do palacio imperial, tinha o vezo de ir
devorar pelos jardins as flores tenras do açafrão; e só cessou a brincadeira
quando alguem se lembrou de retocar a obra, amarrando o patife á parede
com um pedaço de corda pintada para o effeito.
desenhado n'uma parede interior do palacio imperial, tinha o vezo de ir
devorar pelos jardins as flores tenras do açafrão; e só cessou a brincadeira
quando alguem se lembrou de retocar a obra, amarrando o patife á parede
com um pedaço de corda pintada para o effeito.
Page 45
Ora bem. De muitas maravilhas é sem duvida capaz a mão inspirada d'um
artista!... Esses dois cavallos de Kanaoka, nascidos d'uma gotta de tinta e de
algumas curvas humoristicas de pincel, mas em todo o caso ungidos do
sopro sublime do eximio mestre, animavam-se por momentos, soltavam-se
da tela, e ahi iam elles!... Felizes bohemios eram e felizes tempos eram.
Arte creadora, arte radiosa das epochas passadas, porque não vaes tu
regendo, ainda e sempre, os destinos de todas as coisas d'este mundo?...
N'estes dias que correm, deslavados e tristes, mesmo no Japão, e não
cessando de divagar no mesmo assumpto de cavallos, confesso francamente
a quem me lêr, que nada me mortifica tanto como o espectaculo dos
cavallos sagrados dos templos shintoistas. Ora aqui estão umas
cavalgaduras bem authenticas, bem vivas, bem reaes, de carne e osso; e
que, se fossem lidas em coisas de arte antiga nacional―mas não são,―por
certo muito invejariam as simples creações no papel da mão de Kanaoka.
N'este paiz japonez, onde parece que os seres, homens e bichos, nasceram e
vivem n'um banho perenne de sorrisos, mais desoladora se afigura ainda a
condição dos pobres brutos, que um dia inspiraram estas linhas
melancholicas que escrevo.
Se pretendo ser de certo modo comprehendido nas divagações que vão
artista!... Esses dois cavallos de Kanaoka, nascidos d'uma gotta de tinta e de
algumas curvas humoristicas de pincel, mas em todo o caso ungidos do
sopro sublime do eximio mestre, animavam-se por momentos, soltavam-se
da tela, e ahi iam elles!... Felizes bohemios eram e felizes tempos eram.
Arte creadora, arte radiosa das epochas passadas, porque não vaes tu
regendo, ainda e sempre, os destinos de todas as coisas d'este mundo?...
N'estes dias que correm, deslavados e tristes, mesmo no Japão, e não
cessando de divagar no mesmo assumpto de cavallos, confesso francamente
a quem me lêr, que nada me mortifica tanto como o espectaculo dos
cavallos sagrados dos templos shintoistas. Ora aqui estão umas
cavalgaduras bem authenticas, bem vivas, bem reaes, de carne e osso; e
que, se fossem lidas em coisas de arte antiga nacional―mas não são,―por
certo muito invejariam as simples creações no papel da mão de Kanaoka.
N'este paiz japonez, onde parece que os seres, homens e bichos, nasceram e
vivem n'um banho perenne de sorrisos, mais desoladora se afigura ainda a
condição dos pobres brutos, que um dia inspiraram estas linhas
melancholicas que escrevo.
Se pretendo ser de certo modo comprehendido nas divagações que vão
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seguir-se―e é obvio que pretendo,―convem que me detenha um pouco,
fallando de templos shintoistas em geral. O shintoismo, da palavra shinto (a
estrada dos deuses), é a crença primitiva, patriarchal, das epochas remotas
no Japão; e conservada até hoje, a despeito da grande propaganda de
Buddha que se fez e se faz, é ainda a religião nacional, a religião do Estado.
O shintoismo é a adoração pelo sol, pelo Imperador seu filho, por todas as
forças da creação, pelas divindades protectoras, pelos genios, pelos nobres,
pelos heroes e pelos sabios. O templo de shinto é o recinto consagrado a
uma d'essas invocações. Distingue-se antes de tudo pelo torii, o grande arco
de pedra ou de madeira avisinhando do logar, e como que indicando o
caminho ao peregrino. Torii quer dizer descanço dos passaros; e assim
ficamos já com uma noção primeira e delicadissima na essencia,
aprendendo que no campo sagrado tudo é paz, tudo é remanso, pois que até
aos pardaes, cançados dos vôos doidos que fizeram á aventura, se offerece
um poleiro protector onde descancem. Ao torii succedem-se o amplo portal
e o vasto espaço murado; e lá dentro, symbolos, alfaias d'uma religião toda
de amor, são a paisagem graciosa, os
jardins verdes, os bosques frescos, as
rochas musgosas, os lagos quietos;
aqui é a cisterna destinada ás abluções
preliminares dos crentes; alli são as
monumentaes lanternas de granito,
esverdeadas pelos annos; além o nicho
escarlate votado a Inari, raposa, Deus
do arroz, não sei que mais, em todo o
caso coisa muito santa; depois as
construcções ligeiras, de madeira nua,
dispersas, e onde em dias festivos as
donzellas do culto dançam ao som de
estranhos ritornellos, ou silenciosos
officiantes abençoam as multidões,
agitando sobre as cabeças reverentes
um penacho de papel branco,
emblema de pureza.
Nos templos mais faustuosos, não
faltará outro accessorio: o nicho
fallando de templos shintoistas em geral. O shintoismo, da palavra shinto (a
estrada dos deuses), é a crença primitiva, patriarchal, das epochas remotas
no Japão; e conservada até hoje, a despeito da grande propaganda de
Buddha que se fez e se faz, é ainda a religião nacional, a religião do Estado.
O shintoismo é a adoração pelo sol, pelo Imperador seu filho, por todas as
forças da creação, pelas divindades protectoras, pelos genios, pelos nobres,
pelos heroes e pelos sabios. O templo de shinto é o recinto consagrado a
uma d'essas invocações. Distingue-se antes de tudo pelo torii, o grande arco
de pedra ou de madeira avisinhando do logar, e como que indicando o
caminho ao peregrino. Torii quer dizer descanço dos passaros; e assim
ficamos já com uma noção primeira e delicadissima na essencia,
aprendendo que no campo sagrado tudo é paz, tudo é remanso, pois que até
aos pardaes, cançados dos vôos doidos que fizeram á aventura, se offerece
um poleiro protector onde descancem. Ao torii succedem-se o amplo portal
e o vasto espaço murado; e lá dentro, symbolos, alfaias d'uma religião toda
de amor, são a paisagem graciosa, os
jardins verdes, os bosques frescos, as
rochas musgosas, os lagos quietos;
aqui é a cisterna destinada ás abluções
preliminares dos crentes; alli são as
monumentaes lanternas de granito,
esverdeadas pelos annos; além o nicho
escarlate votado a Inari, raposa, Deus
do arroz, não sei que mais, em todo o
caso coisa muito santa; depois as
construcções ligeiras, de madeira nua,
dispersas, e onde em dias festivos as
donzellas do culto dançam ao som de
estranhos ritornellos, ou silenciosos
officiantes abençoam as multidões,
agitando sobre as cabeças reverentes
um penacho de papel branco,
emblema de pureza.
Nos templos mais faustuosos, não
faltará outro accessorio: o nicho
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garrido, a pequenina estrebaria, onde o cavallo sagrado mastiga eternamente
a insipida palha do seu officio. O deus, ou genio do templo, tem o seu
cavallo de estado; é justo. É geralmente um cavallito albino, de pello branco
e olho azul celeste, talvez porque se ligue uma certa idéa de candura a tal
enfermidade. O deus serve-se d'elle como entende; alguem, a quem
pergunto informações do cargo, diz-me que é o Ó tsukae mono... assim
como quem diz: o nobre moço de recados. Admittamos pois que faz em
regra os recados do deus, o que é já muito, e um alto mister, e por isso é
sagrado e tem honras de santo; e em lances difficeis, mais distinctos serão
ainda os seus serviços. Ardeu ha mezes um dos mais famosos templos do
Japão, em Yamada; não sei que coisas do culto foram depois encontradas ao
abrigo e longe do sinistro;―foi o cavallo que as transportou para lá.―É voz
do povo que em Osaka, em dois templos de shinto, desappareceram os
cavallos quando rebentou a ultima guerra com a China;―está-se mesmo a
perceber que as almas d'esses deuses montaram nos ginetes para irem aos
campos do inimigo, abençoar as tropas de Nippon.―Taes casos, porém, são
raros, são rarissimos, n'esta epocha positivista, tão escassa de milagres; e os
cavallos brancos sagrados vivem e morrem amarrados á mangedoira,
passeando uma só vez em cada anno, no dia da festa do templo,
encorporados então triumphalmente á procissão, que percorre as ruas da
cidade. É o encerro absoluto, é a constante immobilidade tediosa, sem
mesmo as furtivas escapadelas dos cavallos pintados de Kanaoka. A palha
abunda-lhes; acercam-se d'elles as creanças e as mulheres, que os adoram, e
compram á velha, que por alli está cerca do estabulo, montinhos de feijões
cozidos, que offerecem sobre as palmas das mãos rosadas, aos focinhos
nostalgicos dos rocins.
Eu conheço uns poucos d'esses brutos, mas tenho mais intimas relações
com o de Nanko, um templo aqui em Kobe, celebre, dedicado á memoria de
Kusunoki Masashige, que foi um nobre guerreiro e patriota.
No amplo santuario do templo estabeleceu-se uma feira permanente, dia e
noite, mas principalmente de noite, atractiva e frequentada por passeantes e
a insipida palha do seu officio. O deus, ou genio do templo, tem o seu
cavallo de estado; é justo. É geralmente um cavallito albino, de pello branco
e olho azul celeste, talvez porque se ligue uma certa idéa de candura a tal
enfermidade. O deus serve-se d'elle como entende; alguem, a quem
pergunto informações do cargo, diz-me que é o Ó tsukae mono... assim
como quem diz: o nobre moço de recados. Admittamos pois que faz em
regra os recados do deus, o que é já muito, e um alto mister, e por isso é
sagrado e tem honras de santo; e em lances difficeis, mais distinctos serão
ainda os seus serviços. Ardeu ha mezes um dos mais famosos templos do
Japão, em Yamada; não sei que coisas do culto foram depois encontradas ao
abrigo e longe do sinistro;―foi o cavallo que as transportou para lá.―É voz
do povo que em Osaka, em dois templos de shinto, desappareceram os
cavallos quando rebentou a ultima guerra com a China;―está-se mesmo a
perceber que as almas d'esses deuses montaram nos ginetes para irem aos
campos do inimigo, abençoar as tropas de Nippon.―Taes casos, porém, são
raros, são rarissimos, n'esta epocha positivista, tão escassa de milagres; e os
cavallos brancos sagrados vivem e morrem amarrados á mangedoira,
passeando uma só vez em cada anno, no dia da festa do templo,
encorporados então triumphalmente á procissão, que percorre as ruas da
cidade. É o encerro absoluto, é a constante immobilidade tediosa, sem
mesmo as furtivas escapadelas dos cavallos pintados de Kanaoka. A palha
abunda-lhes; acercam-se d'elles as creanças e as mulheres, que os adoram, e
compram á velha, que por alli está cerca do estabulo, montinhos de feijões
cozidos, que offerecem sobre as palmas das mãos rosadas, aos focinhos
nostalgicos dos rocins.
Eu conheço uns poucos d'esses brutos, mas tenho mais intimas relações
com o de Nanko, um templo aqui em Kobe, celebre, dedicado á memoria de
Kusunoki Masashige, que foi um nobre guerreiro e patriota.
No amplo santuario do templo estabeleceu-se uma feira permanente, dia e
noite, mas principalmente de noite, atractiva e frequentada por passeantes e
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devotos. A vida inteira japoneza passa, perpassa aqui; quem já folheou os
albuns de desenho de Hokusai, e n'elles se interessou, deve depois votar
horas inteira No amplo santuario do templo estabeleceu-se uma feira
permanente, dia e noite, mas principalmente de noite, atractiva e
frequentada por passeantes e devotos. A vida inteira japoneza passa,
perpassa aqui; quem já folheou os albuns de desenho de Hokusai, e n'elles
se interessou, deve depois votar horas inteiras a esta historia viva e flagrante
do povo de Nippon; e assim completar, quanto possivel, a noção que haja
formado d'este povo, um dos mais interessantes, e o mais sympathico
talvez, do mundo inteiro.
A gente afflue de toda a parte, d'aqui, d'alli, d'alem... Junto ao portal,
condensa-se o formigueiro humano, em centenas, em legiões de cabecinhas;
a pouco e pouco, sedas roçando sedas, risos correspondendo a risos, vae-se
entrando, ao som d'um continuo ruido de sóccos e sandalias, que se
arrastam pelo lagedo resonante. Na escuridão da noite, o recinto define-se a
principio como um negrume vago, complicado de sombras de arvoredo,
cheio de gente e de myriades de luzinhas bruxoleantes. Depois os olhos
habituam-se. Vae por ahi fóra, direitinha ao templo, a grande rua principal,
bordada de arvores varias, lageada; pelos lados espraia-se o labyrintho das
passagens, por entre os alinhamentos das barracas, das tendas, das
quitandas, armadas de improviso, estiradas pelo chão; e é, á luz frouxa das
lampadas, a exposição phantastica das côres, chispando em disparates como
albuns de desenho de Hokusai, e n'elles se interessou, deve depois votar
horas inteira No amplo santuario do templo estabeleceu-se uma feira
permanente, dia e noite, mas principalmente de noite, atractiva e
frequentada por passeantes e devotos. A vida inteira japoneza passa,
perpassa aqui; quem já folheou os albuns de desenho de Hokusai, e n'elles
se interessou, deve depois votar horas inteiras a esta historia viva e flagrante
do povo de Nippon; e assim completar, quanto possivel, a noção que haja
formado d'este povo, um dos mais interessantes, e o mais sympathico
talvez, do mundo inteiro.
A gente afflue de toda a parte, d'aqui, d'alli, d'alem... Junto ao portal,
condensa-se o formigueiro humano, em centenas, em legiões de cabecinhas;
a pouco e pouco, sedas roçando sedas, risos correspondendo a risos, vae-se
entrando, ao som d'um continuo ruido de sóccos e sandalias, que se
arrastam pelo lagedo resonante. Na escuridão da noite, o recinto define-se a
principio como um negrume vago, complicado de sombras de arvoredo,
cheio de gente e de myriades de luzinhas bruxoleantes. Depois os olhos
habituam-se. Vae por ahi fóra, direitinha ao templo, a grande rua principal,
bordada de arvores varias, lageada; pelos lados espraia-se o labyrintho das
passagens, por entre os alinhamentos das barracas, das tendas, das
quitandas, armadas de improviso, estiradas pelo chão; e é, á luz frouxa das
lampadas, a exposição phantastica das côres, chispando em disparates como
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n'um campo immenso de kaleidoscopo, correspondendo ás mil industrias
que se estendem... Roupas, perfumarias, livrinhos, bocetas, charões,
porcellanas, cachimbos, ferramentas, utensilios domesticos, bolos,
brinquedos, flores, plantas, tudo: a industria inteira do Japão, se condensa,
coalha em museu. Alem algumas chayas vendem refrescos; as creadinhas
convidam a turba a que se acerque. Mais longe, são os theatros populares,
um cobre por entrada:―cães sabios, athletas, abortos, serpentes,
panoramas;―ou a sala do hanashi, da palestra, onde um patusco entretem
os freguezes, contando-lhes historias. N'um espaço mais livre, um sujeito
com um graphophone, um dentista, um inventor de remedios milagrosos,
discursam, explicam, prophetizam.
O formigueiro humano ondula, alastra se, sem designio, á aventura. As
sociedades occidentaes nada nos offerecem de parecido. Isto, aqui, é a
multidão, sem pressas, sem gritos, sem exasperos, tal como nol a
apresentam todas as grandes tribus do Oriente; é o cardume de gente, retida
na praça publica como o sargaço em mares tranquillos; aqui, quadro
requintadamente gentil e sorridente, inconfundivel, mas que ainda nos
recorda as agglomerações da plebe nos templos de Cantão ou nos bazares
de Aden, ou do Cairo; e, subindo nos tempos e retrogradando em espirito
vinte seculos, quasi nos desdobra aspectos vividos, embora fugidios, da
que se estendem... Roupas, perfumarias, livrinhos, bocetas, charões,
porcellanas, cachimbos, ferramentas, utensilios domesticos, bolos,
brinquedos, flores, plantas, tudo: a industria inteira do Japão, se condensa,
coalha em museu. Alem algumas chayas vendem refrescos; as creadinhas
convidam a turba a que se acerque. Mais longe, são os theatros populares,
um cobre por entrada:―cães sabios, athletas, abortos, serpentes,
panoramas;―ou a sala do hanashi, da palestra, onde um patusco entretem
os freguezes, contando-lhes historias. N'um espaço mais livre, um sujeito
com um graphophone, um dentista, um inventor de remedios milagrosos,
discursam, explicam, prophetizam.
O formigueiro humano ondula, alastra se, sem designio, á aventura. As
sociedades occidentaes nada nos offerecem de parecido. Isto, aqui, é a
multidão, sem pressas, sem gritos, sem exasperos, tal como nol a
apresentam todas as grandes tribus do Oriente; é o cardume de gente, retida
na praça publica como o sargaço em mares tranquillos; aqui, quadro
requintadamente gentil e sorridente, inconfundivel, mas que ainda nos
recorda as agglomerações da plebe nos templos de Cantão ou nos bazares
de Aden, ou do Cairo; e, subindo nos tempos e retrogradando em espirito
vinte seculos, quasi nos desdobra aspectos vividos, embora fugidios, da
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Jerusalem biblica, nos seus magotes de homens vestidos de tunicas rojantes,
vagueando, palestrando de manso, alongando os braços nús em gestos
calmos e solemnes.
Querer inventariar os typos, fôra insania,―é a massa inteira popular
despreoccupada, risonha, gosando de viver.―Passam familias,―o pae, a
mãe, um filho preso ao seio e os outros pela mão;―ranchos de soldados e
ranchos de marujos; ranchos de raparigas; moços, alguns indo caminho do
bairro dos prazeres, Fukuwara, que está perto; peregrinos; mendigos;
vadios; larapios; extrangeiros. Os garotos assopram nas trombetas que
compraram, ou mordem em bolos ou em fructos. Aquella musumé fresca,
vestida apenas do seu kimono de verão, azul e branco, já vae de volta; e leva
dependurada das mãositas uma gaiola em miniatura, cheia de reluzentes
pyrilampos. Uma velha rejubila com o vaso de bellos lirios que mercou. É
aqui em Nanko, no mercado especial das plantas, que se revela bem o mimo
d'esta gente em jardinagem,―delicados arbustos, havendo merecido longos
disvelos de cultura, selecção graciosa de florescencias;―e é de ver-se o
afan na escolha, o brilho dos olhitos cubiçosos, dos grupos em roda da
exposição dos pinheirinhos, das cerejeiras, dos bambus, dos chrysanthemos,
dos lirios, da wisteria.―O espirito simples, o desejo facil de contentar, a
puerilidade quasi infantil, estampa-se em todos esses rostos, e dom gentil da
mão industriosa, resalta de todos os artigos. Quem tiver duas moedas de
cobre na bolsinha―e todos as terão,―póde comprar um objecto de arte;
compra-o sem duvida, e no jubilo da face transparece a alegria plena d'uma
alma satisfeita. D'essa manifesta innocencia de sentimentos, d'essa
psychologia alheia de complicações e de tormentos, deve em rigor
deprehender-se uma superioridade de raça, uma animalidade esplendida e
exhuberante, muito distanciando-se da vibratilidade morbida das raças
exhaustas do Ocidente; e é isto que vagamente se adivinha na esbelteza dos
vultos que vão passando, na flexibilidade harmonica das curvas, no jogo
pathetico da mimica, na confiança serena com que o pé dominador poisa no
chão. Feliz povo! Feliz povo de hontem, de hoje, e possivelmente de
amanhã... Não é outra a conclusão sincera do nosso exame passageiro.
vagueando, palestrando de manso, alongando os braços nús em gestos
calmos e solemnes.
Querer inventariar os typos, fôra insania,―é a massa inteira popular
despreoccupada, risonha, gosando de viver.―Passam familias,―o pae, a
mãe, um filho preso ao seio e os outros pela mão;―ranchos de soldados e
ranchos de marujos; ranchos de raparigas; moços, alguns indo caminho do
bairro dos prazeres, Fukuwara, que está perto; peregrinos; mendigos;
vadios; larapios; extrangeiros. Os garotos assopram nas trombetas que
compraram, ou mordem em bolos ou em fructos. Aquella musumé fresca,
vestida apenas do seu kimono de verão, azul e branco, já vae de volta; e leva
dependurada das mãositas uma gaiola em miniatura, cheia de reluzentes
pyrilampos. Uma velha rejubila com o vaso de bellos lirios que mercou. É
aqui em Nanko, no mercado especial das plantas, que se revela bem o mimo
d'esta gente em jardinagem,―delicados arbustos, havendo merecido longos
disvelos de cultura, selecção graciosa de florescencias;―e é de ver-se o
afan na escolha, o brilho dos olhitos cubiçosos, dos grupos em roda da
exposição dos pinheirinhos, das cerejeiras, dos bambus, dos chrysanthemos,
dos lirios, da wisteria.―O espirito simples, o desejo facil de contentar, a
puerilidade quasi infantil, estampa-se em todos esses rostos, e dom gentil da
mão industriosa, resalta de todos os artigos. Quem tiver duas moedas de
cobre na bolsinha―e todos as terão,―póde comprar um objecto de arte;
compra-o sem duvida, e no jubilo da face transparece a alegria plena d'uma
alma satisfeita. D'essa manifesta innocencia de sentimentos, d'essa
psychologia alheia de complicações e de tormentos, deve em rigor
deprehender-se uma superioridade de raça, uma animalidade esplendida e
exhuberante, muito distanciando-se da vibratilidade morbida das raças
exhaustas do Ocidente; e é isto que vagamente se adivinha na esbelteza dos
vultos que vão passando, na flexibilidade harmonica das curvas, no jogo
pathetico da mimica, na confiança serena com que o pé dominador poisa no
chão. Feliz povo! Feliz povo de hontem, de hoje, e possivelmente de
amanhã... Não é outra a conclusão sincera do nosso exame passageiro.
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No entretanto, a um canto, no estabulo garrido, boceja o cavallo branco
sagrado de Kusunoki Masashige. Por velha sympathia, procuro-o sempre, e
passo quasi horas inteiras, a vêl-o, a namoral-o. Quantos annos terá de
sacerdocio? Dez annos? Quinze annos?... Não lhe despertam zanga nem
prazer as minhas visitas repetidas. Cabeça baixa, o olho azul mortiço,
parece nada querer, nada sentir, nada soffrer e nada desejar. É quasi de
papelão, á força de insipidez, o garranito. Ao burburinho, á luz, ás côres, ás
musicas distantes, é insensivel. Ao bello verde do arvoredo é insensivel;
pelos modos, não se recorda já das paizagens por onde espinoteou... O seu
olho azul-celeste, vitreo, provavelmente myope, relancea com a mesma
apathica frieza, as mil scenas do acaso; á gente que o encara,―ralé da praça
publica, garotos, cavalheiros, acaso um general, acaso um conde, acaso um
inglez de nobres pergaminhos,―vota a mesma indifferença irreverente que
ás moscas importunas que poisam, por enxames, sem que o commovam, na
mucosa descorada da sua pobre focinheira. Só uma vez, presumo, o vi
enternecido: relinchava uma egua algures, longe sem duvida; levemente se
lhe agitaram as orelhas, como se uma vaga reminiscencia, penso eu, pelo
bestunto lhe corrêra; e pareceu-me então vêr o seu olho azul-celeste arrazar-
se de lagrimas, pareceu-me... Ás vezes, avança de bom grado a lingua, a ir
lamber as mãos das raparigas; por capricho talvez, e por habito, porque são
aquellas mãos que costumam offerecer-lhe, como obulo piedoso, os feijões
cosidos comprados á velhita que por ali anda, proximo do estabulo...
Eis todo o seu romance.
E mais nada. Disse tudo. Se alguem, por mais curioso, quizer ainda
arrancar-me o segredo d'esta minha estranha sympathia pelos cavallos
sagrados dos templos de shinto,―tanto mais estranha sympathia, quanto é
certo que não me accusa a consciencia de jámais ter pertencido a qualquer
sociedade protectora de animaes,―aqui lhe offereço, a esse alguem, a
seguinte estupenda confidencia. No Japão, se não erra o meu juizo, só os
sagrado de Kusunoki Masashige. Por velha sympathia, procuro-o sempre, e
passo quasi horas inteiras, a vêl-o, a namoral-o. Quantos annos terá de
sacerdocio? Dez annos? Quinze annos?... Não lhe despertam zanga nem
prazer as minhas visitas repetidas. Cabeça baixa, o olho azul mortiço,
parece nada querer, nada sentir, nada soffrer e nada desejar. É quasi de
papelão, á força de insipidez, o garranito. Ao burburinho, á luz, ás côres, ás
musicas distantes, é insensivel. Ao bello verde do arvoredo é insensivel;
pelos modos, não se recorda já das paizagens por onde espinoteou... O seu
olho azul-celeste, vitreo, provavelmente myope, relancea com a mesma
apathica frieza, as mil scenas do acaso; á gente que o encara,―ralé da praça
publica, garotos, cavalheiros, acaso um general, acaso um conde, acaso um
inglez de nobres pergaminhos,―vota a mesma indifferença irreverente que
ás moscas importunas que poisam, por enxames, sem que o commovam, na
mucosa descorada da sua pobre focinheira. Só uma vez, presumo, o vi
enternecido: relinchava uma egua algures, longe sem duvida; levemente se
lhe agitaram as orelhas, como se uma vaga reminiscencia, penso eu, pelo
bestunto lhe corrêra; e pareceu-me então vêr o seu olho azul-celeste arrazar-
se de lagrimas, pareceu-me... Ás vezes, avança de bom grado a lingua, a ir
lamber as mãos das raparigas; por capricho talvez, e por habito, porque são
aquellas mãos que costumam offerecer-lhe, como obulo piedoso, os feijões
cosidos comprados á velhita que por ali anda, proximo do estabulo...
Eis todo o seu romance.
E mais nada. Disse tudo. Se alguem, por mais curioso, quizer ainda
arrancar-me o segredo d'esta minha estranha sympathia pelos cavallos
sagrados dos templos de shinto,―tanto mais estranha sympathia, quanto é
certo que não me accusa a consciencia de jámais ter pertencido a qualquer
sociedade protectora de animaes,―aqui lhe offereço, a esse alguem, a
seguinte estupenda confidencia. No Japão, se não erra o meu juizo, só os
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cavallos dos templos são tristes. Elles, e eu. Ha entre nós mysteriosas
analogias; não gracejo. Após longos estudos da propria carcassa, acabo de
concluir―imaginem o quê!...―que tambem sou albino. Não pela anomalia
congenita da falta de pigmento corante da pelle, dos cabellos e dos olhos,
concordo; albino psychico porem―não sei se me faço perceber...―albino
na alma dolente, na vibratilidade exangue, na apathia da vida, após os mil
baldões da sorte, e desfeita no ar a ultima bola de sabão das minhas illusões.
Do meu poiso, que comparo sem grande esforço ao estabulo de Nanko,
assisto ao contorno das
scenas e ao perpassar da
turba; mas alheado de
tudo, e esquecido até das
saudades da paizagem
serena onde vivi os meus
primeiros annos.
Alvoroços de affectos?
amores? fazem favor de
me dizer para onde
fugiram essas chimeras
aladas da minha pobre
juventude?... Quando
muito, como o cavallo de
Nanko, mas ainda mais
desinteressado do que
elle, porque me sinto naturalmente excluido do quinhãosito de feijões que
pode seduzil-o, quando muito, se deviso essas musumés, com as suas
mãositas muito alvas, muito mimosas, tenho por essas mãos, vagas ternuras:
aqui, n'este meio onde me vejo, são-me ellas o emblema dos carinhos do
sexo delicado; e incutem no meu espirito uma noção de paz
possivel,―aqui, algures, não sei onde,―no lar da familia, quando
abençoado pelos fados...
1899.
analogias; não gracejo. Após longos estudos da propria carcassa, acabo de
concluir―imaginem o quê!...―que tambem sou albino. Não pela anomalia
congenita da falta de pigmento corante da pelle, dos cabellos e dos olhos,
concordo; albino psychico porem―não sei se me faço perceber...―albino
na alma dolente, na vibratilidade exangue, na apathia da vida, após os mil
baldões da sorte, e desfeita no ar a ultima bola de sabão das minhas illusões.
Do meu poiso, que comparo sem grande esforço ao estabulo de Nanko,
assisto ao contorno das
scenas e ao perpassar da
turba; mas alheado de
tudo, e esquecido até das
saudades da paizagem
serena onde vivi os meus
primeiros annos.
Alvoroços de affectos?
amores? fazem favor de
me dizer para onde
fugiram essas chimeras
aladas da minha pobre
juventude?... Quando
muito, como o cavallo de
Nanko, mas ainda mais
desinteressado do que
elle, porque me sinto naturalmente excluido do quinhãosito de feijões que
pode seduzil-o, quando muito, se deviso essas musumés, com as suas
mãositas muito alvas, muito mimosas, tenho por essas mãos, vagas ternuras:
aqui, n'este meio onde me vejo, são-me ellas o emblema dos carinhos do
sexo delicado; e incutem no meu espirito uma noção de paz
possivel,―aqui, algures, não sei onde,―no lar da familia, quando
abençoado pelos fados...
1899.
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A PRIMEIRA FORMIGA
A Sebastião Garcez.
Á parte esta dedicatoria especial, é ás formigas e aos sabios―Deus não
permitta que ellas, ou que elles, tomem a mal o parallelo―que eu offereço
as revelações que vão seguir-se, nas quaes se explica, após longos
preambulos, como é que a primeira formiga veiu ao mundo.
Quando na China, pela era do imperador Tai-Sun, as terras andavam
divididas pelas mãos de muitos monarchas irrequietos, envolvidos em
continuas batalhas e baralhas, deu-se um caso no ceu, digno de particular
ensinamento. Acontecia que uma certa deusa do Olympo―Lei-San era o
seu nome―nunca em demorados arrebiques, em
meticulosas pinturas de cutis, das ia dar o seu (passeio
pelas nuvens, imagino) sem se esmerar sobrancelhas e
dos labios. Pieguices do sexo, desculpaveis, e até de
certo modo meritorias; mas o caso motivou, certo dia,
um risinho malicioso da sua serva mais querida, e
ainda por cima este commento pouco respeitoso:―«A
deusa tem pelos modos algum defeito no seu rosto, e
cuida de escondel-o á força de cosmeticos...»―Vão lá
chasquear impunemente dos encantos d'uma dama! e
quando ella fôr divina... É certo que tão cheia de
cholera ficou a divindade, que vestiu a deliquente
d'uma pelle diabo que encontrou a geito, pelle
horrivel, cara azul, ruiva a guedelha, dois dentes
curvos surdindo da bocca para fóra, e mãos e pés
disformes; e assim, n'esse bonito estado, a escorraçou
do ceu, aos beliscões, e a enviou ao mundo em expiação. Chamava-se
Tchong-Mou-In, a penitente.
A Sebastião Garcez.
Á parte esta dedicatoria especial, é ás formigas e aos sabios―Deus não
permitta que ellas, ou que elles, tomem a mal o parallelo―que eu offereço
as revelações que vão seguir-se, nas quaes se explica, após longos
preambulos, como é que a primeira formiga veiu ao mundo.
Quando na China, pela era do imperador Tai-Sun, as terras andavam
divididas pelas mãos de muitos monarchas irrequietos, envolvidos em
continuas batalhas e baralhas, deu-se um caso no ceu, digno de particular
ensinamento. Acontecia que uma certa deusa do Olympo―Lei-San era o
seu nome―nunca em demorados arrebiques, em
meticulosas pinturas de cutis, das ia dar o seu (passeio
pelas nuvens, imagino) sem se esmerar sobrancelhas e
dos labios. Pieguices do sexo, desculpaveis, e até de
certo modo meritorias; mas o caso motivou, certo dia,
um risinho malicioso da sua serva mais querida, e
ainda por cima este commento pouco respeitoso:―«A
deusa tem pelos modos algum defeito no seu rosto, e
cuida de escondel-o á força de cosmeticos...»―Vão lá
chasquear impunemente dos encantos d'uma dama! e
quando ella fôr divina... É certo que tão cheia de
cholera ficou a divindade, que vestiu a deliquente
d'uma pelle diabo que encontrou a geito, pelle
horrivel, cara azul, ruiva a guedelha, dois dentes
curvos surdindo da bocca para fóra, e mãos e pés
disformes; e assim, n'esse bonito estado, a escorraçou
do ceu, aos beliscões, e a enviou ao mundo em expiação. Chamava-se
Tchong-Mou-In, a penitente.
Page 54
Tai-Sun, empenhado em pellejas, e mortificado por innumeras derrotas, teve
uma noite um sonho radioso, difficil de explicar. Consultado sobre o caso
um lettrado favorito, anão por signal e muito feio, mas um poço de sciencia,
elle disse ao soberano, após magnos processos de magia, que o sonho
revelava que os deuses lhe haviam destinado certa dama por esposa, forte
de genio e habilissima na guerra, a quem mais tarde se deveria a salvação
do estado.
O anão dispunha-se a proseguir, depois de curta pausa; mas não quiz mais
ouvir o imperador; e eil-o cavalgando o ginete dos cortejos, em pompas de
comitiva festival, dirigindo-se para onde vivia a sua bella, conforme as
indicações do anãosinho. Atravessa povoados, galga montanhas, desce
valles; vôa, não corre, sua magestade; vôa nas azas da esperança, pula-lhe o
coração em mil anhelos; e assim foi dar com Tchong-Mou-In.
Imagina-se a scena. Não ha palavras que descrevam o desapontamento do
monarcha. Tremulo de indignação, rompeu logo em iras e em blasphemias;
pela mente, passaram-lhe de subito processos de torturas a exercer; e d'um
gesto esporeou a alimaria, no intuito de regressar ao seu palacio. Ah! mas o
soberano não contava que a dama, que a principio o recebera com doces
humildades de etiqueta, que a dama, expulsa embora do ceu e do convivio
dos seus deuses, ainda d'elles auferia benevolentes protecções. A dama,
n'um esgar provocante da sua face azul, arreganhando os dentes e
estendendo solemne a mão papuda, conteve d'um aceno suggestivo a furia
do cavallo, e vomitou ao cavalheiro, severos vaticinios. Gritou-lhe que
havia de casar com ella, se não quizesse alli ficar eternamente quedo;
gritou-lhe que havia de recebel-a como imperatriz, e que ao seu braço de
mulher, astuto e vigoroso todavia, teria de confiar altas emprezas. Emfim,
para encurtar razões, e apressar o fim da historia, direi que o imperador
desfez-se em cortezias e desculpas, venceu-lhe o asco e o medo, e tudo
prometteu. Não tardou que aquelle monstro feminino lhe entrasse pela casa,
rude e plebeu, endiabrado, dispensando cerimonias, transportando ella
uma noite um sonho radioso, difficil de explicar. Consultado sobre o caso
um lettrado favorito, anão por signal e muito feio, mas um poço de sciencia,
elle disse ao soberano, após magnos processos de magia, que o sonho
revelava que os deuses lhe haviam destinado certa dama por esposa, forte
de genio e habilissima na guerra, a quem mais tarde se deveria a salvação
do estado.
O anão dispunha-se a proseguir, depois de curta pausa; mas não quiz mais
ouvir o imperador; e eil-o cavalgando o ginete dos cortejos, em pompas de
comitiva festival, dirigindo-se para onde vivia a sua bella, conforme as
indicações do anãosinho. Atravessa povoados, galga montanhas, desce
valles; vôa, não corre, sua magestade; vôa nas azas da esperança, pula-lhe o
coração em mil anhelos; e assim foi dar com Tchong-Mou-In.
Imagina-se a scena. Não ha palavras que descrevam o desapontamento do
monarcha. Tremulo de indignação, rompeu logo em iras e em blasphemias;
pela mente, passaram-lhe de subito processos de torturas a exercer; e d'um
gesto esporeou a alimaria, no intuito de regressar ao seu palacio. Ah! mas o
soberano não contava que a dama, que a principio o recebera com doces
humildades de etiqueta, que a dama, expulsa embora do ceu e do convivio
dos seus deuses, ainda d'elles auferia benevolentes protecções. A dama,
n'um esgar provocante da sua face azul, arreganhando os dentes e
estendendo solemne a mão papuda, conteve d'um aceno suggestivo a furia
do cavallo, e vomitou ao cavalheiro, severos vaticinios. Gritou-lhe que
havia de casar com ella, se não quizesse alli ficar eternamente quedo;
gritou-lhe que havia de recebel-a como imperatriz, e que ao seu braço de
mulher, astuto e vigoroso todavia, teria de confiar altas emprezas. Emfim,
para encurtar razões, e apressar o fim da historia, direi que o imperador
desfez-se em cortezias e desculpas, venceu-lhe o asco e o medo, e tudo
prometteu. Não tardou que aquelle monstro feminino lhe entrasse pela casa,
rude e plebeu, endiabrado, dispensando cerimonias, transportando ella
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propria ás costas o enxoval―dois cabazes, uma thesoira, um espelho, um
pente, uma vassoura, uma bacia de lavar o rosto,―utensilios que, desde
então até hoje, como que ficaram consagrados, symbolisando do lar
domestico o nucleo indispensavel.
Tres mezes, consta, esteve o imperador alheio á convivencia da esposa,
prolongando-lhe por esta forma uma castidade fastidiosa, com que ella
provavelmente, não contava. Paciencia. Por vezes, na fria intimidade dos
salões, procurou desprestigial-a aos olhos dos vassallos. Diz-se que um dia,
reunidas a esposa e a concubina favorita, uma aposta se fez, sobre qual das
duas, em escripta, mais habil se mostrava; e para isto se combinou contar
quantos caracteres eram ellas capazes de escrever no tempo necessario para
arder de um pivete perfumado, que alguem foi collocar sobre uma urna
proxima. Do lado da favorita, cuja cultura litteraria é primorosa, estão o
imperador (o basbaque!) e dois validos; do lado da soberana, apostam tres
lettrados, e um d'elles é o anão. Eil-a, a amante, interessada vivamente no
certamen, toda olhos, toda attenção, toda adoraveis fernesis dos seus bellos
dedinhos côr de leite, que empunham o fino pincel, e correm febrilmente
sobre o papel que lhe trouxeram. A soberana, o mostrengo segredam, por
piedade, decida-se a escrever...»―A bruta não os escuta. (perdôe-se-me o
qualificativo que me occorre), face azul pousada nas manapulas, dedos
disformes enfiando pela trunfa ruiva, olho impassivel e matreiro, relanceia,
aparvalhada e immovel, a scena, e os espectadores. Sobresaltam-se os
lettrados, que adivinham, n'uma eminente surriada, o desprestigio proprio
no conceito do monarcha.―«Senhora, Repetem se, multiplicam-se as
instancias; até que finalmente, attendendo a tantas supplicas, diz
ella:―«Vão buscar aos meus aposentos um pincel.»―Voam escudeiros,
volvem breve:―«Não se encontra, Senhora!»―Ella indica que está junto
d'um armario. Os vassallos replicam:―«Perdão, não está; o que está é uma
vassoura...»―Então berra a soberana:―«Pois é isso mesmo, seus
patetas!»―E tomando da vassoura, e ensopando-a n'uma mixordia de tinta,
de que mandou encher a bacia que trouxera no enxoval, isto quando o
pivete ia chegando já ao termo, com a vassoura lambusou um enorme papel,
pente, uma vassoura, uma bacia de lavar o rosto,―utensilios que, desde
então até hoje, como que ficaram consagrados, symbolisando do lar
domestico o nucleo indispensavel.
Tres mezes, consta, esteve o imperador alheio á convivencia da esposa,
prolongando-lhe por esta forma uma castidade fastidiosa, com que ella
provavelmente, não contava. Paciencia. Por vezes, na fria intimidade dos
salões, procurou desprestigial-a aos olhos dos vassallos. Diz-se que um dia,
reunidas a esposa e a concubina favorita, uma aposta se fez, sobre qual das
duas, em escripta, mais habil se mostrava; e para isto se combinou contar
quantos caracteres eram ellas capazes de escrever no tempo necessario para
arder de um pivete perfumado, que alguem foi collocar sobre uma urna
proxima. Do lado da favorita, cuja cultura litteraria é primorosa, estão o
imperador (o basbaque!) e dois validos; do lado da soberana, apostam tres
lettrados, e um d'elles é o anão. Eil-a, a amante, interessada vivamente no
certamen, toda olhos, toda attenção, toda adoraveis fernesis dos seus bellos
dedinhos côr de leite, que empunham o fino pincel, e correm febrilmente
sobre o papel que lhe trouxeram. A soberana, o mostrengo segredam, por
piedade, decida-se a escrever...»―A bruta não os escuta. (perdôe-se-me o
qualificativo que me occorre), face azul pousada nas manapulas, dedos
disformes enfiando pela trunfa ruiva, olho impassivel e matreiro, relanceia,
aparvalhada e immovel, a scena, e os espectadores. Sobresaltam-se os
lettrados, que adivinham, n'uma eminente surriada, o desprestigio proprio
no conceito do monarcha.―«Senhora, Repetem se, multiplicam-se as
instancias; até que finalmente, attendendo a tantas supplicas, diz
ella:―«Vão buscar aos meus aposentos um pincel.»―Voam escudeiros,
volvem breve:―«Não se encontra, Senhora!»―Ella indica que está junto
d'um armario. Os vassallos replicam:―«Perdão, não está; o que está é uma
vassoura...»―Então berra a soberana:―«Pois é isso mesmo, seus
patetas!»―E tomando da vassoura, e ensopando-a n'uma mixordia de tinta,
de que mandou encher a bacia que trouxera no enxoval, isto quando o
pivete ia chegando já ao termo, com a vassoura lambusou um enorme papel,
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d'um gesto apenas; e por
milagre,―que só assim se explica tal
portento―appareceram nitidos,
sublimes, mil e mil caracteres da mais
adoravel forma caligraphica.
Na guerra, dirigindo ella mesma, em
pessoa, a turba dos guerreiros, foi colhendo victorias e engrandecendo os
seus dominios. Nos ardis, um primor.
Uma vez, convidados, imperatriz e imperador, para um banquete de
monarchas, com os quaes andavam de guerrea porfiosa, um dos nobres
apresentou aos convivas um enorme macaco que possuia, mono astuto nos
seus modos de selvagem, e eximio n'um jogo então em moda, semelhante
ao gamão dos nossos tempos.―«Senhora, ides jogar tres partidas com este
mono; se a ultima ganhardes, são vossas, nossas terras; se a perderdes...
percebeis-me?»―Trava-se o jogo em que a imperatriz não era forte, pouco
affeita a prendas de salão, e sendo notorio que nos ceus, onde passara a
juventude, o jogo é prohibido. Coragem!... Primeira partida: ganha o mono.
Segunda partida: ganha o mono. Tchong Mou-In desfalece em intimas
angustias, julga-se perdida, quando então se lembra de invocar os deuses. A
sua divina ama, que nunca a abandonára, despede do ceu um aviso visivel
só para ella:―Toma este fructo; esconde-o na manga da cabaia, de modo
que apenas o macaco dê fé d'elle, e joga resoluta.―Terceira partida: o mono
dando vista do acepipe, banana ou coisa parecida, estremece de desejos; o
trazeiro, onde parece residir a alma dos macacos, pula-lhe em sobresaltos,
em anhelos, sobre o assento da cadeira; e com a dentuça arreganhada, o
olho em braza, em arco as espessas sobrancelhas, o bestunto por certo
desvairado, balbucia gritinhos repetidos―eh, eh! eh, eh!―que irritam os
milagre,―que só assim se explica tal
portento―appareceram nitidos,
sublimes, mil e mil caracteres da mais
adoravel forma caligraphica.
Na guerra, dirigindo ella mesma, em
pessoa, a turba dos guerreiros, foi colhendo victorias e engrandecendo os
seus dominios. Nos ardis, um primor.
Uma vez, convidados, imperatriz e imperador, para um banquete de
monarchas, com os quaes andavam de guerrea porfiosa, um dos nobres
apresentou aos convivas um enorme macaco que possuia, mono astuto nos
seus modos de selvagem, e eximio n'um jogo então em moda, semelhante
ao gamão dos nossos tempos.―«Senhora, ides jogar tres partidas com este
mono; se a ultima ganhardes, são vossas, nossas terras; se a perderdes...
percebeis-me?»―Trava-se o jogo em que a imperatriz não era forte, pouco
affeita a prendas de salão, e sendo notorio que nos ceus, onde passara a
juventude, o jogo é prohibido. Coragem!... Primeira partida: ganha o mono.
Segunda partida: ganha o mono. Tchong Mou-In desfalece em intimas
angustias, julga-se perdida, quando então se lembra de invocar os deuses. A
sua divina ama, que nunca a abandonára, despede do ceu um aviso visivel
só para ella:―Toma este fructo; esconde-o na manga da cabaia, de modo
que apenas o macaco dê fé d'elle, e joga resoluta.―Terceira partida: o mono
dando vista do acepipe, banana ou coisa parecida, estremece de desejos; o
trazeiro, onde parece residir a alma dos macacos, pula-lhe em sobresaltos,
em anhelos, sobre o assento da cadeira; e com a dentuça arreganhada, o
olho em braza, em arco as espessas sobrancelhas, o bestunto por certo
desvairado, balbucia gritinhos repetidos―eh, eh! eh, eh!―que irritam os
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convivas. A mãosita felpuda ainda vae mexendo as pedras, por habito, por
dever, mas sem arte, sem intuito; e a razão foge-lhe, abandona-o―tão
imperativa é a lambarice n'estes figurões da fauna comica!―E perde a
partida decisiva!
Um parenthesis na historia. Dizia-me ha dias um companheiro de desterro,
dos raros com quem logro palestrar:―Ora vêja você quantos macacos ha
por este mundo, de gravata, e casaca, e rosa na carcella, quando não é uma
commenda, astutos no gamão e n'outras prendas varias, quasi attingindo as
alturas da audacia e do triumpho; n'um momento fatal, uma banana
qualquer, mostrada a geito, desnortea-os, allucina-os, aniquilla-os... E que,
por mais que façam, são macacos, embora a cauda se não vêja, de certo
occulta nas ceroulas, e ninguem ha que possa purgal-os, expurgal-os, do
sangue dos avós...
Continuo.
Uma das mais bellas façanhas que illustram a gloriosa mulher, se mulher é,
de quem me occupo, é a seguinte. Travava-se então renhida a lucta pelas
armas, entre varios soberanos, já com enfado de vencedores e de vencidos.
Tai-Sun ia levando a melhor nas investidas. Eis que os reis desbaratados,
unidos em conluio, julgam ir pôr termo a tão irritante situação, e muito em
seu proveito, propondo ao imperador um curioso problema.―Não nos
façaes a guerra. Aqui tendes uma perola, arrancada d'um annel; notae que
tem dois furos esta perola, communicando entre si interiormente por um
labyrintho de nove canaesinhos; se conseguis apresental-a enfiada n'uma
linha, juramos-vos a paz e a entrega por inteiro de tudo que hoje é nosso.
Irra! Em que apuros se viu o bom soberano em caso tão difficil!... Os
conselheiros ficaram-se calados, macambuzios, e nada aconselharam. Foi
então impingindo esta questão á esposa, elle, que a não beijava, nem lhe
queria, mas que em assumptos escabrosos só n'ella tinha fé. Tchong-Mou-In
recolhe-se, implora os deuses. A sua divina ama envia-lhe então do ceu uma
dever, mas sem arte, sem intuito; e a razão foge-lhe, abandona-o―tão
imperativa é a lambarice n'estes figurões da fauna comica!―E perde a
partida decisiva!
Um parenthesis na historia. Dizia-me ha dias um companheiro de desterro,
dos raros com quem logro palestrar:―Ora vêja você quantos macacos ha
por este mundo, de gravata, e casaca, e rosa na carcella, quando não é uma
commenda, astutos no gamão e n'outras prendas varias, quasi attingindo as
alturas da audacia e do triumpho; n'um momento fatal, uma banana
qualquer, mostrada a geito, desnortea-os, allucina-os, aniquilla-os... E que,
por mais que façam, são macacos, embora a cauda se não vêja, de certo
occulta nas ceroulas, e ninguem ha que possa purgal-os, expurgal-os, do
sangue dos avós...
Continuo.
Uma das mais bellas façanhas que illustram a gloriosa mulher, se mulher é,
de quem me occupo, é a seguinte. Travava-se então renhida a lucta pelas
armas, entre varios soberanos, já com enfado de vencedores e de vencidos.
Tai-Sun ia levando a melhor nas investidas. Eis que os reis desbaratados,
unidos em conluio, julgam ir pôr termo a tão irritante situação, e muito em
seu proveito, propondo ao imperador um curioso problema.―Não nos
façaes a guerra. Aqui tendes uma perola, arrancada d'um annel; notae que
tem dois furos esta perola, communicando entre si interiormente por um
labyrintho de nove canaesinhos; se conseguis apresental-a enfiada n'uma
linha, juramos-vos a paz e a entrega por inteiro de tudo que hoje é nosso.
Irra! Em que apuros se viu o bom soberano em caso tão difficil!... Os
conselheiros ficaram-se calados, macambuzios, e nada aconselharam. Foi
então impingindo esta questão á esposa, elle, que a não beijava, nem lhe
queria, mas que em assumptos escabrosos só n'ella tinha fé. Tchong-Mou-In
recolhe-se, implora os deuses. A sua divina ama envia-lhe então do ceu uma
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formiga, a primeira formiga que veiu a este mundo; e manda a verdade que
se diga que essa formiga prehistorica era um nadinha differente das
formigas contemporaneas, menos esbelta nas formas, mais bojuda. Tchong-
Mou-In comprehende o precioso auxilio: ata uma linha a meio corpo do
bichinho, leva-o assim junto da perola, junto d'um dos seus furos, por onde
se vê forçado a enfiar, não tardando que surda pelo outro, arrastando a
competente linha atraz de si. É a gloria!...
E não reparam hoje na delicadeza da formiga, leve a cintura, como a cintura
d'uma dama espartilhada? D'antes não era assim. Consigna-se o facto como
indicando ainda ás gerações presentes uma maravilhosa herança atavica, a
impressão do nó com que a linha se prendia e apertava a primeira formiga, a
formiga lendaria, a mãe de todas as formigas que hoje passeiam sobre a
terra.
Nada mais sobre o insecto. Poucas palavras apenas pelo que respeita á
soberana. Lei-San, a sua divina protectora, perdoou-lhe finalmente o
passado sorriso de motejo, que valia uma injuria; despiu-a da pelle
monstruosa que lhe dera, por expiação do seu peccado, restituiu-lhe a
peregrina belleza que lhe era propria... O imperador, antes que a consorte
volvesse aos seus labores divinos, poude vêl-a, e por longos annos, no
completo esplendor dos seus enlevos. O imperador, que já lhe tributava
incondicional veneração, graças aos seus prodigios, que tanta ventura lhe
trouxeram, e prosperidade ao imperio, poude então tambem amal-a, amal-a
apaixonadamente, embevecido em tanta graça, em tanta formosura. Imagine
quem quizer como áquelles amorosos as horas iriam correndo encantadoras,
na serenidade mysteriosa do palacio, cingido por muralhas de marmore, e
rodeado de jardins, e no afan de festejarem aquella lua de mel, tardia
embora, que lhes apparecia no horisonte!...
1899.
se diga que essa formiga prehistorica era um nadinha differente das
formigas contemporaneas, menos esbelta nas formas, mais bojuda. Tchong-
Mou-In comprehende o precioso auxilio: ata uma linha a meio corpo do
bichinho, leva-o assim junto da perola, junto d'um dos seus furos, por onde
se vê forçado a enfiar, não tardando que surda pelo outro, arrastando a
competente linha atraz de si. É a gloria!...
E não reparam hoje na delicadeza da formiga, leve a cintura, como a cintura
d'uma dama espartilhada? D'antes não era assim. Consigna-se o facto como
indicando ainda ás gerações presentes uma maravilhosa herança atavica, a
impressão do nó com que a linha se prendia e apertava a primeira formiga, a
formiga lendaria, a mãe de todas as formigas que hoje passeiam sobre a
terra.
Nada mais sobre o insecto. Poucas palavras apenas pelo que respeita á
soberana. Lei-San, a sua divina protectora, perdoou-lhe finalmente o
passado sorriso de motejo, que valia uma injuria; despiu-a da pelle
monstruosa que lhe dera, por expiação do seu peccado, restituiu-lhe a
peregrina belleza que lhe era propria... O imperador, antes que a consorte
volvesse aos seus labores divinos, poude vêl-a, e por longos annos, no
completo esplendor dos seus enlevos. O imperador, que já lhe tributava
incondicional veneração, graças aos seus prodigios, que tanta ventura lhe
trouxeram, e prosperidade ao imperio, poude então tambem amal-a, amal-a
apaixonadamente, embevecido em tanta graça, em tanta formosura. Imagine
quem quizer como áquelles amorosos as horas iriam correndo encantadoras,
na serenidade mysteriosa do palacio, cingido por muralhas de marmore, e
rodeado de jardins, e no afan de festejarem aquella lua de mel, tardia
embora, que lhes apparecia no horisonte!...
1899.
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OS DIABOS E OS VELHOS
A Nuno Queriol
Falla a lenda japoneza.
Era uma vez um velho, que tinha um
enorme lobinho sobre a cara, na face
por signal. Certo dia, achava-se elle na
montanha, a cortar lenha―era esta a
sua humilde profissão,―quando o
surprehendeu uma terrivel tempestade,
chuva a potes, ventania desabalada, o
raio faiscando nas alturas; tão terrivel,
que se viu obrigado a ficar por
aquelles sitios e a buscar um abrigo para a noite. Abrigo, na floresta, era
difficil problema; um grande tronco de arvore, escavado pelos seculos,
offereceu-lhe a unica guarida.
No seu posto, agachado e sem poder dormir, foi o velho passando tristes
horas. Alta noite, principiou a dar razão d'um estranho vozear, longe a
principio, mas pouco a pouco avisinhando-se-lhe―«Olá, resmungou, tanta
gente por aqui, e eu que contava achar-me só?...»―E pôz-se a espreitar,
curiosamente, sem sombra de receio.
O que o velho então viu, muito a custo, á luz fugidia dos relampagos, mal
póde imaginar-se. Uma numerosa sociedade approximava-se; mas nunca ao
velho apparecera tão estranha sociedade como aquella. Era um bando
immenso de patuscos, de diabos incontestavelmente, medonhos nos
aspectos: uns, encarnados, vestidos de kimonos verdes; outros, negros,
vestidos de kimonos encarnados; a um faltava um olho; a outros o nariz;
A Nuno Queriol
Falla a lenda japoneza.
Era uma vez um velho, que tinha um
enorme lobinho sobre a cara, na face
por signal. Certo dia, achava-se elle na
montanha, a cortar lenha―era esta a
sua humilde profissão,―quando o
surprehendeu uma terrivel tempestade,
chuva a potes, ventania desabalada, o
raio faiscando nas alturas; tão terrivel,
que se viu obrigado a ficar por
aquelles sitios e a buscar um abrigo para a noite. Abrigo, na floresta, era
difficil problema; um grande tronco de arvore, escavado pelos seculos,
offereceu-lhe a unica guarida.
No seu posto, agachado e sem poder dormir, foi o velho passando tristes
horas. Alta noite, principiou a dar razão d'um estranho vozear, longe a
principio, mas pouco a pouco avisinhando-se-lhe―«Olá, resmungou, tanta
gente por aqui, e eu que contava achar-me só?...»―E pôz-se a espreitar,
curiosamente, sem sombra de receio.
O que o velho então viu, muito a custo, á luz fugidia dos relampagos, mal
póde imaginar-se. Uma numerosa sociedade approximava-se; mas nunca ao
velho apparecera tão estranha sociedade como aquella. Era um bando
immenso de patuscos, de diabos incontestavelmente, medonhos nos
aspectos: uns, encarnados, vestidos de kimonos verdes; outros, negros,
vestidos de kimonos encarnados; a um faltava um olho; a outros o nariz;
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alguns não tinham bocca. Pozeram-se
a accender uma fogueira enorme, com
palha, com folhas, com cavacos que
encontraram; e as chammas
sinistramente os patentearam.
Acocorados em torno da fogueira, em
duas filas, bebendo saké em amigavel
reinação, pareciam mesmo gente, os
taes demonios. A vasilha ia passando á
roda, de garra em garra, entre os
convivas; e tantas voltas deu, e
renovada tantas vezes foi, que jâ não
tinham conto as bebedeiras. Um dos
mais jovens assistentes ergueu-se
como poude, e começou uma cantiga,
dançando ao mesmo tempo; os outros
imitaram-n'o. Era então extremamente
emocionante a vista da paizagem: a
fogueira, ateada pelas rajadas
successivas, alastrava-se e subia,
furiosa, até ás nuvens, em turbilhões
de fumo e labaredas, e ia alumiando
diabolicamente a scena
inteira―ramarias de bambus e de
pinheiros, profundezas de bosques,
penedos gottejantes, torrentes
espumosas, e ainda a turba immensa dos diabos esbravejando em mimicas
atrozes―Uns rodopiaram em vertiginosas piruetas; outros iam gravemente
alçando a perna e ensaiando minuetes; outros, immoveis, ou antes querendo
assim quedar-se, ondulavam em bordos grotescos de borrachos; e de colina
em colina os echos repetiam os torvos descantes em falsete, de mistura com
as lamentações das arvores açoitadas pelo vento, e a salva de artilharia dos
trovões. Berrava uma vóz esganiçada: «Que grande reinação! mas bem
quizera vêr mais alguma novidade!...»―
a accender uma fogueira enorme, com
palha, com folhas, com cavacos que
encontraram; e as chammas
sinistramente os patentearam.
Acocorados em torno da fogueira, em
duas filas, bebendo saké em amigavel
reinação, pareciam mesmo gente, os
taes demonios. A vasilha ia passando á
roda, de garra em garra, entre os
convivas; e tantas voltas deu, e
renovada tantas vezes foi, que jâ não
tinham conto as bebedeiras. Um dos
mais jovens assistentes ergueu-se
como poude, e começou uma cantiga,
dançando ao mesmo tempo; os outros
imitaram-n'o. Era então extremamente
emocionante a vista da paizagem: a
fogueira, ateada pelas rajadas
successivas, alastrava-se e subia,
furiosa, até ás nuvens, em turbilhões
de fumo e labaredas, e ia alumiando
diabolicamente a scena
inteira―ramarias de bambus e de
pinheiros, profundezas de bosques,
penedos gottejantes, torrentes
espumosas, e ainda a turba immensa dos diabos esbravejando em mimicas
atrozes―Uns rodopiaram em vertiginosas piruetas; outros iam gravemente
alçando a perna e ensaiando minuetes; outros, immoveis, ou antes querendo
assim quedar-se, ondulavam em bordos grotescos de borrachos; e de colina
em colina os echos repetiam os torvos descantes em falsete, de mistura com
as lamentações das arvores açoitadas pelo vento, e a salva de artilharia dos
trovões. Berrava uma vóz esganiçada: «Que grande reinação! mas bem
quizera vêr mais alguma novidade!...»―
Page 61
Mettido no seu esconderijo, o rachador de lenha passou por todos os
tormentos que o espanto, o susto e o desamparo juntos produzem no animo
d'um velho. Por fim, passadas horas, ia já folgando na festa―ou não fosse
elle japonez!―e tal poder teve sobre elle a bambochata, que lhe venceu
escrupulos e temores, e o levou a esta resolução formal.―«Matem-me
embora estes diabos, se quizerem, mas pretendo tambem ir
pandigar!»―Surdindo então da tóca, barrete enfiado até ás orelhas,
machadinha suspensa da cintura, ei-lo a reunir-se á malta, a dar as boas-
noites e a ensaiar passos de dança. Foi agora a vez de se espantarem os
demonios; mas tão comico era o velho, no seu pobre corpinho corcovado,
avançando em meneios, e recuando após, e virando-se para a direita em
cortezias, e voltando-se para a esquerda em reverencias, e traçando no ar,
com o pé descalço, estupendas parabolas coreographicas, que desataram
todos em risóta, gritando:―«Viva o velho! muito bem! que bem dança o
velho!»―E proseguiram depois, n'este proposito:―«Queremos que tomes
sempre parte em nossas festas, por seres mui reinadio; mas, como póde
acontecer que não pretendas voltar mais, vaes deixar-nos um penhor de que
acederás a este convite.»―
tormentos que o espanto, o susto e o desamparo juntos produzem no animo
d'um velho. Por fim, passadas horas, ia já folgando na festa―ou não fosse
elle japonez!―e tal poder teve sobre elle a bambochata, que lhe venceu
escrupulos e temores, e o levou a esta resolução formal.―«Matem-me
embora estes diabos, se quizerem, mas pretendo tambem ir
pandigar!»―Surdindo então da tóca, barrete enfiado até ás orelhas,
machadinha suspensa da cintura, ei-lo a reunir-se á malta, a dar as boas-
noites e a ensaiar passos de dança. Foi agora a vez de se espantarem os
demonios; mas tão comico era o velho, no seu pobre corpinho corcovado,
avançando em meneios, e recuando após, e virando-se para a direita em
cortezias, e voltando-se para a esquerda em reverencias, e traçando no ar,
com o pé descalço, estupendas parabolas coreographicas, que desataram
todos em risóta, gritando:―«Viva o velho! muito bem! que bem dança o
velho!»―E proseguiram depois, n'este proposito:―«Queremos que tomes
sempre parte em nossas festas, por seres mui reinadio; mas, como póde
acontecer que não pretendas voltar mais, vaes deixar-nos um penhor de que
acederás a este convite.»―
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Consultaram-se entre si, e decidiram da consulta, extrahir-lhe o lobinho;
muita gente do povo, é notorio, considera este achaque como um valioso
talisman para ser-se afortunado. Eil-os pois, olhos attentos, braços nús,
dedos palpando, lancetas e tenazes em acção; e o velho estendido sobre o
solo, um segura-lhe uma perna, um outro a outra, outro prende-lhe os
braços, outro delicadamente ampara-lhe a cabeça; e sairam-se do caso com
limpeza, não causando a menor dôr ao paciente. Depois, fôram guardar o
lobinho n'um estojo.
Quando, sereno já o tempo, rompeu a madrugada, uma bella madrugada côr
de rosa, e os pardaes começaram a papear nas ramarias, desappareceu então
a malta dos demonios. O velho desceu á sua aldeia. Entrou em casa muito
contente, ainda um tanto estonteado da bebida, sem o lobinho é claro, com a
sua face muito lisa, sem o minimo defeito. O caso maravilhou com razão a
companheira, e a gente conhecida. Ia-se servindo o chá pela familia e pelos
curiosos que accorriam, sobre a esteira, junto do brazeiro; e era uma chuva
de exclamações e de perguntas, que obrigaram o velho a explicar, nos seus
detalhes surprehendentes, as peripecias da estranha noite que passára na
muita gente do povo, é notorio, considera este achaque como um valioso
talisman para ser-se afortunado. Eil-os pois, olhos attentos, braços nús,
dedos palpando, lancetas e tenazes em acção; e o velho estendido sobre o
solo, um segura-lhe uma perna, um outro a outra, outro prende-lhe os
braços, outro delicadamente ampara-lhe a cabeça; e sairam-se do caso com
limpeza, não causando a menor dôr ao paciente. Depois, fôram guardar o
lobinho n'um estojo.
Quando, sereno já o tempo, rompeu a madrugada, uma bella madrugada côr
de rosa, e os pardaes começaram a papear nas ramarias, desappareceu então
a malta dos demonios. O velho desceu á sua aldeia. Entrou em casa muito
contente, ainda um tanto estonteado da bebida, sem o lobinho é claro, com a
sua face muito lisa, sem o minimo defeito. O caso maravilhou com razão a
companheira, e a gente conhecida. Ia-se servindo o chá pela familia e pelos
curiosos que accorriam, sobre a esteira, junto do brazeiro; e era uma chuva
de exclamações e de perguntas, que obrigaram o velho a explicar, nos seus
detalhes surprehendentes, as peripecias da estranha noite que passára na
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montanha.
Ora, havia entre os visinhos presentes um outro velho, que tinha um enorme
lobinho sobre a cara, na face esquerda por signal. Muito calado, assim com
ares de não prestar ouvidos á palestra, ia em mente, o finorio, retendo todas
as minucias. Não partilhando das crendices da gentalha, pelo contrario,
desejoso de vêr-se livre do tortulho, ia já estudando a maneira de entregar-
se nas mãos de tão sabios curandeiros. Eil-o pois, por uma noite escura,
caminho da montanha; seguidamente, eil-o abrigado sob o mesmo tronco de
arvore, á espreita dos diabos. Não faltaram. Começou a
bambochata,―risota, dança, vinho.―Juntou-se então aos demonios, a
medo, um outro figurão.―«Olá, cá está de novo o velho! voltou, e vem
dançar!»―Dançou, effectivamente, e sem ser muito rogado; mas era um
desastrado; e tão mal desempenhou o seu papel, tão falto de geito e de
pilheria, que os demonios, tomando-o sempre pelo conviva primitivo,
zangaram-se e disseram-lhe:―«Enganaste-nos, brejeiro! és um grande
desgeitoso; devolvemos-te o penhor que nos deixaste e aconselhamos-te a
que não pises mais este logar.»―Um da chusma foi buscar o lobinho, e zaz!
pespegou com elle na face direita do sujeito. Saira de casa com um, e voltou
com dois, um lobinho em cada face. Pode imaginar-se o desapontamento do
sujeito e a hilaridade dos visinhos. Parece que, na aldeia, durante semanas e
semanas, paralysou todo o trabalho; os velhos, as velhas, as raparigas, os
garotos, não faziam senão rir, rir a bandeiras despregadas,―e o caso não era
para menos!―
1899.
PAU-MAN-CHEN
Ora, havia entre os visinhos presentes um outro velho, que tinha um enorme
lobinho sobre a cara, na face esquerda por signal. Muito calado, assim com
ares de não prestar ouvidos á palestra, ia em mente, o finorio, retendo todas
as minucias. Não partilhando das crendices da gentalha, pelo contrario,
desejoso de vêr-se livre do tortulho, ia já estudando a maneira de entregar-
se nas mãos de tão sabios curandeiros. Eil-o pois, por uma noite escura,
caminho da montanha; seguidamente, eil-o abrigado sob o mesmo tronco de
arvore, á espreita dos diabos. Não faltaram. Começou a
bambochata,―risota, dança, vinho.―Juntou-se então aos demonios, a
medo, um outro figurão.―«Olá, cá está de novo o velho! voltou, e vem
dançar!»―Dançou, effectivamente, e sem ser muito rogado; mas era um
desastrado; e tão mal desempenhou o seu papel, tão falto de geito e de
pilheria, que os demonios, tomando-o sempre pelo conviva primitivo,
zangaram-se e disseram-lhe:―«Enganaste-nos, brejeiro! és um grande
desgeitoso; devolvemos-te o penhor que nos deixaste e aconselhamos-te a
que não pises mais este logar.»―Um da chusma foi buscar o lobinho, e zaz!
pespegou com elle na face direita do sujeito. Saira de casa com um, e voltou
com dois, um lobinho em cada face. Pode imaginar-se o desapontamento do
sujeito e a hilaridade dos visinhos. Parece que, na aldeia, durante semanas e
semanas, paralysou todo o trabalho; os velhos, as velhas, as raparigas, os
garotos, não faziam senão rir, rir a bandeiras despregadas,―e o caso não era
para menos!―
1899.
PAU-MAN-CHEN
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A Antonio Baldaque da Silva.
Scena domestica. Lá está o meu cosinheiro a bater cabeça, como se diz
n'este Macau; lá está elle rezando aos seus deuses protectores. Que lhe
preste! Acabou de me roubar nas contas, como bom chinez que é,
serenamente aggressivo em tudo ao europeu; e passou a entregar-se a esta
outra occupação não menos meritoria.
Sendo seus os aposentos inferiores, é ali rei, ou pelo menos mandarim; faz o
que quer. Os altares aos deuses anicham-se pelas paredes, aos cantos do
sobrado, sobre as mesas; e até junto ao fogão, onde se guisa o meu jantar, se
presta culto a supinas divindades. Mysteriosos ritos. São papeis encarnados,
contendo cabalisticos dizeres; são figuras de horriveis monstros, coloridas
pelas tintas mais surprehendentes, nas disposições
mais grotescas, despertando quasi o riso, despertando
quasi o medo, a quem não vive em graça em tal
Olympo. Alli o cosinheiro, em humildes genuflexões
de crente, vem depôr suas offertas, minhas offertas,
pois sou eu que pago a festa,―offertas de laranjas, de
doces, de chá, de porco assado e de outras
iguarias.―Alli ardem lumes mysticos; e
frequentemente, pela noite, como agora, se queimam
pivetes, cirios rubros, rezinas e papeis, de tudo
emanando um fumo atróz, que invade em torvelino a
casa toda, que chega sem respeito ao sitio onde me
encontro, e me soffoca. Paciencia! Paciencia é o unico
codigo de conducta para o aventureiro que escolheu para exilio um canto
exotico, longe, muito longe do torrão onde nasceu, e no qual a civilisação
disparatada, a feição propria das gentes com quem lida, hão-de fatalmente
apresentar-se, dominantes.
Os deuses, com quem por assim dizer vivo em contacto, e a cuja sublime
protecção, posto que indirectamente, me confio, são muitos, um enxame. É
todo o Olympo buddhista e o inteiro mytho primitivo, amalgamados em
crendices; legiões de espiritos. Naturalmente, ha uns mais preferidos, que se
Scena domestica. Lá está o meu cosinheiro a bater cabeça, como se diz
n'este Macau; lá está elle rezando aos seus deuses protectores. Que lhe
preste! Acabou de me roubar nas contas, como bom chinez que é,
serenamente aggressivo em tudo ao europeu; e passou a entregar-se a esta
outra occupação não menos meritoria.
Sendo seus os aposentos inferiores, é ali rei, ou pelo menos mandarim; faz o
que quer. Os altares aos deuses anicham-se pelas paredes, aos cantos do
sobrado, sobre as mesas; e até junto ao fogão, onde se guisa o meu jantar, se
presta culto a supinas divindades. Mysteriosos ritos. São papeis encarnados,
contendo cabalisticos dizeres; são figuras de horriveis monstros, coloridas
pelas tintas mais surprehendentes, nas disposições
mais grotescas, despertando quasi o riso, despertando
quasi o medo, a quem não vive em graça em tal
Olympo. Alli o cosinheiro, em humildes genuflexões
de crente, vem depôr suas offertas, minhas offertas,
pois sou eu que pago a festa,―offertas de laranjas, de
doces, de chá, de porco assado e de outras
iguarias.―Alli ardem lumes mysticos; e
frequentemente, pela noite, como agora, se queimam
pivetes, cirios rubros, rezinas e papeis, de tudo
emanando um fumo atróz, que invade em torvelino a
casa toda, que chega sem respeito ao sitio onde me
encontro, e me soffoca. Paciencia! Paciencia é o unico
codigo de conducta para o aventureiro que escolheu para exilio um canto
exotico, longe, muito longe do torrão onde nasceu, e no qual a civilisação
disparatada, a feição propria das gentes com quem lida, hão-de fatalmente
apresentar-se, dominantes.
Os deuses, com quem por assim dizer vivo em contacto, e a cuja sublime
protecção, posto que indirectamente, me confio, são muitos, um enxame. É
todo o Olympo buddhista e o inteiro mytho primitivo, amalgamados em
crendices; legiões de espiritos. Naturalmente, ha uns mais preferidos, que se
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invocam no lar com mais piedoso amor; n'este numero, segundo
informações recentes que colhi, deve contar-se Pau-Man-Chen; e é a sua
historia maravilhosa que me proponho narrar, como puder.
O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso imperio, tem uma
face branca e tem uma face preta. Na China não ha effectivamente ninguem
que não o adore, que não lhe preste no altar domestico, o culto merecido; a
elle, que tudo sabe e tudo pode, que possue a sciencia do bem e a sciencia
do mal, que com um olho contempla os ceus e as grandes coisas puras, e
com o outro mira O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso
imperio, tem uma face branca e tem uma face preta. Na China não ha
effectivamente ninguem que não o adore, que não lhe preste no altar
domestico, o culto merecido; a elle, que tudo sabe e tudo pode, que possue a
sciencia do bem e a sciencia do mal, que com um olho contempla os ceus e
as grandes coisas puras, e com o outro mira a terra profunda até aos antros
lobregos dos demonios, adevinha-lhes os maleficos designos. O deus Pau-
Man-Chen tem uma face branca e tem outra face preta...
Ha não sei quantos mil annos, morreu não sei aonde, uma mulher casada. O
marido, não resta duvida, procedeu segundo o ritual do estylo, e mandou
depositar o caixão n'um solitario templo. Mal imaginava elle que a defunta
seguia gravida no esquife; e mal imaginava que o menino, que se occultava
no seu ventre, ia votado a altos destinos...
Foi por aquella epocha, n'uma mercearia do sitio, que começou sendo
informações recentes que colhi, deve contar-se Pau-Man-Chen; e é a sua
historia maravilhosa que me proponho narrar, como puder.
O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso imperio, tem uma
face branca e tem uma face preta. Na China não ha effectivamente ninguem
que não o adore, que não lhe preste no altar domestico, o culto merecido; a
elle, que tudo sabe e tudo pode, que possue a sciencia do bem e a sciencia
do mal, que com um olho contempla os ceus e as grandes coisas puras, e
com o outro mira O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso
imperio, tem uma face branca e tem uma face preta. Na China não ha
effectivamente ninguem que não o adore, que não lhe preste no altar
domestico, o culto merecido; a elle, que tudo sabe e tudo pode, que possue a
sciencia do bem e a sciencia do mal, que com um olho contempla os ceus e
as grandes coisas puras, e com o outro mira a terra profunda até aos antros
lobregos dos demonios, adevinha-lhes os maleficos designos. O deus Pau-
Man-Chen tem uma face branca e tem outra face preta...
Ha não sei quantos mil annos, morreu não sei aonde, uma mulher casada. O
marido, não resta duvida, procedeu segundo o ritual do estylo, e mandou
depositar o caixão n'um solitario templo. Mal imaginava elle que a defunta
seguia gravida no esquife; e mal imaginava que o menino, que se occultava
no seu ventre, ia votado a altos destinos...
Foi por aquella epocha, n'uma mercearia do sitio, que começou sendo
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notado, com justo sobresalto do dono da quitanda, o caso que vou expôr.
Fazia-se sem novidade a venda, dia a dia; mas, quando pela manhã se dava
balanço ás contas e ao dinheiro, encontrava-se sempre, de mistura com o
monte das sapecas, dois d'esses papelitos amarellos, com a competente
mancha prateada, que são nada menos do que a moeda corrente entre as
almas do outro mundo, nas suas transacções... Era prova clarissima de que
andava por alli coisa sobrenatural,―bruxaria, visita de phantasmas, ou
outro mysterio parecido.―Estudou-se o caso
attentamente e com bem justificaveis ancias de terror;
observaram-se os freguezes, um por um. Chegou-se
por fim á conclusão de que, em tal enigma, andava por
certo envolvido aquelle vulto de mulher de maneiras
suspeitosas, trazendo uma creança no regaço, e
chegando-se todas as noites ao balcão para comprar
um bolo, que offerecia ao pequerrucho. Aos cobres,
que largava das mãos lividas, cadavericas, não havia
nada que dizer-se; eram excellentes; mas quem ignora
que de noite todos os bruxedos são possiveis, e é a luz
fraca do dia que seguidamente os desmascara?... O
patrão (os tendeiros do mundo inteiro, e desde seculos
sem conto, são homens de raro engenho), o patrão,
certa noite, conseguiu sem ser sentido, atar um longo fio á ponta da cabaia
da fregueza; e quando ella se ausentou, pôz-se a largar o fio, á medida dos
seus passos. No dia seguinte, facilmente o finorio percorreu a linha de
trajecto da mysteriosa caminheira; e foi assim esbarrar, no termo do passeio,
com o caixão da defunta, de que atraz se fez mensão. Do caso, sem
detenças, correu a dar parte ao viuvo, de quem era conhecido.
Acercam-se o viuvo e um bando de curiosos, do esquife, e abrem-n'o, ao
pasmo de todos. Scena extranha! Sobre os farrapos descoloridos, humidos,
fetidos, pasto de vermes,―quem já, dos que me lêem, poisou os olhos no
espectaculo d'uma tumba escancarada?―lá está estendida a esposa, e lá está
um menino. Vivo? sim. Viva? viva parece, d'uma existencia sobrenatural
embora; mas como ninguem d'ella cuidasse, alli ficou jazendo para sempre.
As attenções, os carinhos, convergem para o menino; o pae estende-lhe os
braços, arranca-o á desolação d'aquelle leito, chama-o á vida, á sociedade,
ao mundo.
Fazia-se sem novidade a venda, dia a dia; mas, quando pela manhã se dava
balanço ás contas e ao dinheiro, encontrava-se sempre, de mistura com o
monte das sapecas, dois d'esses papelitos amarellos, com a competente
mancha prateada, que são nada menos do que a moeda corrente entre as
almas do outro mundo, nas suas transacções... Era prova clarissima de que
andava por alli coisa sobrenatural,―bruxaria, visita de phantasmas, ou
outro mysterio parecido.―Estudou-se o caso
attentamente e com bem justificaveis ancias de terror;
observaram-se os freguezes, um por um. Chegou-se
por fim á conclusão de que, em tal enigma, andava por
certo envolvido aquelle vulto de mulher de maneiras
suspeitosas, trazendo uma creança no regaço, e
chegando-se todas as noites ao balcão para comprar
um bolo, que offerecia ao pequerrucho. Aos cobres,
que largava das mãos lividas, cadavericas, não havia
nada que dizer-se; eram excellentes; mas quem ignora
que de noite todos os bruxedos são possiveis, e é a luz
fraca do dia que seguidamente os desmascara?... O
patrão (os tendeiros do mundo inteiro, e desde seculos
sem conto, são homens de raro engenho), o patrão,
certa noite, conseguiu sem ser sentido, atar um longo fio á ponta da cabaia
da fregueza; e quando ella se ausentou, pôz-se a largar o fio, á medida dos
seus passos. No dia seguinte, facilmente o finorio percorreu a linha de
trajecto da mysteriosa caminheira; e foi assim esbarrar, no termo do passeio,
com o caixão da defunta, de que atraz se fez mensão. Do caso, sem
detenças, correu a dar parte ao viuvo, de quem era conhecido.
Acercam-se o viuvo e um bando de curiosos, do esquife, e abrem-n'o, ao
pasmo de todos. Scena extranha! Sobre os farrapos descoloridos, humidos,
fetidos, pasto de vermes,―quem já, dos que me lêem, poisou os olhos no
espectaculo d'uma tumba escancarada?―lá está estendida a esposa, e lá está
um menino. Vivo? sim. Viva? viva parece, d'uma existencia sobrenatural
embora; mas como ninguem d'ella cuidasse, alli ficou jazendo para sempre.
As attenções, os carinhos, convergem para o menino; o pae estende-lhe os
braços, arranca-o á desolação d'aquelle leito, chama-o á vida, á sociedade,
ao mundo.
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A lenda popular completa esta curiosa historia pela maneira que vae vêr-se.
A defunta, alli amortalhada, alli estendida sobre as tabuas, foi mãe, não sei
por que milagre―não se discutem milagres.―O resto explica-se melhor: o
mysterio psychico da maternidade, isso que nas mães se patenteia como
uma força immensa, sem limites no affecto, sem barreiras nos zelos, capaz
de todos os arrojos, poude aninhar-se n'aquelle corpo
inerte, e imprimir vontade áquelle feixe de ossos. Aos
primeiros vagidos da creança, o cadaver pôz-se a
contemplar os proprios seios murchos, pendentes,
vazios de seiva, roïdos pelos bichos. O cadaver
moveu-se então, galvanisado pelo amor―qualquer
cadaver de mãe, n'aquellas condições, faria o
mesmo;―começou a dar pontapés no impossivel;
partiu a murros as paredes do seu carcere; e apertando
de encontro aos ossos o filhito, e embrulhando-se
discretamente na mortalha, foi a correr comprar um
bolo á venda proxima. A creança assim foi medrando, passando os dias
n'aquelle estranho berço. Foi por isso que ficou com uma face branca, a que
voltava para a luz e para o ceu, e com uma face preta, a que poisava na
sombra, de encontro á terra negra. De então lhe veio o duplo condão de
conhecer o bem e de conhecer o mal, de vêr com um olho os deuses, e com
um olho os demonios. Pelo correr dos annos, foi mandarim de modestos
logarejos, pois lhe sobrava asco pelas riquezas, pelo fausto e pelos altos
cargos. Os nobres senhores, o proprio imperador que muito o honrava,
tremiam do seu juizo. Lia nas consciencias e lia nos destinos. Distinguia na
turba os humildes, os bons, os opprimidos; e tambem os impostores, os
verdugos, os infames. Premiava as virtudes, azorragava os vicios. Os
desmandos da côrte, a rapina dos ministros, os mexericos das concubinas,
fôram por elle desmascarados e punidos. Assim viveu por longos tempos
este grotesco e sublime figurão; assim passou por todo o imperio, para
gloria da China e para consolação dos offendidos. O povo punha de parte os
labores e vinha prostrar-se em saudações á borda das estradas, ao vêl-o
A defunta, alli amortalhada, alli estendida sobre as tabuas, foi mãe, não sei
por que milagre―não se discutem milagres.―O resto explica-se melhor: o
mysterio psychico da maternidade, isso que nas mães se patenteia como
uma força immensa, sem limites no affecto, sem barreiras nos zelos, capaz
de todos os arrojos, poude aninhar-se n'aquelle corpo
inerte, e imprimir vontade áquelle feixe de ossos. Aos
primeiros vagidos da creança, o cadaver pôz-se a
contemplar os proprios seios murchos, pendentes,
vazios de seiva, roïdos pelos bichos. O cadaver
moveu-se então, galvanisado pelo amor―qualquer
cadaver de mãe, n'aquellas condições, faria o
mesmo;―começou a dar pontapés no impossivel;
partiu a murros as paredes do seu carcere; e apertando
de encontro aos ossos o filhito, e embrulhando-se
discretamente na mortalha, foi a correr comprar um
bolo á venda proxima. A creança assim foi medrando, passando os dias
n'aquelle estranho berço. Foi por isso que ficou com uma face branca, a que
voltava para a luz e para o ceu, e com uma face preta, a que poisava na
sombra, de encontro á terra negra. De então lhe veio o duplo condão de
conhecer o bem e de conhecer o mal, de vêr com um olho os deuses, e com
um olho os demonios. Pelo correr dos annos, foi mandarim de modestos
logarejos, pois lhe sobrava asco pelas riquezas, pelo fausto e pelos altos
cargos. Os nobres senhores, o proprio imperador que muito o honrava,
tremiam do seu juizo. Lia nas consciencias e lia nos destinos. Distinguia na
turba os humildes, os bons, os opprimidos; e tambem os impostores, os
verdugos, os infames. Premiava as virtudes, azorragava os vicios. Os
desmandos da côrte, a rapina dos ministros, os mexericos das concubinas,
fôram por elle desmascarados e punidos. Assim viveu por longos tempos
este grotesco e sublime figurão; assim passou por todo o imperio, para
gloria da China e para consolação dos offendidos. O povo punha de parte os
labores e vinha prostrar-se em saudações á borda das estradas, ao vêl-o
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atravessar cidades e campinas, galgar os montes e
descer os valles, sempre incansavel, seguindo a largos
passos, como se fosse um procurador atarefado com
demandas. Fluctuava-lhe ao vento a longa cabaia
esfarrapada, suja de lama e de poeira dos caminhos; a
mão adunca brandia um baculo nodoso; as pupillas
chammejavam iracundas; o corpo ossudo definia-se,
na magestade façanhuda dos gestos arrogantes, nos
compridos bigodes de asiatico, pendentes como
franjas, na barba aberta em leque, chegando-lhe á
barriga, e na disformidade do rosto pintado a duas
côres, branca uma face e outra face preta. Um bello
dia safou-se d'este mundo; mas lá anda no outro, certamente, espreitando cá
para baixo, e não largando de mão o seu fadario.
1899
A CARICATURA NO JAPÃO
a Camillo Pessanha e João Vasco.
Grande coisa, meus senhores, é ter engenho!.. Eu não me gabo muito d'esta
prenda, confesso-o francamente; mas tive ha pouco azo de julgar pela
propria consciencia―mercê d'um rasgo excepcional do meu
bestunto―quanto vale uma boa idea; e conclui que a felicidade humana
seria coisa facil, se uma impulsão sagaz do espirito fôsse guiando sempre os
nossos passos n'este mundo. E assim fica satisfatoriamente justificada,
penso eu, a exclamação com que enceto estas divagações, escriptas por uma
noite fria de janeiro, no meu gabinete silencioso, na cidade de Kobe, no
Japão.
descer os valles, sempre incansavel, seguindo a largos
passos, como se fosse um procurador atarefado com
demandas. Fluctuava-lhe ao vento a longa cabaia
esfarrapada, suja de lama e de poeira dos caminhos; a
mão adunca brandia um baculo nodoso; as pupillas
chammejavam iracundas; o corpo ossudo definia-se,
na magestade façanhuda dos gestos arrogantes, nos
compridos bigodes de asiatico, pendentes como
franjas, na barba aberta em leque, chegando-lhe á
barriga, e na disformidade do rosto pintado a duas
côres, branca uma face e outra face preta. Um bello
dia safou-se d'este mundo; mas lá anda no outro, certamente, espreitando cá
para baixo, e não largando de mão o seu fadario.
1899
A CARICATURA NO JAPÃO
a Camillo Pessanha e João Vasco.
Grande coisa, meus senhores, é ter engenho!.. Eu não me gabo muito d'esta
prenda, confesso-o francamente; mas tive ha pouco azo de julgar pela
propria consciencia―mercê d'um rasgo excepcional do meu
bestunto―quanto vale uma boa idea; e conclui que a felicidade humana
seria coisa facil, se uma impulsão sagaz do espirito fôsse guiando sempre os
nossos passos n'este mundo. E assim fica satisfatoriamente justificada,
penso eu, a exclamação com que enceto estas divagações, escriptas por uma
noite fria de janeiro, no meu gabinete silencioso, na cidade de Kobe, no
Japão.
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Vamos ao facto. Ah, pobre espirito enferrujado pelos azedumes da
existencia, gasto pela longa fricção das coisas e dos homens, soffrendo pela
dôr do passado, pela insipidez do presente e pelas tristes promessas do
futuro! como tu, meu pobre espirito, cahiras na quasi insania, consciente, e
por isso mesmo mais penosa, d'aquelles para quem, por mal dos seus
peccados, a vida se vae tornando toda um immenso enfado... Morbidez de
temperamento? incompetencia ingenita para a lucta? fadiga, após os mil
baldões da sorte? pouco importa; não vale a pena agora desenredar esta
meada. Passava, e passo ainda, longas horas do dia junto da minha
secretaria; é este o meu officio. Alguem, que entrasse, via-me grave,
correcto, rodeado de livros e papeis, e até, presumo,―perdôem-me a
vaidade―talvez me atribuisse uns certos ares de sabio, em cuja mente
magnos problemas se iam sublimando. Só, bem só, entre quatro paredes
discretas, desfallecia; o olhar vago fixava-se no nada, todo o meu ser se
inutilizava, perdia-se em abstracções, desinteressado da realidade, de mim
mesmo, morto,―porque ha para alguns uma morte percursora d'aquella que
roe na tumba a febra e põe a nú os ossos brancos do esqueleto.―E vae
então, um bello dia, achando-me casualmente n'um bazar de Osaka, compro
uma figurinha de barro da deusa O Fuku-san, que colloquei sobre a mesma
secretaria referida.
Ora aqui está, no fim de contas, em que consiste o meu rasgo genial; e vou
dizer porquê. O barro é trabalhado por dedos tam amorosos de artista,―um
obscurissimo artista certamente;―a pasta impregnou-se com tanta
obediencia da feição predominante da alma japoneza,―naturalismo
humoristico, caricatural;―que a deusasinha patusca que aqui tenho a meu
lado, uma bugiganga de tres pollegadas de altura, quanto muito, é toda ella
uma gargalhada viva, supina, radiosa!... Acontece que a tristeza, borboleta
negra das trevas, foge espavorida da minha convivencia; poiso os olhos na
deusa, e desato a rir perdidamente; e assim me tornei o homem mais
divertido d'este mundo.
existencia, gasto pela longa fricção das coisas e dos homens, soffrendo pela
dôr do passado, pela insipidez do presente e pelas tristes promessas do
futuro! como tu, meu pobre espirito, cahiras na quasi insania, consciente, e
por isso mesmo mais penosa, d'aquelles para quem, por mal dos seus
peccados, a vida se vae tornando toda um immenso enfado... Morbidez de
temperamento? incompetencia ingenita para a lucta? fadiga, após os mil
baldões da sorte? pouco importa; não vale a pena agora desenredar esta
meada. Passava, e passo ainda, longas horas do dia junto da minha
secretaria; é este o meu officio. Alguem, que entrasse, via-me grave,
correcto, rodeado de livros e papeis, e até, presumo,―perdôem-me a
vaidade―talvez me atribuisse uns certos ares de sabio, em cuja mente
magnos problemas se iam sublimando. Só, bem só, entre quatro paredes
discretas, desfallecia; o olhar vago fixava-se no nada, todo o meu ser se
inutilizava, perdia-se em abstracções, desinteressado da realidade, de mim
mesmo, morto,―porque ha para alguns uma morte percursora d'aquella que
roe na tumba a febra e põe a nú os ossos brancos do esqueleto.―E vae
então, um bello dia, achando-me casualmente n'um bazar de Osaka, compro
uma figurinha de barro da deusa O Fuku-san, que colloquei sobre a mesma
secretaria referida.
Ora aqui está, no fim de contas, em que consiste o meu rasgo genial; e vou
dizer porquê. O barro é trabalhado por dedos tam amorosos de artista,―um
obscurissimo artista certamente;―a pasta impregnou-se com tanta
obediencia da feição predominante da alma japoneza,―naturalismo
humoristico, caricatural;―que a deusasinha patusca que aqui tenho a meu
lado, uma bugiganga de tres pollegadas de altura, quanto muito, é toda ella
uma gargalhada viva, supina, radiosa!... Acontece que a tristeza, borboleta
negra das trevas, foge espavorida da minha convivencia; poiso os olhos na
deusa, e desato a rir perdidamente; e assim me tornei o homem mais
divertido d'este mundo.
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Antes de ir mais longe na palestra, justo é que me detenha e diga em poucas
phrases quem é O Fuku-san. Divindade popular, patrona da boa fortuna e da
alegria, representa na genesis japonica um papel de subida importancia
incontestavel. Izagani e Izanami, os deuses iniciaes e creadores, formaram o
Japão e tiveram por filha, Amaterasu, a deusa do sol, e outros filhos, todos
com maravilhosos attributos. Amaterasu residia no ceu, alumiando a terra;
delicioso officio; mas tamanhas affrontas soffreu de um seu irmão, o deus
da lua por signal, que se amuou e decidiu esconder-se, escolhendo para
retiro uma caverna, aonde se metteu, vedando a entrada com uma enorme
pedra; a terra, é obvio, achou-se ás escuras de repente. Os deuses,
apavorados,―o caso não era para menos,―recolheram-se em conselho, e
resolveram o seguinte, depois de larga discussão: fôram postar-se todos
bem junto da caverna; Takadjira, o deus de enormes braços, ficou junto da
entrada, fazendo sentinella; O Fuku-san, a mais divertida das patuscas, poz-
se a cantar modinhas; ou, quando não cantava, tocava n'uma gaita de
bambu; ou, quando não tocava, bailava minuetes, acompanhando a dança de
mil tregeitos faceciosos. Tanta pilheria teve a figurona, que a deusa
Amaterasu, no seu antro, começou a interessar-se na galhofa, a rir ás
furtadellas,―ou não fosse ella japoneza!―e arredou um pouco, para o lado,
o pedregulho, alongou um nada a cabecita para fóra, e assim se pôz a gozar
melhor da brincadeira. Então Takadjira, n'um relance―zás!―caiu-lhe em
cima, lançou-lhe os longos braços ao pescoço, puxou-a para si, foi á força
poisal-a no seu throno... e a terra de novo continuou a ser alumiada pelo sol!
A arte popular veste a deusa O Fuku-san em bellos trajos da côrte, dos
velhos tempos, setins rojantes, brancos e escarlates, e molda-a nos ultra-
comicos contornos d'uma japonezita enormemente obesa, toda ella refolhos
de gordura, banhas de pescoço, de collo, de seios, de barriga, redondezas
pasmosas de quadris, e mãos e pés papudos. A cara, a immensa caraça, de
lua cheia, é um poema completo de monstruosidade triumphal e hilariante:
faces prodigiosamente bochechudas, caiadas de cosmeticos; um narizito que
mal se vê, rombo, abatatado, como que calcado para dentro, a golpes de
martello; á fronte curta e estreita, de imbecil, collam-se dois bandós de
cabellos de azeviche; fôram rapadas á navalha as sobrancelhas, segundo o
uso classico; os olhinhos piscos, matreiros e gaiatos, reluzem pelas fendas
estreitas das palpebras carnudas; e a bocca, a boquinha, em forma de cereja,
acarminada, sorri em curvas, em prégas, em covinhas impagaveis... Mas
phrases quem é O Fuku-san. Divindade popular, patrona da boa fortuna e da
alegria, representa na genesis japonica um papel de subida importancia
incontestavel. Izagani e Izanami, os deuses iniciaes e creadores, formaram o
Japão e tiveram por filha, Amaterasu, a deusa do sol, e outros filhos, todos
com maravilhosos attributos. Amaterasu residia no ceu, alumiando a terra;
delicioso officio; mas tamanhas affrontas soffreu de um seu irmão, o deus
da lua por signal, que se amuou e decidiu esconder-se, escolhendo para
retiro uma caverna, aonde se metteu, vedando a entrada com uma enorme
pedra; a terra, é obvio, achou-se ás escuras de repente. Os deuses,
apavorados,―o caso não era para menos,―recolheram-se em conselho, e
resolveram o seguinte, depois de larga discussão: fôram postar-se todos
bem junto da caverna; Takadjira, o deus de enormes braços, ficou junto da
entrada, fazendo sentinella; O Fuku-san, a mais divertida das patuscas, poz-
se a cantar modinhas; ou, quando não cantava, tocava n'uma gaita de
bambu; ou, quando não tocava, bailava minuetes, acompanhando a dança de
mil tregeitos faceciosos. Tanta pilheria teve a figurona, que a deusa
Amaterasu, no seu antro, começou a interessar-se na galhofa, a rir ás
furtadellas,―ou não fosse ella japoneza!―e arredou um pouco, para o lado,
o pedregulho, alongou um nada a cabecita para fóra, e assim se pôz a gozar
melhor da brincadeira. Então Takadjira, n'um relance―zás!―caiu-lhe em
cima, lançou-lhe os longos braços ao pescoço, puxou-a para si, foi á força
poisal-a no seu throno... e a terra de novo continuou a ser alumiada pelo sol!
A arte popular veste a deusa O Fuku-san em bellos trajos da côrte, dos
velhos tempos, setins rojantes, brancos e escarlates, e molda-a nos ultra-
comicos contornos d'uma japonezita enormemente obesa, toda ella refolhos
de gordura, banhas de pescoço, de collo, de seios, de barriga, redondezas
pasmosas de quadris, e mãos e pés papudos. A cara, a immensa caraça, de
lua cheia, é um poema completo de monstruosidade triumphal e hilariante:
faces prodigiosamente bochechudas, caiadas de cosmeticos; um narizito que
mal se vê, rombo, abatatado, como que calcado para dentro, a golpes de
martello; á fronte curta e estreita, de imbecil, collam-se dois bandós de
cabellos de azeviche; fôram rapadas á navalha as sobrancelhas, segundo o
uso classico; os olhinhos piscos, matreiros e gaiatos, reluzem pelas fendas
estreitas das palpebras carnudas; e a bocca, a boquinha, em forma de cereja,
acarminada, sorri em curvas, em prégas, em covinhas impagaveis... Mas
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não ha palavras que descrevam, nem de longe, a expressão de toda a
figurinha―porque vae alem da nossa comprehensão de occidentaes,―no
que d'ella irradia de jocosidade perenne, de beatifico comprazimento, de
vagos tiques de inconsciencia infantil, de imbecilidade, de malicia, de
perversão; um indefinivel conjuncto de não sei que de imminentemente
pueril, satanico e grotesco, todavia gracioso, que é no fim de contas uma
das feições mais caracteristicas e mais emocionantes da arte inteira
japoneza.
Ensina-se nos livros que por meados do nosso seculo
XII, o pintor Kakuyu, que era bonzo buddhista, iniciou
no Japão a pintura caricatural. Pois seja assim;
concedo ao frade o merito de ter traduzido pelo pincel,
por vez primeira, o humorismo d'esta gente. Mas tal
humorismo, como feição moral, nasceu com o mesmo
povo, é-lhe um fector do sentimento; e cada japonez é,
e foi, e será, um caricaturista. Quando se estuda a
lenda indigena japoneza, no vasto reportorio das suas
fabulas, que eu penso representarem sempre o mais
remoto documento do feitio estetico, da
individualidade psychica, d'uma qualquer grande
familia humana, depara-se na scena com a mais
curiosa fauna fallante―macacos, caranguejos,
raposas, alforrecas, ratazanas e outros varios
bichos;―no apologo grego, por exemplo, os brutos são doutores, discursam
como philosophos e como moralistas; no apologo japonez, menos profundo,
mas talvez mais incisivo, a bicharia contenta-se em mascarar-se vestindo
kimonos e enfiando as patas nas sandalias, faz caretas, galhofa, dança e ri,
em desenvolturas caricaturaes da mais desopilante troça a todos os
ridiculos.
Quando as artes se desenvolvem e nacionalisam, e attingem uma feição
independente, inconfundivel, a caricatura, como que traduzindo uma
figurinha―porque vae alem da nossa comprehensão de occidentaes,―no
que d'ella irradia de jocosidade perenne, de beatifico comprazimento, de
vagos tiques de inconsciencia infantil, de imbecilidade, de malicia, de
perversão; um indefinivel conjuncto de não sei que de imminentemente
pueril, satanico e grotesco, todavia gracioso, que é no fim de contas uma
das feições mais caracteristicas e mais emocionantes da arte inteira
japoneza.
Ensina-se nos livros que por meados do nosso seculo
XII, o pintor Kakuyu, que era bonzo buddhista, iniciou
no Japão a pintura caricatural. Pois seja assim;
concedo ao frade o merito de ter traduzido pelo pincel,
por vez primeira, o humorismo d'esta gente. Mas tal
humorismo, como feição moral, nasceu com o mesmo
povo, é-lhe um fector do sentimento; e cada japonez é,
e foi, e será, um caricaturista. Quando se estuda a
lenda indigena japoneza, no vasto reportorio das suas
fabulas, que eu penso representarem sempre o mais
remoto documento do feitio estetico, da
individualidade psychica, d'uma qualquer grande
familia humana, depara-se na scena com a mais
curiosa fauna fallante―macacos, caranguejos,
raposas, alforrecas, ratazanas e outros varios
bichos;―no apologo grego, por exemplo, os brutos são doutores, discursam
como philosophos e como moralistas; no apologo japonez, menos profundo,
mas talvez mais incisivo, a bicharia contenta-se em mascarar-se vestindo
kimonos e enfiando as patas nas sandalias, faz caretas, galhofa, dança e ri,
em desenvolturas caricaturaes da mais desopilante troça a todos os
ridiculos.
Quando as artes se desenvolvem e nacionalisam, e attingem uma feição
independente, inconfundivel, a caricatura, como que traduzindo uma
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recordação da lenda, vem desempenhar um papel importantissimo, não só
na pintura, mas nas multiplices affirmações do engenho―esculptura,
ornamentação da porcellana, da faiança, dos charões, dos bronzes, em
tudo.―Graças ao pincel e graças ao buril, as rãs decidem-se a vir tocar
guitarra para a rua; os pardaes offerecem banquetes aos seus intimos,
servidos em porcellanas primorosas; desfila um cortejo de rapozas, levando
a noiva, a rapozinha, ao noivo feliz, que a espera no seu lar; pelo dorso de
Hotei, deus da bondade, vão trepando os garotos, e um mais atrevido vae
poisar-se-lhe em cima da careca; os guerreiros cobrem os rostos com
mascaras de um comico façanhudo indescriptivel. Hokusai, o grande mestre
da escola vulgar em pintura, delicia-se em desenhar cegonhas d'um só traço
repentino, maravilhosos gatafunhos, palpitantes de observação e de
verdade; no seu album dedicado ao Fuji-yama, a montanha sagrada,
contorna-a vista atravez de uma rede, que um pescador tira do mar; e
atravez de uma teia de aranha; e entre o A das pernas nuas d'um operario
tanoeiro, que do alto de uma dorna ajusta á força de malho as aduellas; e
reflectida no chá da taça que um esfarrapado mendigo leva á bocca.
Hokusai, em 1804, durante certa festividade n'um templo, manda estender
no solo uma folha de papel de cerca de duzentos metros quadrados de
grandeza; vem mais um barril com agua, outro barril com tinta preta, uns
oitenta litros d'ella, e mais duas enormes vassouras e tres vassouras mais
pequenas; entra o mestre, empunha uma vassoura embebida na tinta, traça
sobre o papel curvas gigantes; no fim de alguns minutos termina a sua obra,
que só é comprehendida quando alguns dos milhares dos assistentes se
lembram de galgar ao telhado do templo: a distancia e do alto, o immenso
quadro representa um admiravel busto de Daruma, o grande apostolo
buddhista. Por aquella mesma epocha, Hokusai pintava sobre um bago de
arroz um grupo de aves, encantador, mas só distincto com a ajuda de uma
lupa.
É esta caricatura, melhor será talvez dizer―este humorismo, que o japonez
exerce com habilidade unica, magistralmente, prodigiosamente; é por ella, é
por elle, pelo segredo dos exaggeros, pelo arrojo da execução, que alcança
intenções flagrantes no traço, uma alma quasi na paizagem, um conceito na
arvore, no ramo em flôr, no simples contorno de um rochedo... Na pintura
japoneza, por exemplo, um pargo, um caranguejo, uma lagosta, o figurão
zoologico mais lorpa que possa imaginar-se, vivem na tela, isto é, accusam
na pintura, mas nas multiplices affirmações do engenho―esculptura,
ornamentação da porcellana, da faiança, dos charões, dos bronzes, em
tudo.―Graças ao pincel e graças ao buril, as rãs decidem-se a vir tocar
guitarra para a rua; os pardaes offerecem banquetes aos seus intimos,
servidos em porcellanas primorosas; desfila um cortejo de rapozas, levando
a noiva, a rapozinha, ao noivo feliz, que a espera no seu lar; pelo dorso de
Hotei, deus da bondade, vão trepando os garotos, e um mais atrevido vae
poisar-se-lhe em cima da careca; os guerreiros cobrem os rostos com
mascaras de um comico façanhudo indescriptivel. Hokusai, o grande mestre
da escola vulgar em pintura, delicia-se em desenhar cegonhas d'um só traço
repentino, maravilhosos gatafunhos, palpitantes de observação e de
verdade; no seu album dedicado ao Fuji-yama, a montanha sagrada,
contorna-a vista atravez de uma rede, que um pescador tira do mar; e
atravez de uma teia de aranha; e entre o A das pernas nuas d'um operario
tanoeiro, que do alto de uma dorna ajusta á força de malho as aduellas; e
reflectida no chá da taça que um esfarrapado mendigo leva á bocca.
Hokusai, em 1804, durante certa festividade n'um templo, manda estender
no solo uma folha de papel de cerca de duzentos metros quadrados de
grandeza; vem mais um barril com agua, outro barril com tinta preta, uns
oitenta litros d'ella, e mais duas enormes vassouras e tres vassouras mais
pequenas; entra o mestre, empunha uma vassoura embebida na tinta, traça
sobre o papel curvas gigantes; no fim de alguns minutos termina a sua obra,
que só é comprehendida quando alguns dos milhares dos assistentes se
lembram de galgar ao telhado do templo: a distancia e do alto, o immenso
quadro representa um admiravel busto de Daruma, o grande apostolo
buddhista. Por aquella mesma epocha, Hokusai pintava sobre um bago de
arroz um grupo de aves, encantador, mas só distincto com a ajuda de uma
lupa.
É esta caricatura, melhor será talvez dizer―este humorismo, que o japonez
exerce com habilidade unica, magistralmente, prodigiosamente; é por ella, é
por elle, pelo segredo dos exaggeros, pelo arrojo da execução, que alcança
intenções flagrantes no traço, uma alma quasi na paizagem, um conceito na
arvore, no ramo em flôr, no simples contorno de um rochedo... Na pintura
japoneza, por exemplo, um pargo, um caranguejo, uma lagosta, o figurão
zoologico mais lorpa que possa imaginar-se, vivem na tela, isto é, accusam
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uma vontade, uma intenção, um
sentimento, como a fome, como o
medo, como o cio. Não se diga que é a
fiel reproducção do modelo que dá
isto,―a photographia d'um caranguejo
não palpitaria de vida;―é pelo
contrario o exaggero propositado de
certas linhas, o exercicio de uma arte
mysteriosa, que naturalmente se
inspira no perfeito conhecimento
estructural e sentimental do bicho,
animalizando de certo modo o artista e
humanizando o bruto, e permittindo
caprichos descommunaes que o
observador não descrimina, que o
levam a exclamar, não sei por que
remotas reminiscencias ancestraes de
subito recordadas:―«aquelle linguado
acha-se triste... aquelle camarão arde
em ciumes... aquella lombriga está-se
a rir...―»
O humorismo japonez não se limita ás artes; divulga-se nos costumes do
povo, nos seus habitos; quando nos intromettemos na intimidade indigena,
ainda o espectaculo de inesperados disparates, de requintadas
extravagancias, vem ferir a nossa pupilla e prolongar-nos o espanto. Eu não
pretendo escrever aqui um tratado dos exotismos d'esta gente, aponto ao
acaso alguns dos que me occorrem.
Pois não são disparatadas, caricaturaes, estas mangas prodigiosamente
amplas dos vestidos, e na propria fazenda a estupenda polychromia dos
matizes? E estas peanhas de madeira, á laia de calçado, onde se poisam os
pés nús dos japonezes? E estes penteados enormes das mulheres,
transformando-lhes as cabeças em estupendos monumentos ambulantes? E
o obi, a cinta de seda que cinge as ancas da musumé em voltas sobrepostas e
sentimento, como a fome, como o
medo, como o cio. Não se diga que é a
fiel reproducção do modelo que dá
isto,―a photographia d'um caranguejo
não palpitaria de vida;―é pelo
contrario o exaggero propositado de
certas linhas, o exercicio de uma arte
mysteriosa, que naturalmente se
inspira no perfeito conhecimento
estructural e sentimental do bicho,
animalizando de certo modo o artista e
humanizando o bruto, e permittindo
caprichos descommunaes que o
observador não descrimina, que o
levam a exclamar, não sei por que
remotas reminiscencias ancestraes de
subito recordadas:―«aquelle linguado
acha-se triste... aquelle camarão arde
em ciumes... aquella lombriga está-se
a rir...―»
O humorismo japonez não se limita ás artes; divulga-se nos costumes do
povo, nos seus habitos; quando nos intromettemos na intimidade indigena,
ainda o espectaculo de inesperados disparates, de requintadas
extravagancias, vem ferir a nossa pupilla e prolongar-nos o espanto. Eu não
pretendo escrever aqui um tratado dos exotismos d'esta gente, aponto ao
acaso alguns dos que me occorrem.
Pois não são disparatadas, caricaturaes, estas mangas prodigiosamente
amplas dos vestidos, e na propria fazenda a estupenda polychromia dos
matizes? E estas peanhas de madeira, á laia de calçado, onde se poisam os
pés nús dos japonezes? E estes penteados enormes das mulheres,
transformando-lhes as cabeças em estupendos monumentos ambulantes? E
o obi, a cinta de seda que cinge as ancas da musumé em voltas sobrepostas e
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rematadas n'um laço colossal? E o
costume das casadas, quando em
signal de desapêgo ás vaidades d'este
mundo, se desfeam rapando as
sobrancelhas á navalha, e
envernizando de preto a fila dos
dentinhos? A casa de papel, o jardim
de Lilliput, a vida passada de joelhos
sobre a esteira, a refeição servida em
taçasinhas e apprehendida nas pontas
dos pausinhos, a arte domestica da
preparação do chá e dos ramos de
flores, a dança, a musica, a cama
improvisada a um canto com duas
colchas de seda e uma boceta de
charão por travesseiro, as mil
saudações trocadas entre duas pessoas
que se encontram, todos os aspectos
da vida indigena emfim, intimos,
sociaes, brincadeira, como se o
japonez tivesse vindo ao mundo para
se rir de tudo são
surprezas, extravagancias,
excepções unicas, simples
pretextos para em que se
occupa, e para se rir de si
primeiro do que de tudo...
Chega-se sem muita
difficuldade a
comprehender porque,
nas relações de convivio
de um para outro, de
preferencia á palavra, de
preferencia ao gesto, uma
maneira ha mais eloquente de traduzir o pensamento:―a gargalhada!...
costume das casadas, quando em
signal de desapêgo ás vaidades d'este
mundo, se desfeam rapando as
sobrancelhas á navalha, e
envernizando de preto a fila dos
dentinhos? A casa de papel, o jardim
de Lilliput, a vida passada de joelhos
sobre a esteira, a refeição servida em
taçasinhas e apprehendida nas pontas
dos pausinhos, a arte domestica da
preparação do chá e dos ramos de
flores, a dança, a musica, a cama
improvisada a um canto com duas
colchas de seda e uma boceta de
charão por travesseiro, as mil
saudações trocadas entre duas pessoas
que se encontram, todos os aspectos
da vida indigena emfim, intimos,
sociaes, brincadeira, como se o
japonez tivesse vindo ao mundo para
se rir de tudo são
surprezas, extravagancias,
excepções unicas, simples
pretextos para em que se
occupa, e para se rir de si
primeiro do que de tudo...
Chega-se sem muita
difficuldade a
comprehender porque,
nas relações de convivio
de um para outro, de
preferencia á palavra, de
preferencia ao gesto, uma
maneira ha mais eloquente de traduzir o pensamento:―a gargalhada!...
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O proprio japonez é uma caricatura. Não se espantem da asserção os que
tiverem a pachorra de me ir lendo; eu hei de ainda provar que o proprio
deus dos japonezes, o sublime creador do Dai-Nippon, formou n'um estado
de alma galhofeiro esta terra, sem systema, sem programma estudado e sem
pressas; sem pressas certamente, recreando-se nos comicos caprichos que a
phantasia lhe ditava e a mão omnipotente ia executando, ferramenta do
officio em acção, escopro ou broxa, afeiçoando, retocando, caricaturizando,
o que do chaos ia surdindo á flôr das aguas. Depois, concluida a obra, devia
ter soltado uma gargalhada retumbante!...
Ora desde remotas eras
até hoje, pratica-se no
Japão um exercicio de
lucta, um sport (como se
diz agora) muito em voga,
e do especial agrado
d'esta gente; é o
espectaculo favorito
durante determinadas
epochas do anno. Limita-
se no campo um espaço
com esteiras e bambus, e
ao centro dispõe-se uma
pequena elevação em
forma circular; içam-se
galhardetes e bandeiras,
rufa o tambor, e o povo
afflue por centenas de
curiosos, compra o seu bilhete e toma poiso; dois homens, quasi nús,
combatem corpo a corpo, como na arena grega, até que um d'elles derruba o
companheiro e é proclamado vencedor. Estes luctadores de profissão são
escolhidos d'entre os gigantes, d'entre os athletas, e é na provincia de Tosa
tiverem a pachorra de me ir lendo; eu hei de ainda provar que o proprio
deus dos japonezes, o sublime creador do Dai-Nippon, formou n'um estado
de alma galhofeiro esta terra, sem systema, sem programma estudado e sem
pressas; sem pressas certamente, recreando-se nos comicos caprichos que a
phantasia lhe ditava e a mão omnipotente ia executando, ferramenta do
officio em acção, escopro ou broxa, afeiçoando, retocando, caricaturizando,
o que do chaos ia surdindo á flôr das aguas. Depois, concluida a obra, devia
ter soltado uma gargalhada retumbante!...
Ora desde remotas eras
até hoje, pratica-se no
Japão um exercicio de
lucta, um sport (como se
diz agora) muito em voga,
e do especial agrado
d'esta gente; é o
espectaculo favorito
durante determinadas
epochas do anno. Limita-
se no campo um espaço
com esteiras e bambus, e
ao centro dispõe-se uma
pequena elevação em
forma circular; içam-se
galhardetes e bandeiras,
rufa o tambor, e o povo
afflue por centenas de
curiosos, compra o seu bilhete e toma poiso; dois homens, quasi nús,
combatem corpo a corpo, como na arena grega, até que um d'elles derruba o
companheiro e é proclamado vencedor. Estes luctadores de profissão são
escolhidos d'entre os gigantes, d'entre os athletas, e é na provincia de Tosa
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que especialmente se recrutam. Não são homens, são caricaturas de
homens, são monstros, enormes, valendo cada um em peso e em dimensões
por seis japonezitos ordinarios. Não se imagina, nem podem descrever-se,
as caras, os carões de taes sujeitos; são mascaras disformes, caraças
imberbes, olhinhos ferinos repuchados para a testa, queixada vigorosa e
dentuça arreganhada, orelha polpuda e ampla, trunfa hirta e espessa, e um
risinho estranho, sarcastico, mistura de riso de creança e de riso de
demonio; nem ha palavras que expliquem a amplidão dos vultos, a
obesidade das carnes, o braço roliço quasi feminino, os seios erectos, o
enorme ventre impando, lenta a marcha e ondulante, de urso da Siberia em
liberdade. Asseguram estudiosos que estes monstros de Tosa são os ultimos
restos, preciosos modelos vivos, da raça prehistorica japoneza... Pode assim
ser; no japonezito de hoje, embora geralmente franzino, miudinho, delicado,
não repugna acreditar que alguma coisa haja de commum com os luctadores
de Tosa: como que laivos de familia, a vaga semelhança com um avô... a
não querermos mais longe ainda ir procurar-lhe affinidades, n'um remoto
parentesco com a deusa O-Fuku-san, que continua a rir-se para mim, e eu a
rir-me para ella...
Relanceêmos a chusma, nos theatros, nas feiras, nas romarias, nos bazares?
Pode dizer-se, em geral, que o typo do japonez, da sua femea, e mais
accentuadamente ainda nos obesos, ou nos magros, ou nos anões, ou nos
albinos, ou nos côxos, ou nos corcundas, ou nos leprosos, ou nos que têem
um lobinho, ou nos que têem o nariz roido, em todos aquelles em fim em
que um defeito, uma tara, sobresae, é caricatural supinamente, comico a
ponto de nos fazer morrer de rir ás gargalhadas!... Ah, maganões! vocês,
quando nos deram as imagens dos seus deuses, dos seus genios do lar: uns
pansudos, como odres; outros esqueleticos, macrabos; uns
pachorrentamente joviaes, outros terriveis, despedindo raios sobre a terra;
vocês retrataram-se a si mesmos, segurando com uma das mãos o pincel e
com a outra o espelhinho onde se viam, maganões!... Especialisando, da
multidão das ruas, essa figurinha em miniatura que tão irresistivelmente
captiva as attenções do estrangeiro, toda ella matizes, perfumes, frescura,
gentileza, a figurinha da musumé, da rapariga, podemos ainda definil-a
como uma caricatura, a caricatura mais travessa, a chimera humana mais
deliciosa, em que jámais olhos de viajante se poisaram!...
homens, são monstros, enormes, valendo cada um em peso e em dimensões
por seis japonezitos ordinarios. Não se imagina, nem podem descrever-se,
as caras, os carões de taes sujeitos; são mascaras disformes, caraças
imberbes, olhinhos ferinos repuchados para a testa, queixada vigorosa e
dentuça arreganhada, orelha polpuda e ampla, trunfa hirta e espessa, e um
risinho estranho, sarcastico, mistura de riso de creança e de riso de
demonio; nem ha palavras que expliquem a amplidão dos vultos, a
obesidade das carnes, o braço roliço quasi feminino, os seios erectos, o
enorme ventre impando, lenta a marcha e ondulante, de urso da Siberia em
liberdade. Asseguram estudiosos que estes monstros de Tosa são os ultimos
restos, preciosos modelos vivos, da raça prehistorica japoneza... Pode assim
ser; no japonezito de hoje, embora geralmente franzino, miudinho, delicado,
não repugna acreditar que alguma coisa haja de commum com os luctadores
de Tosa: como que laivos de familia, a vaga semelhança com um avô... a
não querermos mais longe ainda ir procurar-lhe affinidades, n'um remoto
parentesco com a deusa O-Fuku-san, que continua a rir-se para mim, e eu a
rir-me para ella...
Relanceêmos a chusma, nos theatros, nas feiras, nas romarias, nos bazares?
Pode dizer-se, em geral, que o typo do japonez, da sua femea, e mais
accentuadamente ainda nos obesos, ou nos magros, ou nos anões, ou nos
albinos, ou nos côxos, ou nos corcundas, ou nos leprosos, ou nos que têem
um lobinho, ou nos que têem o nariz roido, em todos aquelles em fim em
que um defeito, uma tara, sobresae, é caricatural supinamente, comico a
ponto de nos fazer morrer de rir ás gargalhadas!... Ah, maganões! vocês,
quando nos deram as imagens dos seus deuses, dos seus genios do lar: uns
pansudos, como odres; outros esqueleticos, macrabos; uns
pachorrentamente joviaes, outros terriveis, despedindo raios sobre a terra;
vocês retrataram-se a si mesmos, segurando com uma das mãos o pincel e
com a outra o espelhinho onde se viam, maganões!... Especialisando, da
multidão das ruas, essa figurinha em miniatura que tão irresistivelmente
captiva as attenções do estrangeiro, toda ella matizes, perfumes, frescura,
gentileza, a figurinha da musumé, da rapariga, podemos ainda definil-a
como uma caricatura, a caricatura mais travessa, a chimera humana mais
deliciosa, em que jámais olhos de viajante se poisaram!...
Page 77
Profundar o enygma do feitio moral
da tribu é impossivel. Apenas
conhecemos vagamente que a vida
intima desliza serena e pueril, sem
ralhos, sem exasperos, em culturas de
arbustos, em contemplações dos
astros, em banhos quentes, em
esmeros junto do espelho, em
brinquedos com as creanças, em
debandadas pelos campos, em
libações de chá, em jantarinhos de
arroz e fatias de nabos em salmoira,
em sonecas tranquillas debaixo do
verde mosquiteiro protector... Mas
d'esta mesma gente expludem tambem
por vezes os grandes dramas:
crudelissimos assassinios, por
cegueira de ciumes; suicidios duplos,
por desespero de amor,―elle e ella
cingidos n'um derradeiro abraço;―e
essa horrivel sede de sangue, o
homem transformado em fera,
trucidando tudo vivo que encontra,
estado de loucura conhecido entre os
estrangeiros do Oriente pela
denominação de amock, palavra malaia ou javaneza.
A tribu parece ter sido feita de encommenda para o paiz exotico que lhe foi
dado em patrimonio. Percorrendo-o, estudando-o nos aspectos, melhor se
comprehende a indole estetica do povo, a alma nacional, com as suas
delicadezas, com as suas graciosidades, com os seus caprichos, com os seus
disparates; manifestações multiplices de um caracter particularissimo de
origem, mas no qual a influencia muito especial do meio laborou tambem
da tribu é impossivel. Apenas
conhecemos vagamente que a vida
intima desliza serena e pueril, sem
ralhos, sem exasperos, em culturas de
arbustos, em contemplações dos
astros, em banhos quentes, em
esmeros junto do espelho, em
brinquedos com as creanças, em
debandadas pelos campos, em
libações de chá, em jantarinhos de
arroz e fatias de nabos em salmoira,
em sonecas tranquillas debaixo do
verde mosquiteiro protector... Mas
d'esta mesma gente expludem tambem
por vezes os grandes dramas:
crudelissimos assassinios, por
cegueira de ciumes; suicidios duplos,
por desespero de amor,―elle e ella
cingidos n'um derradeiro abraço;―e
essa horrivel sede de sangue, o
homem transformado em fera,
trucidando tudo vivo que encontra,
estado de loucura conhecido entre os
estrangeiros do Oriente pela
denominação de amock, palavra malaia ou javaneza.
A tribu parece ter sido feita de encommenda para o paiz exotico que lhe foi
dado em patrimonio. Percorrendo-o, estudando-o nos aspectos, melhor se
comprehende a indole estetica do povo, a alma nacional, com as suas
delicadezas, com as suas graciosidades, com os seus caprichos, com os seus
disparates; manifestações multiplices de um caracter particularissimo de
origem, mas no qual a influencia muito especial do meio laborou tambem
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intensamente.
Comparando os aspectos normaes, comezinhos, que se desdobram por este
mundo fóra, com outros aspectos excepcionaes, em contraste flagrante com
a disposição commum das coisas, pergunto eu se o termo―disparate,―se o
termo―caricatura,―são permittidos, julgando a obra da omnipotente
creação? Haverá, por exemplo, um ilheo disparatado, um pinheiro
caricatural? Se permittidos são, se ha tal ilheo, se ha tal pinheiro, então não
se pode imaginar coisa mais disparatada, mais caricatural, do que este
archipelago, já disparatado de nascença, emergindo a pique e como por
encanto, do seio das aguas mais profundas do oceano, tenue, rendilhado
como uma joia em filigrana, convulsionado a todos os momentos por
mysteriosas commoções vulcanicas, zurzido por tremendos cyclones,
invadido por vezes pelas ondas enormes do Pacifico, caprichosa chimera
geologica emfim, que pode ámanhã desapparecer no abysmo, sem que por
tal se espantem muito os sabios!... Tal é o imperio do Japão.
A paisagem extravagante,
inverosimil, inacreditavel,
das porcellanas e charões,
hoje divulgada em toda a
parte, é com effeito a
paizagem real d'este
Japão. Collinas, penedias,
verdes planices, lagos,
cascatas, torrentes
espumantes, ribeiras
dormentes, valles
profundos, mares
interiores salpicados de ilhas e rochedos, tudo reduzido a miniaturas
graciosissimas, reunido em grupos incongruentes e projectado em fundos de
ceu estupendamente coloridos, eis o que os olhos abrangem n'um relance.
Demorêmo-nos nos detalhes. As coniferas (algumas especies enormes)
vestem as encostas, trepam pelas ribanceiras acima, até irem coroar os
ultimos pincaros das serras. Aqui, um bosque de bambus gigantes, cuja
sombra eterna e cuja paz soturna dão allucinações áquelle que se aventura
Comparando os aspectos normaes, comezinhos, que se desdobram por este
mundo fóra, com outros aspectos excepcionaes, em contraste flagrante com
a disposição commum das coisas, pergunto eu se o termo―disparate,―se o
termo―caricatura,―são permittidos, julgando a obra da omnipotente
creação? Haverá, por exemplo, um ilheo disparatado, um pinheiro
caricatural? Se permittidos são, se ha tal ilheo, se ha tal pinheiro, então não
se pode imaginar coisa mais disparatada, mais caricatural, do que este
archipelago, já disparatado de nascença, emergindo a pique e como por
encanto, do seio das aguas mais profundas do oceano, tenue, rendilhado
como uma joia em filigrana, convulsionado a todos os momentos por
mysteriosas commoções vulcanicas, zurzido por tremendos cyclones,
invadido por vezes pelas ondas enormes do Pacifico, caprichosa chimera
geologica emfim, que pode ámanhã desapparecer no abysmo, sem que por
tal se espantem muito os sabios!... Tal é o imperio do Japão.
A paisagem extravagante,
inverosimil, inacreditavel,
das porcellanas e charões,
hoje divulgada em toda a
parte, é com effeito a
paizagem real d'este
Japão. Collinas, penedias,
verdes planices, lagos,
cascatas, torrentes
espumantes, ribeiras
dormentes, valles
profundos, mares
interiores salpicados de ilhas e rochedos, tudo reduzido a miniaturas
graciosissimas, reunido em grupos incongruentes e projectado em fundos de
ceu estupendamente coloridos, eis o que os olhos abrangem n'um relance.
Demorêmo-nos nos detalhes. As coniferas (algumas especies enormes)
vestem as encostas, trepam pelas ribanceiras acima, até irem coroar os
ultimos pincaros das serras. Aqui, um bosque de bambus gigantes, cuja
sombra eterna e cuja paz soturna dão allucinações áquelle que se aventura
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em devassar o seu mysterio. Alli, outro bosque, de bordos, de momiji; em
novembro, a sua tenue folhagem digitada passa do verde claro ao escarlate;
o scenario adquire assim deliciosos exotismos ultra-terrestres, como se a
gente se achasse de repente pisando o solo de Marte ou de Saturno. A
semente do acaso caiu sobre uma pedra á flôr das aguas; germinou o
pinheiro, a rede das raizes abraça-se ao granito, e ergue-se desamparado o
tronco, torcido, contorcido pelos annos e pelas intemperies, reflectindo no
espelho glauco a sua eterna cabelleira de verdura; ha arvores, enobrecidas
ou pela vetustez ou pela forma estranha, celebres como heroes, que são
visitadas por uma multidão de peregrinos. As ameixieiras, as cerejeiras,
abundam; pela primavera, cobrem-se de florescencias pasmosas,
luxuriantes, como nunca se viu em parte alguma; mas não dão fructo, as
trapaceiras.
Nos jardins, continua a flora exotica, desconhecida. Trepa, por onde pode, a
asagao; e abre á alvorada, por curtas horas, as suas frescas campanulas, de
qualquer côr, porque as variedades não se contam, são milhares.
Desabrocha a peonia, enorme, paradoxal. E enfileiram as chrysanthemas, a
flôr nacional, sob tendas que as abrigam do sol, podendo lembrar cortezãs
em exposição nos bairros de prazer, pela extravagancia das côres e dos
feitios, que recordam a confusão polychroma dos vestidos e dos penteados
das mulheres; mas que realmente se assemelham a enormes actineas,
monstros dos mares, multiplicando-se em mil tentaculos contorcidos,
brancos, amarellos, rosados ou sanguineos.
Agora a fauna. Pelo espaço, negrejam bandos de corvos, os karasu,
escarninhos, voando e rindo ás gargalhadas. Enormes borboletas pretas,
nunca vistas, sugam as corollas. De dia, de noite, é incessante o ruido das
cigarras, dos grilos, de outros bichos. Noites ha, pelo estio, junto ás ribeiras,
em que uma chuva de fogo, de pyrilampos aos myriades, motiva festas
ruidosas. Nos lagos dos jardins vagueam peixes de oiro, com os olhos a
estoirarem, com as caudas esfarrapadas e rojantes, como se fôssem longos
capotes de mendigos. Junto da casa de papel toma o sol, cantarola o gallo
anão, do tamanho d'uma pomba; e á porta assoma o gato indigena,
esqueletico, rabugento, sem rabo... porque todos os gatos no Japão nascem
sem rabo; ou é o cão que ladra, o chin, verdadeira caricatura de cão, com os
olhos esbogalhados a saltarem-lhe das orbitas, sem nariz, a cauda em
novembro, a sua tenue folhagem digitada passa do verde claro ao escarlate;
o scenario adquire assim deliciosos exotismos ultra-terrestres, como se a
gente se achasse de repente pisando o solo de Marte ou de Saturno. A
semente do acaso caiu sobre uma pedra á flôr das aguas; germinou o
pinheiro, a rede das raizes abraça-se ao granito, e ergue-se desamparado o
tronco, torcido, contorcido pelos annos e pelas intemperies, reflectindo no
espelho glauco a sua eterna cabelleira de verdura; ha arvores, enobrecidas
ou pela vetustez ou pela forma estranha, celebres como heroes, que são
visitadas por uma multidão de peregrinos. As ameixieiras, as cerejeiras,
abundam; pela primavera, cobrem-se de florescencias pasmosas,
luxuriantes, como nunca se viu em parte alguma; mas não dão fructo, as
trapaceiras.
Nos jardins, continua a flora exotica, desconhecida. Trepa, por onde pode, a
asagao; e abre á alvorada, por curtas horas, as suas frescas campanulas, de
qualquer côr, porque as variedades não se contam, são milhares.
Desabrocha a peonia, enorme, paradoxal. E enfileiram as chrysanthemas, a
flôr nacional, sob tendas que as abrigam do sol, podendo lembrar cortezãs
em exposição nos bairros de prazer, pela extravagancia das côres e dos
feitios, que recordam a confusão polychroma dos vestidos e dos penteados
das mulheres; mas que realmente se assemelham a enormes actineas,
monstros dos mares, multiplicando-se em mil tentaculos contorcidos,
brancos, amarellos, rosados ou sanguineos.
Agora a fauna. Pelo espaço, negrejam bandos de corvos, os karasu,
escarninhos, voando e rindo ás gargalhadas. Enormes borboletas pretas,
nunca vistas, sugam as corollas. De dia, de noite, é incessante o ruido das
cigarras, dos grilos, de outros bichos. Noites ha, pelo estio, junto ás ribeiras,
em que uma chuva de fogo, de pyrilampos aos myriades, motiva festas
ruidosas. Nos lagos dos jardins vagueam peixes de oiro, com os olhos a
estoirarem, com as caudas esfarrapadas e rojantes, como se fôssem longos
capotes de mendigos. Junto da casa de papel toma o sol, cantarola o gallo
anão, do tamanho d'uma pomba; e á porta assoma o gato indigena,
esqueletico, rabugento, sem rabo... porque todos os gatos no Japão nascem
sem rabo; ou é o cão que ladra, o chin, verdadeira caricatura de cão, com os
olhos esbogalhados a saltarem-lhe das orbitas, sem nariz, a cauda em
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pluma, parente degenerado de qualquer monstro de epochas remotas, hoje
extincto.
De sorte que todo este
Nippon,―arte, povo,
paizagem, planta e
bicho,―é uma deliciosa
mascarada. Como fazer
sentir isto a quem o não
conhece, depois de ter
escripto o que escrevi, e
de concluir que nada
escrevi do que me vae no
pensamento? Olhem:
fixem um espelho
espherico, ou cylindrico; o aspecto das formas reflectidas é uma
interminavel surpreza hilariante, de caretas supinas, de linhas torturadas;
pois tal é o aspecto do Japão...
Todos sabem como a caricatura, pelo desenho e pela escripta, exerce nas
sociedades uma influencia decisiva. A pintura e o livro humoristicos
subjugam a attenção e imperam no espirito com intensidades unicas, alheias
ás outras formas de arte. Porque? Fôra difficil explical-o aqui. É certo que a
ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza um defeito, aponta
um ridiculo, sublinha uma virtude. As coisas triviaes, taes como as
conhecemos, passam desapercebidas ou esquecem brevemente; o exaggero,
pelo contrario, fica, grava-se a estylete na memoria. Viu-se hoje um bom
retrato d'um sujeito, de Balzac, de Bonaparte, se quizermos; amanhã nada
restará no pensamento; mas, se foi relanceada a caricatura, fica a summula
extincto.
De sorte que todo este
Nippon,―arte, povo,
paizagem, planta e
bicho,―é uma deliciosa
mascarada. Como fazer
sentir isto a quem o não
conhece, depois de ter
escripto o que escrevi, e
de concluir que nada
escrevi do que me vae no
pensamento? Olhem:
fixem um espelho
espherico, ou cylindrico; o aspecto das formas reflectidas é uma
interminavel surpreza hilariante, de caretas supinas, de linhas torturadas;
pois tal é o aspecto do Japão...
Todos sabem como a caricatura, pelo desenho e pela escripta, exerce nas
sociedades uma influencia decisiva. A pintura e o livro humoristicos
subjugam a attenção e imperam no espirito com intensidades unicas, alheias
ás outras formas de arte. Porque? Fôra difficil explical-o aqui. É certo que a
ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza um defeito, aponta
um ridiculo, sublinha uma virtude. As coisas triviaes, taes como as
conhecemos, passam desapercebidas ou esquecem brevemente; o exaggero,
pelo contrario, fica, grava-se a estylete na memoria. Viu-se hoje um bom
retrato d'um sujeito, de Balzac, de Bonaparte, se quizermos; amanhã nada
restará no pensamento; mas, se foi relanceada a caricatura, fica a summula
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cá dentro, uma reminiscencia pertinaz do traço phisionomico (e mais do que
isso) do individuo. Seja como fôr e por que fôr, é hoje indiscutivel que a
caricatura representa um meio altamente poderoso de impressionar os
homens Todos sabem como a caricatura, pelo desenho e pela escripta,
exerce nas sociedades uma influencia decisiva. A pintura e o livro
humoristicos subjugam a attenção e imperam no espirito com intensidades
unicas, alheias ás outras formas de arte. Porque? Fôra difficil explical-o
aqui. É certo que a ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza
um defeito, aponta um ridiculo, sublinha uma virtude. As coisas triviaes,
taes como as conhecemos, passam desapercebidas ou esquecem
brevemente; o exaggero, pelo contrario, fica, grava-se a estylete na
memoria. Viu-se hoje um bom retrato d'um sujeito, de Balzac, de
Bonaparte, se quizermos; amanhã nada restará no pensamento; mas, se foi
relanceada a caricatura, fica a summula cá dentro, uma reminiscencia
pertinaz do traço phisionomico (e mais do que isso) do individuo. Seja
como fôr e por que fôr, é hoje indiscutivel que a caricatura representa um
meio altamente poderoso de impressionar os homens; estude-se-lhe os
effeitos, por exemplo, na polemica dos principios, onde ella vale pela mais
possante picareta demolidora das instituições, dos thronos e das crenças,
rasgando a estrada nova por onde investem os partidos avançados.
Estando isto assente, imaginem agora um paquete, despejando em qualquer
caes japonez um bando de
loiros estrangeiros. Elles
todos, os lorpas, têem nos
rostos essa feição anodina
das cabeças, que é uma
das formas de belleza
mais frequentes nas raças
europeas; e a julgar pelo
olho azul, de porcellana,
sem expressão, sem alma,
póde admittir-se que lá
dentro da casca não ha
senão pevides em guisa
de miolos.
isso) do individuo. Seja como fôr e por que fôr, é hoje indiscutivel que a
caricatura representa um meio altamente poderoso de impressionar os
homens Todos sabem como a caricatura, pelo desenho e pela escripta,
exerce nas sociedades uma influencia decisiva. A pintura e o livro
humoristicos subjugam a attenção e imperam no espirito com intensidades
unicas, alheias ás outras formas de arte. Porque? Fôra difficil explical-o
aqui. É certo que a ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza
um defeito, aponta um ridiculo, sublinha uma virtude. As coisas triviaes,
taes como as conhecemos, passam desapercebidas ou esquecem
brevemente; o exaggero, pelo contrario, fica, grava-se a estylete na
memoria. Viu-se hoje um bom retrato d'um sujeito, de Balzac, de
Bonaparte, se quizermos; amanhã nada restará no pensamento; mas, se foi
relanceada a caricatura, fica a summula cá dentro, uma reminiscencia
pertinaz do traço phisionomico (e mais do que isso) do individuo. Seja
como fôr e por que fôr, é hoje indiscutivel que a caricatura representa um
meio altamente poderoso de impressionar os homens; estude-se-lhe os
effeitos, por exemplo, na polemica dos principios, onde ella vale pela mais
possante picareta demolidora das instituições, dos thronos e das crenças,
rasgando a estrada nova por onde investem os partidos avançados.
Estando isto assente, imaginem agora um paquete, despejando em qualquer
caes japonez um bando de
loiros estrangeiros. Elles
todos, os lorpas, têem nos
rostos essa feição anodina
das cabeças, que é uma
das formas de belleza
mais frequentes nas raças
europeas; e a julgar pelo
olho azul, de porcellana,
sem expressão, sem alma,
póde admittir-se que lá
dentro da casca não ha
senão pevides em guisa
de miolos.
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Mãos rudes, vermelhas, cabelludas, pés enormes;―estigmas de um
temperamento avesso a coisas de arte e a todas as delicadezas do
sentir.―Emparelham pelas manifestações do gosto: vestidos todos de
alvadio, côco no cocuruto da cabeça, sapatos amarellos e ramosinho na
carcela. Como entidades prestantes, embora talvez não prestem para nada,
uns são sabios, outros são navegadores, outros são diplomatas, outros
possuem manhas maravilhosas de balcão; mas―coitados!―em todos se
acoberta o microbio desvastador, oriundo dos grandes centros, nascidos da
podridão da descrença, do egoismo, da inveja, da cubiça e da misanthropia;
e na face e nos gestos alguma coisa já assoma do mal de que enfermaram.
Alguns dão o braço a outros sujeitos sem bigode, com grandes mãos
vermelhas igualmente, e enormes pés calçando sapatos amarellos; usam
bengala, collarinho alto de bretanha, gravata, tunicas em forma de
campanula, uma alcofa á cabeça, cheia de hervas, de aves e de fitas:―são
as damas―.
Os pobres forasteiros vêem-se assim de improviso e de surpreza no meio
exotico entre todos, requintadamente artistico, caricatural e sorridente, que
é todo este Japão. Dominados pelos aspectos, allucinados pela iniciação
imposta, riem tambem, e julgam tambem sentir a graciosidade indigena e a
gentileza dos scenarios. Eil-os que cruzam as estradas e os trilhos das
montanhas, seguem em caravanas numerosas a visitar os logares celebres,
encorporam-se nas romarias, entram nos templos e entram nos theatros,
bebem chá japonez, e até, burlescamente ajoelhados, engolem o arroz
cosido e deliciam-se no peixe cru que as creadinhas vão servindo.
Oh, a paisagem japoneza! Como ella é encantadora e fresca, estranha,
paradisiaca!... e como aqui o pensamento se dilata, n'um longo divagar
sereno e amoroso, tão distincto das preocupações sombrias que alem, na
Europa, azedam a existencia!... Mas não sei quê da alma asiatica,
subtilmente motejador e sarcastico, subtilmente intolerante, paira aqui,
emana da coloração e da forma das coisas, do grito dos animaes, do gesto e
voz da gente; não se define, mas existe, hostilisando em tudo o pobre
intruso. É como que uma exhortação continua e impertinente do Buddha e
dos deuses tutelares, murmurada a todos os instantes:―«Vae-te, volta á
terra dos loiros; contempla os teus deuses, visita os teus templos, recrea-te
nos teus salões, bebe o teu whisky e soda; mas deixa em paz este solo, que
temperamento avesso a coisas de arte e a todas as delicadezas do
sentir.―Emparelham pelas manifestações do gosto: vestidos todos de
alvadio, côco no cocuruto da cabeça, sapatos amarellos e ramosinho na
carcela. Como entidades prestantes, embora talvez não prestem para nada,
uns são sabios, outros são navegadores, outros são diplomatas, outros
possuem manhas maravilhosas de balcão; mas―coitados!―em todos se
acoberta o microbio desvastador, oriundo dos grandes centros, nascidos da
podridão da descrença, do egoismo, da inveja, da cubiça e da misanthropia;
e na face e nos gestos alguma coisa já assoma do mal de que enfermaram.
Alguns dão o braço a outros sujeitos sem bigode, com grandes mãos
vermelhas igualmente, e enormes pés calçando sapatos amarellos; usam
bengala, collarinho alto de bretanha, gravata, tunicas em forma de
campanula, uma alcofa á cabeça, cheia de hervas, de aves e de fitas:―são
as damas―.
Os pobres forasteiros vêem-se assim de improviso e de surpreza no meio
exotico entre todos, requintadamente artistico, caricatural e sorridente, que
é todo este Japão. Dominados pelos aspectos, allucinados pela iniciação
imposta, riem tambem, e julgam tambem sentir a graciosidade indigena e a
gentileza dos scenarios. Eil-os que cruzam as estradas e os trilhos das
montanhas, seguem em caravanas numerosas a visitar os logares celebres,
encorporam-se nas romarias, entram nos templos e entram nos theatros,
bebem chá japonez, e até, burlescamente ajoelhados, engolem o arroz
cosido e deliciam-se no peixe cru que as creadinhas vão servindo.
Oh, a paisagem japoneza! Como ella é encantadora e fresca, estranha,
paradisiaca!... e como aqui o pensamento se dilata, n'um longo divagar
sereno e amoroso, tão distincto das preocupações sombrias que alem, na
Europa, azedam a existencia!... Mas não sei quê da alma asiatica,
subtilmente motejador e sarcastico, subtilmente intolerante, paira aqui,
emana da coloração e da forma das coisas, do grito dos animaes, do gesto e
voz da gente; não se define, mas existe, hostilisando em tudo o pobre
intruso. É como que uma exhortação continua e impertinente do Buddha e
dos deuses tutelares, murmurada a todos os instantes:―«Vae-te, volta á
terra dos loiros; contempla os teus deuses, visita os teus templos, recrea-te
nos teus salões, bebe o teu whisky e soda; mas deixa em paz este solo, que
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não é teu, que te detesta; e onde, para
assimilares a harmonia da creação e o
sentimento nacional, precisas de uma
fluidez de espirito e de uma
serenidade de consciencia, que te
faltam!...»―
Cedo ou tarde, ámanhã, em dois
mezes, em dois annos, o homem loiro
enfastia-se, compenetra-se da
fatalidade dos destinos, que crearam o
Japão para os japonezes. Uns
desertam, e fazem n'isso muito bem;
outros ficam. Nos que ficam, o
desgosto pela terra do exilio enraiza,
alastra como uma lepra corrosiva.
O desgosto, nas mulheres, crystallisa
brevemente em odio, um odio desesperado, sem treguas; explicavel pela
maior vibratilidade dos nervos no sexo, pela vida ociosa, e tambem, e
principalmente, pelo penoso confronto com a mulher indigena, cujo fresco
perfil e requintado tacto femenil são uma provocação terrivel aos seus
meritos. A mascarada eterna japoneza, a despreocupação, o riso chronico,
os traços caricaturaes de todos e de tudo, os dichotes zombeteiros dos
gaiatos,―«ijin, ijin!» estrangeiro, estrangeiro!―tudo irrita, bellisca
redunda por fim n'um supplicio insuportavel, que nêm respeita o lar,
entrando mesmo pelas janellas dentro como um exame de mosquitos. Triste
lar, tantas vezes!... Junto da familia do sr. Fulano, seja qual for a sua
nacionalidade e situação, contae como provavel um hospede
permanente,―o aborrecimento.―A embriaguez, a dissipação, a quebra
assimilares a harmonia da creação e o
sentimento nacional, precisas de uma
fluidez de espirito e de uma
serenidade de consciencia, que te
faltam!...»―
Cedo ou tarde, ámanhã, em dois
mezes, em dois annos, o homem loiro
enfastia-se, compenetra-se da
fatalidade dos destinos, que crearam o
Japão para os japonezes. Uns
desertam, e fazem n'isso muito bem;
outros ficam. Nos que ficam, o
desgosto pela terra do exilio enraiza,
alastra como uma lepra corrosiva.
O desgosto, nas mulheres, crystallisa
brevemente em odio, um odio desesperado, sem treguas; explicavel pela
maior vibratilidade dos nervos no sexo, pela vida ociosa, e tambem, e
principalmente, pelo penoso confronto com a mulher indigena, cujo fresco
perfil e requintado tacto femenil são uma provocação terrivel aos seus
meritos. A mascarada eterna japoneza, a despreocupação, o riso chronico,
os traços caricaturaes de todos e de tudo, os dichotes zombeteiros dos
gaiatos,―«ijin, ijin!» estrangeiro, estrangeiro!―tudo irrita, bellisca
redunda por fim n'um supplicio insuportavel, que nêm respeita o lar,
entrando mesmo pelas janellas dentro como um exame de mosquitos. Triste
lar, tantas vezes!... Junto da familia do sr. Fulano, seja qual for a sua
nacionalidade e situação, contae como provavel um hospede
permanente,―o aborrecimento.―A embriaguez, a dissipação, a quebra
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fraudulenta, o roubo, o suicidio, o adulterio, o assassinio, todos os
desmandos de uma sociedade incongruente, succedem-se nas pequenas
colonias europeas do Japão com uma triste frequencia, eloquentissima!...
1900.
DOIS CEMITERIOS JAPONEZES
A V. Almeida d'Eça
Pelos fins de dezembro, em vesperas de Natal e de Anno-Bom, encontrei-
me um bello dia, sem bem saber porque, vagabundeando no cemiterio dos
europeus em Kobe, o velho. O velho, porque ha um cemiterio novo que se
estreou ha pouco tempo, e onde até agora se reuniu coisa de meia duzia de
inquilinos; está este situado longe da cidade, n'um declive de collina,
amplo, com bellos horisontes em redor. O velho, de acanhadas dimensões,
enchera-se de moradores em uns trinta annos de exercicio, e foi por tal
razão posto de parte.
O velho cemiterio fica em plena cidade, para as bandas de oeste e cerca dos
edificios da alfandega, quando começa um bairro sujo, de fabricas, de
armazens, que povôa uma misera ralé de carregadores e de mendigos.
Encerrado entre as altas paredes de tijolo vermelho de enormes depositos de
mercadorias, sem outro horisonte, com pouco ar, com pouca luz, humido e
ermo, é bem triste este canto; até, se não me illudo, os vetustos pinheiros
que o arborisam, testemunham pelo verde escuro e estorcimentos convulsos
das ramadas, alguma coisa da desolação que aqui impera sobre tudo.
desmandos de uma sociedade incongruente, succedem-se nas pequenas
colonias europeas do Japão com uma triste frequencia, eloquentissima!...
1900.
DOIS CEMITERIOS JAPONEZES
A V. Almeida d'Eça
Pelos fins de dezembro, em vesperas de Natal e de Anno-Bom, encontrei-
me um bello dia, sem bem saber porque, vagabundeando no cemiterio dos
europeus em Kobe, o velho. O velho, porque ha um cemiterio novo que se
estreou ha pouco tempo, e onde até agora se reuniu coisa de meia duzia de
inquilinos; está este situado longe da cidade, n'um declive de collina,
amplo, com bellos horisontes em redor. O velho, de acanhadas dimensões,
enchera-se de moradores em uns trinta annos de exercicio, e foi por tal
razão posto de parte.
O velho cemiterio fica em plena cidade, para as bandas de oeste e cerca dos
edificios da alfandega, quando começa um bairro sujo, de fabricas, de
armazens, que povôa uma misera ralé de carregadores e de mendigos.
Encerrado entre as altas paredes de tijolo vermelho de enormes depositos de
mercadorias, sem outro horisonte, com pouco ar, com pouca luz, humido e
ermo, é bem triste este canto; até, se não me illudo, os vetustos pinheiros
que o arborisam, testemunham pelo verde escuro e estorcimentos convulsos
das ramadas, alguma coisa da desolação que aqui impera sobre tudo.
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Hoje, que é um domingo, acolá, a curtos passos, sobre a relva do parque
publico, a chusma dos caixeiros―inglezes, americanos, allemães,―a
chusma cosmopolita, em mangas de camisa, sem chapeu, berra, corre,
esbraceja, espernea, joga o tennis, o fout-ball. Mais alem, pelas ruas de
trafego indigena, presumo magna enchente, bazares em festa, povo em
barda, entre japonezes e estrangeiros. D'estes ultimos, são especialmente as
damas que mais se alvoroçam com a proximidade do christmas day, e que
afanosamente percorrem a cidade, em carruagens, em jinrikshas, a pé―a
pés... e que pés!...―enfiando pelas lojas, mercadejando bonecas,
quinquilherias, guloseimas, as mil e mil frivolidades que vão constituir os
fructos d'essas estupendas arvores de Natal, préstes a surgirem nos salões.
Pobre natal! N'estes paizes exoticos, de ganho e de aventura, as festas
particulares da familia europea perdem em regra a sua feição de severidade
tocante e amorosa, para se transformarem n'um simples sport, irritante,
massador,―fallo por mim,―mero pretexto para ostentações, dissipações e
mexericos, a caterva de todos os symptomas da morbidez do exilio. Para o
povo japonez, o impulso é bem outro: o dia de anno novo é a festa principal
de cada anno, a unica para muitos; religiosa, emocionando a alma indigena,
publico, a chusma dos caixeiros―inglezes, americanos, allemães,―a
chusma cosmopolita, em mangas de camisa, sem chapeu, berra, corre,
esbraceja, espernea, joga o tennis, o fout-ball. Mais alem, pelas ruas de
trafego indigena, presumo magna enchente, bazares em festa, povo em
barda, entre japonezes e estrangeiros. D'estes ultimos, são especialmente as
damas que mais se alvoroçam com a proximidade do christmas day, e que
afanosamente percorrem a cidade, em carruagens, em jinrikshas, a pé―a
pés... e que pés!...―enfiando pelas lojas, mercadejando bonecas,
quinquilherias, guloseimas, as mil e mil frivolidades que vão constituir os
fructos d'essas estupendas arvores de Natal, préstes a surgirem nos salões.
Pobre natal! N'estes paizes exoticos, de ganho e de aventura, as festas
particulares da familia europea perdem em regra a sua feição de severidade
tocante e amorosa, para se transformarem n'um simples sport, irritante,
massador,―fallo por mim,―mero pretexto para ostentações, dissipações e
mexericos, a caterva de todos os symptomas da morbidez do exilio. Para o
povo japonez, o impulso é bem outro: o dia de anno novo é a festa principal
de cada anno, a unica para muitos; religiosa, emocionando a alma indigena,
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levando a turba aos templos a dar graças aos deuses pelas prosperidades
realizadas, e a implorar novas fortunas: intima, de familia, preceituando o
doce dever das saudações aos parentes e aos amigos; ninguem trabalha,
veste-se fato novo, enfeitam-se os altares e a casa toda; por isto, com
louvavel antecipação se compram nos bazares os pequeninos nadas que vão
ornar o lar, e os bolos de arroz, e o córte de fazenda, e a flôr para o cabello,
coisas de que não prescinde a mais modesta familia de lavrador ou de
operario, n'aquelle dia abençoado.
No sitio onde me encontro a quietação é plena, em contraste com o que
palpita lá por fóra. É positivo que os mortos não festejam o Natal... nem eu
tam pouco, poderia accrescentar, desde mui largos annos de bohemia, sem
lar e sem familia. Pesa aqui, no cemiterio, mais duramente por certo do que
em outro logar, a aspereza de um triste dia de inverno, sem sol, sombrio e
humido; paira no ar uma poeira levissima de neve, que mal se vê, mas fere
o rosto como picadas de alfinetes; de quando em quando, uma rajada fresca
sacode a rama dos pinheiros, corta o silencio então um vago murmurio de
folhagem,―da folhagem sem duvida, mas que acaso poderia parecer o
palrear dolente dos mortos uns com os outros, de cova para cova...―
Vou vagueando, com passos e em espirito. Estou só, ou quasi só; ha pouco
dei fé, por entre as sepulturas, de uma velha japoneza, guarda do cemiterio,
que ia apanhando do chão alguns cavacos. Vou lendo os epitaphios,
estudando a botanica tumular nos arbustos plantados e nos musgos
espontaneos, lançando um olhar condoïdo ás corôas murchas, que aqui e ali
se encostam ao marmore das lapidas, pobres corôas queimadas pelo sol,
rasgadas pelo vento, roïdas pelos vermes, polluidas pelo pó, e em pó se
desfazendo... N'este gremio de mortos abundam os padres e os missionarios
de todas as seitas e de todos os paizes; varios pilotos dos mares do Japão,
capitães, tripulantes de barcos; gente de negocio; e a mais uns pobres nomes
obscuros de mulheres e de creanças, sem titulos nem historia. Aqui deparo
agora com um nome de portuguez, Felisberto da Cunha, da Figueira, que
morreu com quarenta annos, e a esposa (uma japoneza) lhe mandou erigir o
realizadas, e a implorar novas fortunas: intima, de familia, preceituando o
doce dever das saudações aos parentes e aos amigos; ninguem trabalha,
veste-se fato novo, enfeitam-se os altares e a casa toda; por isto, com
louvavel antecipação se compram nos bazares os pequeninos nadas que vão
ornar o lar, e os bolos de arroz, e o córte de fazenda, e a flôr para o cabello,
coisas de que não prescinde a mais modesta familia de lavrador ou de
operario, n'aquelle dia abençoado.
No sitio onde me encontro a quietação é plena, em contraste com o que
palpita lá por fóra. É positivo que os mortos não festejam o Natal... nem eu
tam pouco, poderia accrescentar, desde mui largos annos de bohemia, sem
lar e sem familia. Pesa aqui, no cemiterio, mais duramente por certo do que
em outro logar, a aspereza de um triste dia de inverno, sem sol, sombrio e
humido; paira no ar uma poeira levissima de neve, que mal se vê, mas fere
o rosto como picadas de alfinetes; de quando em quando, uma rajada fresca
sacode a rama dos pinheiros, corta o silencio então um vago murmurio de
folhagem,―da folhagem sem duvida, mas que acaso poderia parecer o
palrear dolente dos mortos uns com os outros, de cova para cova...―
Vou vagueando, com passos e em espirito. Estou só, ou quasi só; ha pouco
dei fé, por entre as sepulturas, de uma velha japoneza, guarda do cemiterio,
que ia apanhando do chão alguns cavacos. Vou lendo os epitaphios,
estudando a botanica tumular nos arbustos plantados e nos musgos
espontaneos, lançando um olhar condoïdo ás corôas murchas, que aqui e ali
se encostam ao marmore das lapidas, pobres corôas queimadas pelo sol,
rasgadas pelo vento, roïdas pelos vermes, polluidas pelo pó, e em pó se
desfazendo... N'este gremio de mortos abundam os padres e os missionarios
de todas as seitas e de todos os paizes; varios pilotos dos mares do Japão,
capitães, tripulantes de barcos; gente de negocio; e a mais uns pobres nomes
obscuros de mulheres e de creanças, sem titulos nem historia. Aqui deparo
agora com um nome de portuguez, Felisberto da Cunha, da Figueira, que
morreu com quarenta annos, e a esposa (uma japoneza) lhe mandou erigir o
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mausuleo.
De trilha em trilha e de tumulo em
tumulo, eis-me em frente do
monumento tumular dos marinheiros
francezes assassinados em Sakai.
Lugubre historia; e aqui, n'este Japão
da grande hospitalidade e da notoria
cortezia, impressiona por estranha e
quasi inverosimil. Pois foi bem
verdadeira. Ha mais de trinta annos,
por um dia de março, uma lancha a
vapor da corveta Dupleix aguardava
na praia de Sakai a volta de alguns
officiaes, que haviam descido á terra e seguido para Osaka; passa
casualmente um troço de tropas do Mikado, samurais da provincia de Tosa;
e sem provocação, sem um leve pretexto, fazem fogo sobre os marinheiros,
matam onze. São os onze tumulos d'estes martyres, d'estes miseros
camaradas (porque eu sou como elles marinheiro), que agora contemplo.
Sobre tres degraus de pedra alça-se uma alta cruz; e aos lados, cinco por
banda, e o aspirante á frente, como se estivessem na tolda da corveta em
formatura, estão os onze corpos, estão as onze lages, aquelles desfeitos em
pó seguramente, estas ennegrecidas pelo tempo e pela lepra dos lichens
resequidos... pois não se esqueça que ha mais de trinta invernos vae
durando a triste formatura. Sobre a cruz leio o seguinte:―«À la memoire
des onze marins de Dupleix, massacrés à Sakai le 8 mars 1868.
Requiescant in pace.»―Massacrés! massacrados! Como isto é destonante
n'este solo, no Dai-Nippon das paizagens amorosas e do sorriso perenne nos
rostos dos que passam!...
Vou lendo seguidamente as inscripções dos tumulos:―«Ci git Guillon,
Charles Pierre, aspirant de 1ère classe, agé de 22 ans. Priez pour lui.―Ci
De trilha em trilha e de tumulo em
tumulo, eis-me em frente do
monumento tumular dos marinheiros
francezes assassinados em Sakai.
Lugubre historia; e aqui, n'este Japão
da grande hospitalidade e da notoria
cortezia, impressiona por estranha e
quasi inverosimil. Pois foi bem
verdadeira. Ha mais de trinta annos,
por um dia de março, uma lancha a
vapor da corveta Dupleix aguardava
na praia de Sakai a volta de alguns
officiaes, que haviam descido á terra e seguido para Osaka; passa
casualmente um troço de tropas do Mikado, samurais da provincia de Tosa;
e sem provocação, sem um leve pretexto, fazem fogo sobre os marinheiros,
matam onze. São os onze tumulos d'estes martyres, d'estes miseros
camaradas (porque eu sou como elles marinheiro), que agora contemplo.
Sobre tres degraus de pedra alça-se uma alta cruz; e aos lados, cinco por
banda, e o aspirante á frente, como se estivessem na tolda da corveta em
formatura, estão os onze corpos, estão as onze lages, aquelles desfeitos em
pó seguramente, estas ennegrecidas pelo tempo e pela lepra dos lichens
resequidos... pois não se esqueça que ha mais de trinta invernos vae
durando a triste formatura. Sobre a cruz leio o seguinte:―«À la memoire
des onze marins de Dupleix, massacrés à Sakai le 8 mars 1868.
Requiescant in pace.»―Massacrés! massacrados! Como isto é destonante
n'este solo, no Dai-Nippon das paizagens amorosas e do sorriso perenne nos
rostos dos que passam!...
Vou lendo seguidamente as inscripções dos tumulos:―«Ci git Guillon,
Charles Pierre, aspirant de 1ère classe, agé de 22 ans. Priez pour lui.―Ci
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git Boulard, Vincent, matelot de 3ème classe, agé de 21 ans. Priez pour
lui.―Ci git Nonail, Jean Mathurin, matelot de 3eme classe, agé de 25 ans.
Priez pour lui.―Ci git Condette, François Désire, matelot de 3ème classe,
agé de 24 ans. Priez pour lui.―Ci git Lemeur, Gabriel Jacques Marie,
quart.r m.tre de manoeuv.re de 1ere classe, agé de 29 ans. Priez pour lui.―Ci
git Savie, Jacques, matelot de 3eme classe, agé 23 ans. Priez pour lui.―Ci
git Humet, Arséne Florimont, matelot de 3eme classe, agé de 24 ans. Priez
pour lui.―Ci git Langenais, Auguste Louis, matelot de 3eme classe, agé de
22 ans. Priez pour lui.―Ci git Bobes, Lazare Marie, matelot de 3eme classe,
agé de 22 ans. Priez pour lui.―Ci git Modest, Pierre Marie, matelot de 2e
classe, agé de 26 ans. Priez pour lui.―Ci git Grunenberger, Victor, ouvrier
chaufeur de 3eme classe, agé de 24 ans. Priez pour lui.»―A ladainha é
longa, como vêem; e bem commovedora, quando se attenta nas idades.
Onze rapazes; quadra de illusões, de amores, de esperanças. O mais velho
do grupo teria hoje os seus sessenta e dois annos, se fosse vivo; de sorte que
todos estes pobres moços poderiam muito bem gozar ainda agora da doce
alegria de viver, se o destino lhes fosse menos duro: o aspirante vestiria
provavelmente a sua farda de capitão de mar e guerra, chapada de veneras;
e os marujos estariam talvez com a sua baixa, na aldeia patria, em descanço,
a vêrem o mar por um oculo, rodeados de filhos e de netos... Ah! barbara
cafila de soldados japonezes!...
A gente póde recompôr em pensamento a scena da praia de Sakai. Uns
bellos loiros, rosados como pecegos, robustos como jovens Hercules. Riem,
brincam, cantam, pisando a fôfa areia. É um bando de irmãos, todos da
mesma idade, tratando-se por tu, passando de mão em mão a bolsa de
tabaco, e até de bocca para bocca o cachimbo de gesso fumegante.―«Olha,
Jacques! Repara, Gabriel!»―E batem palmadas nas costas uns dos outros, e
brilham-lhes as pupillas gaiatas e sagazes, apontando, em grandes gestos
rudes, para os recortes estranhos da paisagem, para os contorcidos pinheiros
que rendilham o horisonte, para as ameixeeiras em pasmosas florescencias,
para as casinhas de madeira e de papel, para as musumés em sedas,
seductoras... exoticos, captivantes aspectos de um paiz maravilhoso, que
abre agora as suas portas á curiosidade do mundo occidental, deslumbrando
a imaginação juvenil d'estes pobres francezes, habituados á monotonia do
azul das longas viagens fadigosas. Consta que os garotitos de Sakai iam
lui.―Ci git Nonail, Jean Mathurin, matelot de 3eme classe, agé de 25 ans.
Priez pour lui.―Ci git Condette, François Désire, matelot de 3ème classe,
agé de 24 ans. Priez pour lui.―Ci git Lemeur, Gabriel Jacques Marie,
quart.r m.tre de manoeuv.re de 1ere classe, agé de 29 ans. Priez pour lui.―Ci
git Savie, Jacques, matelot de 3eme classe, agé 23 ans. Priez pour lui.―Ci
git Humet, Arséne Florimont, matelot de 3eme classe, agé de 24 ans. Priez
pour lui.―Ci git Langenais, Auguste Louis, matelot de 3eme classe, agé de
22 ans. Priez pour lui.―Ci git Bobes, Lazare Marie, matelot de 3eme classe,
agé de 22 ans. Priez pour lui.―Ci git Modest, Pierre Marie, matelot de 2e
classe, agé de 26 ans. Priez pour lui.―Ci git Grunenberger, Victor, ouvrier
chaufeur de 3eme classe, agé de 24 ans. Priez pour lui.»―A ladainha é
longa, como vêem; e bem commovedora, quando se attenta nas idades.
Onze rapazes; quadra de illusões, de amores, de esperanças. O mais velho
do grupo teria hoje os seus sessenta e dois annos, se fosse vivo; de sorte que
todos estes pobres moços poderiam muito bem gozar ainda agora da doce
alegria de viver, se o destino lhes fosse menos duro: o aspirante vestiria
provavelmente a sua farda de capitão de mar e guerra, chapada de veneras;
e os marujos estariam talvez com a sua baixa, na aldeia patria, em descanço,
a vêrem o mar por um oculo, rodeados de filhos e de netos... Ah! barbara
cafila de soldados japonezes!...
A gente póde recompôr em pensamento a scena da praia de Sakai. Uns
bellos loiros, rosados como pecegos, robustos como jovens Hercules. Riem,
brincam, cantam, pisando a fôfa areia. É um bando de irmãos, todos da
mesma idade, tratando-se por tu, passando de mão em mão a bolsa de
tabaco, e até de bocca para bocca o cachimbo de gesso fumegante.―«Olha,
Jacques! Repara, Gabriel!»―E batem palmadas nas costas uns dos outros, e
brilham-lhes as pupillas gaiatas e sagazes, apontando, em grandes gestos
rudes, para os recortes estranhos da paisagem, para os contorcidos pinheiros
que rendilham o horisonte, para as ameixeeiras em pasmosas florescencias,
para as casinhas de madeira e de papel, para as musumés em sedas,
seductoras... exoticos, captivantes aspectos de um paiz maravilhoso, que
abre agora as suas portas á curiosidade do mundo occidental, deslumbrando
a imaginação juvenil d'estes pobres francezes, habituados á monotonia do
azul das longas viagens fadigosas. Consta que os garotitos de Sakai iam
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affluindo á praia, e quedavam-se em volta dos marujos, bocca aberta,
espantados dos seus modos, do uniforme, das suas feições de raça branca; e
que estes com as creanças partilharam algum pão das suas provisões. De
repente, surde de algures um bando petulante, irrequieto, multicôr pelas
bandeiras desfraldadas e pelas sedas das cabaias, e reluzente pelas armas
que empunha; são samurais do imperio; o quadro é deveras interessante; os
marujitos, surpresos e attentos, são
todos olhos... olhos que em breve se
cerram, quando os corpos caem
inertes sobre a areia, após uma
descarga de metralha... Ah! barbara
cafila de soldados japonezes!...
No meu espirito vagabundo, depois da ferocissima scena de matança, é
agora a sorte d'estes samurais que relembro, e me commove. Commovem-
me assassinos? Sim; os annos fôram correndo sobre os factos e esfriaram os
rancores. Póde hoje memorar-se, sem asco, com sympathia, mesmo nos
seus transes sanguinarios, a breve lucta de resistencia que o velho Nippon
feudal, embevecido na sua lenda prestigiosa, manteve contra aquelles que
vinham despertal-o do seu sonho; e para o bando de Sakai, soldados todos,
pertencendo á nobre casta dos guerreiros, seria realmente excepção estranha
se não fulgurassem no seu animo, remindo-os do opprobrio, as virtudes da
espantados dos seus modos, do uniforme, das suas feições de raça branca; e
que estes com as creanças partilharam algum pão das suas provisões. De
repente, surde de algures um bando petulante, irrequieto, multicôr pelas
bandeiras desfraldadas e pelas sedas das cabaias, e reluzente pelas armas
que empunha; são samurais do imperio; o quadro é deveras interessante; os
marujitos, surpresos e attentos, são
todos olhos... olhos que em breve se
cerram, quando os corpos caem
inertes sobre a areia, após uma
descarga de metralha... Ah! barbara
cafila de soldados japonezes!...
No meu espirito vagabundo, depois da ferocissima scena de matança, é
agora a sorte d'estes samurais que relembro, e me commove. Commovem-
me assassinos? Sim; os annos fôram correndo sobre os factos e esfriaram os
rancores. Póde hoje memorar-se, sem asco, com sympathia, mesmo nos
seus transes sanguinarios, a breve lucta de resistencia que o velho Nippon
feudal, embevecido na sua lenda prestigiosa, manteve contra aquelles que
vinham despertal-o do seu sonho; e para o bando de Sakai, soldados todos,
pertencendo á nobre casta dos guerreiros, seria realmente excepção estranha
se não fulgurassem no seu animo, remindo-os do opprobrio, as virtudes da
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casta―a extrema dedicação aos chefes, o sacrificio de si proprios pela
patria, e o amor por essa patria guindado á intensidade de paixão, mais alto
ainda, aos paroxismos do delirio.―
A historia plenamente nos explica o odio que a massa dos guerreiros ia
nutrindo então pelos estranhos. O shogun, generalissimo do imperador, com
residencia em Yedo, assignára por conta propria tratados de amisade e de
commercio com a America e com a Europa, e os estrangeiros, em
Yokohama, pisavam já afoitamente o solo japonez. O shogun violava por
este modo o dogma sagrado do imperio, que era o isolamento absoluto, a
exclusão do homem do Occidente, o desdenhoso desinteresse pelo mundo,
o goso eterno e sem partilha, deliciosamente egoista, do paiz maravilhoso
que os deuses haviam legado ao povo eleito. Quando a noticia do insolito
desacato chegou até Kioto, a cidade santa, onde vivia a côrte, em torno do
Soberano, a mais accesa colera explodiu, e todas as energias se ligaram para
humilhar o shogun e varrer para sempre da patria os teimosos
intrusos.―«Morte aos barbaros!»―foi o grito do soberano, da côrte, dos
senhores feudaes.―«Morte aos barbaros!»―foi o credo que incutiram ás
legiões á pressa reunidas, que corriam a expulsar, a massacrar, a exterminar,
os estrangeiros. O shogun, supremo em mando até então, estava perdido,
debaixo de seus pés tremia a terra, rugia o vulcão politico que em breve ia
esmagal-o; mas, pela fatalidade dos tempos, as energias e as cubiças dos
intrusos haviam de vencer, de impôr os seus designios; e a rhetorica dos
diplomatas, prudentemente sublinhada pela metralha dos canhões, tinha de
ser ouvida. Os dias iam passando, e o solemne decreto de exterminio não
podia ser cumprido; apenas, de quando em quando, um ou outro samurai
lograva decepar alguma cabeça loira de inglez, merecendo dos seus chefes
fartos applausos pelo feito. Cedo, bem cedo, os vultos dirigentes
comprehenderam que a lucta era impossivel, que o mysterio nipponico
findára; e o Japão foi descerrando pouco a pouco as suas portas, entrando
em negociacões com os diplomatas estrangeiros, não já pela iniciativa
incompetente do shogun, mas pela propria iniciativa do soberano. O
shogun, por inutil, foi deposto; como se não conformasse com a vontade
imperial, travou-se dura lucta, foi batido e retirou para Yedo. Estes
acontecimentos succediam-se em tropel; a grande maioria da nação não
podia aprecial-os, e menos presumir das vistas do soberano; a grande
maioria da nação ia odiando o shogun e repetindo o seu credo―«Morte aos
patria, e o amor por essa patria guindado á intensidade de paixão, mais alto
ainda, aos paroxismos do delirio.―
A historia plenamente nos explica o odio que a massa dos guerreiros ia
nutrindo então pelos estranhos. O shogun, generalissimo do imperador, com
residencia em Yedo, assignára por conta propria tratados de amisade e de
commercio com a America e com a Europa, e os estrangeiros, em
Yokohama, pisavam já afoitamente o solo japonez. O shogun violava por
este modo o dogma sagrado do imperio, que era o isolamento absoluto, a
exclusão do homem do Occidente, o desdenhoso desinteresse pelo mundo,
o goso eterno e sem partilha, deliciosamente egoista, do paiz maravilhoso
que os deuses haviam legado ao povo eleito. Quando a noticia do insolito
desacato chegou até Kioto, a cidade santa, onde vivia a côrte, em torno do
Soberano, a mais accesa colera explodiu, e todas as energias se ligaram para
humilhar o shogun e varrer para sempre da patria os teimosos
intrusos.―«Morte aos barbaros!»―foi o grito do soberano, da côrte, dos
senhores feudaes.―«Morte aos barbaros!»―foi o credo que incutiram ás
legiões á pressa reunidas, que corriam a expulsar, a massacrar, a exterminar,
os estrangeiros. O shogun, supremo em mando até então, estava perdido,
debaixo de seus pés tremia a terra, rugia o vulcão politico que em breve ia
esmagal-o; mas, pela fatalidade dos tempos, as energias e as cubiças dos
intrusos haviam de vencer, de impôr os seus designios; e a rhetorica dos
diplomatas, prudentemente sublinhada pela metralha dos canhões, tinha de
ser ouvida. Os dias iam passando, e o solemne decreto de exterminio não
podia ser cumprido; apenas, de quando em quando, um ou outro samurai
lograva decepar alguma cabeça loira de inglez, merecendo dos seus chefes
fartos applausos pelo feito. Cedo, bem cedo, os vultos dirigentes
comprehenderam que a lucta era impossivel, que o mysterio nipponico
findára; e o Japão foi descerrando pouco a pouco as suas portas, entrando
em negociacões com os diplomatas estrangeiros, não já pela iniciativa
incompetente do shogun, mas pela propria iniciativa do soberano. O
shogun, por inutil, foi deposto; como se não conformasse com a vontade
imperial, travou-se dura lucta, foi batido e retirou para Yedo. Estes
acontecimentos succediam-se em tropel; a grande maioria da nação não
podia aprecial-os, e menos presumir das vistas do soberano; a grande
maioria da nação ia odiando o shogun e repetindo o seu credo―«Morte aos
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barbaros!»―sem se aperceber que a situação mudára, que a côrte já tratava
com as potencias, e que a aggressão aos europeus, havia pouco meritoria,
era agora condemnada e prejudicava fortemente a marcha da politica
imperial.
Foi assim que os soldados de Sakai, massacrando os marinheiros francezes
que encontravam, julgavam ter cumprido um dever grato ao soberano e util
para a patria. Illudiam-se. A resposta ás energicas reclamações das
auctoridades francezas foi a condemnação á morte de todos os culpados,
que eram vinte. Como guerreiros, não bandidos, foi-lhes concedido como
graça o hara-kiri, isto é, a morte honrosa, devendo cada qual rasgar a
propria carne a punhaladas.
Foi escolhido para a cerimonia Myokokuji, um templo de Sakai, e em 16 de
março teve logar o supplicio. Passou-se então um espectaculo tremendo,
não de tristeza, antes uma festa de sangue, de morte, que excede a
comprehensão dos homens europeus. Enchia o recinto do templo a multidão
dos officiaes do imperio, das auctoridades francezas, das testemunhas, dos
amigos, dos bonzos, dos curiosos, vistosa em côres, em bellos uniformes,
em garbo e fidalguia; e, um por um, por seu turno, veio apparecendo cada
condemnado, todo vestido de lucto, de alvas vestes, ajoelhou no solo,
curvou-se em reverencias, saudou a multidão, recebeu solemnemente o
curto sabre de etiqueta, cravou-o até aos copos nas entranhas, rasgou as
carnes com mão firme, tingiram-se as vestes de escarlate, jorrou o sangue
sob uma urna proxima, a fronte crispou-se pela dôr, a côr fugiu da tez, o
corpo pendeu inerte, para a frente...
Minamura Inokichi Minamoto no Motoaki, de vinte e cinco annos, escreveu
no seu ultimo momento de vida uma curta poesia, que era
assim:―«Condemnam me; não discuto a minha morte; servirá ella de
pretexto á justiça do futuro, que decidirá se, para honra da patria, devem ser
expulsos os barbaros.»―Nishimura Saheji Minamoto no Ujiatsu, de vinte e
quatro annos, escreveu o seguinte:―«Não me pesa o morrer, a vida passa
com as potencias, e que a aggressão aos europeus, havia pouco meritoria,
era agora condemnada e prejudicava fortemente a marcha da politica
imperial.
Foi assim que os soldados de Sakai, massacrando os marinheiros francezes
que encontravam, julgavam ter cumprido um dever grato ao soberano e util
para a patria. Illudiam-se. A resposta ás energicas reclamações das
auctoridades francezas foi a condemnação á morte de todos os culpados,
que eram vinte. Como guerreiros, não bandidos, foi-lhes concedido como
graça o hara-kiri, isto é, a morte honrosa, devendo cada qual rasgar a
propria carne a punhaladas.
Foi escolhido para a cerimonia Myokokuji, um templo de Sakai, e em 16 de
março teve logar o supplicio. Passou-se então um espectaculo tremendo,
não de tristeza, antes uma festa de sangue, de morte, que excede a
comprehensão dos homens europeus. Enchia o recinto do templo a multidão
dos officiaes do imperio, das auctoridades francezas, das testemunhas, dos
amigos, dos bonzos, dos curiosos, vistosa em côres, em bellos uniformes,
em garbo e fidalguia; e, um por um, por seu turno, veio apparecendo cada
condemnado, todo vestido de lucto, de alvas vestes, ajoelhou no solo,
curvou-se em reverencias, saudou a multidão, recebeu solemnemente o
curto sabre de etiqueta, cravou-o até aos copos nas entranhas, rasgou as
carnes com mão firme, tingiram-se as vestes de escarlate, jorrou o sangue
sob uma urna proxima, a fronte crispou-se pela dôr, a côr fugiu da tez, o
corpo pendeu inerte, para a frente...
Minamura Inokichi Minamoto no Motoaki, de vinte e cinco annos, escreveu
no seu ultimo momento de vida uma curta poesia, que era
assim:―«Condemnam me; não discuto a minha morte; servirá ella de
pretexto á justiça do futuro, que decidirá se, para honra da patria, devem ser
expulsos os barbaros.»―Nishimura Saheji Minamoto no Ujiatsu, de vinte e
quatro annos, escreveu o seguinte:―«Não me pesa o morrer, a vida passa
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como o orvalho
desapparece com o vento;
uma coisa me afflige:―o
futuro da
patria»―Ikegami
Iasakichi Fujiwara no
Mitsunori, de trinta e oito
annos, escreveu o
seguinte:―«É preciso
alumiar o espirito da
nação; para isto abandono
o corpo ao meu
paiz;»―este, quando as
entranhas lhe caíram, fez
menção de atiral-as á cara
dos francezes. Oishi
Jinkichi Fujiwara no
Yoshinobu, de trinta e
oito annos, escreveu o
seguinte:―«Façamos
hoje o sacrificio da vida,
com o maior respeito, pois somos todos filhos d'este paiz dos
deuses.»―Sugimoto Shirogora Minamoto no Yoshinaga, de trinta e quatro
annos, escreveu o seguinte:―«Sinto o coração feliz pela agonia que soffro,
ao dar a vida pela patria;» este, por um gesto respeitoso, offereceu as
entranhas aos francezes. Katsugase Saburoku Taira no Ioshihaya, de vinte e
oito annos, escreveu o seguinte:―«Ninguem póde abalar no animo d'um
samurai o sentimento que tributa ao seu senhor.»―Iamamoto Tetsusuka
Minamoto no Toshiwo, de vinte e oito annos, escreveu o
seguinte:―«Muitos condemnam a alma do samurai; pensarão de outro
modo aquelles que bem a conhecem.»―Morishita Mokichi Fujiwara no
Shigemasa, de trinta e nove annos, escreveu o seguinte:―«Abramos o
caminho aos ignorantes, a fim de alumiar o mundo.»―Kitashiro Kensuke
Minamoto no Katayoshi, de trinta e seis annos, escreveu o seguinte:―«Para
legar o seu nome á posteridade ha um meio: o sacrificio da vida.»―Inada
Kwannoyo Fujiwara no Norashige, de vinte e oito annos, escreveu o
seguinte:―«Os japonezes não temem de perder a vida; tambem a cerejeira,
desapparece com o vento;
uma coisa me afflige:―o
futuro da
patria»―Ikegami
Iasakichi Fujiwara no
Mitsunori, de trinta e oito
annos, escreveu o
seguinte:―«É preciso
alumiar o espirito da
nação; para isto abandono
o corpo ao meu
paiz;»―este, quando as
entranhas lhe caíram, fez
menção de atiral-as á cara
dos francezes. Oishi
Jinkichi Fujiwara no
Yoshinobu, de trinta e
oito annos, escreveu o
seguinte:―«Façamos
hoje o sacrificio da vida,
com o maior respeito, pois somos todos filhos d'este paiz dos
deuses.»―Sugimoto Shirogora Minamoto no Yoshinaga, de trinta e quatro
annos, escreveu o seguinte:―«Sinto o coração feliz pela agonia que soffro,
ao dar a vida pela patria;» este, por um gesto respeitoso, offereceu as
entranhas aos francezes. Katsugase Saburoku Taira no Ioshihaya, de vinte e
oito annos, escreveu o seguinte:―«Ninguem póde abalar no animo d'um
samurai o sentimento que tributa ao seu senhor.»―Iamamoto Tetsusuka
Minamoto no Toshiwo, de vinte e oito annos, escreveu o
seguinte:―«Muitos condemnam a alma do samurai; pensarão de outro
modo aquelles que bem a conhecem.»―Morishita Mokichi Fujiwara no
Shigemasa, de trinta e nove annos, escreveu o seguinte:―«Abramos o
caminho aos ignorantes, a fim de alumiar o mundo.»―Kitashiro Kensuke
Minamoto no Katayoshi, de trinta e seis annos, escreveu o seguinte:―«Para
legar o seu nome á posteridade ha um meio: o sacrificio da vida.»―Inada
Kwannoyo Fujiwara no Norashige, de vinte e oito annos, escreveu o
seguinte:―«Os japonezes não temem de perder a vida; tambem a cerejeira,
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rainha das arvores pelas suas flôres, perde um dia essas flôres.»―Yanagase
Tsuneshichi Fujiwara no Yoshiyoshi, de vinte e seis annos, escreveu o
seguinte:―«Sacrifiquemos aqui as nossas vidas, e mostremos aos
estrangeiros o que vale a nobre coragem japoneza.»―Contando bem, são
onze já. Parou aqui a scena, porque o commandante do Dupleix, notando já
onze mortos para expiação dos onze crimes, deu-se por satisfeito, pediu que
cessasse aquelle espectaculo assombroso. Dos samurais perdoados, um
suicidou-se em breve trecho, dando de barato a graça pela honra de morrer
com os seus; os outros dispersaram-se; vive um ainda hoje, presumo que em
Nagoya, um interessante velhinho, que reconta de bom grado as peripecias
d'aquelle horrivel drama.
Os onze samurais foram alli mesmo enterrados, no cemiterio, junto ao
templo. Ainda ha pouco lá estive. O templo é um placido retiro de sombra e
de silencio, tam velho, que ha alguns mezes um rijo vendaval quasi o desfez
em pó.
Os peregrinos visitam primeiro um jardim interior, onde uma arvore
sagrada, um enorme sagueiro, occupa o espaço todo, lançando em volta as
suas palmas verdes. A lenda dá-lhe mui longos annos de existencia, e reza
que ha quasi quatro seculos o shogun Nobunaga tanto se agradou d'aquella
arvore, que mandou arrancal-a e transportar para um dos seus jardins; mas
tanto se mirrava o sagueiro, e tanto se lamentava noite e dia, que não houve
remedio senão trazel-o de novo ao velho poiso.
Do jardim, passa-se ao pequeno cemiterio. As sepulturas, apresentando a
fórma de cubos de granito, aconchegam-se, agrupam-se n'uma intimidade
commovente; por entre as pedras, tufam e florescem as azaleas e verdejam
os musgos, e mãos piedosas vêem depôr ramos de flôres e de verdura. Entre
estas sepulturas contam-se as dos onze samurais. Mais adeante, as urnas de
charão que serviram ao supplicio, alinham-se n'um altar, e ainda se
distinguem manchas negras, do sangue derramado.
Tsuneshichi Fujiwara no Yoshiyoshi, de vinte e seis annos, escreveu o
seguinte:―«Sacrifiquemos aqui as nossas vidas, e mostremos aos
estrangeiros o que vale a nobre coragem japoneza.»―Contando bem, são
onze já. Parou aqui a scena, porque o commandante do Dupleix, notando já
onze mortos para expiação dos onze crimes, deu-se por satisfeito, pediu que
cessasse aquelle espectaculo assombroso. Dos samurais perdoados, um
suicidou-se em breve trecho, dando de barato a graça pela honra de morrer
com os seus; os outros dispersaram-se; vive um ainda hoje, presumo que em
Nagoya, um interessante velhinho, que reconta de bom grado as peripecias
d'aquelle horrivel drama.
Os onze samurais foram alli mesmo enterrados, no cemiterio, junto ao
templo. Ainda ha pouco lá estive. O templo é um placido retiro de sombra e
de silencio, tam velho, que ha alguns mezes um rijo vendaval quasi o desfez
em pó.
Os peregrinos visitam primeiro um jardim interior, onde uma arvore
sagrada, um enorme sagueiro, occupa o espaço todo, lançando em volta as
suas palmas verdes. A lenda dá-lhe mui longos annos de existencia, e reza
que ha quasi quatro seculos o shogun Nobunaga tanto se agradou d'aquella
arvore, que mandou arrancal-a e transportar para um dos seus jardins; mas
tanto se mirrava o sagueiro, e tanto se lamentava noite e dia, que não houve
remedio senão trazel-o de novo ao velho poiso.
Do jardim, passa-se ao pequeno cemiterio. As sepulturas, apresentando a
fórma de cubos de granito, aconchegam-se, agrupam-se n'uma intimidade
commovente; por entre as pedras, tufam e florescem as azaleas e verdejam
os musgos, e mãos piedosas vêem depôr ramos de flôres e de verdura. Entre
estas sepulturas contam-se as dos onze samurais. Mais adeante, as urnas de
charão que serviram ao supplicio, alinham-se n'um altar, e ainda se
distinguem manchas negras, do sangue derramado.
Page 94
Como eu dizia ha pouco, os annos passaram sobre os factos e esfriaram os
rancores. N'estes dois cemiterios, de Kobe e de Sakai, nem já existe sequer
o pó dos ossos, existem só legendas. Em Kobe, as onze sepulturas evocam
no espirito esse periodo de frenesi da Europa, de curiosidade, de cubiça, em
face da morna inercia d'este canto do mundo; e as esquadras que o
devassam, que o visam com os canhões; e os diplomatas que intrigam, que
teimam, conduzindo o finalmente, á força, ao convivio das nações; e, como
peripecias infimas, quasi olvidadas e não pesando na marcha progressiva
dos negocios, o sacrificio inglorio de alguns humildes obreiros d'essa
empreza... Em Sakai, as onze sepulturas rememoram a desesperada
resistencia d'uma tribu feliz, contra aquelles que vinham arrancal-a aos seus
sonhos amorosos, rasgar-lhe a lenda e a crença, e bradar-lhe que ser-se
assim ditoso, já não é permittido. Pobres mortos! abraço com um mesmo
olhar d'alma, enternecido, as vinte e duas campas...
1900.
rancores. N'estes dois cemiterios, de Kobe e de Sakai, nem já existe sequer
o pó dos ossos, existem só legendas. Em Kobe, as onze sepulturas evocam
no espirito esse periodo de frenesi da Europa, de curiosidade, de cubiça, em
face da morna inercia d'este canto do mundo; e as esquadras que o
devassam, que o visam com os canhões; e os diplomatas que intrigam, que
teimam, conduzindo o finalmente, á força, ao convivio das nações; e, como
peripecias infimas, quasi olvidadas e não pesando na marcha progressiva
dos negocios, o sacrificio inglorio de alguns humildes obreiros d'essa
empreza... Em Sakai, as onze sepulturas rememoram a desesperada
resistencia d'uma tribu feliz, contra aquelles que vinham arrancal-a aos seus
sonhos amorosos, rasgar-lhe a lenda e a crença, e bradar-lhe que ser-se
assim ditoso, já não é permittido. Pobres mortos! abraço com um mesmo
olhar d'alma, enternecido, as vinte e duas campas...
1900.
Page 95
O ESPELHO DE MATSUYAMA
Ás Filhas de Carlos Campos
Viveu ha muito tempo no Japão um feliz casal de gente rustica, modelo de
virtudes conjugaes; eram elles, os dois, e uma filhinha, o seu encanto. O
povo varreu já da memoria os nomes d'essa gente; não admira, quando se
pense que tantos seculos passaram. Indica-se apenas o logar, Matsuyama,
Ás Filhas de Carlos Campos
Viveu ha muito tempo no Japão um feliz casal de gente rustica, modelo de
virtudes conjugaes; eram elles, os dois, e uma filhinha, o seu encanto. O
povo varreu já da memoria os nomes d'essa gente; não admira, quando se
pense que tantos seculos passaram. Indica-se apenas o logar, Matsuyama,
Page 96
que quer dizer Montanha dos pinheiros, na provincia de Echigo. Esta ligeira
indicação basta para que imaginemos o scenario: serranias, pinheiraes,
succedendo-se a serranias, pinheiraes; a terra, a rocha, fôfas de musgos, de
fetos, de herva brava; covôes, precipicios, cachoeiras, por onde a agua
golfa, espuma e rumoreja; pios de corvos e hymnos de cigarras; raros
caminhos serpeando, calcados pelas
sandalias dos que passam; e aqui, e
alem, alguma humilde cabana de
aldeões, de barro e colmo, aonde a
vida intima, após as horas de labuta,
desliza em longos repousos sobre a
esteira, em simplicidades primitivas,
em face da grande paz da scena
agreste, e do azul sem fim dos largos
horisontes. N'uma d'essas cabanas
vivia o casal a que alludi.
Ora, aconteceu uma vez que negocios muito graves chamaram o marido á
faustuosa cidade, á capital de todo o imperio. Figure-se o alvoroço e o
reboliço na choupana. Em coisas de viagem, a experiencia da esposa
resumia-se ao trilho que seguíra raras vezes, em duas horas de caminho, do
seu lar ao logarejo mais visinho. Alanceavam-n'a agora varios sustos,
acudiam-lhe ao espirito não sei que perigos e trabalhos, maleficios dos
genios das florestas, mil revezes a que se ia expôr o companheiro... Por
indicação basta para que imaginemos o scenario: serranias, pinheiraes,
succedendo-se a serranias, pinheiraes; a terra, a rocha, fôfas de musgos, de
fetos, de herva brava; covôes, precipicios, cachoeiras, por onde a agua
golfa, espuma e rumoreja; pios de corvos e hymnos de cigarras; raros
caminhos serpeando, calcados pelas
sandalias dos que passam; e aqui, e
alem, alguma humilde cabana de
aldeões, de barro e colmo, aonde a
vida intima, após as horas de labuta,
desliza em longos repousos sobre a
esteira, em simplicidades primitivas,
em face da grande paz da scena
agreste, e do azul sem fim dos largos
horisontes. N'uma d'essas cabanas
vivia o casal a que alludi.
Ora, aconteceu uma vez que negocios muito graves chamaram o marido á
faustuosa cidade, á capital de todo o imperio. Figure-se o alvoroço e o
reboliço na choupana. Em coisas de viagem, a experiencia da esposa
resumia-se ao trilho que seguíra raras vezes, em duas horas de caminho, do
seu lar ao logarejo mais visinho. Alanceavam-n'a agora varios sustos,
acudiam-lhe ao espirito não sei que perigos e trabalhos, maleficios dos
genios das florestas, mil revezes a que se ia expôr o companheiro... Por
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outro lado, envaidava-se com a idéa de ser elle o primeiro do logar que ia
vêr por seus olhos a mansão da côrte e do soberano, e contemplar as
grandes maravilhas que lá por certo havia. Ella ficava; ella tinha a sua
pequerrucha e o cuidado do lar; e, embora mordida de saudades, devia
resignar-se aos deveres do seu mister, e aos anceios d'aquella dura ausencia.
E que terna que foi a despedida!... Beijos e abraços não se deram, porque os
japonezes não dão nem beijos nem abraços; lagrimas não correram, porque
os japonezes nunca choram; mas fôram tantas as mesuras e tantos os
sorrisos, e tam longa a ultima palestra, elle promettendo voltar breve, ella
prodigalisando mil conselhos, que era mesmo um regalo contemplar casal
tam meigo e tam feliz!...
E lá foi o marido.
Passaram-se semanas e semanas; para encurtar razões, annuncia-se agora o
regresso do Passaram-se semanas e semanas; para encurtar razões,
annuncia-se agora o regresso do sujeito. É vêl-a então, a cirandeira, ora
varrendo, ora lavando ora arrumando, dispondo a choça em festa para a
ditosa hora da chegada. É a pequenita certamente que mais cuidados lhe
merece: o kimonosinho de crepe de seda preciosa, a faixa da cintura, a flôr
para o cabello, tudo novo, tudo fresco, tudo lindo, se põe de parte, se
examina; e os dedos finos da maman, em curvas adoraveis, saltam, vôam,
aqui alizam pregas, alli compõem laços, com habilidades unicas,
prodigiosas; convem saber que não ha mãos mais bonitas e mais destras do
que as mãos das japonezas, nem mães mais carinhosas do que estas mamans
do Dai-Nippon. Ella propria, a maman, tambem cuida de si, não se furta aos
adornos, não por arte talvez, por instincto do sexo; e eil-a enfiando os pés
nús em grandes soccos novos, de charão negro e luzente, e estreando um
kimono catita, azul e branco. E lá vão ellas, as duas, certo dia, trilhos fóra,
tic-tac, tic-tac, ao encontro do homem.
vêr por seus olhos a mansão da côrte e do soberano, e contemplar as
grandes maravilhas que lá por certo havia. Ella ficava; ella tinha a sua
pequerrucha e o cuidado do lar; e, embora mordida de saudades, devia
resignar-se aos deveres do seu mister, e aos anceios d'aquella dura ausencia.
E que terna que foi a despedida!... Beijos e abraços não se deram, porque os
japonezes não dão nem beijos nem abraços; lagrimas não correram, porque
os japonezes nunca choram; mas fôram tantas as mesuras e tantos os
sorrisos, e tam longa a ultima palestra, elle promettendo voltar breve, ella
prodigalisando mil conselhos, que era mesmo um regalo contemplar casal
tam meigo e tam feliz!...
E lá foi o marido.
Passaram-se semanas e semanas; para encurtar razões, annuncia-se agora o
regresso do Passaram-se semanas e semanas; para encurtar razões,
annuncia-se agora o regresso do sujeito. É vêl-a então, a cirandeira, ora
varrendo, ora lavando ora arrumando, dispondo a choça em festa para a
ditosa hora da chegada. É a pequenita certamente que mais cuidados lhe
merece: o kimonosinho de crepe de seda preciosa, a faixa da cintura, a flôr
para o cabello, tudo novo, tudo fresco, tudo lindo, se põe de parte, se
examina; e os dedos finos da maman, em curvas adoraveis, saltam, vôam,
aqui alizam pregas, alli compõem laços, com habilidades unicas,
prodigiosas; convem saber que não ha mãos mais bonitas e mais destras do
que as mãos das japonezas, nem mães mais carinhosas do que estas mamans
do Dai-Nippon. Ella propria, a maman, tambem cuida de si, não se furta aos
adornos, não por arte talvez, por instincto do sexo; e eil-a enfiando os pés
nús em grandes soccos novos, de charão negro e luzente, e estreando um
kimono catita, azul e branco. E lá vão ellas, as duas, certo dia, trilhos fóra,
tic-tac, tic-tac, ao encontro do homem.
Page 98
Ai, que jubilos, ao toparem com elle
são e salvo, todo chibante,
bamboleando-se no seu passo
vagaroso, para mais prolongar tam
doce transe!...―«Bons dias, senhor
marido! Bons dias, senhor meu
pae!»―e os corpos agaxam-se em
mesuras, e as cabecitas vão quasi tocar
o chão do campo. E como a
pequerrucha bate as palmas, e se lhe
accendem os olhitos, quando elle logo
alli lhe quer vasar no regaço a caixa
de bonecos que comprára, carretas de
madeira, raposas de pellucia, uma
viola, minusculos apparelhos de
cosinha e muitas outras maravilhas!...
Elle promette entreter dias inteiros, só
com a narração do que seus olhos
viram: theatros regorgitando de
musumés, vestidas como deusas;
principes em comitivas resplendentes,
passeando em liteiras de charão, e o
povo prostrado a adoral-os pelas ruas;
serenatas nos rios, barcos vogando a transbordarem de mulheres e
enfeitados com balões, gemem as cordas das violas e estalejam nos ares
foguetes de mil côres; templos gigantes e enormes sinos badalando;
palacios cheios de luxo; jardins cheios de flôres; e por toda a parte a
immensa multidão, de velhos, de rapazes, de meninos, feliz, risonha,
pachorrenta; e a immensa industria dos bazares, charões, oiros, sedas,
porcellanas, adornos sem conta nem medida, tudo digno de ir adornar
mansões de fadas, no mundo das chimeras!...
O marido passou depois ás mãositas da esposa, tremulas de emoção, um
bello cofre de madeira branca, cuidadosamente fechado, e disse-lhe
isto:―«Não me esqueci de ti, como estás vendo; trago-te uma coisa muito
são e salvo, todo chibante,
bamboleando-se no seu passo
vagaroso, para mais prolongar tam
doce transe!...―«Bons dias, senhor
marido! Bons dias, senhor meu
pae!»―e os corpos agaxam-se em
mesuras, e as cabecitas vão quasi tocar
o chão do campo. E como a
pequerrucha bate as palmas, e se lhe
accendem os olhitos, quando elle logo
alli lhe quer vasar no regaço a caixa
de bonecos que comprára, carretas de
madeira, raposas de pellucia, uma
viola, minusculos apparelhos de
cosinha e muitas outras maravilhas!...
Elle promette entreter dias inteiros, só
com a narração do que seus olhos
viram: theatros regorgitando de
musumés, vestidas como deusas;
principes em comitivas resplendentes,
passeando em liteiras de charão, e o
povo prostrado a adoral-os pelas ruas;
serenatas nos rios, barcos vogando a transbordarem de mulheres e
enfeitados com balões, gemem as cordas das violas e estalejam nos ares
foguetes de mil côres; templos gigantes e enormes sinos badalando;
palacios cheios de luxo; jardins cheios de flôres; e por toda a parte a
immensa multidão, de velhos, de rapazes, de meninos, feliz, risonha,
pachorrenta; e a immensa industria dos bazares, charões, oiros, sedas,
porcellanas, adornos sem conta nem medida, tudo digno de ir adornar
mansões de fadas, no mundo das chimeras!...
O marido passou depois ás mãositas da esposa, tremulas de emoção, um
bello cofre de madeira branca, cuidadosamente fechado, e disse-lhe
isto:―«Não me esqueci de ti, como estás vendo; trago-te uma coisa muito
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linda, que tu de certo não conheces, um espelho, um kagami, como lhe
chamam na cidade.»―Ella então, abrindo o cofre, observou a offerta; era
um grande disco de metal, com o seu cabo, tendo uma face prateada, com
relevos de folhagem de bambu e vôos de cegonhas, e a outra face limpida e
brilhante como um puro crystal.
É bom saber-se que, sendo a industria do vidro recentissima no Japão, só ha
mui pouco tempo aqui se conheceram os espelhinhos reles da industria
occidental; nos velhos tempos, os espelhos do paiz eram metalicos, de
preciosa liga e artistico trabalho, objectos caros excluidos, do lar dos
aldeões; de sorte que é presumivel, dada a simplicidade de alma da pobre
gente rustica de então, que as bellas ignorassem que eram bellas, por nem
no espelho da agua das ribeiras se mirarem. Mas vamos nós á historia,
excluindo divagações que pouco interessam.
Dizia o marido á companheira:―«Olha bem para a face brilhante d'este
espelho e conta-me o que vês.»―Ella era toda olhos, toda surpresas, toda
extasis; e respondeu por fim que via o rosto de uma mulher muito gentil,
com um oval de enfeitiçar, comuns olhinhos negros muito doces, com uma
rubra boquinha de cubiça. Disse mais que essa mulher não cessava de fital-
a; e se ria, a mulher ria; e se fallava, os labios da mulher acompanhavam-n'a
no gesto; e, para cumulo de estranheza, vestia um kimono azul e branco,
igual ao seu, que ella trazia... O marido sorria-se, já com uns ares de doutor,
que da viagem lhe provinham; e foi benevolamente convencendo-a de que
essa mulher era ella mesma, e que o espelho, por um mysterio que elle não
sabia explicar, apenas reproduzia a sua imagem, os seus encantos proprios;
lá na cidade, muitas raparigas possuiam espelhos como aquelle, e n'elles se
viam e reviam, ora compondo as voltas do cabello, ora pintando os labios
de escarlate, ora por mero passatempo de se acharem bonitas, as garridas. A
esposa ficou então louquinha com o presente; e... diga-se toda a verdade:
cheia de orgulho de si mesma, por se vêr tam catita, tam fresca, apetecivel.
Fôram semanas e semanas votadas a esse enlevo, a mirar-se, a namorar-
se―quem não lhe relevará essa vaidade?―até que finalmente convenceu-se
de que um espelho era joia preciosa de mais para servir todos os dias, alli na
choça núa, na solidão dos bosques; assim se explica o caso de ter elle ido
parar dentro de uma gaveta, esquecido de mistura com as velhas reliquias
da familia.
chamam na cidade.»―Ella então, abrindo o cofre, observou a offerta; era
um grande disco de metal, com o seu cabo, tendo uma face prateada, com
relevos de folhagem de bambu e vôos de cegonhas, e a outra face limpida e
brilhante como um puro crystal.
É bom saber-se que, sendo a industria do vidro recentissima no Japão, só ha
mui pouco tempo aqui se conheceram os espelhinhos reles da industria
occidental; nos velhos tempos, os espelhos do paiz eram metalicos, de
preciosa liga e artistico trabalho, objectos caros excluidos, do lar dos
aldeões; de sorte que é presumivel, dada a simplicidade de alma da pobre
gente rustica de então, que as bellas ignorassem que eram bellas, por nem
no espelho da agua das ribeiras se mirarem. Mas vamos nós á historia,
excluindo divagações que pouco interessam.
Dizia o marido á companheira:―«Olha bem para a face brilhante d'este
espelho e conta-me o que vês.»―Ella era toda olhos, toda surpresas, toda
extasis; e respondeu por fim que via o rosto de uma mulher muito gentil,
com um oval de enfeitiçar, comuns olhinhos negros muito doces, com uma
rubra boquinha de cubiça. Disse mais que essa mulher não cessava de fital-
a; e se ria, a mulher ria; e se fallava, os labios da mulher acompanhavam-n'a
no gesto; e, para cumulo de estranheza, vestia um kimono azul e branco,
igual ao seu, que ella trazia... O marido sorria-se, já com uns ares de doutor,
que da viagem lhe provinham; e foi benevolamente convencendo-a de que
essa mulher era ella mesma, e que o espelho, por um mysterio que elle não
sabia explicar, apenas reproduzia a sua imagem, os seus encantos proprios;
lá na cidade, muitas raparigas possuiam espelhos como aquelle, e n'elles se
viam e reviam, ora compondo as voltas do cabello, ora pintando os labios
de escarlate, ora por mero passatempo de se acharem bonitas, as garridas. A
esposa ficou então louquinha com o presente; e... diga-se toda a verdade:
cheia de orgulho de si mesma, por se vêr tam catita, tam fresca, apetecivel.
Fôram semanas e semanas votadas a esse enlevo, a mirar-se, a namorar-
se―quem não lhe relevará essa vaidade?―até que finalmente convenceu-se
de que um espelho era joia preciosa de mais para servir todos os dias, alli na
choça núa, na solidão dos bosques; assim se explica o caso de ter elle ido
parar dentro de uma gaveta, esquecido de mistura com as velhas reliquias
da familia.
Page 100
E vão passando os dias, os mezes e os annos. A felicidade bafeja
constantemente aquelle lar. A grande alegria do casal é a filha, que cresce
em mimos, tornando-se a verdadeira imagem da maman, e como ella
submissa, e como ella affectuosa, e como ella activa na labuta. Vaidades de
mulher, que tanto prejudicam no futuro as raparigas, não as tinha; e deve
aqui prestar-se inteiro applauso á previdencia da maman, que em lembrança
dos seus caprichos de outro tempo, passageiros, nunca á mocinha confiou o
espelho, velha joia sem uso, esquecida na gaveta.
E vão passando os dias, os mezes e os annos. Muitos annos. A mãe, uma
velhinha com a alvura da neve por côr dos seus cabellos, jaz prostrada na
cama, sem forças, moribunda; a filha, junto d'ella, multiplica-se em
cuidados, anima a triste enferma.
A custo, diz a velha:―«Sinto que morro, vae-me fugindo a luz dos olhos.
Vou deixar-te, e o nosso velho amigo. É isto que me pesa; cheguei a
persuadir-me de que este nosso bem não tinha fim. Por ti, tam só que ficas,
receio muito, filha: o mundo é um grande mar, cheio de escolhos e de
perigos...»―E deteve-se e pôz-se a meditar por muito tempo, passando pela
fronte os dedos descarnados; então, um pensamento lhe acudiu, uma d'essas
travessuras de velha que só redundam para o bem, e proseguiu d'esta
maneira:―«Olha, tenho uma idéa: toma este espelho, este objecto
milagroso que veio de muito longe; e jura-me que uma vez em cada dia e
uma vez em cada noite, o irás vêr. Eu te apparecerei então, no mesmo
espelho; e assim, na minha companhia, terás mais animo na vida, mais força
nas angustias, mais tento com as indecisões da juventude e com os males
que te rodeem.»―E a filha jurou isto; e a velha deixou-se morrer
serenamente, resignada, sorrindo á paizagem verde, sorrindo ao sol festivo,
constantemente aquelle lar. A grande alegria do casal é a filha, que cresce
em mimos, tornando-se a verdadeira imagem da maman, e como ella
submissa, e como ella affectuosa, e como ella activa na labuta. Vaidades de
mulher, que tanto prejudicam no futuro as raparigas, não as tinha; e deve
aqui prestar-se inteiro applauso á previdencia da maman, que em lembrança
dos seus caprichos de outro tempo, passageiros, nunca á mocinha confiou o
espelho, velha joia sem uso, esquecida na gaveta.
E vão passando os dias, os mezes e os annos. Muitos annos. A mãe, uma
velhinha com a alvura da neve por côr dos seus cabellos, jaz prostrada na
cama, sem forças, moribunda; a filha, junto d'ella, multiplica-se em
cuidados, anima a triste enferma.
A custo, diz a velha:―«Sinto que morro, vae-me fugindo a luz dos olhos.
Vou deixar-te, e o nosso velho amigo. É isto que me pesa; cheguei a
persuadir-me de que este nosso bem não tinha fim. Por ti, tam só que ficas,
receio muito, filha: o mundo é um grande mar, cheio de escolhos e de
perigos...»―E deteve-se e pôz-se a meditar por muito tempo, passando pela
fronte os dedos descarnados; então, um pensamento lhe acudiu, uma d'essas
travessuras de velha que só redundam para o bem, e proseguiu d'esta
maneira:―«Olha, tenho uma idéa: toma este espelho, este objecto
milagroso que veio de muito longe; e jura-me que uma vez em cada dia e
uma vez em cada noite, o irás vêr. Eu te apparecerei então, no mesmo
espelho; e assim, na minha companhia, terás mais animo na vida, mais força
nas angustias, mais tento com as indecisões da juventude e com os males
que te rodeem.»―E a filha jurou isto; e a velha deixou-se morrer
serenamente, resignada, sorrindo á paizagem verde, sorrindo ao sol festivo,
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que investia em faixas de ouro pela
casa...
A musumé cumpriu attentamente o
juramento. Por esta forma percorreu a
via da existencia, tranquilla, sempre
assistida pela mãe, que nunca cessou
de apparecer-lhe, quando, nas mãos
piedosas sustinha o espelho milagroso.
Não era da moribunda, livida,
prostrada em agonia, desfallecendo
pouco a pouco, a doce apparição; era a
maman gentil, de outros tempos, cheia
de louçanias e sorrisos. Achava-se
com ella n'um placido convivio sem
reservas, com ella palestrava, a ella
confiava os seus segredos, os seus sobresaltos de donzella; e n'aquella face
pura bebia conforto e recompensas.
O velho algumas vezes surprehendeu a filha com o espelho entre as mãos,
sorrindo, murmurando singellas confidencias. Pareceu-lhe estranho o caso;
e ia um bello dia notar-lhe o disparate, quando a moça lhe fez uma
pergunta, por onde avaliou a chimera amorosa com que ella ia embalando o
pensamento.―«Repare, senhor meu pae: não vê no espelho a minha
mãe?...»―O que o velho via claramente, era a imagem da filha, que alli
tinha junto de si em carne e osso,―e que carne! e que osso!―palpitante de
vida e gentileza... mas julgou mais prudente conserval-a sob o prestigio da
illusão; e, franzindo muito o rosto, de rude pergaminho, sem que se
percebesse se ria ou se chorava, ou se ria e chorava ao mesmo tempo, fez
côro com ella, assegurando que sim, que via a santa mãe, e tam bella, e tam
fresca, como no dia do noivado...
1900.
casa...
A musumé cumpriu attentamente o
juramento. Por esta forma percorreu a
via da existencia, tranquilla, sempre
assistida pela mãe, que nunca cessou
de apparecer-lhe, quando, nas mãos
piedosas sustinha o espelho milagroso.
Não era da moribunda, livida,
prostrada em agonia, desfallecendo
pouco a pouco, a doce apparição; era a
maman gentil, de outros tempos, cheia
de louçanias e sorrisos. Achava-se
com ella n'um placido convivio sem
reservas, com ella palestrava, a ella
confiava os seus segredos, os seus sobresaltos de donzella; e n'aquella face
pura bebia conforto e recompensas.
O velho algumas vezes surprehendeu a filha com o espelho entre as mãos,
sorrindo, murmurando singellas confidencias. Pareceu-lhe estranho o caso;
e ia um bello dia notar-lhe o disparate, quando a moça lhe fez uma
pergunta, por onde avaliou a chimera amorosa com que ella ia embalando o
pensamento.―«Repare, senhor meu pae: não vê no espelho a minha
mãe?...»―O que o velho via claramente, era a imagem da filha, que alli
tinha junto de si em carne e osso,―e que carne! e que osso!―palpitante de
vida e gentileza... mas julgou mais prudente conserval-a sob o prestigio da
illusão; e, franzindo muito o rosto, de rude pergaminho, sem que se
percebesse se ria ou se chorava, ou se ria e chorava ao mesmo tempo, fez
côro com ella, assegurando que sim, que via a santa mãe, e tam bella, e tam
fresca, como no dia do noivado...
1900.
Page 102
AMÔRES...
A J. Godinho De Campos
Uma impressão de Macau.
O que faria aquelle bando de leprosos,
que a policia da colonia surprehendeu
e agarrou? O que faria aquelle bando
de leprosos, além no meio do rio,
sobre um miseravel barco, pela noite
velha, tenO que faria aquelle bando de
leprosos, que a policia da colonia
surprehendeu e agarrou? O que faria
aquelle bando de leprosos, além no
meio do rio, sobre um miseravel
barco, pela noite velha, tenebrosa e
fria, ora pairando e deslisando ao
grado da corrente, ora remando
manso, de margem para margem, em
vigia?...
Elles eram uns ossudos filhos das aldeias, dando-nos de longe uma
impressão de robustez de musculos, de gente affeita á enxada e á vida de
lavoira. Vistos de perto, resaltava horrivelmente o ferrete de peçonha do seu
sangue; eram indiscriptiveis seres inuteis, abjectos, quasi sem mãos, quasi
sem pés, porque os dedos lhes iam caindo podres aos pedaços; rostos
medonhos lavrados pelo mal, sem narizes, com os beiços roidos, com as
faces chagadas; ainda mais sinistros pela infamia estampada nas feições e
nos olhares, denunciando perversidades de alma de infimo quilate, por certo
A J. Godinho De Campos
Uma impressão de Macau.
O que faria aquelle bando de leprosos,
que a policia da colonia surprehendeu
e agarrou? O que faria aquelle bando
de leprosos, além no meio do rio,
sobre um miseravel barco, pela noite
velha, tenO que faria aquelle bando de
leprosos, que a policia da colonia
surprehendeu e agarrou? O que faria
aquelle bando de leprosos, além no
meio do rio, sobre um miseravel
barco, pela noite velha, tenebrosa e
fria, ora pairando e deslisando ao
grado da corrente, ora remando
manso, de margem para margem, em
vigia?...
Elles eram uns ossudos filhos das aldeias, dando-nos de longe uma
impressão de robustez de musculos, de gente affeita á enxada e á vida de
lavoira. Vistos de perto, resaltava horrivelmente o ferrete de peçonha do seu
sangue; eram indiscriptiveis seres inuteis, abjectos, quasi sem mãos, quasi
sem pés, porque os dedos lhes iam caindo podres aos pedaços; rostos
medonhos lavrados pelo mal, sem narizes, com os beiços roidos, com as
faces chagadas; ainda mais sinistros pela infamia estampada nas feições e
nos olhares, denunciando perversidades de alma de infimo quilate, por certo
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derivadas da suprema degradação do seu viver. Vestiam farrapos immundos,
sem fórma definida e sem côr reconhecivel; e escondiam as frontes, talvez
envergonhadas, sob as abas enormes dos chapeus de rota, em uso nas
aldeias.
Pescavam? por aquellas horas da noite e n'aquelle paradeiro, não era
admissivel esta supposição; nem no misero barco, onde se amontoavam
alguns trapos, se deu fé de anzoes ou de outras artes de pescar.
Mendigavam? menos possivel ainda que assim fosse. A taes horas, dormem
todos, incluindo os mendigos. O rio dormia, silencioso, lugubre pelo
aspecto das suas aguas negras, dos cascos alterosos das grandes lórchas
juntas em magotes, desenhando-se vagamente junto ás margens os barquitos
em cardumes, presos ás varas de bambú encravadas no lodo. Apenas de
espaço a espaço algum raro tanka atravessava d'um lado para outro, chape-
chape, remos movidos lentamente pelas mãos das raparigas somnarentas,
fartas da lida do dia,―coisa de ir levar ao seu albergue algum retardatario,
de volta do jogo ou das orgias.―Não era dos nocturnos viajeiros, e menos
dos pobres tankareiras, que o bando de leprosos lograria um punhado de
sapecas, que compensasse o esforço da vigilia. Nem a sua miseria,
realmente, era tal, que os levasse a tão duros extremos. É certo que o
leproso se encontra excluido dos povoados. Em paragens mais rusticas,
matam-n'o á pedrada, se o encontram; em Macau, porém, a brandura dos
costumes regeita em regra esta medida, tenha embora o miseravel de viver
pelos esteiros, em barcos podres, ou sobre os lodos, escondido das gentes
como um bicho peçonhento. No entretanto, o esteiro fornece-lhe peixes vis,
e caranguejos, e molluscos, e vermes; os cäes vadios encontram de quando
em quando, nos despejos, um punhado de arroz cosido, e o leproso tambem
o encontra, como elles. Na altivez da sua pasmosa abjecção, o leproso não
vem expôr-se ao asco, ao opprobrio; sorri ao mundo com desdem, acoita-se
no antro, come immundicies, bebe agua pôdre; e os fados são-lhe bastante
complacentes em geral, para matal-os da molestia antes que arrebentem
pela fome...
sem fórma definida e sem côr reconhecivel; e escondiam as frontes, talvez
envergonhadas, sob as abas enormes dos chapeus de rota, em uso nas
aldeias.
Pescavam? por aquellas horas da noite e n'aquelle paradeiro, não era
admissivel esta supposição; nem no misero barco, onde se amontoavam
alguns trapos, se deu fé de anzoes ou de outras artes de pescar.
Mendigavam? menos possivel ainda que assim fosse. A taes horas, dormem
todos, incluindo os mendigos. O rio dormia, silencioso, lugubre pelo
aspecto das suas aguas negras, dos cascos alterosos das grandes lórchas
juntas em magotes, desenhando-se vagamente junto ás margens os barquitos
em cardumes, presos ás varas de bambú encravadas no lodo. Apenas de
espaço a espaço algum raro tanka atravessava d'um lado para outro, chape-
chape, remos movidos lentamente pelas mãos das raparigas somnarentas,
fartas da lida do dia,―coisa de ir levar ao seu albergue algum retardatario,
de volta do jogo ou das orgias.―Não era dos nocturnos viajeiros, e menos
dos pobres tankareiras, que o bando de leprosos lograria um punhado de
sapecas, que compensasse o esforço da vigilia. Nem a sua miseria,
realmente, era tal, que os levasse a tão duros extremos. É certo que o
leproso se encontra excluido dos povoados. Em paragens mais rusticas,
matam-n'o á pedrada, se o encontram; em Macau, porém, a brandura dos
costumes regeita em regra esta medida, tenha embora o miseravel de viver
pelos esteiros, em barcos podres, ou sobre os lodos, escondido das gentes
como um bicho peçonhento. No entretanto, o esteiro fornece-lhe peixes vis,
e caranguejos, e molluscos, e vermes; os cäes vadios encontram de quando
em quando, nos despejos, um punhado de arroz cosido, e o leproso tambem
o encontra, como elles. Na altivez da sua pasmosa abjecção, o leproso não
vem expôr-se ao asco, ao opprobrio; sorri ao mundo com desdem, acoita-se
no antro, come immundicies, bebe agua pôdre; e os fados são-lhe bastante
complacentes em geral, para matal-os da molestia antes que arrebentem
pela fome...
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Averiguou-se finalmente o que fazia aquelle bando de leprosos.
Aquelles infimos párias passavam a existencia isoladamente, cioso cada
qual do seu covil, dos seus farrapos, devorando sem partilha o que o acaso
lhe offerecia nos enxurros. Conheciam-se certamente, pela visinhança dos
antros, sobre a mesma vasa que se alastra na margem fronteira á de Macau,
e a fatalidade commum estabelecia de direito affinidades, allianças tacitas
de tribu, entre elles; mas, como não carecessem uns dos outros para
soffrerem, para odiarem a natureza creadora, para jazerem no ninho da
trapagem, para morrerem, não se procuravam. Na imaginação immersa em
trevas de cada um, rustica, pouco elastica, e cultivada em ascos, em
maldições, em misanthropias rancorosas, nunca por certo passara a
phantasia de vir insinuar-se na turba, partilhar das suas distracções,
relancear os festins, percorrer os bazares, invadir os templos e os theatros.
Mas na torva e lenta elaboração do pensamento,
durante os longos dias, os longos mezes, os
longos annos de isolamento e de ocio, um desejo
se fôra pouco a pouco avolumando, definindo,
convertido finalmente em tortura, amargurando
como uma dôr constante e implacavel:―era a
mulher, o desejo, a tortura da mulher.―Prazeres do mundo
não se queriam, nem mesmo se lhes imaginavam os
feitiços; era-se superior a essa chimera. Mas, no ambiente
acariciador da vida, em presença das arvores fructificando,
das flores perfumadas, dos animaes requestando-se, os
hymnos da terra, da creação em galas, do amor dos sexos,
vinham tambem echoar n'aquelles cerebros, electrisar aquelles nervos; a
visão da mulher, durante as mornas monotonias sem termo, aparecia como
um apetite crescente, como uma fome de carne; e os miseraveis, allucinados
pela obsecação de todos os momentos, estremeciam, erguiam-se de subito
do seu leito de trapos, arquejantes, o sangue a escaldar-lhes as frontes, o
olhar em fogo...
Então, tacitamente, impôz-se a cada qual a necessidade de fraternisar com o
seu visinho, de agremiar-se em bando. A união faz a força. Procuraram-se,
Aquelles infimos párias passavam a existencia isoladamente, cioso cada
qual do seu covil, dos seus farrapos, devorando sem partilha o que o acaso
lhe offerecia nos enxurros. Conheciam-se certamente, pela visinhança dos
antros, sobre a mesma vasa que se alastra na margem fronteira á de Macau,
e a fatalidade commum estabelecia de direito affinidades, allianças tacitas
de tribu, entre elles; mas, como não carecessem uns dos outros para
soffrerem, para odiarem a natureza creadora, para jazerem no ninho da
trapagem, para morrerem, não se procuravam. Na imaginação immersa em
trevas de cada um, rustica, pouco elastica, e cultivada em ascos, em
maldições, em misanthropias rancorosas, nunca por certo passara a
phantasia de vir insinuar-se na turba, partilhar das suas distracções,
relancear os festins, percorrer os bazares, invadir os templos e os theatros.
Mas na torva e lenta elaboração do pensamento,
durante os longos dias, os longos mezes, os
longos annos de isolamento e de ocio, um desejo
se fôra pouco a pouco avolumando, definindo,
convertido finalmente em tortura, amargurando
como uma dôr constante e implacavel:―era a
mulher, o desejo, a tortura da mulher.―Prazeres do mundo
não se queriam, nem mesmo se lhes imaginavam os
feitiços; era-se superior a essa chimera. Mas, no ambiente
acariciador da vida, em presença das arvores fructificando,
das flores perfumadas, dos animaes requestando-se, os
hymnos da terra, da creação em galas, do amor dos sexos,
vinham tambem echoar n'aquelles cerebros, electrisar aquelles nervos; a
visão da mulher, durante as mornas monotonias sem termo, aparecia como
um apetite crescente, como uma fome de carne; e os miseraveis, allucinados
pela obsecação de todos os momentos, estremeciam, erguiam-se de subito
do seu leito de trapos, arquejantes, o sangue a escaldar-lhes as frontes, o
olhar em fogo...
Então, tacitamente, impôz-se a cada qual a necessidade de fraternisar com o
seu visinho, de agremiar-se em bando. A união faz a força. Procuraram-se,
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intenderam-se. Medonhos conciliabulos se passaram, a coberto das trevas,
pelas noites longas, sobre os lodos. Segredava-se, aventurava-se um plano,
discutia-se. Os olhos fuzilavam como raios, a phrase rouca golfava dos
labios, eloquente, persuasiva, os membros disformes erguiam-se na sombra
em gestos tragicos. E assim se escolheu o barco menos podre, se nomeou a
companha, o capitão, se esperou por uma noite mais escura, azada aos seus
intentos. Assim tiveram inicio e proseguiram os estranhos cruzeiros, á
aventura. Eil-os, o bando immundo dos gafados, á capa, pairando ou
remando a medo, de manso, de manso, silenciosamente, e prescrutando as
trevas. Se ia passando algum tanka, os ouvidos subtis e os olhos
experimentados, estudavam, presumiam, adivinhavam. Quando era chegado
o bom momento, então,―oh delirio supremo!―n'um impeto de remadas e
desejos, o barco voava, dava a abordagem, os milhafres caiam sobre as
victimas indefesas. Habeis no ataque, com as mãos sem dedos suffocavam
os gritos das mulheres, a murros, ou premindo; n'um relance, pelo faro,
distinguiam das velhas as moças, apartavam dos ossos duros a carne fofa e
tenra; e com fome de hyenas, as boccas pestilentas comiam, devoravam
com beijos as pobres raparigas, que em vão se debatiam na lucta tremenda
d'uns instantes...
Após, o barco dos leprosos seguia serenamente a atracar á margem chineza,
e elles dispersavam, mudos, quasi felizes, indifferentes por momentos ao
prurido das chagas; e semanas depois reuniam-se novamente. No tanka, as
moças ficavam-se chorando, arrepelando-se de horror, de desespero, de
vergonha por sua mofina sorte; e tanto mais mofina, que é assim, por um
beijo, segundo a voz do povo, que a lepra se propaga, se multiplica de corpo
para corpo.
1900.
UM PINTOR DE GATOS
pelas noites longas, sobre os lodos. Segredava-se, aventurava-se um plano,
discutia-se. Os olhos fuzilavam como raios, a phrase rouca golfava dos
labios, eloquente, persuasiva, os membros disformes erguiam-se na sombra
em gestos tragicos. E assim se escolheu o barco menos podre, se nomeou a
companha, o capitão, se esperou por uma noite mais escura, azada aos seus
intentos. Assim tiveram inicio e proseguiram os estranhos cruzeiros, á
aventura. Eil-os, o bando immundo dos gafados, á capa, pairando ou
remando a medo, de manso, de manso, silenciosamente, e prescrutando as
trevas. Se ia passando algum tanka, os ouvidos subtis e os olhos
experimentados, estudavam, presumiam, adivinhavam. Quando era chegado
o bom momento, então,―oh delirio supremo!―n'um impeto de remadas e
desejos, o barco voava, dava a abordagem, os milhafres caiam sobre as
victimas indefesas. Habeis no ataque, com as mãos sem dedos suffocavam
os gritos das mulheres, a murros, ou premindo; n'um relance, pelo faro,
distinguiam das velhas as moças, apartavam dos ossos duros a carne fofa e
tenra; e com fome de hyenas, as boccas pestilentas comiam, devoravam
com beijos as pobres raparigas, que em vão se debatiam na lucta tremenda
d'uns instantes...
Após, o barco dos leprosos seguia serenamente a atracar á margem chineza,
e elles dispersavam, mudos, quasi felizes, indifferentes por momentos ao
prurido das chagas; e semanas depois reuniam-se novamente. No tanka, as
moças ficavam-se chorando, arrepelando-se de horror, de desespero, de
vergonha por sua mofina sorte; e tanto mais mofina, que é assim, por um
beijo, segundo a voz do povo, que a lepra se propaga, se multiplica de corpo
para corpo.
1900.
UM PINTOR DE GATOS
Page 106
[1]
a D. Miguel de Mello.
Era uma vez, em mui remotos tempos,
uma familia de boa gente lavradora,
vivendo em certa aldeia do Japão.
Marido, mulher e um rancho de filhos;
gente pobre, é claro; e ajunte-se que a
mui ardua fadiga se dava o camponez,
para que não faltasse em cada dia, a cada
uma das vorazes boquinhas dos garotos,
a tigela de arroz do almoço e do jantar.
O mais velho dos rapazes, já aos
quatorze annos, robusto quasi como um
homem, começava a ajudar o pae, nas
varzeas e nos campos, o pobre pae, a quem as forças minguavam; e os
outros, cada um conforme a sua idade, iam fazendo tambem o que podiam;
até a irman pequena,―uma migalha de gente, coitadita!―lá ia alliviando a
atarefada mãe na lida do casebre.
Só o mais novo dos rapazes em nada se empregava que prestasse; era um
inutil; não que elle fôsse falto de juizo; pelo contrario, excedia em esperteza
qualquer dos irmãos ou das irmans; mas era enfezadito, debil de musculo; e
bem cedo os paes se convenceram de que aquelles braços tenros não
haviam nascido para a enxada.―«Faça-se d'elle um bonzo»,―combinaram;
e foi n'esta intenção que um bello dia decidiram leval-o ao templo do logar,
e á presença do velho sacerdote, que era como quem diz―o prior d'aquella
freguezia.―O pae fallou e expoz a questão, em quanto que a mãe
approvava com a cabeça; o reverendo, que em breve trecho descobrira rara
sagacidade na creança, consentiu em tomal-a por pupillo, pensando talvez
intimamente que alli o acaso lhe trazia um digno successor, quando a hora
lhe chegasse de despedir-se d'este mundo.
E ficou tudo resolvido.
a D. Miguel de Mello.
Era uma vez, em mui remotos tempos,
uma familia de boa gente lavradora,
vivendo em certa aldeia do Japão.
Marido, mulher e um rancho de filhos;
gente pobre, é claro; e ajunte-se que a
mui ardua fadiga se dava o camponez,
para que não faltasse em cada dia, a cada
uma das vorazes boquinhas dos garotos,
a tigela de arroz do almoço e do jantar.
O mais velho dos rapazes, já aos
quatorze annos, robusto quasi como um
homem, começava a ajudar o pae, nas
varzeas e nos campos, o pobre pae, a quem as forças minguavam; e os
outros, cada um conforme a sua idade, iam fazendo tambem o que podiam;
até a irman pequena,―uma migalha de gente, coitadita!―lá ia alliviando a
atarefada mãe na lida do casebre.
Só o mais novo dos rapazes em nada se empregava que prestasse; era um
inutil; não que elle fôsse falto de juizo; pelo contrario, excedia em esperteza
qualquer dos irmãos ou das irmans; mas era enfezadito, debil de musculo; e
bem cedo os paes se convenceram de que aquelles braços tenros não
haviam nascido para a enxada.―«Faça-se d'elle um bonzo»,―combinaram;
e foi n'esta intenção que um bello dia decidiram leval-o ao templo do logar,
e á presença do velho sacerdote, que era como quem diz―o prior d'aquella
freguezia.―O pae fallou e expoz a questão, em quanto que a mãe
approvava com a cabeça; o reverendo, que em breve trecho descobrira rara
sagacidade na creança, consentiu em tomal-a por pupillo, pensando talvez
intimamente que alli o acaso lhe trazia um digno successor, quando a hora
lhe chegasse de despedir-se d'este mundo.
E ficou tudo resolvido.
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O noviço mostrou-se, desde os primeiros dias, submisso, intelligente e
piedoso; e tambem―valha a verdade―não lhe iam mal a rude tunica
amarella e a cabecita rapada á navalha, de preceito; mas como não ha
formosa sem senão, segundo um proverbio portuguez (e a philosophia dos
proverbios se applica á humanidade inteira), tinha um defeito o rapazito:
pintar gatos. Expliquemos o caso, que é curioso: nas horas de sueto ou nas
horas de estudo, no templo, na cella, no jardim, em toda a parte onde
estivesse, punha-se a pintar gatos; e tão bem os pintava,―faça-se-lhe
justiça n'este ponto,―que nenhum pintor até então pintou gatos melhor do
que o fradinho. As paginas dos livros sagrados do convento, as paredes, os
biombos, os pilares, as arvores, os rochedos,―forte mania de creança!
―tudo servia, tudo era tela para exercer a sua pecha. Por onde elle passava,
por onde se quedasse dois minutos, era logo a successão interminavel de
desenhos, eram as curvas caprichosas dos travessos felinos, de todos os
tamanhos, em todas as posturas, creio que até enjaneirados, os olhos
redondos, esbrazeando as duas orelhas espetadas, o côtosito alçado e
petulante (os gatos japonezes não têem rabo), a garra atrevida posta em
guarda... Está-se a adivinhar com que azedume o reverendo acolhia taes
desmandos; vezes sem conto reprehendeu o artista (como por ironia lhe
chamava), tentando dissuadil-o d'aquella triste balda, que nem lhe permittia
estudar com attenção os velhos alfarrabios do buddhismo, de tam necessaria
sciencia ao seu santo mister. Intento inutil: não por maldade, por instincto,
quanto mais lhe prohibiam a proeza, mais ia pintando gatos o teimoso. Até
que finalmente, em certa occasião, o reverendo perdeu de todo a paciencia e
gritou ao moço incorregivel:―«Vae-te embora! Foge da minha vista!...
Bom padre, nunca serás seguramente; serás talvez um bom pintor.»―A
ordem era terminante. Foi facil ao mocinho entrouxar os seus poucos
haveres, pôz a trouxinha ás costas, e fez uma mesura ao padre mestre.
Eil-o na rua, escorraçado, em bem angustiosas condições. Que fazer?
Tremeu de voltar ao lar domestico, onde o pae, mui certamente, o puniria da
piedoso; e tambem―valha a verdade―não lhe iam mal a rude tunica
amarella e a cabecita rapada á navalha, de preceito; mas como não ha
formosa sem senão, segundo um proverbio portuguez (e a philosophia dos
proverbios se applica á humanidade inteira), tinha um defeito o rapazito:
pintar gatos. Expliquemos o caso, que é curioso: nas horas de sueto ou nas
horas de estudo, no templo, na cella, no jardim, em toda a parte onde
estivesse, punha-se a pintar gatos; e tão bem os pintava,―faça-se-lhe
justiça n'este ponto,―que nenhum pintor até então pintou gatos melhor do
que o fradinho. As paginas dos livros sagrados do convento, as paredes, os
biombos, os pilares, as arvores, os rochedos,―forte mania de creança!
―tudo servia, tudo era tela para exercer a sua pecha. Por onde elle passava,
por onde se quedasse dois minutos, era logo a successão interminavel de
desenhos, eram as curvas caprichosas dos travessos felinos, de todos os
tamanhos, em todas as posturas, creio que até enjaneirados, os olhos
redondos, esbrazeando as duas orelhas espetadas, o côtosito alçado e
petulante (os gatos japonezes não têem rabo), a garra atrevida posta em
guarda... Está-se a adivinhar com que azedume o reverendo acolhia taes
desmandos; vezes sem conto reprehendeu o artista (como por ironia lhe
chamava), tentando dissuadil-o d'aquella triste balda, que nem lhe permittia
estudar com attenção os velhos alfarrabios do buddhismo, de tam necessaria
sciencia ao seu santo mister. Intento inutil: não por maldade, por instincto,
quanto mais lhe prohibiam a proeza, mais ia pintando gatos o teimoso. Até
que finalmente, em certa occasião, o reverendo perdeu de todo a paciencia e
gritou ao moço incorregivel:―«Vae-te embora! Foge da minha vista!...
Bom padre, nunca serás seguramente; serás talvez um bom pintor.»―A
ordem era terminante. Foi facil ao mocinho entrouxar os seus poucos
haveres, pôz a trouxinha ás costas, e fez uma mesura ao padre mestre.
Eil-o na rua, escorraçado, em bem angustiosas condições. Que fazer?
Tremeu de voltar ao lar domestico, onde o pae, mui certamente, o puniria da
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sua teimosia. Lembrou-se então que a
quatro leguas de distancia havia uma
outra aldeia, com um templo cheio de
bonsos, e para lá se encaminhou,
disposto a pedir abrigo e protecção
aos padres. Era notorio que o tal
templo desde alguns mezes se achava
abandonado, por n'elle ter entrado um
demonio, um espirito malfazejo, como
tantos que abundavam então pelo
Japão; muitos guerreiros animosos se
tinham decidido a ir lá dentro, mas
nem um só voltou; porem estas
noticias, que iam ja apavorando
aldeias e cidades em redor, nunca
haviam chegado aos ouvidos do
pequeno.
Era já noite escura quando alcançou a
aldeia; o povo dormia nas choupanas;
ao fundo da rua principal, e sobre um
dorso de collina, de entre a rama das
mattas erguia-se o templo magestoso,
e uma luz interior bruxoleava, luz de
esperança para a misera creança. Luz
de esperança parecia: mas o povo bem a tinha por feiticeira do diabo, que
assim manhosamente ia attrahindo algum caminheiro solitario em busca de
poisada. Bate ao portal uma primeira vez, bate segunda vez, bate terceira,
sem que ninguem acuda ao chamamento. Por fim percebe que basta
empurral-o para abril-o; e então, por um leve impulso dos seus braços,
achou livre o ingresso, e assim entrou, largando dos pés nús as suas
sandalias poeirentas.
Nos aposentos interiores ardia uma lampada com effeito; mas nem um
bonzo só, de tantos que alli deviam estar, apparecia. Julgou que tinham ido
dar o seu passeio e que em breve voltariam, e resolveu esperal-os. O tempo
ia passando, e os seus olhos curiosos de garoto entretinham-se em devassar
quatro leguas de distancia havia uma
outra aldeia, com um templo cheio de
bonsos, e para lá se encaminhou,
disposto a pedir abrigo e protecção
aos padres. Era notorio que o tal
templo desde alguns mezes se achava
abandonado, por n'elle ter entrado um
demonio, um espirito malfazejo, como
tantos que abundavam então pelo
Japão; muitos guerreiros animosos se
tinham decidido a ir lá dentro, mas
nem um só voltou; porem estas
noticias, que iam ja apavorando
aldeias e cidades em redor, nunca
haviam chegado aos ouvidos do
pequeno.
Era já noite escura quando alcançou a
aldeia; o povo dormia nas choupanas;
ao fundo da rua principal, e sobre um
dorso de collina, de entre a rama das
mattas erguia-se o templo magestoso,
e uma luz interior bruxoleava, luz de
esperança para a misera creança. Luz
de esperança parecia: mas o povo bem a tinha por feiticeira do diabo, que
assim manhosamente ia attrahindo algum caminheiro solitario em busca de
poisada. Bate ao portal uma primeira vez, bate segunda vez, bate terceira,
sem que ninguem acuda ao chamamento. Por fim percebe que basta
empurral-o para abril-o; e então, por um leve impulso dos seus braços,
achou livre o ingresso, e assim entrou, largando dos pés nús as suas
sandalias poeirentas.
Nos aposentos interiores ardia uma lampada com effeito; mas nem um
bonzo só, de tantos que alli deviam estar, apparecia. Julgou que tinham ido
dar o seu passeio e que em breve voltariam, e resolveu esperal-os. O tempo
ia passando, e os seus olhos curiosos de garoto entretinham-se em devassar
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o aspecto do sitio onde se achava. Notou com espanto que abundava o lixo,
e pelo tecto as aranhas iam tecendo sem cerimonia as suas longas teias; era
estranho que, sendo em regra os templos, mimos de limpeza e de cuidados,
aquelle se encontrasse em tal desleixo, como se fôsse coisa abandonada. É
que, provavelmente, aos santos bonzos faltava o auxilio d'um acolyto, a
quem, como de praxe, cabe o dever de todas as manhãs lavar, varrer e
sacudir o pó, arte exercida no Japão com especial disvelo; e concluiu
logicamente que bom acolhimento lhe fariam, no proprio interesse da
communidade.
Agora o rapazito, proseguindo no exame, fixa o olhar n'um movel que o
captiva, que é um grande biombo que tem em sua frente, com as duas faces
brancas; passára-lhe na mente o irresistivel desejo de encher aquellas faces
de gatos, de cem gatos, de mil gatos, lindos, felpudos, assanhados, com as
bigodeiras hirtas e os olhos chammejantes; e uma subita alegria illuminava-
lhe o rosto sonhador... Pensado e resolvido. Cerca encontrou a classica
escrivaninha japoneza,―a caixa com os pinceis, com a gota de agua n'um
deposito metalico, com o pedaço de tinta negra e com a loisa onde esta se
prepara.―Mãos á obra. O pincel voava em curvas humoristicas; a mãosinha
inspirada corria, pullava de alto a baixo, ponto aqui, rabisco alli, traduzindo
a impressão propria com habilidades prodigiosas. Assim fôram
apparecendo, sobre aquella tela improvisada, ranchos e ranchos de gatos
adoraveis; e tantos gatos desenhou, e tantas horas correram, sem que os
bonzos voltassem do passeio, que o pobre garotito sentiu-se de repente
cheio de somno e de fadiga; n'um cubiculo contiguo se recolheu e se
fechou; estendeu-se sobre a esteira, e em breve adormeceu.
Lá pela noite velha, um barulho inaudito, como se uma terrivel lucta se
travasse entre mysteriosos combatentes, despertou a creança. Os gritos, os
gemidos, o ruido dos corpos que caiam, vinham de perto, do aposento
visinho onde estivera; tremiam as paredes, o chão, a casa toda; a pelleja
durou até á madrugada. Como elle soffria de pavor! Caido sobre a esteira,
immovel, parecia coisa morta, sustendo o proprio folego, para que a sua
e pelo tecto as aranhas iam tecendo sem cerimonia as suas longas teias; era
estranho que, sendo em regra os templos, mimos de limpeza e de cuidados,
aquelle se encontrasse em tal desleixo, como se fôsse coisa abandonada. É
que, provavelmente, aos santos bonzos faltava o auxilio d'um acolyto, a
quem, como de praxe, cabe o dever de todas as manhãs lavar, varrer e
sacudir o pó, arte exercida no Japão com especial disvelo; e concluiu
logicamente que bom acolhimento lhe fariam, no proprio interesse da
communidade.
Agora o rapazito, proseguindo no exame, fixa o olhar n'um movel que o
captiva, que é um grande biombo que tem em sua frente, com as duas faces
brancas; passára-lhe na mente o irresistivel desejo de encher aquellas faces
de gatos, de cem gatos, de mil gatos, lindos, felpudos, assanhados, com as
bigodeiras hirtas e os olhos chammejantes; e uma subita alegria illuminava-
lhe o rosto sonhador... Pensado e resolvido. Cerca encontrou a classica
escrivaninha japoneza,―a caixa com os pinceis, com a gota de agua n'um
deposito metalico, com o pedaço de tinta negra e com a loisa onde esta se
prepara.―Mãos á obra. O pincel voava em curvas humoristicas; a mãosinha
inspirada corria, pullava de alto a baixo, ponto aqui, rabisco alli, traduzindo
a impressão propria com habilidades prodigiosas. Assim fôram
apparecendo, sobre aquella tela improvisada, ranchos e ranchos de gatos
adoraveis; e tantos gatos desenhou, e tantas horas correram, sem que os
bonzos voltassem do passeio, que o pobre garotito sentiu-se de repente
cheio de somno e de fadiga; n'um cubiculo contiguo se recolheu e se
fechou; estendeu-se sobre a esteira, e em breve adormeceu.
Lá pela noite velha, um barulho inaudito, como se uma terrivel lucta se
travasse entre mysteriosos combatentes, despertou a creança. Os gritos, os
gemidos, o ruido dos corpos que caiam, vinham de perto, do aposento
visinho onde estivera; tremiam as paredes, o chão, a casa toda; a pelleja
durou até á madrugada. Como elle soffria de pavor! Caido sobre a esteira,
immovel, parecia coisa morta, sustendo o proprio folego, para que a sua
Page 110
presença não fôsse presentida...
Já com a manhã clara e sol bem alto,
ergueu-se então, e animou-se a
espreitar um pouco para fóra, por uma
fenda da parede. Foi medonho o que
viu. No chão grandes poças de sangue
se alastravam; e mesmo ao meio da
casa, jazia morta, esphacelada, uma
enorme ratazana,―maior do que uma
vacca!... Mas quem matára o monstro,
se ninguem parecia ter entrado?
Reparou por acaso no biombo, onde
horas antes pintára tantos gatos; lá os viu, mas com os focinhos
lambusados de sangue e as patinhas igualmente; eram elles que
tinham dado cabo do demonio...
O mocinho tornou-se, com o correr do tempo, um grande artista. Ainda hoje
se ademiram muitos gatos pintados pelo seu pincel inimitavel.
O chronista de quem extrahi esta legenda, nada conclue, como moralidade,
da historia que narrou. Concluirei eu o que bem me parecer, se m'o
permittem. Em primeiro logar, pouco propenso a crêr em coisas do diabo,
embora mesmo no Japão, concluo que, se a rata do convento era tam
grande, é que a despensa se achava provida com um enorme arsenal de
gulodices; o que, a despeito de tanto que se diz dos frades de outras terras,
dos frades portuguezes por exemplo, faz honra á sobridade de habitos dos
maganos, pois não consta que jamais os presuntos e a marmellada de
reserva nutrissem uma rata lambareira até attingir igual tamanho. Concluo
Já com a manhã clara e sol bem alto,
ergueu-se então, e animou-se a
espreitar um pouco para fóra, por uma
fenda da parede. Foi medonho o que
viu. No chão grandes poças de sangue
se alastravam; e mesmo ao meio da
casa, jazia morta, esphacelada, uma
enorme ratazana,―maior do que uma
vacca!... Mas quem matára o monstro,
se ninguem parecia ter entrado?
Reparou por acaso no biombo, onde
horas antes pintára tantos gatos; lá os viu, mas com os focinhos
lambusados de sangue e as patinhas igualmente; eram elles que
tinham dado cabo do demonio...
O mocinho tornou-se, com o correr do tempo, um grande artista. Ainda hoje
se ademiram muitos gatos pintados pelo seu pincel inimitavel.
O chronista de quem extrahi esta legenda, nada conclue, como moralidade,
da historia que narrou. Concluirei eu o que bem me parecer, se m'o
permittem. Em primeiro logar, pouco propenso a crêr em coisas do diabo,
embora mesmo no Japão, concluo que, se a rata do convento era tam
grande, é que a despensa se achava provida com um enorme arsenal de
gulodices; o que, a despeito de tanto que se diz dos frades de outras terras,
dos frades portuguezes por exemplo, faz honra á sobridade de habitos dos
maganos, pois não consta que jamais os presuntos e a marmellada de
reserva nutrissem uma rata lambareira até attingir igual tamanho. Concluo
Page 111
ao mesmo tempo, humilhado, confundido, que os
pintores do meu paiz estão bem longe do traço creador
dos pintores do Dai-Nippon. Por ultimo (e talvez esta
final conclusão seja a mais util), vejo que ás vezes as
nossas qualidades, de que os outros se riem e
escarnecem, são as que mais nos valem n'este mundo.
1901.
IMPRESSÕES RAPIDAS
a S. Peres Rodrigues.
Era uma noite de luar do mez de abril, esplendida. Eu seguia pelo caminho
de Suwayama, na parte mais elevada da cidade. De um lado alinham-se as
casinhas japonezas, entre ellas as mais famosas chayas de Kobe, Tokiwa e
outras, onde os japonezes vêem folgar; do outro lado, é a rampa ingreme,
coberta de pinheiros, e sóbe a collina inculta, em corcovas accidentadas,
onde assenta um templo notavel.
Nas chayas, segundo o costume, havia festa. As corrediças de papel
estavam fechadas; mas a luz interior coava-se para fóra vivamente,
desenhando alguns vultos dos convivas em sombrinhas deliciosas; eram os
vultos d'elles, dos amigos reunidos, certamente banqueteando-se sobre a
esteira, e eram os vultos d'ellas, das gueshas, que lhes iriam vasando o
vinho nas taçasinhas de fina porcellana, e cantando balladas ao som do
shamicen. Musica, cantigas, gargalhadas, chegavam-me aos ouvidos n'um
vago sussurro de alegria.
Na minha frente iam seguindo uns cinco sujeitos europeus, gente de
pintores do meu paiz estão bem longe do traço creador
dos pintores do Dai-Nippon. Por ultimo (e talvez esta
final conclusão seja a mais util), vejo que ás vezes as
nossas qualidades, de que os outros se riem e
escarnecem, são as que mais nos valem n'este mundo.
1901.
IMPRESSÕES RAPIDAS
a S. Peres Rodrigues.
Era uma noite de luar do mez de abril, esplendida. Eu seguia pelo caminho
de Suwayama, na parte mais elevada da cidade. De um lado alinham-se as
casinhas japonezas, entre ellas as mais famosas chayas de Kobe, Tokiwa e
outras, onde os japonezes vêem folgar; do outro lado, é a rampa ingreme,
coberta de pinheiros, e sóbe a collina inculta, em corcovas accidentadas,
onde assenta um templo notavel.
Nas chayas, segundo o costume, havia festa. As corrediças de papel
estavam fechadas; mas a luz interior coava-se para fóra vivamente,
desenhando alguns vultos dos convivas em sombrinhas deliciosas; eram os
vultos d'elles, dos amigos reunidos, certamente banqueteando-se sobre a
esteira, e eram os vultos d'ellas, das gueshas, que lhes iriam vasando o
vinho nas taçasinhas de fina porcellana, e cantando balladas ao som do
shamicen. Musica, cantigas, gargalhadas, chegavam-me aos ouvidos n'um
vago sussurro de alegria.
Na minha frente iam seguindo uns cinco sujeitos europeus, gente de
Page 112
distincta sociedade, a julgar pelo esmero do trajo e da linguagem, e pelo
aroma dos soberbos charutos que fumavam. Iam fallando inglez. Dois
discutiam finança:―o Japão atravessava uma crise economica terrivel; os
cofres do governo, segundo as apparencias, exhauriam-se; o trafego em
marasmo; duas grandes fabricas de Osaka, constava, suspendiam o
trabalho...―Os tres outros palestravam de politica:―primeiro foi o
Transvaal, e fez-se a conta de quantos boers haviam já caido sob o chuveiro
das balas inglezas; depois saltou-se ao Extremo-Oriente; a Russia ameaçava
o imperio japonez; apparecesse um pretexto, o mais leve, o mais futil, e era
a guerra; discutiam-se as probabilidades da victoria, presumiam-se os
estragos, o numero de victimas no primeiro embate das
esquadras...―Teriam talvez muita razão, todos os cinco; mas ia-me
parecendo aquella gente um bando de mochos agoirentos, folgando com a
ruina, dando-se bem com o fetido dos mortos. Para elles não nascera,
imaginava eu, aquella lua esplendida, que ia alumiando o espaço todo e
espargindo sobre a terra uma chuva de prata; nem era para elles que os
pinheiros de Suwayama se enchiam agora de rebentos viçosos; nem para os
seus pulmões que o ar vinha oloroso de florescencias multiplices, distantes.
Suppunha-os, coitados, dyspepticos, biliosos, misanthropos, perseguidos
nos fofos leitos por cruciantes pesadelos.
N'aquelle ponto, as gueshas de Suwayama entoavam uma cantiga popular,
que assim começa:―«Haru wa, ureshiki...»―cujas primeiras estrophes se
podem traduzir, pouco bem, por estas duas quadras:
Na primavera, enlevae-vos
Nas cerejeiras em flor.
No v'rão, folgae nas ribeiras,
Quando se abraza em calor.
No outono, vêde a folhagem,
Toda escarlate, voando.
No inverno, espreite-se a neve,
Bebendo vinho e cantando.
aroma dos soberbos charutos que fumavam. Iam fallando inglez. Dois
discutiam finança:―o Japão atravessava uma crise economica terrivel; os
cofres do governo, segundo as apparencias, exhauriam-se; o trafego em
marasmo; duas grandes fabricas de Osaka, constava, suspendiam o
trabalho...―Os tres outros palestravam de politica:―primeiro foi o
Transvaal, e fez-se a conta de quantos boers haviam já caido sob o chuveiro
das balas inglezas; depois saltou-se ao Extremo-Oriente; a Russia ameaçava
o imperio japonez; apparecesse um pretexto, o mais leve, o mais futil, e era
a guerra; discutiam-se as probabilidades da victoria, presumiam-se os
estragos, o numero de victimas no primeiro embate das
esquadras...―Teriam talvez muita razão, todos os cinco; mas ia-me
parecendo aquella gente um bando de mochos agoirentos, folgando com a
ruina, dando-se bem com o fetido dos mortos. Para elles não nascera,
imaginava eu, aquella lua esplendida, que ia alumiando o espaço todo e
espargindo sobre a terra uma chuva de prata; nem era para elles que os
pinheiros de Suwayama se enchiam agora de rebentos viçosos; nem para os
seus pulmões que o ar vinha oloroso de florescencias multiplices, distantes.
Suppunha-os, coitados, dyspepticos, biliosos, misanthropos, perseguidos
nos fofos leitos por cruciantes pesadelos.
N'aquelle ponto, as gueshas de Suwayama entoavam uma cantiga popular,
que assim começa:―«Haru wa, ureshiki...»―cujas primeiras estrophes se
podem traduzir, pouco bem, por estas duas quadras:
Na primavera, enlevae-vos
Nas cerejeiras em flor.
No v'rão, folgae nas ribeiras,
Quando se abraza em calor.
No outono, vêde a folhagem,
Toda escarlate, voando.
No inverno, espreite-se a neve,
Bebendo vinho e cantando.
Page 113
Quando eu escrevi a Primavera, e a offereci a um delicado amigo, prometti
a mim mesmo, e creio que tambem a elle prometti, completar com pachorra
e vagar, os aspectos das estações, aos quaes o tempo, o sol, a cor do ceu,
n'este paiz deslumbrante de scenarios, imprimem mais intensivamente, mais
emotivamente do que em outro logar, feições differentes e imprevistas. Por
preguiça ou outras causas, não cumpri a promessa, com o que,―valha a
verdade,―nada se perdeu que falta faça; mas, succedendo agora que tenho
de reunir em volume umas impressões dispersas, que intitulei Paizagens,
pareceu-me indispensavel, por um melindre de consciencia litteraria, voltar
ao assumpto, concluil-o. Pede-me pressa um editor bondoso. Tomo o
negocio de empreitada; reuno as ligeiras notas soltas que encontro em
esquecidos papeis velhos.
Antes assim. Impressões do acaso, apontamentos rapidos, vão-me
parecendo preferiveis a um longo estudo que intentasse das mutações de
scena que hoje, amanhã, meus olhos relanceam; e não perco o ensejo, por
natural intuito de desculpar-me perante quem me lêr, de traduzir aqui uma
deliciosa pagina de um livro francez, tambem sobre o Japão, escripto ha
poucos annos.―«As circumstancias concorrem mais para a inspiração, do
que todos os esforços do homem, e a experiencia quotidiana é a grande
instigadora das imaginações. Vêde em litteratura: de ordinario, tanto mais
breve é um trabalho, ou, se é extenso, tanto mais é feito de pedaços, de
fragmentos escriptos primitivamente ao acaso dos tempos, tanto melhor elle
é; um longo livro de historia, um longo romance, um longo tratado de
philosophia ou de moral, jamais valerão um conjuncto de memorias, uma
curta novella, um jornal intimo ou um caderno de pensamentos, e jamais
um poeta epico alcançará o viço de vida que dá ao improviso feliz tamanho
encanto; porventura, o homem sensato deveria decidir-se a não publicar
senão volumes de paginas destacadas.»
Pretendo ser sensato uma vez na minha vida.
a mim mesmo, e creio que tambem a elle prometti, completar com pachorra
e vagar, os aspectos das estações, aos quaes o tempo, o sol, a cor do ceu,
n'este paiz deslumbrante de scenarios, imprimem mais intensivamente, mais
emotivamente do que em outro logar, feições differentes e imprevistas. Por
preguiça ou outras causas, não cumpri a promessa, com o que,―valha a
verdade,―nada se perdeu que falta faça; mas, succedendo agora que tenho
de reunir em volume umas impressões dispersas, que intitulei Paizagens,
pareceu-me indispensavel, por um melindre de consciencia litteraria, voltar
ao assumpto, concluil-o. Pede-me pressa um editor bondoso. Tomo o
negocio de empreitada; reuno as ligeiras notas soltas que encontro em
esquecidos papeis velhos.
Antes assim. Impressões do acaso, apontamentos rapidos, vão-me
parecendo preferiveis a um longo estudo que intentasse das mutações de
scena que hoje, amanhã, meus olhos relanceam; e não perco o ensejo, por
natural intuito de desculpar-me perante quem me lêr, de traduzir aqui uma
deliciosa pagina de um livro francez, tambem sobre o Japão, escripto ha
poucos annos.―«As circumstancias concorrem mais para a inspiração, do
que todos os esforços do homem, e a experiencia quotidiana é a grande
instigadora das imaginações. Vêde em litteratura: de ordinario, tanto mais
breve é um trabalho, ou, se é extenso, tanto mais é feito de pedaços, de
fragmentos escriptos primitivamente ao acaso dos tempos, tanto melhor elle
é; um longo livro de historia, um longo romance, um longo tratado de
philosophia ou de moral, jamais valerão um conjuncto de memorias, uma
curta novella, um jornal intimo ou um caderno de pensamentos, e jamais
um poeta epico alcançará o viço de vida que dá ao improviso feliz tamanho
encanto; porventura, o homem sensato deveria decidir-se a não publicar
senão volumes de paginas destacadas.»
Pretendo ser sensato uma vez na minha vida.
Page 114
Verão.
Um calor de fornalha. Na Africa, na China, não é mais suffocante. O
enervamento é enorme. Desfalece-se de preguiça, de langor.
No entretanto, é no estio que o Japão alcança a sua genuina feição typica,
pela natureza e pelo povo, descripta pela lenda, pintada pela arte e como os
estranhos a imaginam.
A terra é toda verde. Crescem as mattas, trepa a herva, viceja o mar de arroz
nas varzeas alagadas. Nos jardins, floresce a asagao, a caprichosa
trepadeira, cujas flores, as frescas campanulas de todas as cores
imaginaveis, duram o espaço de uma madrugada; nas aguas, floresce o
lotus.
O vestuario attinge a maior simplicidade; um unico kimono de algodão azul
e branco, amarrado na cintura, é tudo... e ás vezes nem é tanto. O europeu,
quando ainda estranho ao meio, encara então surpreso este Japão nu ou
quasi nu, passeando sem cerimonia as suas pernas, os seus braços, os seus
collos, os seus seios e ainda mais,―exposição paradoxal de grotescos e de
encantos...
A casa, durante o dia, tambem se despe; despe-se das suas paredes de papel,
ficam o telhado e quatro ripas; patenteam-se aos olhos de toda a gente, o lar,
a vida intima.
É a epocha das peregrinações, das excursões aos templos, aos logares
frescos, onde ha brisas, onde ha sombras, onde ha aguas. Trepa-se ao
Fujiyama, a montanha sagrada. Busca-se o abrigo de um pinheiro, para
petiscar, para folgar em companhia; e os corpos estendem-se na relva, como
repetis. As musumés vão molhar os pésitos nas areias das praias, para
colherem algas e mariscos. As ribeiras convidam: n'umas, entre juncos, é a
caça nocturna aos pyrilampos; n'outras,―o Sunsidagawa em Tokio, o
Iodogawa em Osaka,―em noites calmas, é a flotilha immensa dos barcos
de prazer, todos elles sanefas multicores, lanternas, balões, galhardetes,
Um calor de fornalha. Na Africa, na China, não é mais suffocante. O
enervamento é enorme. Desfalece-se de preguiça, de langor.
No entretanto, é no estio que o Japão alcança a sua genuina feição typica,
pela natureza e pelo povo, descripta pela lenda, pintada pela arte e como os
estranhos a imaginam.
A terra é toda verde. Crescem as mattas, trepa a herva, viceja o mar de arroz
nas varzeas alagadas. Nos jardins, floresce a asagao, a caprichosa
trepadeira, cujas flores, as frescas campanulas de todas as cores
imaginaveis, duram o espaço de uma madrugada; nas aguas, floresce o
lotus.
O vestuario attinge a maior simplicidade; um unico kimono de algodão azul
e branco, amarrado na cintura, é tudo... e ás vezes nem é tanto. O europeu,
quando ainda estranho ao meio, encara então surpreso este Japão nu ou
quasi nu, passeando sem cerimonia as suas pernas, os seus braços, os seus
collos, os seus seios e ainda mais,―exposição paradoxal de grotescos e de
encantos...
A casa, durante o dia, tambem se despe; despe-se das suas paredes de papel,
ficam o telhado e quatro ripas; patenteam-se aos olhos de toda a gente, o lar,
a vida intima.
É a epocha das peregrinações, das excursões aos templos, aos logares
frescos, onde ha brisas, onde ha sombras, onde ha aguas. Trepa-se ao
Fujiyama, a montanha sagrada. Busca-se o abrigo de um pinheiro, para
petiscar, para folgar em companhia; e os corpos estendem-se na relva, como
repetis. As musumés vão molhar os pésitos nas areias das praias, para
colherem algas e mariscos. As ribeiras convidam: n'umas, entre juncos, é a
caça nocturna aos pyrilampos; n'outras,―o Sunsidagawa em Tokio, o
Iodogawa em Osaka,―em noites calmas, é a flotilha immensa dos barcos
de prazer, todos elles sanefas multicores, lanternas, balões, galhardetes,
Page 115
harmonias de instrumentos, festins, rapazes, raparigas, amores...
Outono.
Em novembro floresce a chrysanthema, a flor heraldica. Estupenda coisa.
Não me parece flor; antes um monstro, com a sua enorme cabelleira de mil
petalas, contorcidas como tentaculos de um polypo, em colorações
indefiniveis. Alinhadas nos jardins, sob tendas de abrigo, as chrysanthemas
lembram mulheres, lembram-me cortezãs de Ioshiwara, quando ellas
vestem os ricos mantos polychromos, quando ellas enfeitam os cabellos
com diademas de espavento, e vêem postar-se em filas, princezas
pompejantes do vicio, encantadoras e perversas...
No outono, a folhagem do arvoredo perde naturalmente o verde, e cobre-se
das cores mais vivas e mais estranhas, o amarello, o vermelho, o roxo, em
cambiantes varios. A paizagem offerece então um luxo de tintas innarravel;
momentaneo, porque as brisas vêem breve despir os troncos, e juncar de
folhas mortas os campos e os caminhos. A delicada arvore que aqui
Outono.
Em novembro floresce a chrysanthema, a flor heraldica. Estupenda coisa.
Não me parece flor; antes um monstro, com a sua enorme cabelleira de mil
petalas, contorcidas como tentaculos de um polypo, em colorações
indefiniveis. Alinhadas nos jardins, sob tendas de abrigo, as chrysanthemas
lembram mulheres, lembram-me cortezãs de Ioshiwara, quando ellas
vestem os ricos mantos polychromos, quando ellas enfeitam os cabellos
com diademas de espavento, e vêem postar-se em filas, princezas
pompejantes do vicio, encantadoras e perversas...
No outono, a folhagem do arvoredo perde naturalmente o verde, e cobre-se
das cores mais vivas e mais estranhas, o amarello, o vermelho, o roxo, em
cambiantes varios. A paizagem offerece então um luxo de tintas innarravel;
momentaneo, porque as brisas vêem breve despir os troncos, e juncar de
folhas mortas os campos e os caminhos. A delicada arvore que aqui
Page 116
chamam momiji, de graciosas folhas digitadas, torna-se toda em purpura,
como em fogo; ao abrigo da sua rama ardente acolhe-se o povo, em
magotes, que vem rir, que vem beber, que vem folgar, arrebatado pela
scena, que é sem rival em maravilhas.
O inverno.
Mas ha inverno no Japão? Julgo que sim, pois gela a
agua nos charcos e ribeiros, cae profusa a neve,
alvejam no horisonte as serras, como embrulhadas em
lençoes. No entretanto, ainda ao sol de dezembro
desabrocha a chrysanthema, e já em janeiro as
ameixeeiras, nuas de folhas, começam a florir. Seja
pois um inverno de flores. É certo que essa grande
desolação das longas invernias dos climas temperados
é desconhecida em solo japonez. A paizagem é sempre
alegre; o ceu é sempre azul; os pinheiros, que são as
arvores que mais abundam, sempre verdes. Se então se
prolongam mais as palestras em roda do brazeiro,
chegando os deditos ao calor, tomando chá, o povo
não cessa de affluir aos theatros, aos bazares, aos
templos, ao abrigo da sua rama ardente acolhe-se o povo, em aos jardins;
apenas, por cuidado ou garridismo, as Musumés cobrem com um manto de
delicada cor as cabecinhas petulantes, deixando vêr do rosto apenas uma
nesga da fronte e os olhos negros, humidos de amor e de mysterio... deve
ser antes garridismo, pois ficam d'este modo mais seductoras do que nunca.
A neve, que constitue uma calamidade em tantas regiões, entra aqui no rol
das coisas deleitosas. Tanto é assim, que as mulheres, cujos nomes são
sempre mimosos como ellas, lembrando flores ou outras gentilezas, se
apropriam do termo com frequencia:―Yuki-San, a Senhora Neve, ou com
mais cortezia, Ó Yuki-San, a Nobre Senhora Neve, é nome muito em uso. A
nevada, sem que prejudique o povo na vida e no conforto, vem branquear as
como em fogo; ao abrigo da sua rama ardente acolhe-se o povo, em
magotes, que vem rir, que vem beber, que vem folgar, arrebatado pela
scena, que é sem rival em maravilhas.
O inverno.
Mas ha inverno no Japão? Julgo que sim, pois gela a
agua nos charcos e ribeiros, cae profusa a neve,
alvejam no horisonte as serras, como embrulhadas em
lençoes. No entretanto, ainda ao sol de dezembro
desabrocha a chrysanthema, e já em janeiro as
ameixeeiras, nuas de folhas, começam a florir. Seja
pois um inverno de flores. É certo que essa grande
desolação das longas invernias dos climas temperados
é desconhecida em solo japonez. A paizagem é sempre
alegre; o ceu é sempre azul; os pinheiros, que são as
arvores que mais abundam, sempre verdes. Se então se
prolongam mais as palestras em roda do brazeiro,
chegando os deditos ao calor, tomando chá, o povo
não cessa de affluir aos theatros, aos bazares, aos
templos, ao abrigo da sua rama ardente acolhe-se o povo, em aos jardins;
apenas, por cuidado ou garridismo, as Musumés cobrem com um manto de
delicada cor as cabecinhas petulantes, deixando vêr do rosto apenas uma
nesga da fronte e os olhos negros, humidos de amor e de mysterio... deve
ser antes garridismo, pois ficam d'este modo mais seductoras do que nunca.
A neve, que constitue uma calamidade em tantas regiões, entra aqui no rol
das coisas deleitosas. Tanto é assim, que as mulheres, cujos nomes são
sempre mimosos como ellas, lembrando flores ou outras gentilezas, se
apropriam do termo com frequencia:―Yuki-San, a Senhora Neve, ou com
mais cortezia, Ó Yuki-San, a Nobre Senhora Neve, é nome muito em uso. A
nevada, sem que prejudique o povo na vida e no conforto, vem branquear as
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serranias, os campos e as estradas, esplendida
apothéose de alvuras e purezas; rendilha as arvores de
crystalinos ornamentos, ostentando-se como uma
florescencia immensa, uniforme, que brotasse dos
restolhos, da herva, dos bambus, dos cedros, dos
pinheiros; sobre os telhados das casas e dos templos,
sobre os dorsos das grandes raposas de granito que
d'estes se avisinham, sobre as lanternas de pedra dos
jardins, demora-se em fofos floccos, que dão ás coisas
proximas, realces seductores; por onde a agua corre e
se despenha, o frio congela as gottas, adormece-as, transforma-as em
recortadas estalactites, que um raio de sol mais quente virá em breve
desfazer.
No vocabulario japonez, tam amorosamente naturalista, ha um termo de que
agora me recordo, que não tem, como muitos, synonimo em linguas
europeas; é yukimi. Yukimi quer dizer:―excursão ou banquete preparado
para ir vêr cair a neve.―Nas chayas, em certos sitios pittorescos,
exemplo―as collinas de Kioto,―combinam-se reuniões; vêem os rapazes,
vêem as gueshas com as guitarras, começa a festa ruidosa, interrompida a
espaços pela contemplação muda do espectaculo que se offerece; no
entretanto, a neve vae caindo n'uma chuva continua de folhepos,
ligeiramente sussurante, de um ruge-ruge de sedas que arrastassem,
vestindo o solo, as arvores, o colmo das choupanas, poisando mesmo nos
apothéose de alvuras e purezas; rendilha as arvores de
crystalinos ornamentos, ostentando-se como uma
florescencia immensa, uniforme, que brotasse dos
restolhos, da herva, dos bambus, dos cedros, dos
pinheiros; sobre os telhados das casas e dos templos,
sobre os dorsos das grandes raposas de granito que
d'estes se avisinham, sobre as lanternas de pedra dos
jardins, demora-se em fofos floccos, que dão ás coisas
proximas, realces seductores; por onde a agua corre e
se despenha, o frio congela as gottas, adormece-as, transforma-as em
recortadas estalactites, que um raio de sol mais quente virá em breve
desfazer.
No vocabulario japonez, tam amorosamente naturalista, ha um termo de que
agora me recordo, que não tem, como muitos, synonimo em linguas
europeas; é yukimi. Yukimi quer dizer:―excursão ou banquete preparado
para ir vêr cair a neve.―Nas chayas, em certos sitios pittorescos,
exemplo―as collinas de Kioto,―combinam-se reuniões; vêem os rapazes,
vêem as gueshas com as guitarras, começa a festa ruidosa, interrompida a
espaços pela contemplação muda do espectaculo que se offerece; no
entretanto, a neve vae caindo n'uma chuva continua de folhepos,
ligeiramente sussurante, de um ruge-ruge de sedas que arrastassem,
vestindo o solo, as arvores, o colmo das choupanas, poisando mesmo nos
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vestidos e nas mãos brancas como a neve das moças irriquietas...
Outro assumpto: a historia da arte.
No Japão, não ha nem houve nunca, sabios; é medida, penso eu, de hygiene
nacional, consequencia de antigos habitos de limpeza das creadas, que os
sacodem do solo como sacodem as teias de aranha das paredes. No
respeitante a historia, é evidente que o officio de historiador, com a secura e
a frieza que lhe suppomos inherentes, não existe. A historia japoneza é feita
pelo povo, incluindo a collaboração preciosa das velhas, das raparigas, dos
garotos; emana das tradições, da lenda e da intuição sentimental das massas.
Recorda por este facto os evangelhos biblicos, escriptos pelos rudes
discipulos de Christo, pobres e simples pescadores alheios ao convivio dos
classicos, sem sciencia e sem arte, mas abrazados em poesia, em crenças,
em amor. Na historia japoneza, palpita, como nas paginas da Biblia, a alma
da tribu, propensa, pela tendencia geral da gente rustica, ao milagre, á
maravilha, ao inverosimil; convindo apenas não esquecer que o japonez,
menos idealista do que o hebreu, não vae mui alto no mundo das chimeras,
voeja terra a terra, aprazendo-se em entretecer de graciosas fabulações as
aventuras dos seus homens illustres. A historia da arte, para este povo feito
todo de artistas, sempre sob o arrebatamento das bellezas naturaes do seu
paiz, é um dos capitulos preferidos, por onde mais rodopia sem freio a
phantasia; e é d'este capitulo da arte que eu destaco algumas graciosas
lendas que se seguem.
O bonzo Chyo Densu, que viveu pela primeira metade do nosso seculo XV,
foi um grande pintor em coisas religiosas.
Sendo noviço n'um templo da Kioto, Tofukuji, conta-se que já se dava á
Outro assumpto: a historia da arte.
No Japão, não ha nem houve nunca, sabios; é medida, penso eu, de hygiene
nacional, consequencia de antigos habitos de limpeza das creadas, que os
sacodem do solo como sacodem as teias de aranha das paredes. No
respeitante a historia, é evidente que o officio de historiador, com a secura e
a frieza que lhe suppomos inherentes, não existe. A historia japoneza é feita
pelo povo, incluindo a collaboração preciosa das velhas, das raparigas, dos
garotos; emana das tradições, da lenda e da intuição sentimental das massas.
Recorda por este facto os evangelhos biblicos, escriptos pelos rudes
discipulos de Christo, pobres e simples pescadores alheios ao convivio dos
classicos, sem sciencia e sem arte, mas abrazados em poesia, em crenças,
em amor. Na historia japoneza, palpita, como nas paginas da Biblia, a alma
da tribu, propensa, pela tendencia geral da gente rustica, ao milagre, á
maravilha, ao inverosimil; convindo apenas não esquecer que o japonez,
menos idealista do que o hebreu, não vae mui alto no mundo das chimeras,
voeja terra a terra, aprazendo-se em entretecer de graciosas fabulações as
aventuras dos seus homens illustres. A historia da arte, para este povo feito
todo de artistas, sempre sob o arrebatamento das bellezas naturaes do seu
paiz, é um dos capitulos preferidos, por onde mais rodopia sem freio a
phantasia; e é d'este capitulo da arte que eu destaco algumas graciosas
lendas que se seguem.
O bonzo Chyo Densu, que viveu pela primeira metade do nosso seculo XV,
foi um grande pintor em coisas religiosas.
Sendo noviço n'um templo da Kioto, Tofukuji, conta-se que já se dava á
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pintura com paixão, incorrendo por esta fórma no desagrado do superior
Daidô, que o ia asperamente reprehendendo.
Certo dia, acabava elle de pintar um retrato de
Buddha, quando sente passos de Daidô, que se
approxima do seu poiso; rapidamente, esconde o
desenho entre os joelhos; o vulto entra na cella,
esbrugando as suas contas, resmungando; do
resplandor do deus subito irradiam chammas de
apothéose, que innundam de luz a casa toda; a
falta do noviço estava assim conhecida; mas tambem perdoada, pois Daidô
humilhou-se a este avizo do céo, e nunca mais atormentou o seu discipulo.
Já no fim da existencia, dignou-se uma vez o Shogun recompensal-o dos
seus muitos serviços, dizendo-lhe que pedisse o que quizesse.―De nada
careço n'este mundo, retorquiu Chyo Densu, tendo em cada dia um kimono
lavado para vestir e uma tijela com arroz; só vos supplico, senhor, que por
vossa ordem terminante sejam cortadas cerces todas as cerejeiras do jardim
d'este templo, para que de futuro se não torne um logar de folia e
desacato.»―Foi-lhe o desejo satisfeito; e em Tofukuji, ainda até hoje, nem
um só pé de cerejeira floresce.
Tadahira, do nosso seculo X, pintou certo dia um cuco sobre o panno de um
leque. Tam perfeito era o cuco, tam inspirado de verdade foi o pincel que o
desenhou, que em todas as vezes que alguem abria o leque, o cuco, assim
exposto á luz do dia e á paizagem, acordava, soltava o pio habitual dos
cucos. Maravilha!...
Maruyama Okio, nome moderno, pois é do seculo XVIII, foi pintor muito
celebre, a ultima gloria talvez da escola classica, convencional, mas cheio
Daidô, que o ia asperamente reprehendendo.
Certo dia, acabava elle de pintar um retrato de
Buddha, quando sente passos de Daidô, que se
approxima do seu poiso; rapidamente, esconde o
desenho entre os joelhos; o vulto entra na cella,
esbrugando as suas contas, resmungando; do
resplandor do deus subito irradiam chammas de
apothéose, que innundam de luz a casa toda; a
falta do noviço estava assim conhecida; mas tambem perdoada, pois Daidô
humilhou-se a este avizo do céo, e nunca mais atormentou o seu discipulo.
Já no fim da existencia, dignou-se uma vez o Shogun recompensal-o dos
seus muitos serviços, dizendo-lhe que pedisse o que quizesse.―De nada
careço n'este mundo, retorquiu Chyo Densu, tendo em cada dia um kimono
lavado para vestir e uma tijela com arroz; só vos supplico, senhor, que por
vossa ordem terminante sejam cortadas cerces todas as cerejeiras do jardim
d'este templo, para que de futuro se não torne um logar de folia e
desacato.»―Foi-lhe o desejo satisfeito; e em Tofukuji, ainda até hoje, nem
um só pé de cerejeira floresce.
Tadahira, do nosso seculo X, pintou certo dia um cuco sobre o panno de um
leque. Tam perfeito era o cuco, tam inspirado de verdade foi o pincel que o
desenhou, que em todas as vezes que alguem abria o leque, o cuco, assim
exposto á luz do dia e á paizagem, acordava, soltava o pio habitual dos
cucos. Maravilha!...
Maruyama Okio, nome moderno, pois é do seculo XVIII, foi pintor muito
celebre, a ultima gloria talvez da escola classica, convencional, mas cheio
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de amoroso realismo nas suas concepções. Um seu cliente fizera-lhe
encommenda de desenhar um urso bravo. O consciencioso Okio pede a
certo aldeão do seu conhecimento que o avise de
quando algum appareça pela serra; o aviso vem ligeiro,
pois abundam taes bichos no Japão, e eil o que parte,
com a tinta, com os pinceis e com o mais de que
carece. Levado pelos campos, depara com o animal
dormindo junto a uma arvore. Mãos á obra, e em curto
espaço conclue o seu trabalho e se retira; mas dentro
em pouco rasgava a tela, desgostoso, depois de a ter
mostrado a um caçador de officio, em ursos entendido,
o qual lhe observou que achava bello o quadro, mas
falho de verdade após um exame attento, pois não
traduzia a imagem a vaga ondulação que é propria ao
arfar do corpo que respira. O melhor da passagem foi ter, annos corridos,
contado o aldeão ao bom Okio que o tal urso da serra se quedava dias e dias
junto á arvore; até que se deu fé, entre curiosos, que o bicho não dormia,
mas se achava alli caido morto...
Sonhou um dia o Shogun, Generalissimo do imperio, que um padre lhe
apparecia e lhe dizia estas palavras:―«Eu sou o defunto superior do templo
de Kurama; e rogo-vos, senhor, que ordeneis a Kano Motonoba de pintar o
meu retrato, para ser collocado no templo onde passei meus longos dias de
existencia.»―Acordando, mandou chamar o grande artista, fez-lhe a
encommenda, e soube então que elle tivera igual visão durante a mesma
noite.
O peor é que Kano não conhecera o reverendo, nem lhe constava que
existisse um só retrato para modelo. A tarefa era ingrata. O pintor passou
então dias sem conto, tendo na frente a tela nua, pincel em punho e tinta
preparada, immovel, perplexo, desesperado de jamais poder realisar o seu
intento. Foi em um d'aquelles dias que uma aranha desceu do alto do tecto
lentamente até poisar na tela, onde teceu a sua teia, que era nada menos que
encommenda de desenhar um urso bravo. O consciencioso Okio pede a
certo aldeão do seu conhecimento que o avise de
quando algum appareça pela serra; o aviso vem ligeiro,
pois abundam taes bichos no Japão, e eil o que parte,
com a tinta, com os pinceis e com o mais de que
carece. Levado pelos campos, depara com o animal
dormindo junto a uma arvore. Mãos á obra, e em curto
espaço conclue o seu trabalho e se retira; mas dentro
em pouco rasgava a tela, desgostoso, depois de a ter
mostrado a um caçador de officio, em ursos entendido,
o qual lhe observou que achava bello o quadro, mas
falho de verdade após um exame attento, pois não
traduzia a imagem a vaga ondulação que é propria ao
arfar do corpo que respira. O melhor da passagem foi ter, annos corridos,
contado o aldeão ao bom Okio que o tal urso da serra se quedava dias e dias
junto á arvore; até que se deu fé, entre curiosos, que o bicho não dormia,
mas se achava alli caido morto...
Sonhou um dia o Shogun, Generalissimo do imperio, que um padre lhe
apparecia e lhe dizia estas palavras:―«Eu sou o defunto superior do templo
de Kurama; e rogo-vos, senhor, que ordeneis a Kano Motonoba de pintar o
meu retrato, para ser collocado no templo onde passei meus longos dias de
existencia.»―Acordando, mandou chamar o grande artista, fez-lhe a
encommenda, e soube então que elle tivera igual visão durante a mesma
noite.
O peor é que Kano não conhecera o reverendo, nem lhe constava que
existisse um só retrato para modelo. A tarefa era ingrata. O pintor passou
então dias sem conto, tendo na frente a tela nua, pincel em punho e tinta
preparada, immovel, perplexo, desesperado de jamais poder realisar o seu
intento. Foi em um d'aquelles dias que uma aranha desceu do alto do tecto
lentamente até poisar na tela, onde teceu a sua teia, que era nada menos que
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o esboço do frade a traços rapidos; Kano limitou-se a completar a obra em
seus faceis detalhes.
Outra difficuldade se levanta: Kano desenhára um retrato gigante, em uma
grande tela, não reflectindo a principio que nunca poderia conseguir que
passasse pela porta do seu modesto albergue. Quando concluido e como o
problema se apresentasse irresoluvel, eis sopra de
repente uma rajada em furia, que deita a terra uma
parede do albergue, e leva em triumpho, pelos ares, o
primoroso quadro até ao templo de Kurama, onde até
hoje está, e os visitantes o admiram.
Sesshiu, um nome glorioso entre a pleiade dos pintores do Dai-Nippon,
entrára como noviço aos treze annos no templo de Hofukuji. Sabe-se que,
durante a sua aprendizagem, mais se applicava á arte do que ás praticas
devotas. Uma vez, por uma offensa d'este genero, foi posto em penitencia
junto a uma columna do templo, durante longas horas, com as mãos atraz
das costas, fortemente amarradas. Quando o superior vinha soltal-
o,―imagine-se o espanto do sujeito!―eis que surde de junto dos pés do
pobre moço um bando de ratinhos, que se escapam espavoridos pela casa.
Qual era a explicação de tam estupendo caso? Eu lhes conto: o penitente,
choroso e inactivo, fôra entretendo o tempo a pintar sobre o sobrado
poeirento aquelles galantes animaes, servindo-se das proprias lagrimas
como tinta, e do dedo grande do pé nu, como pincel; logicamente, os ratos
salvavam das iras do velhote as preciosas vidas com que o artista acabava
de dotal-os.
seus faceis detalhes.
Outra difficuldade se levanta: Kano desenhára um retrato gigante, em uma
grande tela, não reflectindo a principio que nunca poderia conseguir que
passasse pela porta do seu modesto albergue. Quando concluido e como o
problema se apresentasse irresoluvel, eis sopra de
repente uma rajada em furia, que deita a terra uma
parede do albergue, e leva em triumpho, pelos ares, o
primoroso quadro até ao templo de Kurama, onde até
hoje está, e os visitantes o admiram.
Sesshiu, um nome glorioso entre a pleiade dos pintores do Dai-Nippon,
entrára como noviço aos treze annos no templo de Hofukuji. Sabe-se que,
durante a sua aprendizagem, mais se applicava á arte do que ás praticas
devotas. Uma vez, por uma offensa d'este genero, foi posto em penitencia
junto a uma columna do templo, durante longas horas, com as mãos atraz
das costas, fortemente amarradas. Quando o superior vinha soltal-
o,―imagine-se o espanto do sujeito!―eis que surde de junto dos pés do
pobre moço um bando de ratinhos, que se escapam espavoridos pela casa.
Qual era a explicação de tam estupendo caso? Eu lhes conto: o penitente,
choroso e inactivo, fôra entretendo o tempo a pintar sobre o sobrado
poeirento aquelles galantes animaes, servindo-se das proprias lagrimas
como tinta, e do dedo grande do pé nu, como pincel; logicamente, os ratos
salvavam das iras do velhote as preciosas vidas com que o artista acabava
de dotal-os.
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Esta é uma velha lenda classica da religião de Shinto.
O templo shintoista de Shimo-Gamo, em Kioto, é dedicado á deusa
Tamayeri-hime. Esta menina, antes de dar pretexto aos fieis para ser
adorada, achava-se uma vez dedilhando sentidas melodias na guitarra, á
beira do rio Seminogarva, quando avistou boiando á tona de agua uma
feicha vermelha, encimada de lindas pennas de certa ave das selvas.
Colheu-a e levou-a para casa, collocando-a junto do seu leito. Acto
continuo, succedeu a maravilha de dar á luz um filho. Seus paes, descrentes
de artes milagrosas, e a despeito dos mil protestos de innocencia que ella
lhes fez, singelamente, não acreditaram no milagre, accusando-a da falta
que mais póde envergonhar uma mulher honesta.
Passados annos, Taketsumi-no-Mikoto, o pae da desolada, resolveu aclarar
este mysterio. Em tal designio, offereceu um banquete a todos os visinhos; e
quando estavam todos reunidos, dirigindo-se ao neto, e entregando-lhe uma
taça cheia de saké, que é o vinho do paiz, disse-lhe isto.―«Leva-a a teu
pae»―A creança, obedecendo, saiu para a rua e poz-se a contemplar o céo,
e ia murmurando uma oração; de subito, transforma-se n'um raio, que
corisca, subindo ás regiões celestes, acompanhado pela mãe, para a qual
começou assim a glorificação.
Encontrei-me, em pleno dia, n'um luxuoso bairro indigena, que me disseram
chamar-se a Cidade-Nocturna, pois só com a noite acorda, e só na noite
vive, deslumbrante de galas, de lumes, de harmonias, de povo alegre que
transita, para cair em repouso ao alvorecer da madrugada.
Áquella hora, a estranha cidade, esbrazeando a um sol de intensidades
tropicaes, do mez de Agosto, modorrava; torpida quietação; raros vultos se
viam,―mendigos, vadios, párias da vida,―cosidos com as nesgas de
sombra dos edificios e das arvores que ajardinam ao centro as avenidas.
Fixei casualmente a attenção n'um edificio mais pomposo, de vastas
O templo shintoista de Shimo-Gamo, em Kioto, é dedicado á deusa
Tamayeri-hime. Esta menina, antes de dar pretexto aos fieis para ser
adorada, achava-se uma vez dedilhando sentidas melodias na guitarra, á
beira do rio Seminogarva, quando avistou boiando á tona de agua uma
feicha vermelha, encimada de lindas pennas de certa ave das selvas.
Colheu-a e levou-a para casa, collocando-a junto do seu leito. Acto
continuo, succedeu a maravilha de dar á luz um filho. Seus paes, descrentes
de artes milagrosas, e a despeito dos mil protestos de innocencia que ella
lhes fez, singelamente, não acreditaram no milagre, accusando-a da falta
que mais póde envergonhar uma mulher honesta.
Passados annos, Taketsumi-no-Mikoto, o pae da desolada, resolveu aclarar
este mysterio. Em tal designio, offereceu um banquete a todos os visinhos; e
quando estavam todos reunidos, dirigindo-se ao neto, e entregando-lhe uma
taça cheia de saké, que é o vinho do paiz, disse-lhe isto.―«Leva-a a teu
pae»―A creança, obedecendo, saiu para a rua e poz-se a contemplar o céo,
e ia murmurando uma oração; de subito, transforma-se n'um raio, que
corisca, subindo ás regiões celestes, acompanhado pela mãe, para a qual
começou assim a glorificação.
Encontrei-me, em pleno dia, n'um luxuoso bairro indigena, que me disseram
chamar-se a Cidade-Nocturna, pois só com a noite acorda, e só na noite
vive, deslumbrante de galas, de lumes, de harmonias, de povo alegre que
transita, para cair em repouso ao alvorecer da madrugada.
Áquella hora, a estranha cidade, esbrazeando a um sol de intensidades
tropicaes, do mez de Agosto, modorrava; torpida quietação; raros vultos se
viam,―mendigos, vadios, párias da vida,―cosidos com as nesgas de
sombra dos edificios e das arvores que ajardinam ao centro as avenidas.
Fixei casualmente a attenção n'um edificio mais pomposo, de vastas
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dimensões, todo de madeira nova, alto de
quatro ou cinco andares, rodeado de
varandas, d'onde pendiam a arejar ricas
colchas de seda e mantos de matiz; não sei
que caravançará de mysteriosos habitos,
aquelle, silencioso tambem áquella hora,
mas dando de si a idéa de conter nos seus
arcanos uma legião do moradores.
Ao centro d'este edificio erguia-se em
triumpho um amplo portal, de madeiras
lustrosas; seguia-se-lhe um vestibulo;
depois alguns degraus de escada,
acharoados; e ao fundo, muito ao fundo,
havia passadiças cobertas de esteiras
muito limpas, corrediças entreabertas
patenteando, n'uma meia penumbra,
confusos verdes de jardim.
Junto ao portal, dois moços de serviço, quasi nus, dormiam sobre um banco,
como dois cães de guarda cançados da vigilia. Notei que vultos de mulher,
de quando em quando, passavam, perpassavam, longe, no ultimo plano;
languidas, vagarosas, com os penteados desfeitos, arrastando amplas tunicas
de seda estampadas de entrelaçamentos de flôres. Uma d'ellas, por
desenfado, avançou té ao portal, ergueu os braços alto, enfiou os alvos
dedos de ociosa pela juba negra dos cabellos; e assim, n'aquella posição,
poz-se a fitar o azul do céo que uma ave cruzava em vôo rapido.
Gentilissima, esplendida no vestido, miudas fórmas graciosas, da côr do
jaspe os pés descalços em habito de humildade, e um olhar de dezoito annos
quando muito, pueril, coando a expressão intima de um ser affeito á
passibilidade e inconsciente das coisas d'este mundo. De dentro, uma voz de
velha, azeda e imperativa, chamou-a pelo nome:―«Mitsu-Riyo!»―E eu fui
seguindo o meu caminho, acordando de subito para um enternecimento
doloroso, que me é peculiar em presença de certos relances da existencia,
um pequenino nada ás vezes, confuso e passageiro... Mitsu-Riyo quer dizer,
litteralmente:―Mel que se offerece―a quem? á turba, a toda a gente.
quatro ou cinco andares, rodeado de
varandas, d'onde pendiam a arejar ricas
colchas de seda e mantos de matiz; não sei
que caravançará de mysteriosos habitos,
aquelle, silencioso tambem áquella hora,
mas dando de si a idéa de conter nos seus
arcanos uma legião do moradores.
Ao centro d'este edificio erguia-se em
triumpho um amplo portal, de madeiras
lustrosas; seguia-se-lhe um vestibulo;
depois alguns degraus de escada,
acharoados; e ao fundo, muito ao fundo,
havia passadiças cobertas de esteiras
muito limpas, corrediças entreabertas
patenteando, n'uma meia penumbra,
confusos verdes de jardim.
Junto ao portal, dois moços de serviço, quasi nus, dormiam sobre um banco,
como dois cães de guarda cançados da vigilia. Notei que vultos de mulher,
de quando em quando, passavam, perpassavam, longe, no ultimo plano;
languidas, vagarosas, com os penteados desfeitos, arrastando amplas tunicas
de seda estampadas de entrelaçamentos de flôres. Uma d'ellas, por
desenfado, avançou té ao portal, ergueu os braços alto, enfiou os alvos
dedos de ociosa pela juba negra dos cabellos; e assim, n'aquella posição,
poz-se a fitar o azul do céo que uma ave cruzava em vôo rapido.
Gentilissima, esplendida no vestido, miudas fórmas graciosas, da côr do
jaspe os pés descalços em habito de humildade, e um olhar de dezoito annos
quando muito, pueril, coando a expressão intima de um ser affeito á
passibilidade e inconsciente das coisas d'este mundo. De dentro, uma voz de
velha, azeda e imperativa, chamou-a pelo nome:―«Mitsu-Riyo!»―E eu fui
seguindo o meu caminho, acordando de subito para um enternecimento
doloroso, que me é peculiar em presença de certos relances da existencia,
um pequenino nada ás vezes, confuso e passageiro... Mitsu-Riyo quer dizer,
litteralmente:―Mel que se offerece―a quem? á turba, a toda a gente.
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No Japão, uma vez em cada anno é a festa das meninas, e uma outra vez em
cada anno é a festa dos rapazes.
Na primeira, como de justiça, e em
attenção ao sexo, tudo se passa entre a
familia, de paredes a dentro; e o profano
nada logra devassar dos jubilos d'aquellas
presumidas, vestidinhas com mil esmeros
e attenções, em extasis em frente do altar
que se arma em casa em honra d'ellas,
aonde se dispõe, além de coisas santas, a
collecção de bonecas e brinquedos, a serie
em miniatura do espelho, da caixa de
costura, do brazeiro, das chavenas, da
chaleira, de tudo mais onde mais tarde os
seus dedos mimosos poisarão, no placido
exercicio dos seus deveres de esposa e
mãe por sua vez.
A festa dos rapazes é publica, ostensiva. É certo que no lar se agrupam os
trophéos de armas e allegorias de guerreiros, e brinquedos condizentes com
a turbulencia innata nos garotos; mas no que mais se empenha o cuidado da
familia é n'um curioso emblema que enfeita a cidade inteira, offerecendo
aos passeantes um estranho quadro de festa e alegria. Cada qual que tem
filhos―e quem ha que os não tenha?―espeta a prumo ao pé da sua casa
uma vara de bambu de grande comprimento, tendo amarrado na ponta um
enorme peixe de papel, soberbamente pintado de negro ou de vermelho,
escamudo, com ampla cauda e esbogalhados olhos; cada qual amarra um
peixe, ou dois, ou tres, ou quatro, conforme o numero de filhos; e ha casaes
tam abençoados dos deuses e tam cumpridores do seu dever, que amarram
sete peixes, oito peixes, um cardume!...
cada anno é a festa dos rapazes.
Na primeira, como de justiça, e em
attenção ao sexo, tudo se passa entre a
familia, de paredes a dentro; e o profano
nada logra devassar dos jubilos d'aquellas
presumidas, vestidinhas com mil esmeros
e attenções, em extasis em frente do altar
que se arma em casa em honra d'ellas,
aonde se dispõe, além de coisas santas, a
collecção de bonecas e brinquedos, a serie
em miniatura do espelho, da caixa de
costura, do brazeiro, das chavenas, da
chaleira, de tudo mais onde mais tarde os
seus dedos mimosos poisarão, no placido
exercicio dos seus deveres de esposa e
mãe por sua vez.
A festa dos rapazes é publica, ostensiva. É certo que no lar se agrupam os
trophéos de armas e allegorias de guerreiros, e brinquedos condizentes com
a turbulencia innata nos garotos; mas no que mais se empenha o cuidado da
familia é n'um curioso emblema que enfeita a cidade inteira, offerecendo
aos passeantes um estranho quadro de festa e alegria. Cada qual que tem
filhos―e quem ha que os não tenha?―espeta a prumo ao pé da sua casa
uma vara de bambu de grande comprimento, tendo amarrado na ponta um
enorme peixe de papel, soberbamente pintado de negro ou de vermelho,
escamudo, com ampla cauda e esbogalhados olhos; cada qual amarra um
peixe, ou dois, ou tres, ou quatro, conforme o numero de filhos; e ha casaes
tam abençoados dos deuses e tam cumpridores do seu dever, que amarram
sete peixes, oito peixes, um cardume!...
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Qualquer curioso em coisas de estatistica poderia, sobre uma eminencia da
cidade, registar pelo numero dos peixes o numero de filhos varões n'aquelle
sitio; mais ainda: os ventres benemeritos que mais soldados dão ao exercito
imperial.
Ha uma lenda adoravel n'esta usança. Os peixes figuram carpas, no Japão
abundantissimas; a carpa, sabe-se, vive nos rios, e apraz-se teimando a
nadar contra a corrente, subindo da fóz té ás origens; aquelles peixes de
papel, enfunados pelas brisas fuscas que reinam em geral n'aquella epocha,
que é em maio, perfilando-se contra o vento, dão uma perfeita imagem do
phenomeno. Assim o homem, no curso da existencia, deve adquirir a rude
teimosia de resistir, de passar para além da corrente dos revezes, dos
desalentos, das intrigas, té alcançar o lago bonançoso da paz da consciencia
e da abastança ganhas com o seu trabalho intelligente. A festa é ao mesmo
tempo um aviso aos tenros nipponicos de agora, ranhosos, rabujentos,
dependurados da teta maternal, ou, mais crescidos, caçando as cigarras
poisadas sobre as arvores, lambendo doçarias e soletrando o i-ro-ha pelas
escolas, mas que amanhã constituirão a massa activa e dirigente d'esta tribu
inchada de orgulhos patrioticos, e abrazada em ambição.
Se um dia me sobrarem ocios e pachorra juntamente, hei-de ainda escrever
um longo capitulo inspirado na mulher japoneza, tal como eu a
comprehendo, ou antes, tal como a não comprehendo. Não agora. Agora
intento apenas fallar d'ella em breves phrases, ao capricho das rapidas idéas
que me occorrem.
Qual é o seu destino? O enlevo do lar. Seria pois, como quem diz, um
canario cantador, gentil e inutil, saltitante, papeando ao sol e enchendo a
casa toda de alegria, se não se devesse incluir em tal enlevo, dois meritos
ainda: o delicado instincto da ordem, da limpeza, e um fundo de carinho
maternal, tam amoroso, que talvez não tenha egual no mundo inteiro. De
sorte que, sem missão activa propriamente, parece vir ao mundo destinada a
uma doce passibilidade feita de cuidados e sorrisos, para tornar feliz o
cidade, registar pelo numero dos peixes o numero de filhos varões n'aquelle
sitio; mais ainda: os ventres benemeritos que mais soldados dão ao exercito
imperial.
Ha uma lenda adoravel n'esta usança. Os peixes figuram carpas, no Japão
abundantissimas; a carpa, sabe-se, vive nos rios, e apraz-se teimando a
nadar contra a corrente, subindo da fóz té ás origens; aquelles peixes de
papel, enfunados pelas brisas fuscas que reinam em geral n'aquella epocha,
que é em maio, perfilando-se contra o vento, dão uma perfeita imagem do
phenomeno. Assim o homem, no curso da existencia, deve adquirir a rude
teimosia de resistir, de passar para além da corrente dos revezes, dos
desalentos, das intrigas, té alcançar o lago bonançoso da paz da consciencia
e da abastança ganhas com o seu trabalho intelligente. A festa é ao mesmo
tempo um aviso aos tenros nipponicos de agora, ranhosos, rabujentos,
dependurados da teta maternal, ou, mais crescidos, caçando as cigarras
poisadas sobre as arvores, lambendo doçarias e soletrando o i-ro-ha pelas
escolas, mas que amanhã constituirão a massa activa e dirigente d'esta tribu
inchada de orgulhos patrioticos, e abrazada em ambição.
Se um dia me sobrarem ocios e pachorra juntamente, hei-de ainda escrever
um longo capitulo inspirado na mulher japoneza, tal como eu a
comprehendo, ou antes, tal como a não comprehendo. Não agora. Agora
intento apenas fallar d'ella em breves phrases, ao capricho das rapidas idéas
que me occorrem.
Qual é o seu destino? O enlevo do lar. Seria pois, como quem diz, um
canario cantador, gentil e inutil, saltitante, papeando ao sol e enchendo a
casa toda de alegria, se não se devesse incluir em tal enlevo, dois meritos
ainda: o delicado instincto da ordem, da limpeza, e um fundo de carinho
maternal, tam amoroso, que talvez não tenha egual no mundo inteiro. De
sorte que, sem missão activa propriamente, parece vir ao mundo destinada a
uma doce passibilidade feita de cuidados e sorrisos, para tornar feliz o
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esposo, e preparar para a vida um outro homem, o seu filho. Sem iniciativa
propria no ramerrão da existencia quotidiana, simples nos habitos, nas
occupações e nos desejos, a sua condição mantem-lhe, e mesmo lhe
exaggera, os attributos peculiares do sexo,―delicadezas phisicas fixadas no
requinte, e um discorrer ingenuo de creança.
É uma escrava do homem? É difficil dizel-o, n'este mundo, que é todo
escravidão. Sim, será talvez; e recorda-se este velho preceito de moral,
ainda não esquecido:―«Obedece a teu pae, mais tarde a teu marido, mais
tarde a teu filho primogenito.»―No entretanto, bem chimericas algumas
devem ser as que supportam... pois para que lhes servem a ellas, as
musumés, o sorriso perenne dos labios, o mimo dos gestos, das feições, do
garridismo do seu trajo, a alma de graças que têem nas pontas dos dedinhos,
que tudo aformoseam onde tocam, senão para trazerem submisso ao jugo
dos seus desejos e caprichos o bruto seu senhor (porque os homens são
brutos em todo o planeta) e folgarem como princezinhas voluntarias?... Que
se julgam felizes, ellas, esta Senhora Ameixeeira, esta Senhora
Crysanthemo, esta Senhora Primavera, não ha duvida, concluindo por este
mesmo sorriso dos labios frescos durante todo o dia―e possivelmente toda
a noite―pela alegria fervilhante dos olhitos, pela serena ondulação da
mimica, já surprehendendo-as nos mil misteres caseiros, já pela rua,
caminho dos bazares, dos templos, dos theatros, dos campos floridos...
É certo todavia que uma grande dissemilhança afasta a mulher japoneza, da
mulher occidental, pelo menos d'aquella que a importação despeja dos
paquetes e vem pisar a terra de Nippon; a ponto, persuado-me, que um
sabio zoologo qualquer, que descesse do planeta Marte a estas paragens,
jamais ousaria classifical-as como exemplares da mesma fauna.
Vede esta femeasita minuscula, toda ella pieguices de roupas e maneiras,
fragil, sem musculos, com mãos e pulsos de creança, impropria para o
esforço e para a lucta; passa a vida de joelhos, sobre macias almofadas,
brincando com bonecas como se fôssem filhos seus, ou brincando com seus
filhos como se fôssem as bonecas; se sae de casa, vae arrastando os pésitos
em passos indecisos, preguiçosos, borboleta bohemia, sem rumo e sem
intento; sabe cuidar dos seus cabellos, pintar a bocca de escarlate, dedilhar
no shamicen, compôr ramos de flôres, servir o chá nipponico, lêr historias
propria no ramerrão da existencia quotidiana, simples nos habitos, nas
occupações e nos desejos, a sua condição mantem-lhe, e mesmo lhe
exaggera, os attributos peculiares do sexo,―delicadezas phisicas fixadas no
requinte, e um discorrer ingenuo de creança.
É uma escrava do homem? É difficil dizel-o, n'este mundo, que é todo
escravidão. Sim, será talvez; e recorda-se este velho preceito de moral,
ainda não esquecido:―«Obedece a teu pae, mais tarde a teu marido, mais
tarde a teu filho primogenito.»―No entretanto, bem chimericas algumas
devem ser as que supportam... pois para que lhes servem a ellas, as
musumés, o sorriso perenne dos labios, o mimo dos gestos, das feições, do
garridismo do seu trajo, a alma de graças que têem nas pontas dos dedinhos,
que tudo aformoseam onde tocam, senão para trazerem submisso ao jugo
dos seus desejos e caprichos o bruto seu senhor (porque os homens são
brutos em todo o planeta) e folgarem como princezinhas voluntarias?... Que
se julgam felizes, ellas, esta Senhora Ameixeeira, esta Senhora
Crysanthemo, esta Senhora Primavera, não ha duvida, concluindo por este
mesmo sorriso dos labios frescos durante todo o dia―e possivelmente toda
a noite―pela alegria fervilhante dos olhitos, pela serena ondulação da
mimica, já surprehendendo-as nos mil misteres caseiros, já pela rua,
caminho dos bazares, dos templos, dos theatros, dos campos floridos...
É certo todavia que uma grande dissemilhança afasta a mulher japoneza, da
mulher occidental, pelo menos d'aquella que a importação despeja dos
paquetes e vem pisar a terra de Nippon; a ponto, persuado-me, que um
sabio zoologo qualquer, que descesse do planeta Marte a estas paragens,
jamais ousaria classifical-as como exemplares da mesma fauna.
Vede esta femeasita minuscula, toda ella pieguices de roupas e maneiras,
fragil, sem musculos, com mãos e pulsos de creança, impropria para o
esforço e para a lucta; passa a vida de joelhos, sobre macias almofadas,
brincando com bonecas como se fôssem filhos seus, ou brincando com seus
filhos como se fôssem as bonecas; se sae de casa, vae arrastando os pésitos
em passos indecisos, preguiçosos, borboleta bohemia, sem rumo e sem
intento; sabe cuidar dos seus cabellos, pintar a bocca de escarlate, dedilhar
no shamicen, compôr ramos de flôres, servir o chá nipponico, lêr historias
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de raposas fabulosas e de macacos
legendarios...
Agora comparae esta chimera humana
com as rudes viageiras que o mar aqui
arroja, bravos exemplares do
feminismo em moda, fontes de
musculos, de animo atrevido, usando
monoculo, bengala e collarinho;
deixam ás amas os filhos, se é que os
têem, para correrem as cidades a
passos de gigante, ou, mais velozes
ainda, manejando com mão firme a bicycleta; umas são jornalistas, outras
são missionarias, outras são medicas, outras são sabias, outras são coisa
nenhuma. Não ha comparação possivel entre as duas. A europea offusca a
japoneza pelos seus meritos triumphantes. A esta, humilde e timida, só
restaria acaso uma desforra:―era entreabrir o kimono de seda na parte junto
ao peito, patentear lhe o par de maminhas brancas e roliças, com os bicos
côr de rosa macerados pelos dentinhos do garoto que lhe brinca no collo, nu
em pêlo...
Uma amavel senhora, cujas cartas vem de quando em quando amenizar a
solidão do meu viver, dizia-me ainda ha pouco coisa parecida com o
seguinte, a proposito de dois livros que escrevi (que ella leu, a bondosa), e
da subsequente prolongada preguiça litteraria em que fiquei:―«Você deu
ao publico as suas illusões; o publico espera agora as suas
desillusões.»―Não sei ao certo o que então lhe retorqui; mas eis o que me
occorre responder-lhe, ao escrever a ultima pagina d'este livro:
Vá de barato que a gente publique as suas illusões; melhor fôra calar-se,
todavia. Mas para as desillusões não ha, supponho eu, publicidade
ademissivel; soffrem-se no silencio intimo, e manda o orgulho proprio,
além de outros motivos, que a gente as não divulgue. No entretanto, para o
legendarios...
Agora comparae esta chimera humana
com as rudes viageiras que o mar aqui
arroja, bravos exemplares do
feminismo em moda, fontes de
musculos, de animo atrevido, usando
monoculo, bengala e collarinho;
deixam ás amas os filhos, se é que os
têem, para correrem as cidades a
passos de gigante, ou, mais velozes
ainda, manejando com mão firme a bicycleta; umas são jornalistas, outras
são missionarias, outras são medicas, outras são sabias, outras são coisa
nenhuma. Não ha comparação possivel entre as duas. A europea offusca a
japoneza pelos seus meritos triumphantes. A esta, humilde e timida, só
restaria acaso uma desforra:―era entreabrir o kimono de seda na parte junto
ao peito, patentear lhe o par de maminhas brancas e roliças, com os bicos
côr de rosa macerados pelos dentinhos do garoto que lhe brinca no collo, nu
em pêlo...
Uma amavel senhora, cujas cartas vem de quando em quando amenizar a
solidão do meu viver, dizia-me ainda ha pouco coisa parecida com o
seguinte, a proposito de dois livros que escrevi (que ella leu, a bondosa), e
da subsequente prolongada preguiça litteraria em que fiquei:―«Você deu
ao publico as suas illusões; o publico espera agora as suas
desillusões.»―Não sei ao certo o que então lhe retorqui; mas eis o que me
occorre responder-lhe, ao escrever a ultima pagina d'este livro:
Vá de barato que a gente publique as suas illusões; melhor fôra calar-se,
todavia. Mas para as desillusões não ha, supponho eu, publicidade
ademissivel; soffrem-se no silencio intimo, e manda o orgulho proprio,
além de outros motivos, que a gente as não divulgue. No entretanto, para o
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paiz japonez, com o qual ia especialmente contender a gentil observação
que referi,―um nadinha maliciosa, querendo aparentar estimulo apenas ás
minhas actividades em lethargo,―para o paiz japonez, devo confessar que
me encontro ainda no periodo do enlevo e dos feitiços. Não ha terra, que eu
conheça,―e tantas tenho conhecido!―mais deslumbrante do que esta nos
aspectos; não ha povo mais interessante do que este, pelo feitio moral, pelos
costumes, pela alma artistica; não ha mulheres mais mimosas do que estas
musumés; e não ha no mundo inteiro gente mais feliz do que esta gente
japoneza; é dizer tudo. O que o tempo e a experiencia me têem dado a
conhecer, é a convicção profunda da incompatibilidade absoluta entre tudo
isto e o europeu; o Japão é dos japonezes e só dos japonezes, o europeu,
como um pingo de azeite dentro de agua; conserva-se aqui sempre isolado,
não se assimilla ao meio. Porquê? por dissemelhanças irreconciliaveis do
sentir, da educação, dos habitos, por essa invencivel barreira que se define
em tres palavras, a―differença de raças.
Minha senhora: para poder assim
synthetisar-se um sentimento como eu
acabo de fazer, para adivinhar o
encanto no que nos é vedado, para
dizer que é grato o aroma de um
ramalhete de flôres que nos
mostrassem dentro de uma redoma de
crystal, não é fácil tarefa; tem de
elevar-se a alma a um extremo
altruismo estetico, paradoxal até, não
por virtude nem sciencia, mas
derivado de condições tristes da vida,
e quando se é já tam pobre em
esperanças e desejos, que o individuo
rasteja como um pária moral, alheio a
tudo.
Tal pária, n'um ponto, n'um só ponto, é grande como um Deus: vê o mundo
do alto, parecem-lhe os homens formigueiros, segue com a vista as
formigas nas batalhas, nas labutas, nos cuidados e nos prazeres; em tal
estado de desinteresse e independencia, custa pouco então apontar com o
que referi,―um nadinha maliciosa, querendo aparentar estimulo apenas ás
minhas actividades em lethargo,―para o paiz japonez, devo confessar que
me encontro ainda no periodo do enlevo e dos feitiços. Não ha terra, que eu
conheça,―e tantas tenho conhecido!―mais deslumbrante do que esta nos
aspectos; não ha povo mais interessante do que este, pelo feitio moral, pelos
costumes, pela alma artistica; não ha mulheres mais mimosas do que estas
musumés; e não ha no mundo inteiro gente mais feliz do que esta gente
japoneza; é dizer tudo. O que o tempo e a experiencia me têem dado a
conhecer, é a convicção profunda da incompatibilidade absoluta entre tudo
isto e o europeu; o Japão é dos japonezes e só dos japonezes, o europeu,
como um pingo de azeite dentro de agua; conserva-se aqui sempre isolado,
não se assimilla ao meio. Porquê? por dissemelhanças irreconciliaveis do
sentir, da educação, dos habitos, por essa invencivel barreira que se define
em tres palavras, a―differença de raças.
Minha senhora: para poder assim
synthetisar-se um sentimento como eu
acabo de fazer, para adivinhar o
encanto no que nos é vedado, para
dizer que é grato o aroma de um
ramalhete de flôres que nos
mostrassem dentro de uma redoma de
crystal, não é fácil tarefa; tem de
elevar-se a alma a um extremo
altruismo estetico, paradoxal até, não
por virtude nem sciencia, mas
derivado de condições tristes da vida,
e quando se é já tam pobre em
esperanças e desejos, que o individuo
rasteja como um pária moral, alheio a
tudo.
Tal pária, n'um ponto, n'um só ponto, é grande como um Deus: vê o mundo
do alto, parecem-lhe os homens formigueiros, segue com a vista as
formigas nas batalhas, nas labutas, nos cuidados e nos prazeres; em tal
estado de desinteresse e independencia, custa pouco então apontar com o
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dedo para a tribu que mais bem dotada parece na partilha das graças,
dizer―é esta, o Dai-Nippon.
Deixe-me pois guardar, para guardar alguma coisa, as illusões d'este paiz...
e a sua estima, e esta não é uma illusão.
1901
ISSUMBOSHI[2]
(CONTO JAPONEZ)
a A. A. Ferreira d'Almeida.
Ha mui remotas eras, dois velhos esposos residiam na provincia de Settsu,
em Naniwa, como então se chamava a cidade de Osaka. Eram os dois
sósinhos; nunca tiveram filhos, posto que ardentemente os desejassem. Ora,
a prole é a grande preoccupação da familia japoneza; considera-se mesmo
incompleta e quasi ignominiosa a existencia d'aquelle que a não teve, e
assim se vê privado de legar o seu nome, e os encargos do culto devido aos
ascendentes, ao natural herdeiro de taes honras, restando-lhe apenas o triste
expediente da adopção de um filho estranho, que, com a herança do
appellido de familia, assuma os encargos da supposta primogenitude.
―Um filho... um filho ao menos, fôsse elle embora um aleijado, um
monstro, uma migalha de gente, com o tamanho de um dedo por estatura...
mas um filho!...―tal o thema constante, durante longos annos, das mais
gratas esperanças do casal a que me referi. Quando, pelas rugas nos rostos e
pela alvura dos cabellos, os bons velhos concluiram que não mais lhes era
dizer―é esta, o Dai-Nippon.
Deixe-me pois guardar, para guardar alguma coisa, as illusões d'este paiz...
e a sua estima, e esta não é uma illusão.
1901
ISSUMBOSHI[2]
(CONTO JAPONEZ)
a A. A. Ferreira d'Almeida.
Ha mui remotas eras, dois velhos esposos residiam na provincia de Settsu,
em Naniwa, como então se chamava a cidade de Osaka. Eram os dois
sósinhos; nunca tiveram filhos, posto que ardentemente os desejassem. Ora,
a prole é a grande preoccupação da familia japoneza; considera-se mesmo
incompleta e quasi ignominiosa a existencia d'aquelle que a não teve, e
assim se vê privado de legar o seu nome, e os encargos do culto devido aos
ascendentes, ao natural herdeiro de taes honras, restando-lhe apenas o triste
expediente da adopção de um filho estranho, que, com a herança do
appellido de familia, assuma os encargos da supposta primogenitude.
―Um filho... um filho ao menos, fôsse elle embora um aleijado, um
monstro, uma migalha de gente, com o tamanho de um dedo por estatura...
mas um filho!...―tal o thema constante, durante longos annos, das mais
gratas esperanças do casal a que me referi. Quando, pelas rugas nos rostos e
pela alvura dos cabellos, os bons velhos concluiram que não mais lhes era
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dado confiar na iniciativa propria,
elevaram então o pensamento aos
deuses, como dispensadores que são de
todos os milagres; encaminhando de
preferencia a sua devoção para o
glorioso Myojin, que é a divindade
venerada no celebre templo de
Sumyoshi, a curta distancia de Naniwa.
Quasi todas as manhãs elles se dirigiam
em piedosa romaria, juntos, cada qual
arrimado ao seu bordão, pois já as
pernas lhes vergavam ao peso dos
invernos; e era então um espectaculo
deveras commovente, e supinamente
grotesco ao mesmo tempo, que fazia
correr lagrimas e estalejar risadas á gente que passava, o d'aquelles dois
decrepitos, cheios de uncção e abrazados em fé, erguendo ao céo as pobres
mãos escarnadas, e implorando o deus para que lhes desse um filho, fôsse
elle como fôsse, fôsse elle uma migalha de gente, do tamanho de um dedo
por estatura!...
Ora, succedeu que tendo assim decorrido varios annos, o deus de Sumyoshi
se apiedou por fim de tantas supplicas dos velhos, e lhes appareceu um dia
para lhes proferir estas palavras:―«Faço-vos a vontade, bons caturras,
haveis de ter um filho.»―Os dois pularam de contentes, como se póde
imaginar; galhofando, batendo palmadas amigaveis nas costas um do outro,
voltaram para o albergue. Não tardou muito que a velha sentisse com
alvoroço os primeiros remoques que prenunciam gravidez; e finalizados
nove mezes dava á luz uma creança, um menino...
Caspité!... Mas reparem agora no ponto mais surprehendente da aventura: o
menino, lindo como os amores, tinha a estatura de um boneco, como esses
de porcellana que se usa collocar nos jardins liliputianos, contidos n'um
elevaram então o pensamento aos
deuses, como dispensadores que são de
todos os milagres; encaminhando de
preferencia a sua devoção para o
glorioso Myojin, que é a divindade
venerada no celebre templo de
Sumyoshi, a curta distancia de Naniwa.
Quasi todas as manhãs elles se dirigiam
em piedosa romaria, juntos, cada qual
arrimado ao seu bordão, pois já as
pernas lhes vergavam ao peso dos
invernos; e era então um espectaculo
deveras commovente, e supinamente
grotesco ao mesmo tempo, que fazia
correr lagrimas e estalejar risadas á gente que passava, o d'aquelles dois
decrepitos, cheios de uncção e abrazados em fé, erguendo ao céo as pobres
mãos escarnadas, e implorando o deus para que lhes desse um filho, fôsse
elle como fôsse, fôsse elle uma migalha de gente, do tamanho de um dedo
por estatura!...
Ora, succedeu que tendo assim decorrido varios annos, o deus de Sumyoshi
se apiedou por fim de tantas supplicas dos velhos, e lhes appareceu um dia
para lhes proferir estas palavras:―«Faço-vos a vontade, bons caturras,
haveis de ter um filho.»―Os dois pularam de contentes, como se póde
imaginar; galhofando, batendo palmadas amigaveis nas costas um do outro,
voltaram para o albergue. Não tardou muito que a velha sentisse com
alvoroço os primeiros remoques que prenunciam gravidez; e finalizados
nove mezes dava á luz uma creança, um menino...
Caspité!... Mas reparem agora no ponto mais surprehendente da aventura: o
menino, lindo como os amores, tinha a estatura de um boneco, como esses
de porcellana que se usa collocar nos jardins liliputianos, contidos n'um
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vaso ou n'uma caixa, muito do agrado da gente japoneza. O espanto dos
paes foi grande, e a decepção tambem; mas em verdade não havia motivo
de queixa contra o deus, que concedêra o que se lhe rogára,―um filho, com
o tamanho de um dedo por estatura.―Era assim.
Issumboshi foi o nome que deram ao menino, isto é, traduzindo
litteralmente em portuguez: o Cavalheiro Pollegada. As chronicas não
rezam se foi amamentado a biberon, ou se o mirrado seio maternal
entumeceu de subito e se offereceu solicito aos labios do garoto. O que é
facto é que Issumboshi foi medrando em graças e em esperteza; não porém
em tamanho; e quando tinha os seus dez annos era tal como viera a este
mundo. Esta gentil disformidade trouxe o enfado ao lar e até um certo
azedume mal contido contra as suppostas bondades do deus de Sumyoshi.
O escarneo era espontaneo nas boccas dos visinhos; os gaiatos do sitio
apraziam-se em zombarias d'esta ordem:―«Lá está o anão comendo arroz!
lá vae a ervilha passear!»―Emfim, para encurtar razões, direi apenas que
chegou um momento em que Issumboshi se tornou insupportavel a seus
paes, vergonha viva do casal, sem prestimo presente, e sem que se lhe
suppozesse utilidade possivel no futuro.
Certo dia decidiram os velhos, embora lhes pezasse, pôl-o fóra de casa,
abandonal-o ao acaso da fortuna. Foi chamado o menino á presença do pae,
que lhe expôz os motivos da sua resolução, e lhe apontou de um gesto o
caminho da rua.―«Sim, papá, partirei sem demora, retorquiu, resignado e
paes foi grande, e a decepção tambem; mas em verdade não havia motivo
de queixa contra o deus, que concedêra o que se lhe rogára,―um filho, com
o tamanho de um dedo por estatura.―Era assim.
Issumboshi foi o nome que deram ao menino, isto é, traduzindo
litteralmente em portuguez: o Cavalheiro Pollegada. As chronicas não
rezam se foi amamentado a biberon, ou se o mirrado seio maternal
entumeceu de subito e se offereceu solicito aos labios do garoto. O que é
facto é que Issumboshi foi medrando em graças e em esperteza; não porém
em tamanho; e quando tinha os seus dez annos era tal como viera a este
mundo. Esta gentil disformidade trouxe o enfado ao lar e até um certo
azedume mal contido contra as suppostas bondades do deus de Sumyoshi.
O escarneo era espontaneo nas boccas dos visinhos; os gaiatos do sitio
apraziam-se em zombarias d'esta ordem:―«Lá está o anão comendo arroz!
lá vae a ervilha passear!»―Emfim, para encurtar razões, direi apenas que
chegou um momento em que Issumboshi se tornou insupportavel a seus
paes, vergonha viva do casal, sem prestimo presente, e sem que se lhe
suppozesse utilidade possivel no futuro.
Certo dia decidiram os velhos, embora lhes pezasse, pôl-o fóra de casa,
abandonal-o ao acaso da fortuna. Foi chamado o menino á presença do pae,
que lhe expôz os motivos da sua resolução, e lhe apontou de um gesto o
caminho da rua.―«Sim, papá, partirei sem demora, retorquiu, resignado e
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submisso; mas faça-me favor de dar-me antes uma agulha d'aquellas de que
a maman se serve para coser os seus kimonos.»―Perguntou o pae para que?
e foi-lhe respondido que era para usar d'ella como um sabre, muito
proporcionado ao seu tamanho. Depois pediu á mãe uma tigela de madeira,
d'aquellas que se empregam em servir o caldo ás refeições, e mais um
d'esses pausinhos que se chammam hashi, com o comprimento de um
palmo, substituindo na mesa japoneza o garfo e a colher. Perguntou a mãe
para que? e foi-lhe respondido que, para a longa viagem que ia
emprehender, a tigela seria o barco, o hashi seria o remo, tudo
proporcionado ao seu tamanho.
Em posse dos utensilios que alcançára da munificencia de seus paes,
Issumboshi fez-lhe uma rasgada reverencia e desappareceu de casa.
Eil-o só, o pobre abandonado, entregue ao seu arbitrio, dispondo como
haveres de uma tigela, de um palito e de uma agulha, collocando esta á
cinta, á laia de catana, com uma palhinha por bainha!... Que fazer? Para
onde ir?... Corria cerca o Iodogawa, o extenso rio lodoso e calmo que tem
suas origens no famoso lago Biwa, desce a Kyoto, atravessa Naniwa, e vae
perder-se no oceano. Que fazer? Para onde ir?―«Ir a Kyoto, pensou
comsigo o anãosinho, á capital do Imperio (então não era Tokyo a capital),
á residencia do Soberano, aonde muitas coisas curiosas deve haver, dignas
de vêr-se...»―E abalou.
Seria impossivel relatar as peripecias da viagem, os mil perigos affrontados
por tão exiguo barco, que uma simples casca de laranja, boiando á tona de
agua, já punha em risco de naufragio. Issumboshi ia perguntando aos
pescadores o caminho para Kyoto; se refrescava o vento, abrigava-se junto
da estacaria das pontesinhas que galgavam de uma margem do rio para a
outra margem; pelas noites escuras, ou quando a fadiga o affligia, encalhava
o seu barco junto á terra, por entre a maranha dos limos e das plantas
aquaticas; e foi assim, com mais de trinta dias de derrota, que abordou uma
manhã á famosa capital do paiz do Sol Nascente.
a maman se serve para coser os seus kimonos.»―Perguntou o pae para que?
e foi-lhe respondido que era para usar d'ella como um sabre, muito
proporcionado ao seu tamanho. Depois pediu á mãe uma tigela de madeira,
d'aquellas que se empregam em servir o caldo ás refeições, e mais um
d'esses pausinhos que se chammam hashi, com o comprimento de um
palmo, substituindo na mesa japoneza o garfo e a colher. Perguntou a mãe
para que? e foi-lhe respondido que, para a longa viagem que ia
emprehender, a tigela seria o barco, o hashi seria o remo, tudo
proporcionado ao seu tamanho.
Em posse dos utensilios que alcançára da munificencia de seus paes,
Issumboshi fez-lhe uma rasgada reverencia e desappareceu de casa.
Eil-o só, o pobre abandonado, entregue ao seu arbitrio, dispondo como
haveres de uma tigela, de um palito e de uma agulha, collocando esta á
cinta, á laia de catana, com uma palhinha por bainha!... Que fazer? Para
onde ir?... Corria cerca o Iodogawa, o extenso rio lodoso e calmo que tem
suas origens no famoso lago Biwa, desce a Kyoto, atravessa Naniwa, e vae
perder-se no oceano. Que fazer? Para onde ir?―«Ir a Kyoto, pensou
comsigo o anãosinho, á capital do Imperio (então não era Tokyo a capital),
á residencia do Soberano, aonde muitas coisas curiosas deve haver, dignas
de vêr-se...»―E abalou.
Seria impossivel relatar as peripecias da viagem, os mil perigos affrontados
por tão exiguo barco, que uma simples casca de laranja, boiando á tona de
agua, já punha em risco de naufragio. Issumboshi ia perguntando aos
pescadores o caminho para Kyoto; se refrescava o vento, abrigava-se junto
da estacaria das pontesinhas que galgavam de uma margem do rio para a
outra margem; pelas noites escuras, ou quando a fadiga o affligia, encalhava
o seu barco junto á terra, por entre a maranha dos limos e das plantas
aquaticas; e foi assim, com mais de trinta dias de derrota, que abordou uma
manhã á famosa capital do paiz do Sol Nascente.
Page 133
Eil-o em terra, bamboleando-se,
folgando com o chão firme, com as
palestras da turba, com o cheiro das
tabernas, como effectivamente
succede aos marinheiros após longos
dias de cruzeiro, enfadados de
balanço, de isolamento, de carne
salgada e de bolacha. Issumboshi, pouco maior que um escaravelho,
passava despercebido por entre os muitos
passeantes; assim poude furtar-se a
commentarios zombeteiros e percorrer
tranquillamente as ruas da cidade,
embasbacando-se em face dos aspectos
grandiosos que aos seus olhitos sagazes se
iam offerecendo. Por fim, eil-o acercando-se
da mais sumptuosa residencia em que os
mesmos olhitos jamais tinham poisado; era
alli que vivia um grande personagem, o
principe Sanjo-no-Saishó, primeiro ministro
na côrte do soberano. Entra Issumboshi resolutamente no amplo pateo da
entrada, e informa os serviçaes de que pretende fallar ao senhor de tal
dominio. Deu-se então o comico incidente de estar sua alteza muito cerca e
de acudir, á porta, attrahido pela maviosa voz do visitante; como ninguem
visse porém, ia de novo recolher-se, resmungando que teria jurado achar-se
alli um estranho em conversas com a gente de serviço; mas um derradeiro
olhar pesquisador revelou-lhe, quasi occulto por detraz dos seus tamancos,
que estavam junto á entrada conforme o uso do paiz, o curioso figurão que
conhecemos.―«Oh! exclamou, eras tu, minusculo vivente que ainda ha
pouco proferias o meu nome?»―O rapaz, polidamente, assegurou que sim,
que era elle proprio.―«E que me queres então?»―Issumboshi expôz a sua
procedencia, os seus titulos e as tristes condições em que se via; e concluiu
rogando que lhe desse agasalho, e o admittisse ao seu serviço.―«Pois sim,
folgando com o chão firme, com as
palestras da turba, com o cheiro das
tabernas, como effectivamente
succede aos marinheiros após longos
dias de cruzeiro, enfadados de
balanço, de isolamento, de carne
salgada e de bolacha. Issumboshi, pouco maior que um escaravelho,
passava despercebido por entre os muitos
passeantes; assim poude furtar-se a
commentarios zombeteiros e percorrer
tranquillamente as ruas da cidade,
embasbacando-se em face dos aspectos
grandiosos que aos seus olhitos sagazes se
iam offerecendo. Por fim, eil-o acercando-se
da mais sumptuosa residencia em que os
mesmos olhitos jamais tinham poisado; era
alli que vivia um grande personagem, o
principe Sanjo-no-Saishó, primeiro ministro
na côrte do soberano. Entra Issumboshi resolutamente no amplo pateo da
entrada, e informa os serviçaes de que pretende fallar ao senhor de tal
dominio. Deu-se então o comico incidente de estar sua alteza muito cerca e
de acudir, á porta, attrahido pela maviosa voz do visitante; como ninguem
visse porém, ia de novo recolher-se, resmungando que teria jurado achar-se
alli um estranho em conversas com a gente de serviço; mas um derradeiro
olhar pesquisador revelou-lhe, quasi occulto por detraz dos seus tamancos,
que estavam junto á entrada conforme o uso do paiz, o curioso figurão que
conhecemos.―«Oh! exclamou, eras tu, minusculo vivente que ainda ha
pouco proferias o meu nome?»―O rapaz, polidamente, assegurou que sim,
que era elle proprio.―«E que me queres então?»―Issumboshi expôz a sua
procedencia, os seus titulos e as tristes condições em que se via; e concluiu
rogando que lhe desse agasalho, e o admittisse ao seu serviço.―«Pois sim,
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fica comnosco, respondeu sua alteza, após ligeira reflexão; tu és sem
duvida, continuou, o homem mais pequeno que tem apparecido n'este
mundo, e a tua historia uma das mais commovedoras que conheço; não
quero perder o léo de possuir tamanha galanteria, praticando ao mesmo
tempo um acto meritorio, protegendo-te.»
Embora tam infimo em grandeza, o Cavalheiro Pollegada soube mostrar-se
utilisavel em tudo em que o occuparam. Dentro em pouco, tornou-se
querido da familia, o brinquedo, o passatempo predilecto para matar
enfados, dos quaes ninguem se livra, e menos ainda os ricos, sempre
ociosos em seus palacios de regalo.
Ko-Haru, a filha do fidalgo, a mais
gentil donzella de Kyoto (que é a terra
das mulheres mais gentis de todo o
Imperio), especialmente lhe votou as
suas sympathias, impondo-lhe o
dever―dulcissimo dever!―de
acompanhal-a por toda a parte onde
ella fôsse, qual rato sabio que seguisse
a dona em seus passeios...
Entre os dois, a formosa musumé e a
migalha de gente, passaram-se então
graciosas scenas, as mais tocantes que
póde imaginar-se, se imaginaveis
são... Era um enlevo vêl-o, sempre
vestidinho de guerreiro, a primor, com
roupas de setim que ella pelos
proprios dedos habilidosos lhe
bordava, e lhe cosia, privando de carinhos as suas bonecas favoritas; e
Issumboshi, muito compenetrado do seu papel de pagem, nunca largando o
sabre da cintura, arrogava-se uns taes ares marciaes, tão petulantes, que a
gente morria de rir, ao avistal-o!... Se chovia, ou se a excursão se
duvida, continuou, o homem mais pequeno que tem apparecido n'este
mundo, e a tua historia uma das mais commovedoras que conheço; não
quero perder o léo de possuir tamanha galanteria, praticando ao mesmo
tempo um acto meritorio, protegendo-te.»
Embora tam infimo em grandeza, o Cavalheiro Pollegada soube mostrar-se
utilisavel em tudo em que o occuparam. Dentro em pouco, tornou-se
querido da familia, o brinquedo, o passatempo predilecto para matar
enfados, dos quaes ninguem se livra, e menos ainda os ricos, sempre
ociosos em seus palacios de regalo.
Ko-Haru, a filha do fidalgo, a mais
gentil donzella de Kyoto (que é a terra
das mulheres mais gentis de todo o
Imperio), especialmente lhe votou as
suas sympathias, impondo-lhe o
dever―dulcissimo dever!―de
acompanhal-a por toda a parte onde
ella fôsse, qual rato sabio que seguisse
a dona em seus passeios...
Entre os dois, a formosa musumé e a
migalha de gente, passaram-se então
graciosas scenas, as mais tocantes que
póde imaginar-se, se imaginaveis
são... Era um enlevo vêl-o, sempre
vestidinho de guerreiro, a primor, com
roupas de setim que ella pelos
proprios dedos habilidosos lhe
bordava, e lhe cosia, privando de carinhos as suas bonecas favoritas; e
Issumboshi, muito compenetrado do seu papel de pagem, nunca largando o
sabre da cintura, arrogava-se uns taes ares marciaes, tão petulantes, que a
gente morria de rir, ao avistal-o!... Se chovia, ou se a excursão se
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prolongava, Ka-Haru tomava nas mãos alvas de neve o seu pequeno
companheiro, aconchegando-o ao collo, ou aquecendo-o ao seio.
Issumboshi, é bem de crêr, possuia, como todo o ser humano possue, um
coração, embora reduzido ás proporções de uma cabeça de alfinete, mas
pulsando de gratidão e de ternura. Aquella convivencia escravisou-lhe a
alma. Uma dedicação immensa, uns zelos infinitos, um desejo constante de
agradar á sua nobre ama, taes fôram os sentimentos dominantes no animo
do pygmeu. A sua disformidade permittia-lhe delicadezas, que aos outros
mortaes eram vedadas... (oh, mysterio psychologico de todos os namorados
d'este mundo! quantos de vós, que lêdes estas linhas, invejareis a sorte de
Issumboshi!...) Quando, pelas noites calidas de agosto, Ko-Haru se aprazia
em estender-se sobre a relva dos jardins, Issumboshi, vencido tambem pela
fadiga, poisava e adormecia sobre um dos pés nus de sua ama, como em
leito de marmore de alvuras resplendentes. Uma vez, caiu dos labios frescos
da donzella uma petala de magnolia, em que por distracção os dentinhos se
entretinham mordicando: Issumboshi comeu-a; e durante um dia inteiro não
se serviu de outro alimento, assegurando com verdade que aquelle lhe
bastava...
Aconteceu um dia dirigir-se Ko-Haru ao templo de Kiyomizu-no-Kwannon
(Kwannon é a deusa buddhista da piedade), a fim de praticar as suas
devoções; como sempre, o anão acompanhava-a. Ora, de volta, quando
ambos desciam o ultimo degrau da ampla escadaria que dá accesso ao
templo, dois demonios surdiram de improviso das proximas balseiras,
horriveis de figura, herculeos, colossaes, cuidando sem detenças de raptar a
linda peregrina. Ko-Haru desfaz-se em pranto e quasi desfallece.
Issumboshi retira a espada da bainha (a agulha que a mãe lhe dera n'outros
tempos), perfila-se em frente dos demonios e brada-lhes assim:―«Vis
temerarios, que commetteis a magna offensa de perturbar em seus passeios
piedosos a princeza Sanjó! sabei que se um de vós, com um só dedo lhe
tocar, commigo se ha de haver! e, tão certo como ser eu Issumboshi, assim
este meu sabre lhe rasgará a entranha!...»―Consta que os diabretes se
pozeram a rir, arreganhando os dentes; e um dos dois, mais fallador,
companheiro, aconchegando-o ao collo, ou aquecendo-o ao seio.
Issumboshi, é bem de crêr, possuia, como todo o ser humano possue, um
coração, embora reduzido ás proporções de uma cabeça de alfinete, mas
pulsando de gratidão e de ternura. Aquella convivencia escravisou-lhe a
alma. Uma dedicação immensa, uns zelos infinitos, um desejo constante de
agradar á sua nobre ama, taes fôram os sentimentos dominantes no animo
do pygmeu. A sua disformidade permittia-lhe delicadezas, que aos outros
mortaes eram vedadas... (oh, mysterio psychologico de todos os namorados
d'este mundo! quantos de vós, que lêdes estas linhas, invejareis a sorte de
Issumboshi!...) Quando, pelas noites calidas de agosto, Ko-Haru se aprazia
em estender-se sobre a relva dos jardins, Issumboshi, vencido tambem pela
fadiga, poisava e adormecia sobre um dos pés nus de sua ama, como em
leito de marmore de alvuras resplendentes. Uma vez, caiu dos labios frescos
da donzella uma petala de magnolia, em que por distracção os dentinhos se
entretinham mordicando: Issumboshi comeu-a; e durante um dia inteiro não
se serviu de outro alimento, assegurando com verdade que aquelle lhe
bastava...
Aconteceu um dia dirigir-se Ko-Haru ao templo de Kiyomizu-no-Kwannon
(Kwannon é a deusa buddhista da piedade), a fim de praticar as suas
devoções; como sempre, o anão acompanhava-a. Ora, de volta, quando
ambos desciam o ultimo degrau da ampla escadaria que dá accesso ao
templo, dois demonios surdiram de improviso das proximas balseiras,
horriveis de figura, herculeos, colossaes, cuidando sem detenças de raptar a
linda peregrina. Ko-Haru desfaz-se em pranto e quasi desfallece.
Issumboshi retira a espada da bainha (a agulha que a mãe lhe dera n'outros
tempos), perfila-se em frente dos demonios e brada-lhes assim:―«Vis
temerarios, que commetteis a magna offensa de perturbar em seus passeios
piedosos a princeza Sanjó! sabei que se um de vós, com um só dedo lhe
tocar, commigo se ha de haver! e, tão certo como ser eu Issumboshi, assim
este meu sabre lhe rasgará a entranha!...»―Consta que os diabretes se
pozeram a rir, arreganhando os dentes; e um dos dois, mais fallador,
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dignou-se responder com uma vóz de trovão que fez afugentar das arvores
os pardaes, em cinco leguas ao redor:―«Acalma a tua furia, infimo insecto;
não percebes acaso que a lucta contra nós é-te defeza? para encurtar razões
e não seres importuno, vaes vêr o que te faço...»―Levantou-o do solo, mui
delicadamente, com as pontas dos dedos, e enguliu-o...
Pareceu a Ko-Haru fugir-lhe a ultima
esperança de salvar-se. Illudia-se. Em
plenas trevas, escorregando pela guela
babujenta do monstro, e penetrando na
enorme rotunda da barriga, o
anãosinho empunhou o sabre a duas
mãos e foi espicaçando ao acaso, para
a frente, para a direita, para a
esquerda, o ventre, a fressura, os
intestinos; o diabo sentiu-se de repente
incommodado, soffreu ancias atrozes,
vomitou o jantar e Issumboshi de
novo appareceu á luz do dia. O outro
monstro tentou em seguida igual ardil,
devorando o pygmeu; d'esta vez Issumboshi subiu-lhe para o nariz, em
cujas fossas sanguineas e felpudas recomeçou esgrimindo, a ponto de
produzir tal comichão, que o diabo espirrou, salvando-se o inimigo pelos
ares. Foi então que os demonios se encheram de pavor, convencidos de que
tinham em frente de si um ente extraordinario, posto que de tão desprezivel
apparencia; e deitaram a fugir...
Muito bem. Agora o heroe cuida de acalmar a desolada dama, convence-a
da ausencia do perigo e faz-lhe vêr que são horas de seguir para palacio,
onde de certo o pae a espera com anciedade. Ko-Haru vae partir; antes
porém testemunha ao pagem a sua muita gratidão, promettendo contar á
familia o succedido, para que chovam justas recompensas sobre o seu
donodado salvador.
os pardaes, em cinco leguas ao redor:―«Acalma a tua furia, infimo insecto;
não percebes acaso que a lucta contra nós é-te defeza? para encurtar razões
e não seres importuno, vaes vêr o que te faço...»―Levantou-o do solo, mui
delicadamente, com as pontas dos dedos, e enguliu-o...
Pareceu a Ko-Haru fugir-lhe a ultima
esperança de salvar-se. Illudia-se. Em
plenas trevas, escorregando pela guela
babujenta do monstro, e penetrando na
enorme rotunda da barriga, o
anãosinho empunhou o sabre a duas
mãos e foi espicaçando ao acaso, para
a frente, para a direita, para a
esquerda, o ventre, a fressura, os
intestinos; o diabo sentiu-se de repente
incommodado, soffreu ancias atrozes,
vomitou o jantar e Issumboshi de
novo appareceu á luz do dia. O outro
monstro tentou em seguida igual ardil,
devorando o pygmeu; d'esta vez Issumboshi subiu-lhe para o nariz, em
cujas fossas sanguineas e felpudas recomeçou esgrimindo, a ponto de
produzir tal comichão, que o diabo espirrou, salvando-se o inimigo pelos
ares. Foi então que os demonios se encheram de pavor, convencidos de que
tinham em frente de si um ente extraordinario, posto que de tão desprezivel
apparencia; e deitaram a fugir...
Muito bem. Agora o heroe cuida de acalmar a desolada dama, convence-a
da ausencia do perigo e faz-lhe vêr que são horas de seguir para palacio,
onde de certo o pae a espera com anciedade. Ko-Haru vae partir; antes
porém testemunha ao pagem a sua muita gratidão, promettendo contar á
familia o succedido, para que chovam justas recompensas sobre o seu
donodado salvador.
Page 137
Partiram com effeito. Eis que, a curta distancia, Ko-Haru encontra no
caminho um utensilio alli abandonado, o pequenino martello milagroso de
que os demonios e os deuses se utilisam, certamente esquecido pelos
monstros na ancia de safarem-se. Tomou-o pressurosa. Perguntou o
companheiro o que era aquillo; e, como ella lhe exposesse que bastava
brandil-o para a gente realisar os seus desejos, e que elle proprio, se algum
desejo tinha, lh'o dissesse, que logo lhe seria satisfeito, Issumboshi berrou,
no auge da commoção e da esperança:―«Altura! Altura! Altura»―Ko-
Haru não percebeu o que elle queria. Elle então, mais prolixo, explicou que
queria a altura de si proprio, crescer em tamanho, tornar-se um homem
como todos os homens d'este mundo. O milagre, a um gesto da musumé,
realisou-se. Issumboshi attingiu n'um
momento as regulares proporções de um
guapo mocetão; ao lado da princeza, quem
se pozesse a vêr aquelle par, diria-os feitos
um para o outro, de encommenda...
Chegaram ao palacio. A admiração foi
grande; mas não sei o que mais
commentarios mereceu, se as peripecias da princeza, rematadas com tão
feliz epilogo, se o milagre do martello na pessoa de Issumboshi. Logo alli
se lhe mudou o nome, para outro nome apropriado; recebeu do seu nobre
protector mil recompensas, mais tarde do soberano mui fartas honrarias,
subindo aos mais altos cargos publicos; mas a mais doce recompensa que
aqui se lhe póde assignalar foi tornar-se o esposo querido de Ko-Haru, que
elle amava, do fundo da alma, desde o primeiro dia que lhe foi dado
contemplal-a...
Kobe, março de 1902.
caminho um utensilio alli abandonado, o pequenino martello milagroso de
que os demonios e os deuses se utilisam, certamente esquecido pelos
monstros na ancia de safarem-se. Tomou-o pressurosa. Perguntou o
companheiro o que era aquillo; e, como ella lhe exposesse que bastava
brandil-o para a gente realisar os seus desejos, e que elle proprio, se algum
desejo tinha, lh'o dissesse, que logo lhe seria satisfeito, Issumboshi berrou,
no auge da commoção e da esperança:―«Altura! Altura! Altura»―Ko-
Haru não percebeu o que elle queria. Elle então, mais prolixo, explicou que
queria a altura de si proprio, crescer em tamanho, tornar-se um homem
como todos os homens d'este mundo. O milagre, a um gesto da musumé,
realisou-se. Issumboshi attingiu n'um
momento as regulares proporções de um
guapo mocetão; ao lado da princeza, quem
se pozesse a vêr aquelle par, diria-os feitos
um para o outro, de encommenda...
Chegaram ao palacio. A admiração foi
grande; mas não sei o que mais
commentarios mereceu, se as peripecias da princeza, rematadas com tão
feliz epilogo, se o milagre do martello na pessoa de Issumboshi. Logo alli
se lhe mudou o nome, para outro nome apropriado; recebeu do seu nobre
protector mil recompensas, mais tarde do soberano mui fartas honrarias,
subindo aos mais altos cargos publicos; mas a mais doce recompensa que
aqui se lhe póde assignalar foi tornar-se o esposo querido de Ko-Haru, que
elle amava, do fundo da alma, desde o primeiro dia que lhe foi dado
contemplal-a...
Kobe, março de 1902.
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O PESCADOR URASHIMA
a Joaquim Costa
Viveu em remotos tempos, n'um logarejo da costa do Japão, Urashima, um
moço pescador. D'este simples, pouco ia tagarelando a visinhança:―que
tinha um coração propenso ao bem, e que em destreza ninguem o igualava,
tratando-se de artes de linhas e de anzoes;―nada mais, mas já não era
pequeno o elogio.
Ora, um bello dia, saiu elle a pescar, sósinho no seu barco. E que pescou
Urashima d'essa feita? Oh! a sorte sorria-lhe em tal hora... pescou uma
enorme tartaruga, com a casca espessa e dura, a cabecita rugosa,
denunciando assim a grande vetustez; é notorio que as tartarugas vivem
muito; vivem mil annos, no Japão.
Era um opiparo jantar que o acaso offerecia ao pobre pescador, pouco
mimoso de acepipes; jantar, ceia e almoço, e mais ainda, fóra os lucros que
a casca lhe trouxesse; mas o moço poz-se a scismar na crueldade que ia
commetter, roubando assim talvez longos
seculos de vida áquelle bruto, fadado pela sorte
ao goso da existencia, durante gerações e
gerações da tribu humana; e lembrou-se da mãe,
da santa velha que tantas vezes lhe ensinava a ser
caritativo com os brutos indefezos... É certo que
as mãos abandonaram a presa, n'um largo gesto
de bondade; e a tartaruga, volvendo á agua sem
se fazer rogada, lepida mergulhou no azul e se
safou das vistas.
Fazia então tanto calor!... Era um d'esses dias abrazadores de agosto,
a Joaquim Costa
Viveu em remotos tempos, n'um logarejo da costa do Japão, Urashima, um
moço pescador. D'este simples, pouco ia tagarelando a visinhança:―que
tinha um coração propenso ao bem, e que em destreza ninguem o igualava,
tratando-se de artes de linhas e de anzoes;―nada mais, mas já não era
pequeno o elogio.
Ora, um bello dia, saiu elle a pescar, sósinho no seu barco. E que pescou
Urashima d'essa feita? Oh! a sorte sorria-lhe em tal hora... pescou uma
enorme tartaruga, com a casca espessa e dura, a cabecita rugosa,
denunciando assim a grande vetustez; é notorio que as tartarugas vivem
muito; vivem mil annos, no Japão.
Era um opiparo jantar que o acaso offerecia ao pobre pescador, pouco
mimoso de acepipes; jantar, ceia e almoço, e mais ainda, fóra os lucros que
a casca lhe trouxesse; mas o moço poz-se a scismar na crueldade que ia
commetter, roubando assim talvez longos
seculos de vida áquelle bruto, fadado pela sorte
ao goso da existencia, durante gerações e
gerações da tribu humana; e lembrou-se da mãe,
da santa velha que tantas vezes lhe ensinava a ser
caritativo com os brutos indefezos... É certo que
as mãos abandonaram a presa, n'um largo gesto
de bondade; e a tartaruga, volvendo á agua sem
se fazer rogada, lepida mergulhou no azul e se
safou das vistas.
Fazia então tanto calor!... Era um d'esses dias abrazadores de agosto,
Page 139
embebidos de paz, de luz, de torpidos affluvios. Além, a aldeia quedava-se
na sésta, amodorrava, jazia em aniquilamento absoluto; apenas, sobre as
arvores, cantavam as cigarras, doidas de cio, estonteadas... Interrompera-se
nos campos a faina da lavoira; nas choças escancaradas, patenteavam-se os
corpos nús, estendidos em repoiso, adormecidos, banhados em suor. E
Urashima, no seu barco, vencido tambem pelos ardores d'aquella hora,
largou das mãos os remos e as linhas, encostou-se á bancada e adormeceu.
No entretanto, eis que surge das aguas um vulto feminino, encantador. O
episodio, que a tradição do povo foi retendo até aos nossos dias, póde agora
reconstituir-se em pensamento. Sobre o convez do esquife, poisa esse vulto,
essa fada adoravel de feitiços, envolta em roupas carmezins, solto o cabello
ás brisas e corôada a fronte com o diadema de oiro, que é apanagio das
princezas; estende o braço de neve para o adormecido, toca-lhe na fronte
com as pontas dos dedos delicados, e diz-lhe de manso estas
palavras:―«Acorda, Urashima, escuta-me; eu vou contar-te quem eu sou;
sou a filha do deus do oceano immenso, habito com meu pae o palacio do
dragão, no seio das ondas; a tartaruga, que ainda ha pouco colheste e
restituiste á liberdade, era eu propria; meu pae impoz-me um tal disfarce,
para que assim podesse estudar-te bem os sentimentos; por sua ordem e
meu aprazimento pessoal, serei a tua esposa, se me queres; mil annos
viveremos sempre juntos, sempre jovens, sempre felizes, no palacio do
dragão, sob o azul das aguas...»
Lá seguem os dois pelo mar fóra. Urashima empunha a esparrela da pôpa,
maneja-a com denodo, dá-lhe―podera não!―forças herculeas a ancia de
chegar; a princeza poisa no outro remo as mãos franzinas, e vae sorrindo ao
companheiro. E vão remando, e vão remando, sem que a fadiga os
aquebrante, até que finalmente o barco alcança o porto desejado, e já de
longe o palacio se desenha, em arcarias, em grimpas, em mirantes
recortados.
Que encanto! que prodigio! nem mesmo a phantasia ousára imaginar tantos
na sésta, amodorrava, jazia em aniquilamento absoluto; apenas, sobre as
arvores, cantavam as cigarras, doidas de cio, estonteadas... Interrompera-se
nos campos a faina da lavoira; nas choças escancaradas, patenteavam-se os
corpos nús, estendidos em repoiso, adormecidos, banhados em suor. E
Urashima, no seu barco, vencido tambem pelos ardores d'aquella hora,
largou das mãos os remos e as linhas, encostou-se á bancada e adormeceu.
No entretanto, eis que surge das aguas um vulto feminino, encantador. O
episodio, que a tradição do povo foi retendo até aos nossos dias, póde agora
reconstituir-se em pensamento. Sobre o convez do esquife, poisa esse vulto,
essa fada adoravel de feitiços, envolta em roupas carmezins, solto o cabello
ás brisas e corôada a fronte com o diadema de oiro, que é apanagio das
princezas; estende o braço de neve para o adormecido, toca-lhe na fronte
com as pontas dos dedos delicados, e diz-lhe de manso estas
palavras:―«Acorda, Urashima, escuta-me; eu vou contar-te quem eu sou;
sou a filha do deus do oceano immenso, habito com meu pae o palacio do
dragão, no seio das ondas; a tartaruga, que ainda ha pouco colheste e
restituiste á liberdade, era eu propria; meu pae impoz-me um tal disfarce,
para que assim podesse estudar-te bem os sentimentos; por sua ordem e
meu aprazimento pessoal, serei a tua esposa, se me queres; mil annos
viveremos sempre juntos, sempre jovens, sempre felizes, no palacio do
dragão, sob o azul das aguas...»
Lá seguem os dois pelo mar fóra. Urashima empunha a esparrela da pôpa,
maneja-a com denodo, dá-lhe―podera não!―forças herculeas a ancia de
chegar; a princeza poisa no outro remo as mãos franzinas, e vae sorrindo ao
companheiro. E vão remando, e vão remando, sem que a fadiga os
aquebrante, até que finalmente o barco alcança o porto desejado, e já de
longe o palacio se desenha, em arcarias, em grimpas, em mirantes
recortados.
Que encanto! que prodigio! nem mesmo a phantasia ousára imaginar tantos
Page 140
primores!... As paredes do palacio são de renda de coral; as arvores do
jardim têem por folhas, esmeraldas, e fructificam em perolas e rubis; as
escamas dos peixes são de prata, os olhos de diamantes, as caudas dos
dragões, de oiro lavrado...
Então, toda a bicharia do oceano acode á praia, vestindo kimonos de
cerimonia, e vem saudar os noivos viajantes. Após os cumprimentos e os
discursos laudatorios que prescreve a etiqueta em casos taes, a princeza,
seguida do cortejo, entra em palacio; gorazes e toninhas seguram-lhe a
cauda do vestido; poisa nas fofas esteiras, de uma meticulosa limpeza
indescriptivel, as plantas alvas dos seus pésinhos deliciosos; descança n'um
salão que mais lhe apraz, pela delicia dos adornos e pela paizagem que se
avista, e a seu lado offerece um logar ao companheiro. As tartarugas, os
peixes, as lagostas, os dragões, a turba em fim dos escravos jubilosos, corre
a prostrar-se em frente da princeza; e de joelhos, barbatanas erguidas em
offertorio, começa servindo em taças preciosas o branco arroz cosido, os
licôres, os fructos, os manjares.
Urashima extasia-se diante do que é seu, bem seu, pois que é de sua esposa.
Durante tres annos assim vivem, sempre juntos, sempre felizes, sem
enfados, sem nuvens de tristeza no céo dos seus amores; ora na paz da
esteira, no enlevo das mãos que se entrelaçam, dos olhos humidos que se
fitam, das palavras em segredo que se trocam, das almas enamoradas que se
dão; ora perscrutando os mysterios do oceano, em excursões pachorrentas
pelas florestas das algas viajantes, por onde a vida aquatica, de plantas, de
animaes, se multiplica em maravilhas que a ninguem é dado conhecer; ora
em longos passeios pelos jardins, onde as arvores não cessam de vestir-se
de ramos de esmeraldas, vergando ao pendor das perolas e rubis.
Tres annos decorridos. Um dia porém Urashima acerca-se da esposa e diz-
lhe pouco mais ou menos o seguinte:―que a adora e se sente ditoso, mas
cresce-lhe o desejo de ir vêr a sua aldeia, o velho pae, a doce mãe, os
irmãos, os antigos companheiros de trabalho; e promette voltar após curta
jardim têem por folhas, esmeraldas, e fructificam em perolas e rubis; as
escamas dos peixes são de prata, os olhos de diamantes, as caudas dos
dragões, de oiro lavrado...
Então, toda a bicharia do oceano acode á praia, vestindo kimonos de
cerimonia, e vem saudar os noivos viajantes. Após os cumprimentos e os
discursos laudatorios que prescreve a etiqueta em casos taes, a princeza,
seguida do cortejo, entra em palacio; gorazes e toninhas seguram-lhe a
cauda do vestido; poisa nas fofas esteiras, de uma meticulosa limpeza
indescriptivel, as plantas alvas dos seus pésinhos deliciosos; descança n'um
salão que mais lhe apraz, pela delicia dos adornos e pela paizagem que se
avista, e a seu lado offerece um logar ao companheiro. As tartarugas, os
peixes, as lagostas, os dragões, a turba em fim dos escravos jubilosos, corre
a prostrar-se em frente da princeza; e de joelhos, barbatanas erguidas em
offertorio, começa servindo em taças preciosas o branco arroz cosido, os
licôres, os fructos, os manjares.
Urashima extasia-se diante do que é seu, bem seu, pois que é de sua esposa.
Durante tres annos assim vivem, sempre juntos, sempre felizes, sem
enfados, sem nuvens de tristeza no céo dos seus amores; ora na paz da
esteira, no enlevo das mãos que se entrelaçam, dos olhos humidos que se
fitam, das palavras em segredo que se trocam, das almas enamoradas que se
dão; ora perscrutando os mysterios do oceano, em excursões pachorrentas
pelas florestas das algas viajantes, por onde a vida aquatica, de plantas, de
animaes, se multiplica em maravilhas que a ninguem é dado conhecer; ora
em longos passeios pelos jardins, onde as arvores não cessam de vestir-se
de ramos de esmeraldas, vergando ao pendor das perolas e rubis.
Tres annos decorridos. Um dia porém Urashima acerca-se da esposa e diz-
lhe pouco mais ou menos o seguinte:―que a adora e se sente ditoso, mas
cresce-lhe o desejo de ir vêr a sua aldeia, o velho pae, a doce mãe, os
irmãos, os antigos companheiros de trabalho; e promette voltar após curta
Page 141
visita.―Então, pela primeira vez sem duvida, uma ligeira nuvem de
tristeza, um vago presentimento angustioso, turvaram o olhar sereno da
princeza.―«Vae, diz-lhe; vae, Urashima, porque assim o desejas, embora
bem me pese, pois imagino que vaes expôr-te a grandes riscos; leva
comtigo este pequeno cofre, que alguma coisa contém que te pertence;
sirva-te elle de lembrança de quem muito te quer; mas nunca o abrirás, pois
se o fizesses, estarias perdido, e nunca mais voltarias a esta mansão do
nosso amor...»
E partiu, e abordou o solo patrio...
O que quer que era de bem estranho se passára durante a ausencia de
Urashima. Aonde estava a sua aldeia? aonde se erguia a cabana de seus
paes? A mesma praia
loira, os mesmos penedos
carcomidos, os mesmos
cerros sobrepondo-se, alli
lhe appareciam, bem taes
como os deixára, na fria
impassibilidade das
coisas immutaveis; mas
os povoados offereciam outro aspecto,
os campos outro amanho; mas as
arvores, que lhe haviam dado abrigo e
sombra, e de que tão bem se recordava,
erguiam apenas troncos seccos, algumas, porque outras já nem mesmo
existiam, e outras arvores medravam n'outros sitios, projectando outras
sombras, fructificando em outros fructos. Aonde fôra a sua aldeia, surgia
agora um pinheiral. Reconheceu o mesmo arroio, que serpeava junto ao lar;
e ainda agora a agua crystalina ia correndo, e sussurrante, como dantes; mas
agora deserto, faltando o grupo galhofeiro das musumés que tinham por
costume ir alli lavar a roupa, entre ellas as suas tres irmans, kimonos
arregaçados, pernas núas, braços nús, lidando, palestrando e rindo umas
tristeza, um vago presentimento angustioso, turvaram o olhar sereno da
princeza.―«Vae, diz-lhe; vae, Urashima, porque assim o desejas, embora
bem me pese, pois imagino que vaes expôr-te a grandes riscos; leva
comtigo este pequeno cofre, que alguma coisa contém que te pertence;
sirva-te elle de lembrança de quem muito te quer; mas nunca o abrirás, pois
se o fizesses, estarias perdido, e nunca mais voltarias a esta mansão do
nosso amor...»
E partiu, e abordou o solo patrio...
O que quer que era de bem estranho se passára durante a ausencia de
Urashima. Aonde estava a sua aldeia? aonde se erguia a cabana de seus
paes? A mesma praia
loira, os mesmos penedos
carcomidos, os mesmos
cerros sobrepondo-se, alli
lhe appareciam, bem taes
como os deixára, na fria
impassibilidade das
coisas immutaveis; mas
os povoados offereciam outro aspecto,
os campos outro amanho; mas as
arvores, que lhe haviam dado abrigo e
sombra, e de que tão bem se recordava,
erguiam apenas troncos seccos, algumas, porque outras já nem mesmo
existiam, e outras arvores medravam n'outros sitios, projectando outras
sombras, fructificando em outros fructos. Aonde fôra a sua aldeia, surgia
agora um pinheiral. Reconheceu o mesmo arroio, que serpeava junto ao lar;
e ainda agora a agua crystalina ia correndo, e sussurrante, como dantes; mas
agora deserto, faltando o grupo galhofeiro das musumés que tinham por
costume ir alli lavar a roupa, entre ellas as suas tres irmans, kimonos
arregaçados, pernas núas, braços nús, lidando, palestrando e rindo umas
Page 142
com as outras.
Ao longo do areal iam então seguindo dois sujeitos. Urashima alcança-os e
interpella-os:―«Bons dias; fazem favor de me dizer onde é agora a casa da
familia de Urashima?»―Pensaram, consultaram-se, coçaram a cabeça,
buscando recordar-se.―«Urashima, Urashima... Urashima, o pescador? tem
graça tal pergunta: ha já quatrocentos annos pelo menos, como contam, se
afogou elle quando pescava no seu barco, pois nunca mais appareceu; o seu
pae, a sua mãe, os seus irmãos, os filhos dos seus irmãos, dormem todos
além no cemiterio, ha muito tempo; a cabana que procura, apodreceu antes
de nossos avós serem nascidos, nem o pó d'ella sequer existe por aqui...»
Então, como um relampago que acode subitamente pela noite, a illuminar a
estrada, uma idéa acudiu de subito ao pensamento de Urashima, a allumiar-
lhe o espirito. Elle alli estava, volvido á patria, poisando os pés descalços
no areal da sua querida aldeia, relanceando as curvas da paizagem em que
por tantos annos a vista se poisara, e a recordação lhe gravára para sempre
na memoria. O palacio do deus do mar, no abysmo das ondas, com as suas
paredes de renda de coral, com os seus pomares de folhas de esmeraldas e
fructos de perolas e rubis, e os seus peixes de escamas prateadas e olhos de
brilhantes, e os seus dragões de caudas de oiro fino, não pertencia á terra,
era do mundo dos prodigios, regia-se pelas leis do encantamento; um dia,
dos seus dias, valia por muitos annos, dos nossos annos; e assim, sem que
Urashima o suppozesse, seculos sobre seculos haviam passado sobre a terra,
matando, destruindo, transformando, arrastando as coisas e os individuos á
fatalidade dos destinos, ao aniquilamento, ao pó, ao nada, surgindo das
ruinas outros aspectos e outros seres...
O antigo pescador sentiu o calafrio da sua soledade; e o disparate
anachronico da situação em que se via, incutiu-lhe no animo não sei que
horrivel oppressão de angustia e de pavor. Patria? sim, a mesma areia inerte
e os mesmos monstros de granito; mais nada. Aldeia, amigos, aspectos
familiares da sua mocidade, nada havia; outras aldeias, outros aspectos,
Ao longo do areal iam então seguindo dois sujeitos. Urashima alcança-os e
interpella-os:―«Bons dias; fazem favor de me dizer onde é agora a casa da
familia de Urashima?»―Pensaram, consultaram-se, coçaram a cabeça,
buscando recordar-se.―«Urashima, Urashima... Urashima, o pescador? tem
graça tal pergunta: ha já quatrocentos annos pelo menos, como contam, se
afogou elle quando pescava no seu barco, pois nunca mais appareceu; o seu
pae, a sua mãe, os seus irmãos, os filhos dos seus irmãos, dormem todos
além no cemiterio, ha muito tempo; a cabana que procura, apodreceu antes
de nossos avós serem nascidos, nem o pó d'ella sequer existe por aqui...»
Então, como um relampago que acode subitamente pela noite, a illuminar a
estrada, uma idéa acudiu de subito ao pensamento de Urashima, a allumiar-
lhe o espirito. Elle alli estava, volvido á patria, poisando os pés descalços
no areal da sua querida aldeia, relanceando as curvas da paizagem em que
por tantos annos a vista se poisara, e a recordação lhe gravára para sempre
na memoria. O palacio do deus do mar, no abysmo das ondas, com as suas
paredes de renda de coral, com os seus pomares de folhas de esmeraldas e
fructos de perolas e rubis, e os seus peixes de escamas prateadas e olhos de
brilhantes, e os seus dragões de caudas de oiro fino, não pertencia á terra,
era do mundo dos prodigios, regia-se pelas leis do encantamento; um dia,
dos seus dias, valia por muitos annos, dos nossos annos; e assim, sem que
Urashima o suppozesse, seculos sobre seculos haviam passado sobre a terra,
matando, destruindo, transformando, arrastando as coisas e os individuos á
fatalidade dos destinos, ao aniquilamento, ao pó, ao nada, surgindo das
ruinas outros aspectos e outros seres...
O antigo pescador sentiu o calafrio da sua soledade; e o disparate
anachronico da situação em que se via, incutiu-lhe no animo não sei que
horrivel oppressão de angustia e de pavor. Patria? sim, a mesma areia inerte
e os mesmos monstros de granito; mais nada. Aldeia, amigos, aspectos
familiares da sua mocidade, nada havia; outras aldeias, outros aspectos,
Page 143
outra gente, e para esta o nome de Urashima entrava já na lenda. Em nada o
captivava aquella terra. O anceio de fugir, de volver ao esplendor do seu
palacio, acudiu-lhe então, dominador; e a imagem das mil graças da
princeza multiplicava-lhe o desejo de abandonar para sempre o solo onde
nascera. Lançou um olhar de adeus ao cemiterio, esse no mesmo poiso
ainda, mas mais vasto e mais povoado de freguezes; e ia partir, deixar em
paz a aldeia morta...
Antes porém lembrou-se de abrir o cofre que recebera da princeza. Porque?
Talvez leviandade, talvez mofino séstro, que tantas vezes guia o homem a
seguir pelo caminho prohibido... Do cofre aberto, que continha nada menos
do que a essencia dos longos annos corridos, e ao mesmo tempo
descontados na existencia de Urashima, escapou-se e pairou no espaço uma
ligeira nuvem esbranquiçada. Chamado á razão, ao sentimento da
desobediencia em que incorrera, e ao medo de um desastre, Urashima
correu sobre essa nuvem, desvairado, e bradou-lhe que parasse. Era tarde.
De prompto, as proprias forças lhe faltaram, e a voz se lhe extinguiu; a
nuvem envolvia-o; a nuvem transportava-o ao seu justo logar nas paginas
do tempo, fazia-o galgar de um pulo a grande barreira que o afastava dos
seus contemporaneos; as leis da terra tinham pressa em corrigir erro
tamanho... Repentinamente, os cabellos, a barba, branquejaram como linho,
sulcou-se o rosto em rugas, estalou a pelle do corpo, os ossos romperam
para fóra, as costas dobraram-se n'um arco, viu-se como um macrobio não
sei quantas vezes secular, como um esqueleto em férias, fugido do sepulcro,
faltou-lhe o ar, faltou-lhe a luz, morreu, caiu, desfez-se em pó, desfez-se em
nada...
1900.
INDICE
captivava aquella terra. O anceio de fugir, de volver ao esplendor do seu
palacio, acudiu-lhe então, dominador; e a imagem das mil graças da
princeza multiplicava-lhe o desejo de abandonar para sempre o solo onde
nascera. Lançou um olhar de adeus ao cemiterio, esse no mesmo poiso
ainda, mas mais vasto e mais povoado de freguezes; e ia partir, deixar em
paz a aldeia morta...
Antes porém lembrou-se de abrir o cofre que recebera da princeza. Porque?
Talvez leviandade, talvez mofino séstro, que tantas vezes guia o homem a
seguir pelo caminho prohibido... Do cofre aberto, que continha nada menos
do que a essencia dos longos annos corridos, e ao mesmo tempo
descontados na existencia de Urashima, escapou-se e pairou no espaço uma
ligeira nuvem esbranquiçada. Chamado á razão, ao sentimento da
desobediencia em que incorrera, e ao medo de um desastre, Urashima
correu sobre essa nuvem, desvairado, e bradou-lhe que parasse. Era tarde.
De prompto, as proprias forças lhe faltaram, e a voz se lhe extinguiu; a
nuvem envolvia-o; a nuvem transportava-o ao seu justo logar nas paginas
do tempo, fazia-o galgar de um pulo a grande barreira que o afastava dos
seus contemporaneos; as leis da terra tinham pressa em corrigir erro
tamanho... Repentinamente, os cabellos, a barba, branquejaram como linho,
sulcou-se o rosto em rugas, estalou a pelle do corpo, os ossos romperam
para fóra, as costas dobraram-se n'um arco, viu-se como um macrobio não
sei quantas vezes secular, como um esqueleto em férias, fugido do sepulcro,
faltou-lhe o ar, faltou-lhe a luz, morreu, caiu, desfez-se em pó, desfez-se em
nada...
1900.
INDICE
Page 144
Pag.
As Borboletas 1
A Alforreca 9
O Anno novo 20
A Primavera 30
Nilguyo 50
O Cavallo Branco de Nanko 62
A primeira formiga 78
Os Diabos e os velhos 90
Pan-Man-Chen 98
A Caricatura no Japão 107
Dois Cemiterios Japonezes 134
O Espelho de Matsuyama 153
Amôres 164
Um pintor de gatos 171
Impressões rapidas 181
Issumboshi 213
O Pescador Urashima 229
Livraria Editora VIUVA TAVARES CARDOSO
5, Largo de Camões, 6―Lisboa
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O Anno novo 20
A Primavera 30
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A primeira formiga 78
Os Diabos e os velhos 90
Pan-Man-Chen 98
A Caricatura no Japão 107
Dois Cemiterios Japonezes 134
O Espelho de Matsuyama 153
Amôres 164
Um pintor de gatos 171
Impressões rapidas 181
Issumboshi 213
O Pescador Urashima 229
Livraria Editora VIUVA TAVARES CARDOSO
5, Largo de Camões, 6―Lisboa
Ultimas publicações:
Page 145
O TIO JOÃO GIL Chronica d'aldeia por Barros Lobo (Francisco) 1 volume,
800 réis
O CONDE DE S. PAULO Romance original, por Mauricia C. de
Figueiredo, 1 vol., 800 rs.
NA RUSSIA Aspectos da guerra e da revolução. Narrativa historica e
anecdotica por Eduardo de Noronha, 1 vol. com 107 gravuras, 800 rs.
OS BRAVOS DO MINDELLO romance historico, por Faustino da
Fonseca. 1 vol., 600 rs.
O ANNO PARLAMENTAR―1905―A sessão―A questão dos tabacos,
por João Costa, 1 volume, 800 rs.
A RUA DO OIRO romance lisboeta, por Alfredo Mesquita, 1 volume, 600
rs.
POSTA-RESTANTE Cartas a toda a gente, por João Chagas, 1 volume,
600 rs.
NO BRASIL uma epopéa maritima, romance historico da actualidade.
illustrado com cincoenta photogravuras, por Eduardo de Noronha. 1 vol,
800 rs.
VAMIRÉ romance dos tempos primitivos, traduzido de J. H. Rosny por
Candido de Figueiredo, 1 vol, 300 rs.
A ANNA DE CASTRO OSORIO
ÁS MULHERES PORTUGUESAS 1 volume, 600 rs.
ANECDOTAS DE REIS, PRINCIPES e outras personagens extrangeiras.
800 réis
O CONDE DE S. PAULO Romance original, por Mauricia C. de
Figueiredo, 1 vol., 800 rs.
NA RUSSIA Aspectos da guerra e da revolução. Narrativa historica e
anecdotica por Eduardo de Noronha, 1 vol. com 107 gravuras, 800 rs.
OS BRAVOS DO MINDELLO romance historico, por Faustino da
Fonseca. 1 vol., 600 rs.
O ANNO PARLAMENTAR―1905―A sessão―A questão dos tabacos,
por João Costa, 1 volume, 800 rs.
A RUA DO OIRO romance lisboeta, por Alfredo Mesquita, 1 volume, 600
rs.
POSTA-RESTANTE Cartas a toda a gente, por João Chagas, 1 volume,
600 rs.
NO BRASIL uma epopéa maritima, romance historico da actualidade.
illustrado com cincoenta photogravuras, por Eduardo de Noronha. 1 vol,
800 rs.
VAMIRÉ romance dos tempos primitivos, traduzido de J. H. Rosny por
Candido de Figueiredo, 1 vol, 300 rs.
A ANNA DE CASTRO OSORIO
ÁS MULHERES PORTUGUESAS 1 volume, 600 rs.
ANECDOTAS DE REIS, PRINCIPES e outras personagens extrangeiras.
Page 146
Extraidas compiladas e prefaciadas por Faustino da Fonseca, 1 volume,
500 rs.
JOAQUIM DE ARAUJO
O "FREI LUIZ DE SOUZA" de Garrett. Notas, com um prefacio de T.
Braga, 1 vol. illustrado, 400 rs.
TERRA VIRGEM Romance original por Cesar Porto, 1 volume 800 rs.
ALBERTO CAMPOS
O LIVRO DE UM JORNALISTA Sciencia, politica, moral, religião,
coordenação e notas de Zuzarte de Mendonça. 1 volume, 500 rs.
AS ALEGRES CANÇÕES DO NORTE por Alberto Pimentel, 1 v., 600 rs.
Notas:
[1]
Official da marinha morto em 25 de outubro de 1902. Vivia, quando o
auctor lhe consagrava este capitulo.
[2]
Os desenhos que illustram este conto são originaes do proprio W. de
Moraes.
500 rs.
JOAQUIM DE ARAUJO
O "FREI LUIZ DE SOUZA" de Garrett. Notas, com um prefacio de T.
Braga, 1 vol. illustrado, 400 rs.
TERRA VIRGEM Romance original por Cesar Porto, 1 volume 800 rs.
ALBERTO CAMPOS
O LIVRO DE UM JORNALISTA Sciencia, politica, moral, religião,
coordenação e notas de Zuzarte de Mendonça. 1 volume, 500 rs.
AS ALEGRES CANÇÕES DO NORTE por Alberto Pimentel, 1 v., 600 rs.
Notas:
[1]
Official da marinha morto em 25 de outubro de 1902. Vivia, quando o
auctor lhe consagrava este capitulo.
[2]
Os desenhos que illustram este conto são originaes do proprio W. de
Moraes.
Page 147
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
Original Correcção
#pág. 25 n'estas ... n'estes
#pág. 49 whisyk ... whisky
#pág. 68 difflceis ... difficeis
#pág. 69 focinho snostalgicos ... focinhos nostalgicos
#pág. 76 offereco ... offereço
#pág. 79 tempelos ... tem pelos
#pág. 81 entrasae ... entrasse
#pág. 92 diabolidamente ... diabolicamente
#pág. 111 niconsciencia ... inconsciencia
#pág. 130 vermelha s ... vermelhas
#pág. 150 sumarais ... samurais
#pág. 174 At que ... Até que
#pág. 208 fabulossa ... fabulosas
#pág. 209 ?ontes ... fontes
#pág. 219 encahlava ... encalhava
#pág. 223 queaquelle ... que aquelle
#pág. 227 a palacio ... ao palacio
#pág. 235 rante ... durante
As figuras podem não estar no sítio original.
Algumas foram movidas para que os parágrafos não fossem cortados.
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
Original Correcção
#pág. 25 n'estas ... n'estes
#pág. 49 whisyk ... whisky
#pág. 68 difflceis ... difficeis
#pág. 69 focinho snostalgicos ... focinhos nostalgicos
#pág. 76 offereco ... offereço
#pág. 79 tempelos ... tem pelos
#pág. 81 entrasae ... entrasse
#pág. 92 diabolidamente ... diabolicamente
#pág. 111 niconsciencia ... inconsciencia
#pág. 130 vermelha s ... vermelhas
#pág. 150 sumarais ... samurais
#pág. 174 At que ... Até que
#pág. 208 fabulossa ... fabulosas
#pág. 209 ?ontes ... fontes
#pág. 219 encahlava ... encalhava
#pág. 223 queaquelle ... que aquelle
#pág. 227 a palacio ... ao palacio
#pág. 235 rante ... durante
As figuras podem não estar no sítio original.
Algumas foram movidas para que os parágrafos não fossem cortados.
Page 148
*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK PAISAGENS DA
CHINA E DO JAPÃO ***
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what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in a
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and most other parts of the world at no cost and with almost no
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royalties under this paragraph to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation. Royalty payments must be paid within 60 days
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Foundation at the address specified in Section 4, “Information about
donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation.”
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possessed in a physical medium and discontinue all use of and all
access to other copies of Project Gutenberg™ works.
• You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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of Project Gutenberg™ works.
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electronic work or group of works on different terms than are set forth in
this agreement, you must obtain permission in writing from the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of the Project
copying or distributing any Project Gutenberg works unless you comply
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prepare) your periodic tax returns. Royalty payments should be clearly
marked as such and sent to the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation at the address specified in Section 4, “Information about
donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation.”
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Gutenberg™ trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3
below.
1.F.
1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread works
not protected by U.S. copyright law in creating the Project Gutenberg™
collection. Despite these efforts, Project Gutenberg™ electronic works, and
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errors, a copyright or other intellectual property infringement, a defective or
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damage or cannot be read by your equipment.
1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except
for the “Right of Replacement or Refund” described in paragraph 1.F.3, the
Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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Gutenberg™ electronic work under this agreement, disclaim all liability to
you for damages, costs and expenses, including legal fees. YOU AGREE
THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT
EXCEPT THOSE PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE
THAT THE FOUNDATION, THE TRADEMARK OWNER, AND ANY
DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE LIABLE
TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL,
PUNITIVE OR INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE
NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH DAMAGE.
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discover a defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you
can receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
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defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a refund.
If you received the work electronically, the person or entity providing it to
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effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread works
not protected by U.S. copyright law in creating the Project Gutenberg™
collection. Despite these efforts, Project Gutenberg™ electronic works, and
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you may choose to give you a second opportunity to receive the work
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1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
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arise directly or indirectly from any of the following which you do or cause
to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg work, (b)
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work, and (c) any Defect you cause.
Section 2. Information about the Mission of Project
Gutenberg
Project Gutenberg is synonymous with the free distribution of electronic
works in formats readable by the widest variety of computers including
obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists because of the
electronically in lieu of a refund. If the second copy is also defective, you
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Section 2. Information about the Mission of Project
Gutenberg
Project Gutenberg is synonymous with the free distribution of electronic
works in formats readable by the widest variety of computers including
obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists because of the
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efforts of hundreds of volunteers and donations from people in all walks of
life.
Volunteers and financial support to provide volunteers with the assistance
they need are critical to reaching Project Gutenberg’s goals and ensuring
that the Project Gutenberg collection will remain freely available for
generations to come. In 2001, the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation was created to provide a secure and permanent future for
Project Gutenberg and future generations. To learn more about the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation and how your efforts and donations
can help, see Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
www.gutenberg.org.
Section 3. Information about the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation
The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit 501(c)
(3) educational corporation organized under the laws of the state of
Mississippi and granted tax exempt status by the Internal Revenue Service.
The Foundation’s EIN or federal tax identification number is 64-6221541.
Contributions to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation are tax
deductible to the full extent permitted by U.S. federal laws and your state’s
laws.
The Foundation’s business office is located at 41 Watchung Plaza #516,
Montclair NJ 07042, USA, +1 (862) 621-9288. Email contact links and up
to date contact information can be found at the Foundation’s website and
official page at www.gutenberg.org/contact
Section 4. Information about Donations to the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation
Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread
public support and donations to carry out its mission of increasing the
number of public domain and licensed works that can be freely distributed
in machine-readable form accessible by the widest array of equipment
life.
Volunteers and financial support to provide volunteers with the assistance
they need are critical to reaching Project Gutenberg’s goals and ensuring
that the Project Gutenberg collection will remain freely available for
generations to come. In 2001, the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation was created to provide a secure and permanent future for
Project Gutenberg and future generations. To learn more about the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation and how your efforts and donations
can help, see Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
www.gutenberg.org.
Section 3. Information about the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation
The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit 501(c)
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Mississippi and granted tax exempt status by the Internal Revenue Service.
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Contributions to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation are tax
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laws.
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Gutenberg Literary Archive Foundation
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public support and donations to carry out its mission of increasing the
number of public domain and licensed works that can be freely distributed
in machine-readable form accessible by the widest array of equipment
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including outdated equipment. Many small donations ($1 to $5,000) are
particularly important to maintaining tax exempt status with the IRS.
The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United States.
Compliance requirements are not uniform and it takes a considerable effort,
much paperwork and many fees to meet and keep up with these
requirements. We do not solicit donations in locations where we have not
received written confirmation of compliance. To SEND DONATIONS or
determine the status of compliance for any particular state visit
www.gutenberg.org/donate.
While we cannot and do not solicit contributions from states where we have
not met the solicitation requirements, we know of no prohibition against
accepting unsolicited donations from donors in such states who approach us
with offers to donate.
International donations are gratefully accepted, but we cannot make any
statements concerning tax treatment of donations received from outside the
United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
Please check the Project Gutenberg web pages for current donation methods
and addresses. Donations are accepted in a number of other ways including
checks, online payments and credit card donations. To donate, please visit:
www.gutenberg.org/donate.
Section 5. General Information About Project Gutenberg
electronic works
Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg
concept of a library of electronic works that could be freely shared with
anyone. For forty years, he produced and distributed Project Gutenberg
eBooks with only a loose network of volunteer support.
Project Gutenberg eBooks are often created from several printed editions,
all of which are confirmed as not protected by copyright in the U.S. unless a
particularly important to maintaining tax exempt status with the IRS.
The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United States.
Compliance requirements are not uniform and it takes a considerable effort,
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requirements. We do not solicit donations in locations where we have not
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not met the solicitation requirements, we know of no prohibition against
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United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
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